Helder Fernando de Pinto Correia Ponte, também conhecido por Chinguila nos seus anos de juventude em Luanda, Angola. Nasceu em Maquela do Zombo, Uíge, Angola, em 1950. Viveu a sua meninice na Roça Novo Fratel (Serra do Cusso) e na Vila da Damba (Uíge), e a sua juventude em Luanda e Cabinda. Frequentou os liceus Paulo Dias de Novais e Salvador Correia, e o Curso Superior de Economia da antiga Universidade de Luanda. Cumpriu serviço militar como oficial miliciano do Serviço de Intendência (logística) no Exército Português em Luanda e Cabinda. Deixou Angola em Novembro de 1975 e emigrou para o Canadá em 1979, onde vive com a sua esposa Estela (Princesa do Huambo) e filho Marco Alexandre. Foi gestor de um grupo de empresas de propriedade dos Índios Kootenay, na Colômbia Britânica, no sopé oeste das Montanhas Rochosas Canadianas.Gosta da leitura e do estudo, e adora escrever sobre a História de Angola, de África e do Atlântico Sul, com ênfase na Escravatura, sobre os quais tem uma biblioteca pessoal extensa.
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Tanto quanto possível, eu coloco imagens que se relacionam com os tópicos em curso. Para ver qualquer imagem em tamanho maior, clica duas vezes a imagem.
O texto em vermelho indica que estou ainda a trabalhar nesse tópico.
Esta
é uma tarefa contínua sem fim imediato em vista, pois continuo a melhorar este blogue
continuamente. Assim, volta em breve, pois vais encontrar algo de novo!
Obrigado pela tua companhia, e também pelos teus comentários.
Kandandu, Bixila! (Um Abraço, Boa Viagem!)
Este blogue está ainda em desenvolvimento em certos tópicos. Eu ainda estou a trabalhar neles.
Nota Prévia
Este blogue é um pouco diferente de todos os meus outros blogues nesta fascinante Viagem Pela História de Angola. Em vez de se debruçar sobre factos e factores específicos das minhas memórias ou da História de Angola, ele cobre os grandes temas da história da humanidade desde os tempos mais remotos até à actualidade (a chamada macro-história), e como a História de Angola se enquadra neles.
Assim, apesar de o tema África ainda ser predominante, nós vamos cobrir aqui a "Grande História", os grandes movimentos de povos (migrações), o encontro e interacção de culturas materiais entre o Velho e Novo Mundo, o desenvolvimento do comércio global à escala planetária e os sistemas económicos que daí resultaram, a grande troca de plantas, animais, alimentos, doenças e curas através do mundo, e o movimento milenar do conhecimento e das ideias ao longo da escala histórica, desde os tempos mais antigos até aos dias de hoje.
Uma vez completada esta excursão sobre estes temas macro, passamos a focar a nossa atenção a um campo de conhecimento muito mais específico - a etno-história do povo Bakongo, em especial da Damba, no norte de Angola, vila que me viu crescer até 1961.
3. Uma História Breve sobre Quase Tudo o que Existe
Este é o título do livro popular de Bill Bryson e adapta-se bem ao que vamos cobrir no primeiro capítulo deste blogue.
A amplitude da história que nós aprendemos no liceu, apesar de ser designada como disciplina de "História Universal", ela era na verdade muito circunscrita e limitada. Ela era uma história euro-cêntrica e limitava-se a estudar e interpretar o que aconteceu depois da adopção da escita por alguns povos e focava na cultura cristã ocidental. Aprendíamos muito pouco sobre a pré-história, e ainda menos sobre as outras civilizações, principalmente as da Ásia Antiga e das Américas antes de Colombo. De facto, essa "História Universal" antiga ia ao ponto de negar a história de muitos povos habitando grandes regiões do mundo, como foi o caso dos povos africanos a sul do Sahara.
Quem quizesse debruçar-se sobre o estudo destas áreas de estudo da história tinha de "sair" do currículo tradicional e explorar uma história universal que ainda não estava organizada numa disciplina geral de estudo.
A perspectiva da "Grande História" (Big History), que passamos a descrever neste capítulo, é um enfoque em História que amplia o estudo do passado desde o inicio do universo até ao final do mesmo (o tempo profundo). Este enfoque histórico foi desenvolvida há pouco mais de duas décadas
pelo estudioso australiano Prof. David Christian, do Departamento de
História da Universidade de Macquire, em Sidney, na Austrália.
A Grande História não é uma teoria da história; ela é simplesmente uma inovação em descrever a história de tudo ao longo do tempo profundo. David Christian lembra-nos que numa perspectiva universal e eterna tudo é
efémero - tudo o que nasce, há-de se transformar e eventualmente
morrer, e dar lugar a novas formas mais complexas. Ele tece ainda alguns
prognósticos possíveis sobre o que o futuro nos pode guardar.
A "Grande História" pode ser entendida como uma História verdadeiramente universal ampliada a tudo no universo, que inclui não só sociedades humans desde a adopção da escrita, mas tudo o que existe (não só humanos) e o que existiu desde a criação do universo até ao futuro. Assim, ela amplia o escopo da história de cerca de 5.000 anos para cerca de 13,8 bilhões de anos. Ela é baseada em pressupostos multi-disciplinares de muitas ciências, pois precisa da ajuda da química, da física, da cosmografia, da microbiologia, da geologia, da biologia, da zoologia, da botânica, da paleontologia, da pré-história, da arqueologia, e da história convencional numa história verdadeiramente universal que inclui tudo e todos os povos.
David Christian classifica a história completa do universo em oito grandes patamares (fases) de complexidade crescente, que descrevo abaixo em maior detalhe. A sequência e transição destes patamares são o resultado daquilo a que David Christian chama "Goldilocks conditions",
ou em português, condições aleatórias ideais para mudança - uma
condição necessária e suficiente - por exemplo, nem tão quente, nem tão frio, mesmo
perfeito, um patamar perfeito para a criação de novas formas mais
complexas.
Os oito grandes patamares da Grande História: (Big History)
1 - O nascimento do universo - A Grande Explosão (Big Bang)
2- A formação das estrelas (de entre as quais o Sol), e galáxias
3 - A formação dos elementos químicos fundamentais (da Tabela Periódica)
4 - A transformação e morte das estrelas e a formação de cometas e planetas, entre os quais a Terra
5 - A emergência de vida na Terra - incluindo as diversas formas de vida
6 - O aparecimento de hominídeos e da espécie humana (pré-história)
7 - O desenvolvimento de agricultura e domesticação de animais e plantas, e de bandos, tribos, chefados, estados, impérios, e civilizações, e,
8 - A civilização industrial
Nós sabemos hoje que o homem, como espécie animal (Sapiens sapiens), nasceu em África. Contudo, a humanidade é resultado de um processo de evolução que começou há cerca de 13,8 bilhões de anos atrás quando o Big Bang (a Grande Explosão) teve lugar e de um ínfimo atómo, tudo passou a existir - o Universo - constituído por espaço, tempo, matéria, e energia.
Desde os tempos mais recuados da humanidade, o homem recorreu à
astronomia como tentativa de explicar como o universo funcionava. Desde
os primórdios de todas as culturas os corpos celestes eram vistos com
divagação e até mêdo. O nascer e o pôr-do-sol, as fases da lua, os eclipses, e o
zénite e o nadir das estrelas, tudo parecia sob o controle dos deuses. Com
o tempo, algumas civilazações começaram a ligar eventos siderais, como aparição de cometas e a duração dos dias, com
acontecimentos na Terra, notando que muitas vezes eles coincidiam com
marés, estações do ano, cheias férteis do rios, colheitas abundantes ou
raras, e outros aspectos importantes do dia-a-dia.
Milhares de gerações
mais tarde, os mais sábios começaram a mapear a posição e órbita dos
corpos celestes, a construir edifícios gigantes de finalidade astronómica, e a dar-lhes nome, significado, e poder, nascendo assim os
primeiros estudos do universo, e ao mesmo tempo, a possibilidade de
criar calendários e contar o tempo. Ao mesmo tempo, começou a acreditar-se que os astros influenciavam a vida quotidiana dos homens na Terra, o que levou ao desenvolvimento de estudos e crenças esmerados com base na astrologia.
O desenvolvimento do universo é um processo quase perpétuo que ainda hoje está em evolução (o universo ainda está em expansão), se bem que se estime que num futuro muito distante, há medida que a energia se comece a esgotar, tudo morra e desintegre; os planetas e as estrelas hão-de morrer, bem com as galáxias, e finalmente o próprio universo, como o conhecemos, há de implodir.
Nós não sabemos ainda o que existia antes da Grande Explosão (Big Bang), se bem que podemos inferir que espaço e tempo não existiam. Mas sabe-se que a energia libertada na explosão em cadeia dos átomos resultantes do Big Bang deram origem a matéria, e esta a sistemas de estrelas com os seus planetas, formando assim galáxias e todos juntos o próprio universo. Assim estrelas são rodeadas de planetas, cometas, e asteroides. Por sua vez, os planetas são rodeados por planetas-anões, luas, e asteroides.
Muitas das galáxias, algumas compostas por mais de 400 bilhões de estrelas no total, que existem hoje começaram a formar-se entre 13 e 10 bilhões de anos atrás. A nossa galáxia, a Via Láctea, constituída por entre 200 a 400 bilhões de estrelas, é a galáxia em que o Sol e o planeta Terra se encontram. Ela começou a formar-se há cerca de 10 bilhões de anos. O Sol formou-se há cerca de 4,567 bilhões de anos, dando origem quase imediata aos planetas que o orbitam há pouco mais de 4,54 bilhões de anos atrás.
Segundo a interpretação histórica da Grande História, tudo se desenvolve a partir de unidades simples para entidades mais complexas, que por sua vez se tornam cada vez mais complexas ao longo do processo de evolução. Este processo de evolução do Universo, baseado no principio da complexidade, derenrola-se ao longo de bilhões de anos. Esta primeira fase (Big Bang, estrelas, galáxias, planetas, e a Terra) é chamada a fase inanimada (sem vida).
Acredita-se que os planetas se formaram a partir da agregação de matérias gasosas e rochosas que tinham sido desprendidas das estrelas que morriam em forma de erupções de gases, mas que viajando grandes distâncias nas suas órbitas ligeiramente elípticas, arrefeceram e solidificaram dando origem a meteoros, e que atraídos pela acção da gravidade da Terra e de outros planetas acabaram por chocar e se consolidar com eles, aumentando assim o tamanho desses planetas.
No caso especial do nosso planeta Terra, acredita-se que ele é de facto o resultado de uma colisão que teve lugar há cerca de 4,5 bilhões de anos atrás, e da consequente consolidação de dois pequenos planetas Terra e Teia que eram aproximadamente do mesmo tamanho que Marte) num só planeta maior. Nesta colisão cósmica, uma pequena porção de matéria cósmica não foi absorvida pelo planeta, tendo sido libertada e passando a circular na sua órbita, o que se veio a tornar o núcleo da criação da Lua.
Assim se formaram os planetas do sistema solar, como o planeta Terra que orbita a cerca de 8 minutos-luz à volta do Sol. A Terra só tem uma lua. Mercúrio é o planeta mais próximo do Sol (a 3 minutos-luz), Vénus (6 minutos-luz) é o segundo mais próximo e muito parecido em tamanho com a Terra. Marte, a 12,5 minutos-luz do Sol é um planeta pequeno de cerca de um décimo do tamanho da Terra e coberto de gelo. Em termos de consistência material, os planetas Mercúrio, Vénus, Terra, e Marte são formados por rochas, ao passo que Júpiter, Saturno, Urano, e Neptuno são constituídos por matérias gasosas. Júpiter, o maior planeta de todos (320 vezes maior que a Terra, é constituído na sua maioria por hidrogéneo e hélio, e está a 43 minutos-luz do Sol). O planeta Júpiter é sujeito a grandes tempestades. Saturno é um paneta grande (cerca de nove vezes o tamanho da Terra e 95 vezes a sua massa) orbitando a cerca de 78 minutos-luz do Sol. Saturno é conhecido pelos muitos aneis (das quais 62 luas) que orbitam à sua volta. Urano está a 2,5 horas-luz do Sol e é o planeta mais frio do sistema solar. O planeta mais distante é Neptuno, que está a 4 horas-luz do Sol, também muito frio. Para termos uma ideia da distância de Neptuno ao Sol, a sua órbita à volta do Sol demora 165 anos terrestres a completar.
O planeta Plutão, descoberto só em 1930, situa-se a cerca de 5,5 horas-luz do Sol, é rodeado por oito panetas anões, um dos quais maior do que ele próprio. Plutão costumava ser considerado um planeta, mas essa classificação deixou de ser universalmente aceite, devido à relevância dos seus planetas anões, e Plutão foi assim "despromovido" da categoria de planeta.
Nota: - Para referência, um minuto-luz é a distância que um raio de luz solar
percorre num minuto de tempo terrestre. Por exemplo, um raio solar
demora oito minutos-luz a chegar à Terra. Assim, uma hora-luz é a
distância que um raio solar cobre durante uma hora a ir da superfície do sol até outro
corpo celeste, medida em termos de tempo na Terra (baseado no ano solar da Terra). Sabemos ainda que a
velociade da luz é de 300.00 km por segundo, portanto a Terra orbita a
uma distância aproximada de 144 milhões de quilómetros do Sol. Por sua
vez, a Lua orbita a cerca de 384.000 Km da Terra (1,28 segundos-luz). É ainda importante
mencionar que a órbita de cada planeta à volta do Sol não é perfeitamente circular; de facto, essas órbitas são ligeiramente elípticas, pelo
que a distância dos planetas ao Sol depende da altura do seu ano solar.
Desde a sua formação, o planeta Terra era extremamente quente, o que ajudou na formação do seu núcleo ferroso ao centro de cerca de 3.400 km de espessura, o que deu ao planeta o seu campo magnético. Há cerca de 4 bilhões de anos a temperatura da superfície da Terra
arrefeceu abaixo do ponto de ebulição, o que resultou em milhões de anos
de chuvas constantes, que acabaram por cobrir quase todo o planeta de água e formar os primeiros oceanos.
A segunda grande fase de evolução do universo, a chamada fase animada (com vida), foca mais no aconteceu no planeta Terra (e menos nos outros planetas), e desenrolou-se ao longo de um período muito longo, de cerca de 3,8 bilhões de anos atrás até cerca de 315,000 anos atrás, época em que se regista o aparecimento do Homo Sapiens sapiens.
Há cerca de 3,5 billhões de anos atrás apareceram nos oceanos as primeiras formas de vida, em forma de micróbios, que se multiplicaram com relativa rapidez. A constituição destes micróbios evoluiu para formas mais complexas, através da interacção de átomos de carbono, hidrogénio, oxigénio, nitrogéneo, e fósforo, dando origem a aminoácidos, que por sua vez deram origem a proteínas e nucleobases, que são aneis longos de blocos de construção (building blocks) de células e moléculas.
As nucleobases tornaram-se mais complexas e organizaram-se em forma de ADN (Ácido DexoxirriboNucleico) e ARN (Ácido RiboNucleico).
O DNA é a molécula biológica que contém as instruções genéticas para o desenvolvimento e funcionamento de todos os seres vivos. O ADN armazena informações essenciais para a síntese de proteínas, e é fundamental para a herança genética. O ADN replica-se a fim de dar instruções para o resto de uma célula. Este processo de cópiar nem sempre é perfeito; às vezes há erros na cópia do ADN (uma mutação), o que resulta numa ligeira alteração das instruções do ADN. Quando o ADN muda, ele dá instruções para a formação de um organismo um pouco (muito pouco) diferente na próxima geração, e é este processo de mutação do ADN que cria mudanças na biologia de organismos ao longo to tempo. Algumas mutações do ADN foram fatais, acabando por destruir a sobrevivência dos organismos ao fim de algumas gerações, mas às vezes algumas mutações criaram características que foram úteis para a sobrevivência de uma espécie no longo termo, e foi através do processo de replicação dessas mudanças úteis que o ciclo da vida prosseguiu e evoluiu.
Por outro lado, o ARN é um ácido nucleico de cadeia simples, necessário para a síntese de proteínas e para a regulação genética das células, actuando nas instruções do ADN. O ARN, composto por nucleotídeos (ribose, fosfato, e bases nitrogenadas) é essencial para a vida.
As proteínas são usadas para efectivar vários comandos numa célula viva: queimar energia necessária para suster o processo de complexidade, reproduzir, crescer, reagir ao ambiente à sua volta, e levar elementos de um lugar da célula para outro.
Assim, há cerca de 3,4 bilhões de anos apareceram os primeiros organismos que podiam fazer fotosíntese (os chamados prokariotes), e um bilhão de anos mais tarde teve lugar a grande oxigenação. O processo de fotosíntese libertou grandes quantidades de oxigénio, o que resultou num aumento muito grande de oxigénio à superfície e nos oceanos e acabou por ajudar na formação da atmosfera à volta da Terra.
As primeiras formas de vida (micróbios) nasceram no fundo dos oceanos e só mais tarde é que elas subiram à superfície dos oceanos para se alimentar de água, luz solar, e anidrido carbónico. Este ciclo durou cerca de 400 milhões de anos (cinco milhões de vezes da duração de vida média de uma pessoa!). Neste processo, e apesar do seu tamanho microscópico, eles formaram colónias muito grandes chamadas estromatolitos.
Há medida que a atmosfera se ia formando com a libertação de oxigénio resultante da fotosíntese, a acção de radiação dos raios solares transformou oxigénio em Ozónio através de um processo a que se deu o nome de fotólise. O anel de ozónio criado subiu para a camada superior da atmosfera e passou a cobrir o planeta defendendo-o da acção directa da radiação dos raios solares.
O planeta começou assim a arrefecer e ao fim de muitos milhares de anos, os oceanos gelaram e a Terra transformou-se numa gigante bola de gelo. Entretanto, algumas formas de vida, em vez de converterem água e anidrido carbónico (dióxido de carbono) em energia e libertarem oxigénio, algumas células passaram a absorver oxigénio e libertar água e anidrido carbónico, evoluindo em eukariotes, que são micróbios muito mais complexos do que prokariotes, que dependem de oxigénio para viver.
Com a libertação de quantidades cada vez maiores de anidrido carbónico libertado pelos eukariotes, a superfície da terra começou outra vez a aquecer, dando origem a um degelo geral, se bem que as duas formas de vida procariotes e eucariotes continuaram a multiplicar-se.
Até aí, a reprodução de seres vivos fazia-se apenas por clonagem (cópia exacta da geração anterior), mas acredita-se que devido a uma mutação no ADN, alguns seres vivos passaram a reproduzir-se por via sexual, em que era necessário interagir com outro organismo similar, do que resultou numa diversidade genética muito maior. Neste novo processo sexual de reprodução, as células apenas recebiam metade das instruções de ADN tendo que procurar um parceiro para completar o número de cromossomas necessário para criar um novo descendente para a geração seguinte. Esta mutação resultou também em que os organismos se tornassem multicelulares. De facto, a proliferação de novos seres vivos aumentou tanto, que a procura de um parceiro se tornou uma função fundamental em todas as formas de vida - o eukariote multicelular tinha que viver apenas o tempo necessário até se poder reproduzir sexualmente - vivia-se para se reproduzir.
No período entre 635 e 66 milhões de anos atrás o planeta Terra foi afectado por um número muito grande de violentas explosões seguidas de extinções macissas de seres vivos de todas as formas, dando lugar a um número cada vez maior de diversidade de novos organismos mais complexos.
Escala geológica da Terra - Éons, Eras, Períodos, Épocas, e Idades
1. Hadeano - vulcões 4,2 BAA
2. Arqueano - oceanos. vida incipiente
3. Proterozóico - bactérias aeróbicas (que precisam de oxigénio para viver) 2,5 - 0,542 MAA
Era Paleozóica:
4. Pre-Cambriano
Fanerozóico
Paleozóico (6 períodos) 542 MAA - 488 MAA
Cambriano - formação de continentes - Laurentia, Báltica, Sibéria, e Gondwana
A Mãe de todas as extinções teve lugar, pela libertação de quantidades maiores de dióxido de carbono. 96% das espécies marinhas; 70% dos vertebrados; 83% dos insectos
Jurássico 199 MYA - 145 MYA - Continente Pangea formado por Laurásia e Gondwana. Aparecem as primeiras plantas com flores; primeiras Cicarácias (palmeiras). Aparecem os primeiros dinossauros na terra firme; Pterossauros (aves); e Plessiossauros no mar. De aves a mamíferos.
Cretáceo 145 MYA - 65,5 MYA Aparecem os primeiros placentários mamíferos com mamilos, com crias no interior do útero, alimentados por placenta. Explosão de Irídio - Grande meteorito caiu na Peninsula de Yucatan no México, seguido de um resfriamento geral do planeta. Desaparecimento dos dinossauros.
Numa era muito remota, o planeta Terra era composto por um grande supercontinente (Pangea) completamente rodeado por um grande oceaco (Pantalassa). Ao longo do tempo na escala geológica o supercontinente Pangea começou a desmembrar-se dando origem a dois novos super-continentes: Laurásia e Gondwana, que por acção das forças das placas tectónica se continuaram a desmembrar; o continente Laurásia incluia a América do Norte, a Europa, e a Ásia. Gondwana incluia num só bloco a África, a América do Sul, a Antártica, a Austrália, e o subcontinente indiano. Por sua vez, e ao longo de muitos milhões de anos, o supercontinente Gondwana continuou o processo de desmembramento dando origem aos continentes de África, América do Sul, Antártica, Austrália, e o subcontinente indiano.
Há alguns bilhões de anos atrás, numa
fase inicial do seu desenvolvimento, o planeta Terra era constituído
por um grande continente (Pangea) rodeado por um grande oceano
(Pantalassa). Através de desmembramento causado pelo movimento de placas
tectónicas, Pangea deu origem a dois continentes: Laurásia e Gondwana. Laurásia era composta poela América do Norte, Europa, e Ásia. Por sua vez, Gondwana deu origem à África, América do Sul, Antártica,
Austrália, e ao subcontinente indiano, hoje colado à Ásia.
Durante o período Cretácea Anterior (140-130 milhões de anos atrás) abriu-se uma fissura (rift) que começou a dividir o continente Gondwana, dando origem ao Oceano Atlântico Sul. 40 milhões de anos mais tarde, os continentes estavam claramente separados e o Oceano Atlântico com a sua forma actual.
A evidência de que os dois continentes eram parte do mesmo continente anterior é substanciada por formações rochosas e por tipos de fósseis comuns à África e à América do Sul, e pela geologia vulcânica do fundo do Oceano Atlântico ao longo da linha original de separação. A evidência é ainda confirmada pela existência em ambos os continentes de muitas plantas e animais semelhantes que partilham os mesmos antepassados.
Era Cenozóica 65,5 MYA - até hoje -
Período Paleogeno - épocas: Paleoceno, Eoceno, e Oligoceno
Eoceno - 55.8 MYA - 9.9 MYA - Aves ainda dominantes, ainda muitos mamíferos carnívoros, clima começa a resfriar; Tundra e Taiga (coníferas e floresta boreal).
Oligoceno 33,9 MYA - 23,3 MYA - Austrália separa-se da Antártica; Índia junta-se à Ásia; Américas aproximam-se. Formam-se os Alpes, Cárpatos, e Atlas.
Neogeno 23,3 MYA - 2,588 MYA -
Mioceno 23.,3 MYA - 5,332 MYA
Formam-se os Pirinéus, Alpes, Himaçaias. Novas espécies de mamíferos - rinocerontes, gato, cavalo, camelos, e grande variedade de símeos.
Plioceno - 5,332 MYA - 2,588 MYA - Aparecem os primeiros hominídeos (Australopitecos)
Quaternário - 2,588 MYA até hoje -
Terciário -
Cretáceo
Pleistoceno 11,7 MYA - Homo Neanderthalensis 300.000 YA
Homo Sapiens. Última Glaciação 70.000 YA - 18.000 YA
Holoceno - 11.700 YA até hoje - Dominância do Homo Sapiens
Fósseis são restos petrificados de uma planta ou animal de tempos muito recuados
Duas teorias antagónicas do progresso humano - Teoria de evolução universal - há um percurso geral de desenvolvimento para todas as culturas.
Particularismo histórico - cada cultura é o produto de um conjunto específico de circumstâncias históricas (o contrário da teoria da evolução universal.
História cultural é a descrição cronológica de culturas que viverem numa certa área.
Enfoque dos Quatro Campos refere-se ao uso pela antrpologia das suas quatro disciplinas principais: Etnografia, Linguística, Arqueologia, e Antropologia Biológica.
Bipedalismo animais que andam com duas pernas
Hominídeos - primatas humanos e os seus ascendentes directos australopitecines e parantropóides.
Genus é um grupo de espécies relacionadas
Australopithecus anamensis - 4,2 MYA
Australopithecus afarensis - viveu na África Oriental entre 4 e 3 MYA
Australopithecus africanus - viveu na África Meridional entre 3 e 2 MYA
Paranthropus são um grupo distinto de hominídeos, muito parecidos com os australopithecines, mas com face maior, queixo, e dentes. São divididos em três subgrupos principais - Paranthropus aethiopicus, os mais antigos, que viveram no que é hoje a Etiópia cerca de 2,5 MYA; Paranthropus boisei, que viveram na África Oriental entre 2,2 e 2,1 MYA; e Paranthopus robustus, que viveram na África Austral entre 1,8 e 1MYA.
Os primeiros Homo
Homo rudolphensis, a espécie mais antiga; mais tarde o Homo habilis, fósseis encontrados na África Oriental, de cerca de 2 MYA.
Out of Africa ondas de migrações - O Homo erectus foi o primeiro hominídeo a sair de África.
Padrões de povoamento Humano.
O conceito de Cultura (a desenvolver) - O que é Cultura? - comportamentos que se aprendem numa sociedade que ajudam os seus membros a sobreviver ao longo do tempo.
Cultura material - Utensílios de pedra, fogo, utensílios de madeira, alimentos cozinhados, ferramentas, domesticação de animais, domesticação de plantas e agricultura, utensílios de osso e chifres, pedras de polir, polidores, e machados, cestos de verga, formas de habitação (casas), utensílios de barro e cerâmica, utensílios de cobre, bronze, ouro, e ferro, ferro e aço, vidro, texteis e lanificios, a roda, vestuário, utensílios de pesca, barcos, utensílios de guerra, embarcações, fortificações, barragens e controle de água, pontes, escrita, matemática, astrologia, e medicina tradicional.
Em oposição ao conceito de cultuta material, nós temos também que considerar a cultura imaterial. A cultura imaterial entende-se como o conjunto de crenças, tradições, valores, ideias, normas, leis, linguagem e simbolos, e rituais (comportamentos sociais), e conhecimentos e técnicas que ajudam a definir um grupo ou sociedade. A cultura imaterial determina como uma sociedade utiliza a sua cultura material. Da mesma forma, o ambiente natural e a cultura material ajudam a moldar a cultura imaterial.
É hoje aceite que os grupos humanos mais remotos (caçadores-colectores) viviam inicialmente da apanha nómada sazonal de produtos silvestres, como caules, folhas, frutos, tubérculos, raízes, e nozes, e de restos de animais deixados por outros animais, e as peles de animais forneciam agasalho contra o frio.
Mulher do povo de caçadores-colectores Bayaka que habitam a floresta equatorial do Congo corta folhas da planta "koko" para serem cozidas com carne como alimento para a família.
Com a descoberta do fogo e o desenvolvimento dos primeiros utensílios de pedra, as famílias passaram a cozinhar os alimentos, a plantar vegetais, e a caçar e guardar animais.
Neste estágio inicial de desenvolvimento humano (neolítico), com o aparecimento da agricultura e da pastorícia, as famílias e bandos passaram a sedentarizarem-se mais e a mover-se menos, e a ocupar os mesmos lugares por períodos mais longos, o que resultou num aumento das aldeias e sua população, de famílias para bandos, e ao mesmo tempo na criação de um excedente económico pelo grupo.
Os movimentos nomádicos eram a principio de um território para outro, com a mudança inteira das aldeias para novos lugares onde os recursos não estivessem ainda exauridos. Mais tarde, os movimentos nomádicos passaram a ser de transumância, com uma base mais fixa e com movimentos para territórios mais próximos e mais limitados, mais próximos de fontes de água, de acordo com as estações do ano, com a época das chuvas, ou com o movimento migratório dos animais.
Economia ancestral - reciprocidade, comunismo primitivo (de quem pode para quem precisa). troca directa. trabalho como esforço individual ou colectivo. valor do trabalho. relação entre esforço de trabalho e remuneração. formação de excedente económico. distribuição do excedente através de redistribuição tributária e mercados.
Em tempo, o excedente económico (também chamado surplus) criado pelo trabalho do grupo levou à divisão do trabalho, e eventualmente à divisão dos grupos e comunidades em classes. Os homens preparavam a terra e caçavam, ao passo que as mulheres cuidavam dos filhos, cultivavam a terra, e preparavam os alimentos.
Algumas famílias mais fortes ou detentoras das terras mais ferteis, do acesso à água, ou de territórios de caça mais ricos, passaram a apropriar-se não só directamente dos produtos obtidos através da agricultura e da pastorícia, mas também do produto do trabalho de outros membros do grupo. Este processo evoluiu com maior firmeza com a criação de uma classe de clérigos e militares que pela força regiam o funcionamento dessas tribos em formas de organização política em classes mais distintas e separadas.
Uma vez obtido um excedente económico (surplus), a sua apropriação e distribuição pelos membros do grupo, seguiu uma evolução padrão comum a muitas sociedades. Numa fase inicial, o produto era trocado entre grupos sem cada um avaliar o valor relativo do bem trocado para cada grupo (dáva-se o que se tinha); mais tarde as trocas passaram a ser realizadas tendo em atenção o valor recíproco para cada um dos grupos (valor equivalente); numa terceira fase, a troca era interna (dentro do mesmo grupo; não entre grupos distintos) e baseava-se na redistribuição do excedente, contudo esta troca de produto tinha principalmente fins políticos, como afirmar a preponderância ou poder de um chefe ou uma família, como é o exemplo do "Potlach" nas comunidades índias do Noroeste do Pacífico.
Só numa fase final é que o produto começou a ser comercializado por membros do grupo através de mercados locais e regionais, em que os bens trocados eram propriedade individual, e o valor do produto trocado ficava na sua maior parte com o dono do mesmo. Neste sistema de troca directa, um bem era trocado directamente por outro bem de valor aproximado, não existindo ainda o dinheiro como meio de troca.
A cerâmica e as técnicas de conservação de alimentos contribuiram muito para a adopção e expansão de mercados, pois permitiram a troca de excedentes maiores de mais produtos alimentares, que se puderam ser guardados ao longo de períodos mais longos, de ferramentas e utensílios, e de outros bens duradouros.
Só mais tarde ainda, para facilitar a troca de uma gama maior de bens e o seu valor melhor aferido, é que se desenvolveram meios de pagamento em dinheiro, primeiro em forma de conchas, pedras, tecidos, metais, ouro, e finalmente dinheiro (moeda). Em tempo, a importância desses mercados cresceu tanto que pequenas cidades se começaram a formar, tornando-se mercados permanentes em que tudo se trocava, não só produtos agrícolas, mas também bens produzidos por artisãos independentes, dando lugar a uma forma de organização política em forma de "estado". Por sua vez, a multiplicação de cidades sob a mesma autoridade política central, a mesma economia, língua, religião, e cultura, deu origem a feudos, reinos, impérios, e eventualmente a civilizações.
Tese do livro "Armas Germes e Aço", de Jared Diamond - As grandes civilizações expandem-se ao longo de grandes espaços de terra de clima semelhante na direcção este para Oeste.
O termo "Tradição Arqueológica" refere-se a um grupo de populações que partilham as mesmas bases de subsistência, tecnologias, e formas de organização social e política, que partilham o mesmo território, que perduram ao longo do tempo.
O Homo erectus foi o
primeiro hominídeo que se espalhou no Oriente Médio, Europa, e Eurásia. O
seu crânio era maior do que todos os hominídeos anteriores, mas aninda
mais pequeno do que do Homo sapiens. Uso do fogo como uma adaptação ao clima frio. O Homo erectus combria-se com peles de animais, que obtinha através da caça.
A Tradição Achelense (Acheulean) (2 até 1,5 MYA) associada à tradição Olduvaiense (Oldowan) do Homo erectus no Paleolítico Inferior em África e na Europa é caracterizada por utensílios de pedra como o machado de mão. Este era uma ferramenta pré-histórica com duas faces, moldada a partir do lascamento das suas duas faces com outra pedra. O machado de pedra foi a principal ferramenta usada pelo Homo erectus, entre 1,6 MYA e 100.000 mYA, principalmente como ferramenta de corte, mas não usado pelo Homo sapiens. Os acampamentos de tradição Achelense situavam-se por norma perto de cursos de água, áreas de vegetação exuberante, e perto de locais onde animais herbívoros pastarem. Não se apurou ainda se os grupos acheenses faziam uso da linguagem ou não.
Esta mesma tecnologia foi encontrada na Ásia associada ao Homo erectus, mas não incluia o machado de mão (Tradição Zhoukoudiana). Outras ferramentas desenvolvidas no período Olduvaiense (Achelense na Europa) foram o cutelo e a picareta.
O próximo tipo depois do Homo erectus descoberto na evolução genétoca do homem foi o Homo heidelbergensis (Homem de Heidelberg), encontrado perto da cidade de Heidelberg na Alemanha. O Homo heidelbergensis tem um crânio maior e um queixo menor com dentes também mais pequenos. Esta espécie de Homo é vista por muitos como uma espécie transitória entre Homo erectus e Homo sapiens.
Prosseguindo nesta cedeia evolutiva, a próxima espécie de Homo encontrada foi o Homo neandertalensis, encontrado no vale de Neander (Aemanha), na Europa, no Norte de África, e no Próximo-Oriente, mostrando características muito parecidas com o Homo sapiens. O Homo neadertalensis tinha uma caixa craniana maior do que o Homo heiderbergensis, órbitas dos olhos maiores, cavidade nasal mais comprida, e face mais longa. Estima-se que o Homo neandertalensis tenha vivido entre 150.000 e 40.000 anos atrás, já no período Mesolítico, porque usavam uma diversidade maior de utensílios e ferramentas lascadas.
A Dispersão da Espécie Humana - Inserir mapa aqui
Para o Médio- Oriente e Crescente Fértil
Para o Norte de África
Para a Europa
Para a Ásia Central e Sibéria
Para a África Ocidental e Meridional
Para a Índia
Para o Extremo-Oriente
Para a Insulíndia e Austrália
Para Madagáscar
Para as Américas - Norte, Centro, e Sul
Para a Oceânia e as ilhas do Oceano Pacífico
Grandes Invenções que Mudaram o Curso da Humanidade (a desenvolver)
4.1 Factores Macro-Históricos na Evolução da África a Sul do Sahara
Antesde cobrir a etno-história da região da Damba é útil cobrir de uma
forma macro-histórica muito geral as seis transformações que mais
influenciaram a história de África a sul do Sahara nos últimos sessenta mil
anos:
a) A génese dos povos San e Mbuti, os primeiros grupos humanos a habitar a região;
b) o impacto milenar da malária, doença-do-sono, e outras doenças em animais e humanos;
c)
a expansão Bantu nas suas três vertentes - ao longo do Atlântico,
através da África Oriental, e mais tarde vindos do sul (Kahari e
Namibe);
d) o tráfico de escravos (local e transatântico) nos contextos africano, da África central, e de Congo e Angola;
e) o grande intercâmbio colombiano de alimentos e produtos coloniais;
f) a partilha de África, e o colonialismo europeu;
g) e mais recentemente, a descolonização.
4.2 Indicadores de EvoluçãoHistórica
Se
bem que com certo risco de demasiada generalização, nós podemos
classificar a antiguidade dos povos que habitaram o actual território de
Angola de acordo com quatro indicadores de evolução histórica:
a)
pelo o seu modo de produção - colectores primeiro, agricultores depois,
criadores de gado mais tarde, e por último comerciantes;
b) pela evolução cronológica das suas línguas - grandes famílias de línguas antigas e modernas; como as palavras e as gramáticas evoluiram ao longo do tempo;
Mapa da distribuição de familias de línguas Nilo-Saharianas
c) pelo perfil genético dos povos - quais as mutações genéticas mais notórias, e há quantas gerações atrás os povos se dispersaram e para onde;
Distribuição
do perfil genético dos descendentes da mesma mãe (Eva Mitocondrial (L) e
Haplogrupos Mitocondriais - LO) na África Sub-Sahariana
d) e finalmente, pela escassa evidência arqueológica, dificil de obter devido ao calor e acidez dos solos da África Central.
Apanha
do Touro da Chuva - Pintura rupestre San encontrada numa gruta em
Drakensberg KwaZulo Natal, África do Sul. Sem data, mas estima-se entre
2.000 e 500 anos atrás.
O
povoamento humano e os modos tradicionais de produção na África
pré-colonial foram ambos moldados pela diversidade ecológica do
continente. O continente africano é normalmente dividido em seis grandes regiões ecológicas principais:
Mapa das seis principais regiões de África
1 - África do Norte
- Composta por zonas áridas e semi-áridas do Sahel e Norte de África, e
de clima mediterrânico na orla costeira, em que a pastorícia de
caprinos e ovelhas predominava. A agricultura concentra-se na produção
de alimentos mediterrânicos.
2 - Deserto do Sahara
- imenso e desabitado, atravessando a África em toda a sua extensão
horizontal, foi uma barreira à interacção entre os povos do norte e do
resto de África. Os oásis do Sahara sustentavam uma agricultura em
pequena escala e
serviam como centros para as redes de comércio trans-sahariano.
3 - África Ocidental
- Regiões de estepe (Sahel) e savana (planaltos ocidental, oriental e
sul), com uma agricultura mista de cereais (milho-miúdo, sorgo, milho, e
criação de gado), e com uma franja folrestal mais junto à costa
atlântica. Produtos típicos incluem a noz de cola e o óleo de palma, e a
produção de sal e mineração de ouro.
4 - África Central
- Zona de floresta tropical das regiões ribeirinhas dos rios Nilo,
Niger, e Senegal, e equatorial junto ao rio Zaire com agricultura
intensiva que exige pouca mão-de-obra, como a palmeira, o inhame, e a
banana. O grande planalto de Angola, onde predomina a floresta de
Miombo, é umas das sub-regiões principais. A prevalência endémica de
doença-do-sono restringiu a criação de gado em larga escala nesta
região. A mineração de ouro foi sempre uma actividade importante.
5 - África Oriental,
com regiões muito secas a norte (Somália), montanhas no interior
(Etiópia), e pladarias a sul (Serengeti, caracterizada por uma variedade
de climas e solos. A produção de copra, apastorícia, o marfim, e a
exploração de sal e cobre eram as principais actividades produtivas
ancestrais. O comércio de longa distância com a Arábia, a Índia, e a
Insulíndia era muito activo
6 - África Austral - uma
região diversa de floresta trpopical a norte, povos vivendo da caça e
da pesca na savana e estepe ao centro, e deserto (Namibe e Kalahari), a
sul, e um bioma mediterrânico na faixa costeira a sul.
A estas grandes regiões principais devemos adicionar a Ilha de Madagáscar, na costa do Índico, caracterizada por um bioma muito único com florestas costeiras e matas xerófilas no interior.
4.3 Estágios de Desenvolvimento da Organização Política e Social
Para
uma melhor compreensão da dinâmica macro-histórica que este blogue
cobre, eu penso que é útil rever algumas interpretações fundamentais
sobre a evolução da humanidade. Eu tenho aqui que confessar que o que
vais ler nas próximos parágrafos
não é de muito facil assimilação, pois a sua terminologia própria por
vezes pode parecer confusa ao leitor. Assim, espero que sobrevivas
os próximos parágrafos.😨!!! Aqui vão algumas ideias chaves:
Embora
todas as sociedades tenham o seu pecurso de evolução específico na
história da humanidade (relativismo histórico e cultural), todas elas
parecem passar por um pecurso geral (fases comuns) como resultado dos
processos de invenção e difusão de práticas e ideias, trocas comerciais, ou de migração de
pessoas e grupos que ocorrem nas mesmas.
Formação do excente económico (a desenvolver)
Assim, em geral, um membro de uma família
separa-se da mesma e forma o seu mesmo novo grupo social (a sua
família), seguindo por norma um percurso de parentesco clânico. Nas
gerações seguintes, esses grupos familiares, que partilham da mesma
linhagem, cultura, línguagem, crenças, e organização económica
organizam-se em bandos agrupando entre 25 a 60 membros, começando
como pequenos grupos mais ou menos distintos (bandos), e através de um
processo de evolução específico, aumentam em número e complexidade e ao
longo de algumas gerações agregam-se em grupos mais complexos e
organizados (tribos).
Por
sua vez, ao longo de mais algumas gerações, as tribos multiplicam-se em
unidades sociais mais extensas em número de membros e território, mais
separadas e independentes, que mercê da divisão do trabalho social, se
tornam mais estratificadas em classes e passam a reconhecer o comando de
uma linha hierárquica de chefes (chefados) cuja função principal é a distribuição do produto social entre as classes.
Estes quatro primeiros estágios de organização social, económica, e política (família, bando, tribo, e chefado) são
dominantes nas sociedades de colectores / caçadores / pescadores, em que a
agricultura não se estabeleceu ainda como actividade económica
predominante.
Com
o advento da agricultura, a organização social e económica dessas
sociedades tornou-se muito mais complexa, centralizada, e estratificada
em classes, que passaram a ser dirigidas por uma elite politica,
que determinava a divisão do trabalho e repartição do produto social em
forma desigual. Essas elites tinham o monopólio sobre os recursos
naturais e o poder militar e a força para criar instituições e exercer a
sua autoridade (através da força e da violência) sobre os demais. Na maioria dos
casos, essas elites passaram a fazer uso de uma nova classe de cléricos /
burocratas para gerir o sistema religioso e administrar a economia, e
uma classe militar e policial para manter à força o seu poder. Por sua
vez, a organização dessas estruturas e instituições tornou-se permanente
sob a autoridade de um rei e na forma de um estado.
Numa
perspectiva económica, com a advento da agricultura, a divisão do
trabalho tornou-se mais estruturada e socialmente repartida com a domesticação de animais e cultivo de plantas. Algumas aldeias deram lugar a cidades, e estas a impérios e civilizações.
Podemos definir uma civilização
como um estágio histórico avançado e complexo de organização social,
económica, política, e cultural de um grupo humano. Uma civilização é em
regra caracterizada por um certo nível de tecnologia, pela produção de
um excedente económico, pela existência de cidades, com uma língua (ou
família de línguas) comum, por uma escrita, e por um governo
centralizado, baseado em classes, suportado por um aparelho mitológico,
religioso, e cultural homogéneo. Todas as civilizações têm a sua cultura
ou família de culturas.
O termo "civilização"
é normalmente usado para diferenciar sociedades urbanas desenvolvidas
de outras formas de organização social mais primitivas, como dandos,
tribos, e chefados. Uma civilização é um modo de vidae com base conómica
e social semelhante acimentado por uma língua falada por vários povos,
integrados ou não numa organização política e administrativa unitária.
Por sua vez, podemos definir um "império"
como uma entidade política, governada por uma autoridade central (o
imperador) através do aparelho de estado, que exerce soberania sobre
diversos povos espalhados por um território vasto.
A
mitologia é um dos elementos fundamentais que ajuda a definir um povo,
pois ela reflecte as suas origens, valores, medos, esperanças, e
tabús. Os mitos servem também para dar uma explicação a perguntas
fundamentais sobre o homem, a natureza, e o sobrenatural.
No campo do natural
os mitos dão resposta a perguntas fundamentais, como por exemplo como
nasceu o universo (o firmamento, o sol, as estrelas, o planeta, a lua, e
a terra, as montanhas, a água, os rios, a chuva, os animais, e a selva), quais
as forças que o guiam (o sol, e o bem e o mal), como nasceu o homem e a
mulher, e a história da criação de cada povo.
No campo do
sobrenatural, as respostas cingem-se à existência e função de
divindades, heróis, antepassados, mediums, sereias, e outras entidades
mitológicas que nos ajudam a delimitar o nosso universo mental.
Todos
os povos que se vêm como tal têm uma mitologia própria. A África, como
berço da humanidade, é particularmente rica pela diversidade dos seus
povos e respectivas mitologias. Em Angola, os mitos mais antigos são os
dos povo San, que habitaram a metade sul de Angola durante milhares de
anos. Na metade norte do território (que mais tarde se espalhou à
metade sul), nós encontramos resquícios da mitologia Mbuti e da forte
presença da herança cultural banto, também com uma mitologia muito
rica.
4. 4 A Génese dos Povos San e Mbuti no Território de Angola
Os
povos colectores pré-Bantu (San e M'Buti) foram os primeiros grupos humanos a
habitar a região a que hoje chamamos Angola. Estima-se que os San
(Bosquímano) foram os primeiros grupos humanos a habitar todo o
território actual de Angola, vindos do Sul e do Leste (do Kalahari e da Bacia do Etosha) há cerca de 50.000-60.000 anos atrás.
O
povo San foi o primeiro grupo humano a habitar o que é hoje a metade
sul do território que é hoje Angola. Os San migraram do Sul da África
em direcção à bacia do Etosha (Kavango / Cubango), e depois (há cerca de
vinte mil anos atrás) em direcção mais a norte, atingindo a metade sul
de Angola (a sul e ao longo da linha quase diagonal da linha divisória
de águas do plateau angolano - Alto Cuanza).
A
falta de evidência de documentos históricos, tradição oral, e estudos
genéticos é numa medida reduzida compensada pela escassa evidência
arqueológica de povos muito antigos que habitaram o território a que
hoje chamamos Angola. Tal é o caso de pinturas rupestres que eles
deixaram em algumas grutas, como as de Tchitundo-Hulo na região do Namibe no canto sudoeste de Angola.
Pinturas rupestres ancestrais nas grutas de Tchitundo-Hulo, no Namibe
Os Povos San
San e KhoiSan
Cronologia
Geografia, e expansão territorial;
línguas
economia ancestral pre-neolítica - sem agricultura ou pastorícia. modo de produção comunismo primitivo (de todos para cada um de acordo com as suas necessidades) colectores e caçadores nómadas. ausência de excedente económico - reciprocidade
cosmologia e religião.
estrutura política elementar: pequenos bandos sem classes sociais.
Empurrados pelos Bantu para regiões mais inóspitas
Os Povos Mbuti / Mbatwa / Pigmeus
Os povos Mbuti / Mbatwa / Pigmeus são os povos indígenas (primeiros habitantes) caçadores-colectores da região dos Grandes Lagos e da grande Bacia do rio Zaire na zona equatorial da África Central. Durante a época colonial, eles eram conhecidos como "Pigmeus", No entanto, eles próprios consideram esse termo prejorativo, e chamam-se a si próprios de "Twa", "Mbuti", "Baka", e outros nomes conforme a região que habitam
Os estudiosos da pré-história de Angola admitem que os povos Mbuti habitavam originalmente a metade norte da Angola, a partir da linha norte da divisória das águas que atravessa Angola diagonalmente. Com a chegada dos povos Bantu, os Mbuti foram "empurrados" para as zonas mais densas de floresta tropical como medida de sobrevivência em face das incursões Bantu que eram povos agrícolas e dominavam já o manuseamento do ferro.
A confirmar esta hipótese, devemos lembrar-nos que a tradição oral do povo Bakongo do norte de Angola faz referência aos Mbaka (povos de anões / Mbuti / Pigmeus)
que habitavam a região antes da chegada dos povos Ambundu e Bakongo à
região. Não devemos confundir esta referência com o povo Mbaka, cujo território
tradicional inclui porções do nordeste da República Democrática do Congo
e República Centro Africana, que fala a língua mbaka.
A
metade a norte da linha divisória de àguas na direcção SW-NE ao longo
do centro de Angola foi povoada inicialmente (cerca de 10.000
anos atrás?) pelos povos Mbuti, que mais tarde foram empurrados pelos povos Bantu para norte e noroeste para a selva equatorial da
bacia do Rio Zaire.
Depois, com origem e tempo ainda não confirmados com
precisão, chegaram os povos M'Buti e M'Benga (Pigmeus) que vieram da floresta do Alto Congo e que removeram os San
e
que vieram a habitar todo o território a norte da linha de divisão de
águas ao longo do
planalto angolano até à bacia do Rio Zaire na África Central,
continuando os San a habitar o território a sul da linha de divisão
de águas (Bacias do Cuanza e Cassai correndo para norte, e do Zambeze,
Cunene e Cubango correndo para sul) e a área costeira (Rio Cunene e
deserto do
Namibe).
Mapa
da distribuição actual de povos Pigmeus na África Central, segundo o
prof. Luigi Luca Cavalli-Sforza, da Universidade de Stanford, EUA, 1971;
extraído da Wikimedia Commons.
Ambos os povos San e M'Buti
foram eventualmente
absorvidos, conquistados, removidos ou aniquilados pelos povos
agricultores e ferreiros Bantu, que passaram a
ocupar a quase totalidade do território actual de Angola. Não existe
hoje nenhuma comunidade M'Buti em Angola, e a sobrevivência do povo San
no longo curso é uma grande preocupação constante para todos aqueles que
constatam a sua vulnerabilidade no quadro actual de Angola. De facto,
muitos temem o desaparecimento de comunidades San em Angola, como
comunidades de identidade própria, dentro de duas a três gerações.
Apesar dos mesmos desafios, as comunidades San têm sobrevivido (e
florescido) no país vizinho do Botswana através de políticas próprias de
conservação cultural e económica. Porém, o mesmo não tem acontecido em
Angola.
Mapa
da distribuição actual de povos San na África Austral, segundo o prof.
Robert Hitchcock, da Universidade do Novo México, EUA, 2019. A maior
concentração é no Botswana.
É
interessante notar que no processo de interacção com os povos Bantu, os
Mbuti acabaram por perder a sua língua original e absorver línguas
Bantu, ao passo que os San conseguiram manter as suas línguas ancestrais.
A sobrevivência dos povos San e Mbuti e das suas culturas no longo
curso é matéria de grande preocupação em todo o mundo.
Família Mbuti algures na floresta equatorial do Congo, 1960s. Imagem retocada por AI.
Evidência Arqueológia Pré-Bantu em Angola
As grutas de Nzau Évua,
situadas na estrada entre Mbanza-Kongo (São Salvador - 68 km) e Nzeto
(Ambrizete - 150 km), na província do Zaire são umas grutas muito
grandes que contêm algumas pinturas rupestres. Estas ainda não foram
estudadas devidamente pelo que não se sabe a sua origem, se anterior ou
posterior à formação do antigo Reino do Congo. Segunda a tradição oral,
durante o tráfico de escravos elas serviram refúgio a muitos que fugiam
do mesmo.
Um
aspecto das grutas do Nzau Évua, no Zaire. Estas grutas têm algumas
pinturas rupestres, mas ainda precisam de ser estudadas para aferir a
sua origem e história.
4.5 A Civilização Bantu
A civilização Bantu refere-se a um vasto grupo etnolinguístico de mais de 400 sub-grupos na África a sul do Sahara. O termo "Bantu" vem do plural de "muntu",
que significa "gente / pessoa". Os Bantu tiveram origem na região dos
Camarões / Nigéria há cerca de dois a três mil anos atrás. As
comunidades Bantu estavam organizadas em aldeias governadas por um chefe
ou rei.
Os povos Bantu eram agricultores que cultivavam o inhame e
a banana e eram também pastores de gado. Em termos de tecnologia, eles
manobravam a olaria do barro e da cerâmica, a mineração de ferro, cobre,
e ouro, mas dominavam especialmente o manuseamento do ferro, o que lhes
permitiu a criação de ferramentas e utensílios agrícolas mais avançadas
e eficientes para a agricultura e arte de guerrear.
Provavelmente
devido a pressões de ordem demográfica, os Bantu começaram a
espalhar-se para sul e leste, disseminando a sua língua, as suas
técnicas agrícolas, o dominio do ferro, e a sua organização social entre
os seus povos vizinhos, que eram caçadores colectores.
Entre
1.500 AC e 1.000 DC, os povos Bantu levaram a efeito um dos mais
significativos movimentos populacionais da história humana,
expandindo-se primeiro para leste (para a África Oriental) de pois para
sul (África Austral), e mesmo descendo a costa de África até ao planalto
angolano na África Central Ocidental. Nestes movimentos migratórios
seculares, eles conquistaram, asssimilaram, destruiram, ou afastaram os
povos locais caçadores / colectores para regiões mais pobres e remotas,
acabando por impôr a sua cultura, tecnologia, economia, sistema
político, e língua, e acabando por os substituir nessas terras esses
povos ancestrais, como foi o caso do povo Mbuti (Pigmeus) e San em toda a
África a sul do Sahara.
Em termos de modo de produção e tecnologia,
os Bantu eram agricultores e dominavam a metalurgia do ferro, duas vantagens chave que
resultaram na sua dispersão não obstruída e conquista de todo o território anteriormente
ocupado pelos M'Buti e Khoisan que viviam no que veio a ser o actual território de Angola.
A Civilização Bantu
Origem dos Bantu
O Manuseamento do Ferro e as Grandes Migrações na África a Sul do Sahara
A Metalurgia Bantu
Manuseamento de ferro pelos povos Bantu
Metalurgia
e Agricultura - pilares fundamentais da expansão Bantu,
independentemente de influências exógenas. A tecnologia do ferro não foi
importada, mas sim desenvolvida, adaptada, e aperfeiçoada pelos povos
Bantu.
Técnicas avançadas de extracção, fundição, e moldagem de ferro e cobre
Processo Metalúrgico:
1 - Extracção
2 - Construção de fornos
3 - Uso de foles que podiam injectar grande quantidade de oxigénio de forma concentrada no processo de combustão
4 - Uso de carvão vegetal
5 - Fundição e forjamento
A produção era local, não em quantidades industriais
Gravura
coeva mostrando trabalho de metalurgia no Antigo Reino do Congo; do
Padre Giovanni António Cavazzi de Montecuccolo na sua "Istorica
Descrizione de Tre Regni Congo, Matamba et Angola Sitvati
Nell' Etiopia Inferiore Occidentalle, de Antonio Cavazzi, em Bolonha,
1688.
A Expansão Bantu - a desenvolver
A Cosmologia Banto
Os
povos Bantu têm a sua cosmologia própria ligeiramente específica para
cada povo, e partilharam em geral de muitas das mesmas bases mitológicas
e religiosas.
Como exemplo, devemos mencionar aKalunga
- fronteira no mar entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos;
temível travessia do Atlântico, "Passagem do Meio"; viagem sem retorno;
os escravos que eram levados para as Américas acreditavam que no kalunga
eles eram transferidos para o reino dos mortos, do qual jamais
regressariam; Kalunga como lugar de opostos, onde os homens andam de pé e
os espíritos andam com as suas mãos; onde os homens são pretos e os
espíritos são brancos.
De
acordo com a mitologia Banto, as Kiandas eram sereias que acompanhavam
os tumbeiros na travessia do Atlântico; conceito de certo modo
semelhante a Cassandra na mitologia grega.
As Kiandas (sereias/divindades) eram figuras míticas que viviam nas águas dos mares
(Kalunga) para os povos da África Central, nos tempos do tráfico de
escravos, especialmente no que se refere à Passagem do Meio.
Banzo era a dôr e tristeza profunda e perpétua (depressão, desejo de morrer, morte
voluntária/suicídio) que os escravos africanos sentiam ao deixar as suas
comunidades em África ou já nas Américas, sabendo que jamais poderiam
voltar às suas aldeias ancestrais em África.
Ngolo era a arte marcial praticada pelo povos pastoris a sul de Benguela que se expandiu no Brasil na forma de Capoeira.
Através
do tráfico de milhões de escravos para as Américas, muitos povos Bantu
exerceram uma grande influência no universo cultural das novas colónias.
Esse é o caso doCandomblé
- Religião sincrética (sacra e secreta) como forma de resistência à
escravatura e retenção cultural das raízes africanas no Brasil, da Santeria em Cuba, e do Voodoo
no Haiti.
papel social dos ferreiros
Transformador de pedra em utensílio através do fogo, da natureza em cultura
Criador de ferramentas agrícolas e vantagem militar (armas)
Autoridade ritual e prestígio religioso e político
Formavam grupos grupos profissionais hereditários
A Arte Bantu
A
arte tradicional dos povos Bantu inclui todas as formas funcionais e
ritualísticas, desde os tempos ancestrais pré-coloniais até à
actualidade. Para além da sua função decorativa, os objectos de arte
serviam para
acompanhar cerimónias e rituais ou mesmo aspectos da vida quotidiana.
As
principais formas de expressão artística Bantu incluem entalhes em
madeira de figuras antropomórficas, gado, cobras, e animais selvagens;
esculturas em madeira, argila, marfim, ferro ou estanho, ou pedras
leves; máscaras evocando espíritos e antepassados; cestos, esteiras, e
tecidos de ráfia ou bambú; utensílios de cerâmica; peças de mobiliário
em madeira como cadeiras, bancos, e encostas; e objectos de adorno
pessoal como pentes, colares de missangas, objectos em couro ou ouro, e
insígnias de mando, como plumagens, gorros, coroas e diademas, colares e
escudos, pulseiras e manilhas, mantos, romeiras e peles de felinos,
cabos-de-cauda, bastões e gládios, sinos, e escudos e lanças.
A
riqueza artistica dos povos Bantu em Angola é reconhecida mundialmente,
havendo espécimes de arte Bantu nos principais museus do mundo. Se
tentarmos classificar a distribuição geográfica das formas de arte Bantu
em Angola, podemos seguir a classificação desenvolvida pelo famoso
etnólogo José Redinha (1905-83) no seu "Album Etnográfico",
Edição do C.I.T.A., Luanda, 1970, e dizer que os povos Bakongo e
Lunda-Tchokwe a norte, são conhecidos pelas suas famosas esculturas
antropomórficas e tecidos de ráfia. O povo Nganguela pela cerâmica negra
polida (vasos Luena, por exemplo). A sul, os povos criadores de gado
Herero, Ovambo, Nhaneka, e Humbi são conhecidos pelos adornos de beleza
pessoal em couro e missangas. E no centro e costa atlântica, o povo
Ovimbundu é conhecido pelas suas imagens animalísticas. No extremo
Sul/Sudoeste, Sul/Sudeste e nas Terras do Fim do Mundo encontram-se um
número reduzido de gravuras e pinturas rupestres em cavernas e abrigos
rochosos desenhados por povos ancestrais San.
Música
Dança
Provérbios e Adivinhas
A Economia Tradicional Bantu
Dois
grandes sistemas económicos dominam a economia tradicional de
subsistência dos povos Bantu: A agricultura e a pastorícia, onde em
ambos a metalurgia e o comércio desenrolam um papel importante. O
domínio da metalurgia permitiu aos povos Bantu criar ferramentas e
utensílios de ferro duráveis, que acabaram por revolucionar a
agricultura e aumentar exponencialmente a produtividade da mesma.
A
agricultura cingia-se ao cultivo da banana, mandioca, inhame, milho,
sorgo, milho-miúdo. Num contexto mais de trocas comerciais, muitas
comunidades cultivavam o café ,o milho, e o algodão, culturas trazidas
das Américas pelos portugueses após a sua chegada à África Central
Ocidental. Nas regiões mais altas e secas e livres da mosca tsé-tsé, a
pastorícia de gado bovino, caprino, suino, e ovino, complementava a
agricultura.
A
propriedade da terra era comunal, mas o produto do seu trabalho era
privado. O homem preparava a terra e a mulher trabalhava-a. É de notar
que nas sociedades tradicionais Bantu, o gado não era apenas uma fonte
de alimento, mas também um indicador de riqueza económica e status
social.
A
economia era de subsistência, mas produzia um pequeno excedente que era
vendido em mercados comunitários e regionais. Estes mercados eram
regulares e neles trocavam-se outras mercadorias não produzidas
localmente como o sal, alimentos, tecidos, cerâmica, marfim, metais
(ferro, cobre, e ouro), e utensílios de ferro.
As Migrações Bantu
A
África a Sul do Sahara ca. 2000 AC - Padrões principais das Migrações
Bantu (Sul e Leste-Sul), Povos Mbuti da Floresta, e Povos San da Savana
Os
primeiros povos Bantu chegaram à
região costeira do Congo e Angola entre quatro mil e dois mil anos
atrás. Ainda sem confirmação,
estima-se que os primeiros povos de ascendência Bantu a chegar à costa
de Angola foram os Ambundos, pois é aceite pelos estudiosos de
linguística que o Qumbundo é uma língua Bantu mais antiga do que o
Quicongo. Ao longo dos próximos séculos, os Ambundos expandiram-se para o
interior ao longo da bacia do Rio Quanza e até às margens do Rio
Cuando.
Uma possível sequência das migrações Bantu para a África Central
Acredita-se que o
povo Ambundo tenha origem remota nas segundas migrações Bantu que
partiram da região-núcleo que é situada no que é hoje o país dos
Camarões e a Nigéria a norte do Golfo da Guiné. Esta migração seguiu em direcção para sul ao longo da
costa de África. Acredita-se ainda que os
Ambundo e os Bakongo usaram a rota migratória
directamente para sul ao
longo da costa Atlântica, tendo os Ambundo chegado primeiro (estima-se
que no Séc. VI e VII) ao actual território de Angola que os Bakongo, que
chegaram no Séc. XI.
As Grandes Migrações Bantu na África Central e Oriental e Sul, de 500 AC a 600 DC
As
próximas migrações Banto para o leste e depois sul seguiram uma rota
diferente através do interior circundando a grande floresta equatorial
da bacia do rio Zaire, ao longo dos grandes rios Ubangui, Congo, Cuando,
e até ao Kassai, até às regiões norte e centro do planalto de Angola
actual entre os
primeiros séculos da nossa era e o século XI.
A
geografia e o clima foram factores muito importantes nestes movimentos
migratórios. Cerca de meio milénio mais tarde após a chegada dos
Ambundos à região, os Bakongos estabeleceram-se na Bacia do Zaire, e
passaram a ocupar as regiões costeiras
de Loango, Cacongo, e Cabinda, o Baixo-Zaire, e o planalto do Congo (no
centro da actual província do Uíge) até para além
do Rio Cuango e para sul até ao Rio Dande.
É
importante notar que ainda não se pode confirmar com certeza absoluta
que os Bakongo imigraram para a região, ou se a sua formação como
cultura distinta dos Ambundos foi resultado de transformações internas
culturais, linguísticas, económicas, e políticas que ocorreram na região
do Baixo Congo ao longo de alguns séculos.
O
continente africano até ao século XV, mostrando o padrão das migrações
Bantu na África Central e Oriental (clique no mapa para aumentar o
detalhe)
Os outros povos ancestrais da Angola actual (Nganguela e Xindonga (agricultores), Ambó (pastores), Lunda-Tchokwe (comerciantes), que mais
tarde imigraram para o actual território de Angola tomaram originalmente a rota leste,
da região dos Camarões em direcção aos Grandes Lagos, donde depois emigraram para oeste e sul até à bacia
do Rio Zambeze e mais tarde ainda mais para oeste e sul até chegarem
aos seus territórios tradicionais em que hoje se situa Angola.
Identidades políticas (chefados/reinos) pré-coloniais no actual território de Angola, até ao Séc. XVII.
O
mapa a seguir dá uma indicação mais detalhada dos movimentos migratórios
Bantu na África central (Congo, Angola,e Planalto Central) incluindo a bacia do Zaire e os planaltos do
Bié, Huambo, e Huíla:
Movimentos migratórios Bantu no actual território de Angola, com estimativas de datas
Acredita-se que os povos Umbundu e Nhaneka-Humbe
são de origem mais recente, formados mais pela miscegenação de povos
vizinhos resultantes das profundas transformações sociais e políticas
causadas pelo tráfico de escravos (comerciantes) já depois da chegada
dos portugueses, do que de migrações ancestrais de longo curso. Cabe
ainda mencionar a excepção do Povo Herero (pastores) que emigrou
do território actual da Namíbia com direcção a norte, para o canto
sudoeste de Angola, províncias de Namibe e Benguela.
Terra do Preste João, mapa de Jacob Ortelius, 1688
O Impact Milenar da Malária e da Doença-do-Sono na África a Sul do Sahara
Como
disse noutra parte deste blogue, a geografia é o livro em que se
escreve a história. A geografia, o clima, a ecologia, e o tempo, são os
factores mais determinantes na evolução de grupos humanos.
Particularmente em África, a sua grande diversidade geográfica,
climática, e ecológica, tiveram uma influência fundamental na evolução
das suas populações ao longo dos milénios.
A
extensão do deserto do Sahara que se estende horizontalmente da costa
do Atlântico até à costa do Mar Vermelho, efectivamente cortou as
oportunidades de linhas de expansão Norte-Sul, separando durante
milénios as duas Áfricas (a norte e a sul do Sahara). Por outro lado, a
extensão da floresta equatorial tornou-se um entrave à expansão rápida
de civilizações, e a barreira criada pelo deserto do Kalahari no
hemisfério sul teve, numa escala mais pequena, o mesmo efeito que o
Sahara, no isolamento dos grupos humanos na África meridional. Assim
nasceram as várias Áfricas que hoje conhecemos.
No
caso específico da África austral, e a somar as estes factores, temos
ainda que considerar o impacto negativo de doenças endémicas como a
febre amarela, a malária (paludismo), a bilharsiose, a febre dengue, e a
doença-do-sono, de elevados indices de mortalidade humana, que
impediram o uso de muitos animais domésticos usados noutras partes do
mundo, e a não-adopção de certas tecnologias como a roda e a escrita.
Assim, apesar de ter nascido em África, a espécie humana, encontrou nela
muitas barreiras que acabaram por dificultar o seu progresso, e
escolher outras regiões no mundo mais amenas ao povoamento humano.
A malária
é uma doença infecciosa causada por um parasita protozoário que,
transmitida pelo mosquito anopheles, afecta pessoas e animais. Em geral,
o parasita é transmitido ao homem através da picada do mosquito, que se
espalha no corpo através da corrente sanguínea. Assim , o parasita
chega ao fígado onde se aloja e reproduz. O mosquito anopheles é o principal vector de transmissão de malária, que se apresenta na forma de três vectores principais: anophelles arabienses, funestus, e gambiae,
sendo os dois últimos de elevada prevalência em Angola. A malária
apresenta um quadro típico de sintomas que include febre, dores de
cabeça, fraqueza geral, e nos casos mais agudos, progride para coma e
morte.
Mapa da distribuição e prevalência endémica dos três principais vectores Anophelles de transmissão de malária (paludismo) em África - Anophelles arabiens, funestus, e gambieae.
Por sua vez, a Tripanossomíase
Humana Africana (THA, ou doença-do-sono,), é uma infecção parasitária,
transmitida para humanos e certos animais pela picada da mosca Tsé-tsé
na África Subsahariana, causada por protozoários do gêneroTrypanosoma, que
afecta o sistema nervoso central, causando extrema sonolência, fraqueza
geral, febres, e quando não devidamente tratada, acaba por resultar em
morte.
Extensão do habitat da mosca Tsé-tsé
em África. A mosca Tsé-tsé, que é o vector da Tripanossomíase
(doença-do-sono), é endémica nas províncias do terço Norte de Angola.
A bilharziose
é uma doença que afligiu muitos povos em África durante ,muito tempo.
Ela é causada por parasitas sanguíneos transmitidos poráguas infestadas
por larvas de caramujos (molusco gastrópode). Quando não tratada, a
bilharziose causa danos graves ao fígado, aos rins, e à bexiga, o que em
tempos passados levou milhões de pessoas à incapacidade e à morte em
África. A bilharziose hoje já é tratável, se bem que continue a ser um
risco sério para a saúde para muitos africanos.
Imagem ao microscópio de ovos de Schistosoma haematobium na parede da bexiga, parasita que causa a bilharziose.
A febre amarela é uma doença tropical que é transmitida por um virus transmitido por mosquitos (Haemagogus e Sabethes
nas matas e Aedes aegipti nas áreas urbanas) que afectou milhões de
africanos ao longo dos séculoas ao sul do Sahara. Até á invenção de uma
vacina eficaz, a febre amarela era por norma fatal, pois em poucos dias
causava uma hepatite aguda (icterícia), seguida de insuficiência renal
e/ou hepática aguda, que em poucos dias resultava em morte do doente.
O mosquito Aedes egypti, um dos principais agentes vectores da febre amarela
A febre amarela
foi uma das maiores barreiras à colonização europeia de Angola e da
África Central. Até à década de 1950, a febre amarela era a principal
causa de morte entre europeus chegados a Angola. Estima-se que até aos
finais do século XIX, um em cada três europeus chegados a Angola morria
antes de três anos de residência.
Eu tive um tio, o meu tio Júlio Pinto Correia,
que morreu aos dezasseis anos em 1936 de uma biliosa causada pela febre
amarela. Com o uso generalizado da vacina contra a febre amarela, esta
doença deixou de ser tão mortal, se bem que ainda seja muito prevalente
em Angola, especialmente nas matas húmidas e nas áreas suburbanas das
maiores cidades.
O mosquito Aedes egypti é também o principal agente vector da febre de dengue (febre quebra-ossos)
que é muito prevalente em África, na América do Sul, na Índia, e na
Insulíndia. Os agentes são quatro tipos de virus que causam intensas
dores de cabeça, nas articulações, e nos músculos, febre hemorrágica,
náuseas, vómitos, erupções cutâneas, e fraqueza extrema. Dengue não é necessariamente mortal, mas muitas pessoas morrem devido a deficiência imunitária.
Estas
infecções são endémicas na África equatorial, e tiveram uma influência
muito negativa na evolução dos povos que lá residem ao longo de
milénios. Ainda hoje, elas causam a morte a milhões de pessoas todos os
anos.
Os
factos históricos acontecem pela conjugação de uma miríade de factores,
muitos dos quais aleatórios, mas também de factores ecológicos quase
permanentes, e a história debruça-se somente sobre os factos que
aconteceram, e não sobre aqueles que porventura pudessem ter acontecido.
Não há um "se" em história, apenas uma colecção interminável de "foi".
O
impacto da ecologia na história é um bom exemplo. As doenças tropicais
transmitidas por mosquitos e pela mosca tsé-tsé são um factor importante
na história da humanidade (e aqui vamos ao "se"), de facto, se a África
tropical não tivesse um clima tão difícil para a colonização europeia, o
curso da história poderia ter sido muito diferente. Para tal basta
imaginar que as condições de colonização fossem parecidas para que a
cultura do açúcar se tivesse estabelecido em África e não no Brasil e
nas Antilhas (como foi o caso inicial das ilhas de São Tomé e Príncipe),
e o impacto que tal havia de ter na redução do tráfico transatlântico
de escravos e na história de África.
Enquadramento Histórico Global
Grandes Viagens e Exploradores Antes dos Descobrimentos Portugueses
A Viagem da Expedição Fenícia à Volta de África
Por volta do ano 600 a.c. o faraó do Egipto Neco II mandou uma armada fenícia à volta da África que demorou três anos a completar. Nesse tempo, a principal base fenícia era na costa do Líbano, na cidade de Tiro, e eles conheciam muito bem as rotas do Mediterrâneo e do Mar Roxo. Embora não existam detalhes sobre a viagem, como quem a comandou, tamanho da armada, datas precisas, e rotas específicas, esta viagem foi confirmada e relatada por Heródoto nas suas "Histórias", e sabe-se hoje o suficiente para acreditarmos que na verdade se tenha realizado.
A viagem começou em Julho no extremo norte do golfo de Suez no Mar Vermelho (ao sul da península do Sinai), percorrendo todo o Mar Vermelho até ao estreito entre a Eritreia e o Iemen. Daqui, a expedição dobrou o Corno de África (o Ponto) e continuou a rumar sul, navegando ao longo da costa oriental de África, sempre com o Sol à direita dos navios. Com a ajuda das monções eles chegaram à linha do equador em Março do ano seguinte, entrando no canal de Moçambique. Acompanhando sempre a costa, a expedição rumou então para oeste, e empurrados pela corrente das Agulhas, atingiram o Cabo das Agulhas já no inverno.
Daqui, eles mudaram o rumo para norte, e com a ajuda dos ventos alíseos, foram desembarcar em Junho na baía de Santa Helena (a norte da actual Cidade do Cabo), onde semearam trigo que colheram em Novembro. Daqui, ajudados pela corrente de Benguela, rumaram norte, ao longo da costa da Namíbia e de Angola, de regresso a regiões de clima mais quente, atingindo eventualmente o Golfo da Guiné, quando passaram a navegar para oeste, ainda ao largo da costa. Com dificuldade, eles venceram os ventos contrários da corrente da Guiné até que em Junho chegaram à baía de Arguim.
Rota da primeira viagem de circum-navegação à África, levada a cabo ao longo de três anos por uma frota fenícia no séc. XVI a.c., a pedido do faraó Neco II do Egipto, em cerca de 600 AC.
Aí repousaram por mais seis meses, plantando e colhendo trigo outra vez, e em Maio levantaram âncora outra vez na direcção NNE sempre com o sol à direita e ao longo da costa do Sahara Ocidental e de Marrocos, entrando finalmente nas Colunas de Hércules (estreito de Gibraltar) e abordado a Cadiz, depois Málaga, e finalmente Cartago. No segmento final da viagem, elese saíram de Cartago em direcção ao Egipto aonde chegaram em Setembro. No todo, a viagem tinha percorrido cerca de 30.000 quilómetros e durado três anos completos.
É interessante notar que em 2010 uma expedição num navio semelhante aos navios usados pelos fenícios daquele tempo realizou com êxito a mesma viagem, comprovando a viabilidade desta famosa viagem.
Viagem de Hanão ao Golfo da Guiné
O Périplo de Hanão (Periplus Hannonis em latim) é um texto clássico que descreve uma viagem levada a cabo por uma grande expedição cartaginesa
de 60 embarcações e 30.000 homens ao longo da costa da África até ao
Golfo da Guiné, liderada pelo legendário navegador cartaginês Hanão (Hanno) coadjuvado pelo seu amigo Himilco nos
meados do século VI AC (há cerca de 2.600 anos atrás). A expedição começou na cidade de Cartago, perto
da actual cidade de Túnis, na Tunisia, atravessou as Colunas de Hércules
(estreito de Gibraltar), subiu ao porto de Gades (Cadiz) na Península
Ibéria, e desceu a costa do actual Marrocos, chegando às Ilhas Canárias,
onde estiveram alguns dias e encontraram algums aldeias de Guanches, os povos ancestrais dessas ilhas.
Daqui rumaram sul em direcção ao Cabo Bojador, na costa do Sahara
Ocidental, passando pela baía de Arguim em direcção à foz do rio Gâmbia (ou Senegal?), seguindo a costa até à foz do rio Cacheu e arquipélago dos
Bijagós na actual Guiné-Bissau.
Gravura alegórica da expedição de Hanão de Cartago ao longo da costa de África até ao Golfo da Guiné, século VI AC.
A
partir deste ponto a plausibilidade do resto da viagem é questionada
por muitos estudiosos. Contudo, a descrição do Périplo de Hanão continua
com a expedição rumando sudeste, ao longo da costa da Serra Leoa, e para leste já na actual Costa do Marfim. Daqui continuaram rumando sempre leste até passarem a foz do rio Volta (onde um piloto foi comido por um crocodilo) e chegarem à Ilha de Bioco
(Fernando Pó), já no centro do Golfo da Guiné.
Aqui
o Périplo descreve dois acontecimentos muito interessantes: O primeiro é
da vista de muitos fogos à noite a saír da boca de uma montanha muito
alta, provavelmente uma erupção vulcânica do Monte Camarões. De facto, eles deram o nome de Camarões ao vulcão, de Carro dos Deuses (camer + ayoun = carro dos deuses, em língua fenícia, Theon Ochema em grego, e Chariot of Fire em inglês).
Segundo Heródoto nas suas "Histórias", soldados de Hanão aprisionam uma gorila fémea na costa de África, no século VI, AC.
O segundo é que encontraram uns hominídeos muito fortes e peludos, a que deram o nome de gorilas.
Eles tentaram apanhar alguns gorilas, mas só conseguiram apanhar três
fémeas que lutaram ferozmente pela sua liberdade, acabando por as matar e
trazer as suas peles para bordo. Plínio, o Velho, confirma que as
peles das gorilas fémeas ainda estavam expostas no Templo de Tanit, em
Cartago, quando esta cidade foi arrasada quatro séculos e meio mais
tarde em 149 AC pelos exércitos romanos durante as Guerras Púnicas.
A
plausibilidade do último segmento da viagem é disputada por muitos,
invocando razões válidas. O primeiro argumento é sobre a sobrevivência
da viagem que estaria a navegar há já muito tempo sem a possibilidade de
carregar mantimentos para tão longa viagem; o segundo é um argumento
geográfico - talvez eles não tenham chegado ao Monte Camarões (um vulcão
que muito provavelmente tenha entrado em erupção), mas sim à Serra Leoa
em que queimadas postas pelos seus habitantes estivessem a arder (uma
prática agrícola ancestral muito comum nessa região), que se situava
cerca de 2.000 quilómetros menos (a Oeste). O terceiro argumento invoca a
impossibilidade do uso de barcos de vela quadrada na viagem de regresso
ao Mediterrâneo, pois teriam que navegar contra os ventos em águas
sempre muito conturbadas.
Esboço da viagem de Hanão ao Golfo da Guiné no século VI AC
O
tamanho da esquadra também é questionado, pois tudo indica que seria
muito difícil (se não impossível) juntar e apetrechar uma armada de 60
navios e 30.000 homens nesse tempo, para uma média de 500 por navio, o que é um número exagerado para os navios desse tempo. Contudo, é perfeitamente plausível
armar uma expedição mais pequena de talvez um terço ou mesmo um quarto desse tamanho.
O
próprio texto do Périplo de Hanão parece não estar completo, aventando a
hipótese de que se tenha perdido o resto da descrição, pois acaba
bruscamente na descrição do Monte Camarões e não faz qualquer referência
aos detalhes da longa viagem de regresso.
Contudo, depois de toda esta discussão, o certo é que para além das citações desta extraordinária viagem nos textos clássicos de História Natural de Plínio, o Velho, de Anabasis de Alexandre VIII de Arrian de Nicomedia, e nasfamosas Históriasde Heródoto de Halicarnasso (aclamado por muitos como o "Pai da História"), existe uma cópia do manuscrito do Périplo em língua grega (a Palatinous Graecus) na Universidade de Heidelberg na Alemanha, e uma parte do Vatopedinus 655 no Museu Britânico em Londres e na Biblioteca Nacional de Paris.
Viagem de Píteas (Pytheas)
Cerca de 250 anos mais tarde, no século IV AC (cerca 325 AC), um navegador de nome Píteas de Massalia (Marselha) completou uma viagem marítima de grande relevo histórico. Ele partiu de Marselha, no Mediterrâneo com destino ao Oceano Atlântico, mas desta vez em direcção a norte ao longo da costa da Península Ibérica, costa de França, Cornualha, canal Inglês, subindo para norte ao longo da costa lesta das ilhas Britânicas, Escócia, e ilhas Orkney (Orcas), Faroé, e Shetland, rumando então para a costa da Noruega, entrando na foz do rio Vistula à boca do Mar Báltico, e regressando ao longo da costa alemã e holandesa, e tomando o mesmo caminho de regresso a partir da costa da Bretanha até de volta a Marselha.
Estátua de Píteas no Palácio da Bolsa de Marselha
A viagem de Píteas foi a primeira expedição mediterrânica às regiões nórdicas da Europa, que registou notas curiosas sobre as marés como consequência da proximidade da Lua, os mares gelados (gelos flutuantes), a ausência de noite no solestício de verão, e a abundância de ambar. Píteas foi também o primeiro navegador a indagar a existência da ilha mítica de Thule.
As descrições de Píteas são confirmadas pelo famoso geógrafogrego Estrabão (63 AC - 24 DC) na sua "Geographica", na "História Mundial" de Diodoro da Sicilia, e na "História Natural" de Plínio (23-79 DC), se bem que disputadas em muitas instância por Estrabão.
Estrabão (Strabo)
O sábio grego
Estrabão de Amasya (63 a.c.- 24 d.c.), nascido de uma família
abastada da Ásia Menor, foi um dos grandes geógrafos da antiguidade, tendo dedicado a
sua vida ao estudo e à descrição escrita de viagens. Ele foi também um filósofo e
historiador notável.
Gravura do famoso geógrafo Estrabão de Amasya (63 a.c. - 24 d.c.) mostrando o mundo conhecido no seu tempo
Estrabão foi educado em Nisa, na actual Turquia, e teve entre os seus
professores os maiores mestres do seu tempo. Aos 21 anos ele mudou-se
para Roma, de onde partiu para vária extensas viagens. Ele visitou todo o
Mediterrâneo, as Ilhas Britânicas, a Península Ibéria, a Gália
(França), a Germânia (Alemanha), os Alpes, a Itália, a Grécia, a
Anatólia (Turquia), o Mar Negro, a Ásia Central, o Médio Oriente, o
Norte de África, e o Egipto, tendo até subido o rio Nilo.
Capa do volume XVII da "Geographica" de Estrabão (Strabonis Rerum Geograficarum), edição de Isaac Casaubon, de 1620.
Ele deixou uma obra extensa, mas a sua obra principal é o livro
"Geographica", que é um registo em dezassete volumes de todos os povos e
países conhecidos no seu tempo. A "Geographica", que ele publicou
por volta do ano 25 d.c., é uma verdadeira enciclopédia geográfica em
que descreve em detalhe os governantes, as sociedades e suas economias,
culturas, e a geografia de quase toda a Europa e o Mediterrâneo do seu
tempo.
Claudio Ptolomeu
Claudio
Ptolomeu, nasceu em Ptololemaida no Alto Egipto, então província
romana, cerca do ano 87 D.C. e morreu em Alexandria cerca ano 168.
Cidadão romano, e egípcio helenizado, ele foi talvez o expoente mais
alto do conhecimento no seu tempo. Ele foi um polímato deixando
obras-chave em matemática, astronomia, geografia, astrologia, física,
óptica, teoria da musica, e filosofia, que influenciaram profundamente o conhecimento
no mundo helénico, na civilização muçulmana, no Levante, e em todo o
Mediterrâneo. Mais tarde, a sua vasta obra havia de guiar o conhecimento
na Europa medieval por cerca de 1.400 anos, através da tradução árabe
dos seus textos originais em grego.
Ptolomeu
viveu e trabalhou em Alexandria, no Egipto, entre os anos 120 e 145 da
era cristã. Ele foi um dos últimos sábios helénicos a reunir e
sintetizar todo o trabalho de sábios gregos da antiguidade. As suas
obras, escritas em grego, foram traduzidas para o árabe, e já na idade
média, para o latim em toda a Europa.
O grande polímato Claudio Ptolomeu de Alexandria (90-168), xilogravura de 1508.
Contudo,
foi na geografia e na astronomia que a influência da sua obra se fez
sentir mais profundamente e por mais tempo. A sua obra "He Mathematike Syntaxis" conhecido por "Almagesto - Tratado Sistemático Matemático"
- título da tradução árabe, propondo que o planeta Terra (de forma
esférica e estacionária) ocupava o centro do universo (geocentrismo), à
volta do qual os outros corpos celestes (Sol, Lua, planetas, e estrelas)
se revolviam em epiciclos, foi o texto de referência na Europa até ao
Renascimento, quando Nicolau
Copérnico (1478-1543), Galileu Galilei (1564-1642), e Johannes Kepler (1571-1630) divulgaram os princípios e fórmulas da nova teoria héliocentrica. O "Almagesto" era dividido em 13 livros relatando todo o trabalho se sábios gregos da antiguidade, especialmente de Hiparco de Niceia (190 AC- 120AC), considerado o mais importante astrónomo da Grécia Clássica.
Foi
também Ptolomeu quem primeiro desenvolveu a projecção cónica
equidistante, chegando assim ao conceito de coordenadas geográficas (ele
via a latitude como "climatas" como reflexão das mudanças de clima com a latitude,e
a longitude como meridianos). Foi ele quem primeiro classificou as
grandes zonas da terra como tórrida, temperada, e frígida (polar), com
base nas variações do clima, e na diversidade de vegetação e nos animais
selvagens, e delineou o movimento do Sol de acordo com as estações do
ano, estabelecendo o conceito de trópicos (Cancer a norte e de
Capricórnio a sul do equador), e estudou as fases da Lua. Com base nos
conceitos de latitude e longitude que ele desenvolveu, os trabalhos de
Ptolomeu permitiram a representação de superfícies esféricas em bases
planas, tão bem explicado no seu "Tratado Astrológico - Os Tetrábilos (Quatro Livros"). Ele não deu tanta importância ao estudo da longitude, pois nesse tempo os navios navegavam sempre com terra à vista.
Planisfério
do Mundo conhecido no tempo de Ptolomeu. Ele identifica
claramente a Europa, a África, e a Ásia, mas omite o oceano Pacífico e as
Américas (então desconhecidos nesse tempo) e mostra
erroneamente o Oceano Índico como um oceano fechado a sul por um outro
continente, a que ele chamou "Terra Incógnita" (a Antártica?).
Ele
formulou a adaptação da astrologia horoscópica à filosofia natural
aristotélica o que veio a permitir o desenvolvimento do primeiro
planisfério (nas suas palavras definido como achatamento da esfera) e
publicação do primeiro "Mapa Mundi -
Ecúmena". Por fim, ele publicou a "Geographike Hyphegesis", que era um guia para desenhar a terra, conhecida na Idade Média como "Geographia".
Como astrónomo, Ptolomeu foi o primeiro a estudar as três dimensões do espaço, e a aperfeiçoar os trabalhos de Hiparco de Niceia (190 AC - 120 AC) na catalogação de 1.022 corpos celestes, dos quais 172 ele próprio descobriu. Ele publicou a sua "Analema e Phaseis"
sobre a ascensão das estrelas fixas, apresentando um calendário sobre a
ascenção e ocaso das estrelas na esfera celeste, e fez os cálculos para
as suas famosas "Tabelas Práticas Astronómicas", e foi o primeiro a desenvolver o astrolábio para
calcular a altura de um corpo celeste acima da linha do horizonte. É de
relembrar aqui que nesse tempo ainda não se tinha descoberto o
telescópio.
Ptolomeu
via o planeta Terra como centro do Universo, de acordo com a concepção
aristotélica milenar que reinou até Copérnico e Galileu nos séculos XV e
XVI, com todos os outros corpos celestes girando à volta da Terra fixa
no centro do universo. Ele foi também um astrólogo de nota.
No
campo da óptica, ele estudou os raios luminosos das estrelas, advogando
que a luz das estrelas sofre um desvio quando atravessa a atmosfera. No
campo da teoria da música e da acústica, ele foi o primeiro a constatar
que as notas musicais podiam ser traduzidas em linguagem matemática.
Ele escreveu também um tratado, a que deu o título de "Harmonica", sobre música em três volumes.
A Relevância da Cidade de Alexandria
Nos
parágrafos acima, eu mencionei várias vezes a cidade de Alexandria, na
costa do Egipto. Contudo, é justo salientar que Alexandria, além de uma
cidade muito bonita, ela foi um dos grandes centros de conhecimento da
Antiguidade.
Fundada por Alexandre Magno
em 331 A.C. para servir como capital e entreposto entre a Grécia e o
Egipto, Alexandria serviu como capital do Egipto por cerca de mil anos,
até à sua conquista pelos muçulmanos no ano 641 D.C.
Gravura do Farol de Alexandria, uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo.
Como
outras cidades fundadas por Alexandre Magno (no total ele criou 27
cidades com o mesmo nome de Alexandria), Alexandria foi projectada por
um arquitecto (Dinócrates), e não se desenvolveu sem obedecer a regras
estritas de planeamento urbano. Alexandria era uma cidade deslumbrante
com jardins fantásticos, que em breve se tornou o centro de educação e
saber mais importante das civilizações helénica, império Romano, e
civilização árabe.
Uma
aula pública da polímata Hipátia de Alexandria. Aguarela de Robert
Trewick Bone (1790-1840), no Centro de Arte Britânica na Universidade de
Yale (EUA).
Em
tempo, Alexandria tornou-se a capital do Egipto sob a égide da dinastia
ptolomaica, tornando-se uma das cidades mais importantes e prestigiosas
do Mediterrâneo. A sua biblioteca foi uma das maiores bibliotecas do
mundo antigo, e o seu farol era considerado uma das Sete Maravilhas do
mundo antigo. Muitos dos sábios da antiguidade aprenderam e lecionaram
na Grande Biblioteca de Alexandria. A sua biblioteca tinha mais de
40.000 rolos de papiros, reflectindo a totalidade do que era eantão
conhecido. Já no período de domínio romano, e depois do seu apogeu, por
falta de financiamento e apoio oficial, a Grande Biblioteca de
Alexandria entro em declínio, e acabou por ser acidentalmente destruída
por um incêncio começado pelas tropas do imperador romano Júlio César (100-44 AC) no ano 48 D.C.
Uma rendição em AI da Raínha Cleópatra (69-30 AC) do Egipto na Biblioteca de Alexandria.
"Os Elementos" de Euclides
É dificil falar sobre Alexandria, e não mencionar a figura do grande matemático Euclides de Alexandria.
Apesar de muito pouco se saiba sobre a sua vida privada, ele viveu em
Alexandria por volta do ano 300 A.C. Ele foi um matemático, geómetra, e
lógico. A sua obra principal "Os Elementos" dividida em
treze livros,stabeleceu os fundamentos da geometria plana que havia de
dominar o pensamento matemático por mais de 2.000 anos até aos meados do
século XIX.
O papiro de Oxirrinco, mostrando uma página de uma tradução grega dos "Elementos" de Euclides, datado de cerca 75 a 125 D.C.
Euclides
não só deixou uma teoria completa e coerente da geometria plana, como
também deu um grande avanço no método matemático, pois ele deduziu de
uma forma lógica e sistemática teoremas a partir de axiomas dentro de um
sistema lógico perfeito. Além d'"Os Elementos", Euclides deixou outras obras importantes como a "Óptica", (uma introdução à óptica), "Dados" (sobre a metodologia da geometria), "Fenómenos"(um
tratado de astronomia), e ""Sobre as Divisões"(divisões da figuras
geométricas e proposições sobre as cónicas). Algumas das suas obras
importantes, como "As Cónicas", "Os Pseudaria", "Os Porismos", e o
"Superfícies Loci" perderam-se para sempre, não havendo qualquer
tradução.
Frontispício
das obras "Elementos" e "Data" de Euclides de Alexandria. Edição
inglesa de 1661, usada durante algumas décadas na Universidade de
Oxford.
Os
postulados de Euclides são de uma qualidade didáctica notável; ele
começa com definições, avança para postulados e teoremas claramente
demonstrados, chegando finalmente a leis fundamentais da matemática. A
sua obra não só dominou o conhecimento europeu, mas também o árabe.
Depois da Biblia Sagrada, os "Elementos" de Euclides foram até
recentemente o livro mais traduzido, publicado e estudado na história do
pensamento ocidental.
Hiparco de Niceia
O cosmógrafo Hiparco de Niceia fazendo observações da esfera celeste
Alexandre "O Grande" / ou "Magno"
Imagem de uma aula do filósofo Aristóteles ao discípulo de Alexandre Magno
As Campanhas de Alexandre, o Grande , à Ásia Central e Índia
Alexandre, o Grande (também conhecido por Alexandre Mago) nasceu em 356 AC, filho do rei Felipe da Macedónia. Aos 14 anos tornou-se aluno do filósofo grego Aristóteles. Aos vinte anos assumiu o trono para substituir o seu pai que tinha sido assassinado. Em
334 AC, com apenas 22 anos de idade, organizoua sua primeira expedição militar e atravessou Ádsia
Menor com uma força de 30.000 homens e 5.000 cavalos contra os persas,
derrotando o Rei Dario. Em
331 AC ele avançou para a Síria, Fenícia, e Egipto, onde fundou a famosa
cidade de Alexandria na costa norte da África. Ele atravessou depois a Jordânia, conquistou a Babilónia, e derrotou o rei Dario na sua capital milenária de Persépolis já em
território persa. Aqui ele engrossou os seu exército para 120.00
homens e 15.000 avalos. Continuando
para leste, ele atingiu as margens do Mar Cáspio, prosseguindo ainda
mais para leste, ele chegou ao Afeganistão e a Samarcanda até às margens
do rio Indo. Daqui ele passou pelo Punjabe e seguiu em direcção sul
para o delta do Industão. Nesta longa expedição, ele atravessou a Anatólia, a Trebizonda, o Iraque, a Pérsia, a Bactria, o Coracone (Karakorum), visitando as cidades de Samarcanda e Xanadú, já nas terras altas de Cachemira, Planalto do Pamir, e o Tibete.
Extensão do Império de Alexandre, o Grande, de 334 AC a 323 AC, e percurso das suas conquistas e cidades principais.
Ele
decidiu então começar a viagem de retorno à Grécia. Ele dividiu as suas
forças em duas colunas, uma a seguir por mar ao longo da costa do Mar
Arábico até ao Golfo Pérsico, e outra por terra, atravessando o deserto de Gadrosia até de regresso a Persépolis. Daqui, ele continuou para oeste para a Babilónia.
Na sua memorável expedição, ele fundou muitas cidades, às quais em pelo menos 28 vezes ele receberam o nome de Alexandria em sua honra e memória. O governo destas cidades foram dados a comandantes destacados dos seus exércitos. A uma das cidades, Bucéfala, ele deu o nome do seu cavalo Bucéfalo, que o acompanhou em inúmeras batalhas.
Alexandre, o Grande (356-323 AC), comandando os combates no seu cavalo Bucéfalo, durante a Batalha de Issus contra o Rei Dario III da Pérsia em 333 AC. Mosaico encontrado numa casa em Pompeia, hoje no Museu Arqueológico Nacional em Nápoles.
Com a sua morte prematura, apenas aos 33 anos de idade, na Babilónia em 323 AC, devido a uma indisposição após uma orgia, o seu império rapidamente se desmembrou em quatro grandes impérios, chefiados pelos seus generais mais chegados. No Egipto, o desmembramento do império de Alexandre deu origem à dinastia Ptolomaica, que havia de reinar o Egipto por mais de três séculos, e fazer de Alexandria a cidade mais famosa no mundo de então. Neste processo, a cultura helénica dispersou-se através do Mediterrâneo e a Ásia Menor.
A Expansão Marítima dos Viquingues
a desenvolver
Navegantes do Pacífico
Uma viagem de navegadores polinésios em direcção ao Tahiti. Figura do séc. XVIII.
a desenvolver
Mapa da dispersão humana nos oceanos Pacífico e Índico
Rota da Seda
O que foi a Rota da Seda?
a desenvolver
A antigo Rota da Seda, durante a dinastia Han (202 AC-9DC, 25DC-220DC)
A viagem de Marco Polo ao Cataio (China)
Uma figura não coeva (Séc. XIX) de Marco Polo
Os irmãos Polo - Nicolo e Matteo, e o sobrinho Marco Polo. 26 anos na Ásia.
As grandes viagens de Marco Polo - Seguiu a antiga e milenar Rota da Seda - Veneza, Levante, Pérsia, Ásia Central, Bactria, Samarcanda, Taclamecão, Planalto do Pamir, Sha-Shu, Shangdu, China (Cataio), encontro com o Kublai Khan. Viagens na China. Viagem de regresso por mar - Indochina, Sumatra, Índia, Ormuz, Tabriz, Trebizonda, Jerusalém, e Veneza.
Impacto do seu livro - Il Millione - As Viagens de Marco Polo, o melhor best-seller na Idade Média, ditadas enquanto prisioneiro em Génova em 1298.
(1254–1324) foi umComerciante e aventureiro venezianoque se tornou um dos exploradores mais famosos da história por sua jornada de 24 anos pela Ásia. Viajando ao lado de seu pai e tio, ele percorreu aRota da Seda, chegando finalmente à corte deKublai Khan, o imperador mongol da China.
Vida e legado
Corte de Kublai Khan: Polo passou 17 anos na China, servindo como diplomata e emissário de confiança do Khan, o que lhe permitiu explorar regiões até então desconhecidas pelos europeus.
As Viagens de Marco Polo: Após retornar a Veneza em 1295, ele foi capturado durante uma guerra com Gênova. Enquanto estava na prisão, ditou suas aventuras a um companheiro de cela, Rustichello da Pisa. O livro deles, originalmente intituladoIl Milione, apresentou aos europeus maravilhas asiáticas como o papel-moeda, o carvão e o serviço postal.
Impacto global: Seus relatos detalhados inspiraram gerações de exploradores posteriores, principalmente Cristóvão Colombo, que, segundo consta, levou uma cópia do livro de Polo em sua primeira viagem
As grandes viagens terrestres e marítimas de Marco Polo de 1271 a 1295
As viagens de Ibn Batuta
A desenvolver - Quem foi Ibn Batuta?
Ibn Batuta visitando ruínas romanas no Norte de África, gravura, 1850s
Ibn Batuta foi o maior viajante e explorador árabe do século XIV - Levante, Índia, China, África Oriental, Mediterrâneo, e Península Ibérica.
Mapa das cinco grandes viagens de Ibn Batuta (1325-54)
O Pensamento Original de Ibn Khaldoun
Ibn Khaldoun nasceu em Tunis em 1332, seus pais morreram de peste negra em Túnis em 1348. Historiador, filósofo, clérico, jurista, político, diplomata, sociólogo, economista, e demógrafo. Percursor das ciências sociais na Idade média. Viveu em Espanha (Granada e Sevilha), na Argélia, no Egipto (Alexandria e Cairo), e na Siria. Morreu no Cairo em 1406.
Busto não coevo do grande pensador Ibn Khaldoun, na Kasbah de Bejaie, na Argélia
Livro 1 - Obra principal "Mugaddimah (Prolegomena - Introdução) - História do Mundo - uma história universal socio-económica e geográfica dos impérios
Livros 2 a 5 - História Mundial até à época do autor
Livro 6 a 7 - Historiografia sobre os Berberes e do Magreb
Inventor das ciências sociais
Filósofia - Ibn Khaldun enfatiza a faculdade humana de pensar
(fikr) como determinante do comportamento humano e de seus
padrões onipresentes. Essa faculdade também inspira os seres humanos a se
organizarem em uma estrutura social, cooperando na divisão do trabalho e na
organização. Segundo Zaid Ahmand, em Epistemologia e a Dimensão Humana
nos Estudos Urbanos , a faculdade do fikr é o pilar
fundamental de todos os aspectos filosóficos da teoria de Ibn Khaldun
relacionados às tendências espirituais, intelectuais, físicas, sociais e
políticas dos seres humanos.
Sociologia - differença entre a vida nómada e sedentária; inevitável perda de poder quando os guerreiros conquistam uma cidade. Ideia-chave : "asabiyyah" - coesão do grupo; solidariedade; coesão leva grupos ao poder.
História - quando uma sociedade se torna uma grande civilização, o seu auge é seguido por um período de decadência. For Ibn Khaldoun a história das civilizações é um ciclo sem fim de crescimnto e decadência.
Economia - O indivíduo não pode por si só obter todas as necessidades da vida - todos os seres humanos devem cooperar para esse fim. O trabalho combinado produz mais do que as necessidades dos trabalhadores. Teoria do valor-trabalho, teoria fiscal, escassez, política monetária intrínseca, a divisão do trabalho é fundamental para o desenvolvimento económico; e crescimento económico.
Ciência Política - O Estado é uma necessidade da sociedade humana para conter injustiça interna. Todas as sociedades precisam de um estado para se governarem. O excesso de bureaucracia, como impostos e legislação levam ao declínio de uma sociedade.
Educação - Papel da tradição educacional para garantir que as novas gerações continuem a aprimorar as ciências e a cultura.
O pensamento de Ibn Khaldoun teve poucos seguidores imediatos pois não foi muito divulgada, mas foi extremamente original e amplo. Ele foi o grande percursor de muitas ciências socias que só se viriam a tornar campos científicos específicos, como a economia e a sociologia, cinco séculos mais tarde.
A lenda do Preste João das Índias (a desenvolver)
Detalhe de uma gravura mostrando o mítico Preste João das Índias, potentado cristão da Etiópia
As Viagens do Almirante Zheng He
O Almirante Zheng He foi
um eunuco muçulmano que nasceu na província de Yunan em 1371 e foi escolhido pelo
Imperador Yongle (1360-1424) nos primeiros anos da dinastia Ming para
comandar uma grande iniciativa diplomática e comercial aos principais
potentados no Oceano Índico (Mares Ocidentais). No total, ele fez sete
grandes viagens.
Nesse tempo, a capital da China era a cidade de Nanquin, a chamada capital das "Seis Dinastias", conhecida pela sua deslumbrante arquitectura, a Muralha e os Portões da Cidade, e o Templo de Confúncio, e como centro principal milenário de educação, cultura, e gastronomia chinesa.
Gravura
do junco gigante chinês comandado pelo célebre almirante muçulmano e eunuco Zheng
He (de nome original Ma Sanbao, 1371-1433) numa das suas sete grandes
viagens ao Oceano Índico. Repare-se o seu tamanho gigante comparado com
uma caravela portuguesa (abaixo à direita) usada por Vasco da Gama na sua
viagem de descobrimento do caminho marítimo para a Índia.
As viagens de Zheng He ao Oceano Índico foram ordenadas pelo imperador chinês Yongle, o terceiro da dinastia Ming, em 1405 e 1433. A armada, composta por centenas de navios, foi a mais poderosa até ao seu tempo, foi comandada pelo Almirante Zheng He, era composta por centenas juncos, alguns deles gigantes de mais de 130 metros, nove mastros, e três convés, construídos nos estaleiros em Shangai equipados com
compartimentos de água independentes, cadaste do leme, bússolas, e
cartas e mapas em papel. Os navios levavam água fresca e mantimentos
para toda a viagem, e artigos de comércio de luxo para troca com o
intuito de atrair a atenção dos governantes das terras visitadas e
enaltecer a importância e prestígio da dinastia Ming. Os artigos de luxo
incluiam seda, chás, faiança fina chinesa, tecidos pintados e bordados,
objectos em ouro e prata, objectos de adorno pessoal, e produtos manufacturados.
Retrato coevo do famoso almirante chinês/muçulmano e eunuco Zheng He (1371-1433), que comandou a armada das sete viagens lendárias ao Oceano Índico (1405-1433)
Cada
viagem levou entre 20.000 a 32.000 pessoas, incluindo marinheiros,
soldados, diplomatas, astrónomos, médicos, intelectuais, ervanários, artistas, e comerciantes, bem como cada navio
estava bem amuniciado com espadas, canhões, bombas, e foguetes para se
defenderem.
Estátua do Almirante Zheng He, no templo Sam Po Kong, em Semarang, na Indonésia.
A
sua primeira viagem realizou-se em 1405 com uma esquadra composta por
62 navios e 27.800 marinheiros, tendo visitado Champa (no actual
Vietname), Sião (Tailândia), Malaca, e a ilha de Java, depois
atravessando o golfo de Bengala, e indo até Calicute na Costa do
Malabar, e a ilha de Ceilão (a antiga Taprobana, hoje Sri Lanka,
evocada por Luis de Camões, nos seus "Lusíadas"), regressando à China em
1407.
A mítica ilha de Taprobana (Ceilão / Sri Lanka), situada ao sul da Índia, narrada por Luís de Camões nos seus "Lusíadas"
Na
sua segunda viagem Zheng He visitou os portos de Calicute e Cochim nas costas de Malabar e Coromandel,
tendo derrotado o rei Alagonakkara de Ceilão, que o trouxe prisioneiro
para Nanquim na China. Logo no ano seguinte, Zheng He embarcou na sua
terceira viagem; desta vez ele atingiu o golfo de Oman e o estreito de
Ormuz, no Golfo Pérsico, e no regresso a esquadra aportou em Samudra, no
extremo norte da Ilha de Sumatra. Em 1413 ele embarcou na sua quarta
viagem parando nos portos mais importantes na costa indiana de
Coromandel, dobrou a ilha de Ceilão seguindo na direcção noroeste para o
Mar Arábico, tendo alguns navios da sua esquadra visitado os portos de
Dofar (em Oman) e Aden (no Iémen) na Arábia. De Aden, a esquadra entrou
no Mar Roxo que subiu até Jeda. Aqui, ele organizou uma embaixada a
Meca e continuou a viajar norte até ao Egipto. No regresso, a frota
rumou sul ao longo da costa da África Oriental (Somália e Quénia),
chegando quase a Moçambique. Na sua viagem de regresso à China Zheng He
trouxe consigo enviados diplomáticos de quase trinta potentados dos
reinos que ele tinha visitado para se encontrarem pessoalmente com o
Imperador Yongle.
Em
1421 ele voltou a viajar - a sua sexta grande viagem - com o objectivo
de retornar os emissários diplomáticos da sua viagem anterior às suss
terras de origen, tendo visitado uma vez mais os portos mais
importantes do sudoeste da Índia, Arábia, e África Oriental.
Extensão das grandes viagens do Almirante Zheng He, realizadas entre 1405 e 1433.
Entretanto,
o Imperador Yongle morreu em 1424, tendo sido sucedido pelo Imperador
Honxi (1378-1425), que num erro geopolítico estratégico da maior
dimensão, mandou de imediato suspender a missão de Zheng He, o
que haveria de moldar a
supremacia mundial nos próximos cinco séculos.
Apesar
de tudo, Zheng He voltou ao mar em 1431 na sua sétima e última grande
viagem, tendo visitado outra vez a costa da Índia, o Golfo Pérsico, o
Mar Roxo (Vermelho) e a costa oriental de África. Ele morreu em Calicute
na sua viagem de regresso em 1433.
Com
a sua frota gigante, Zheng He chegou a dobrar o Cabo das Tormentas na
ponta sul de África. Como consequência directa das suas viagens, o
prestígio do império chinês atingiu o seu zénite durante a dinastia
Ming, através do estabelecimento de postos comerciais chineses através
de toda a Ásia (excepto Japão) e da consequente colonização e influência
chinesa nessas regiões.
Em termos de ciência náutica, tecnologia de construção naval, e apesar do seu tamanho gigante, os juncos de Zheng Ho não
eram tão manobraveis e versáteis como a caravela e o galeão português que haveriam de dominar os mares oitenta anos mais tarde.
Ainda
hoje, o dia 11 de Julho é celebrado na China como Dia Nacional da
Navegação em comemoração da primeira viagem de Zheng He. Como nota de
rodapé, é interessante mencionar que eu aprendi no Metropolitan Museum
of Art de Nova Iorque que a primeira girafa chegada à China, foi trazida
por Zheng He do porto de Melinde na costa oriental de África para a
Cidade Proibida como presente ao Imperador Yongle em 1414.
Acreditava-se então que a girafa era um qilin, uma criatura mítica semelhante a um unicórnio que simbolizava então a virtude e harmonia perfeitas e governo legítimo.
Gravura
da primeira girafa trazida por Zhen He em 1414 para a Cidade Proibida (Pequim) como presente especial para o Imperador Yongle da dinastia Ming.
O relator oficial das viagens foi Ma Huan (1380-1460), um muçulmano nascido na China que que falava bem as línguas árabe e persa, que deixou um registo escrito muito detalhado e completo das viagens de Zheng He. Ma Huan era um homem muito curioso e sempre sedento de saber. Em todos os portos que a armada visitou, Ma Huan perguntou sempre nos locais uma infinidade de perguntas acerca da geografia da terra, e religião, história, costumes, tradições, sistemas políticos, culinária, e mercadorias das cidades que visitou.
Os Descobrimentos Portugueses
Eu
acredito que a epopeia dos Descobrimentos Portugueses foi um dos
momentos mais marcantes da História da Humanidade. Do canto sudoeste da
Europa, durante pouco menos do que um século (1420-1520), as naus
portuguesas sairam em demanda de terras e mares ainda não conhecidos na
Europa, chegando às paragens mais remotas acabando por "trazer novos
mundos ao mundo", e com eles novas terras, gentes, animais, plantas, e
ideias consolidando, pela primeira vez, tudo num só mundo. Esta epopeia
não somente abriu o Novo Mundo, ela foi a semente de um mundo novo.
Os Infantes Dom Henrique e Dom Pedro, o livro de Marco Polo guardado no Tombo Real de Dom Manuel (Outro liuro de letra de penaque se chama Marco Paulo coberto de veludo cremesym com duas brochas de prata anylada), e o Plano da Índia.
A viagem de Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva em demanda da Etiópia
Gravura contemporânea do grande poeta português Luís de Camões (1524-80), autor da epopeia poética "Os Lusíadas", 1577.
Cabe-me
transcrever aqui os três primeiros versos dos Lusíadas de Luis de
Camões (1524-80), pois para mim melhor que ninguém ele conseguiu
reflectir tão bem a importância universal do grande feito dos
Descobrimentos Portugueses:
As armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo reino, que tanto sublimaram;
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertanto:
Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte
Cessem do sábio Grego e do Triano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandre e de Trojano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que antiga Musa canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
Planisfério das grandes viagens dos navegadores portugueses, Museu da Marinha, em Lisboa
Epopeia dos Descobrimentos Portugueses como um Momento Fulcral na Evolução da Humanidade
(em desenvolvimento)
A Ordem de Cristo
Até aos fins do seculo XIII, a Ordem dos Templários
(oficialmente a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de
Salomão) era a ordem militar/religiosa mais rica e famosa da Europa.
Contrariamente a todas as outras ordens religiosas, esta ordem era
consituída por soldados, não frades, com a principal função de escoltar
cristãos depois das Cruzadas na sua peregrinação ao Santo Sepulcro em Jerusalém,
e prontos para lutar pela expansão da Cristandade (e consequente
extremínio dos inféis árabes). Eles participaram activamente nas
Cruzadas e usaram a sua rede de praças militares para estabelecerem a
primeira rede bancária internacional de pagamentos ligando a Europa a
Jerusalém (onde se encontrava o famoso Templo de Salomão no Levante /
Médio Oriente).
Um
peregrino que fosse à Terra Santa ou um comerciante que comprasse um
bem num mercado longínquo pagava localmente no forte dos Templários mais
próximo, e o mesmo pagamento era feito por via de cheque ao
destinatário descontado meses mais tarde a milhares de quilómetros de distância.
Com as comissões ganhas nesse valioso serviço bancário, eles tornaram-se muito
ricos e poderosos, o que levou o Papa nessa altura a dissolver a ordem
em quase toda a Europa e Médio Oriente. É de notar que não havia seguro
para estas operações bancárias, pois em caso de morte do peregrino na
viagem (o que era muito comum), os fundos revertiam a favor da Ordem do
Templários.
Imagem
dos Templários numa cruzada a caminho de Jerusalém, com a abóboda do
Templo da Montanha ao fundo. Ao contrário do resto da Europa, em
Portugal, a ordem dos Templários não foi extinta; ela foi substituída
pela Ordem de Cristo, o que haveria de vir a influenciar a história de
Portugal e do Mundo durante os próximos cinco séculos.
Antes da ascenção financeira das familias Medici em Itália, e Fugger e Welser
na Alemanha, os Templários foram os principais banqueiros na Europa, em
especial para o comércio que os mercadores de Veneza trocavam com o
Levante, actuando como emprestadores a estados, cambistas, aceitando
depósitos, e realizando transferências bancárias.
A proibição da usura pela Igreja Católica foi uma das razões que o Papa Clemente V, sob instâncias do rei Filipe IV de França, invocou para dissolver (bruscamente e com violência) a Ordem dos Templários na Europa em 1312, através da bula Vox in excelso,
pelo que o comércio bancário passou gradualmente a ser controlado por
comunidades judias espalhadas pelas muitas cidades que emergeram nessa
altura através da Europa e não sujeitas a jurisdição religiosa de Roma.
Poucos anos depois, o rei português D. Dinis pediu ao Papa João XXII para que a Ordem dos Templários
não fosse extinta em Portugal e que as suas propriedades não fossem entregues à Ordem dos Hospitalários, mas sim a uma nova ordem a ser criada em Portugal pois ainda poderia vir a ser útil para a
Reconquista cristã da Península Ibérica - a Ordem de Cristo, com sede na vila de Tomar em Portugal, medida que recebeu a aprovação do Papa através da bula Ad ea ex quibus de 1319.
Imagem
de um dos claustros do Coinvento de Cristo em Tomar, hoje classificado
como Património Cultural da Humanidade. Imagem obtida da National
Geographic de Portugal.
Se
bem que a nova Ordem de Cristo não tivesse participado em qualquer operação militar importante
na Reconquista da Península Ibérica, ela foi talvez a
instituição que mais se engajou e promoveu a epopeia dos Descobrimentos Portugueses.
Desde soldados a protectores, de financiadores a banqueiros, de navegadores a cosmógrafos, e de
estudiosos a arquivistas, eles foram o alfobre dos ideiais da expansão
ultramarina portuguesa. De facto o Infante Dom Henrique, como Grão Mestre da Ordem de Cristo em Portugal, e o seu irmão o príncipe Dom Pedro, primeiro duque de Coimbra, foram os grandes impulsionadores desta empresa histórica.
Gravura
do Infante Dom Pedro, Duque de Coimbra (1392-1449), detalhe do painel
da Adoração de São Vicente, de Nuno Gonçalves, no Museu Nacional de Arte
Antiga de Lisboa, cerca 1450-70.
O infante Dom Pedro
(1392-1449), filho de Dom João I e de D. Filipa de Lencastre, também duque de
Coimbra e irmão do Infante Dom Henrique, foi regente de Portugal entre
1439 e 1448 durante a menor idade do seu sobrinho o rei Dom Afonso V.
Ele foi um homem que viajou muito entre 1418 e 1428 através da Europa,
Terra Santa, e Império Otomano passando até a ser conhecido por Dom Pedro das Sete Partidas,
e de uma visão e cultura extraordinárias. Ele foi um mecenas da cultura e um dos
promotores iniciais da expansão portuguesa. Segundo Jaime Cortesão na
sua obra "Os Descobrimentos Portugueses I", Livros Horizonte 1975, foi o infante Dom Pedro quem primeiro traduziu para o latim e para o português em Portugal o famoso "Livro de Marco Polo",
a partir de uma cópia que ele tinha trazido consigo numa das suas
viagens a Veneza. Ele morreu em 1449 na Batalha de Alfarrobeira.
Monumento aos Descobrimentos Portugueses, em Lisboa
O mundo desse tempo estava dividido e sete grandes grandes mercados que sé parcialmente se complementavam:
a - a Europa com um número muito grande de reinos, principados, e ducados que comerciavam muito activamente entre si já desde os tempos da Liga Hanseática que ligava os portos do Báltico ao Norte da Europa;
b - o Levante, que incluia Oriente Médio, a Arábia, a Persia, e a Ásia central, incluindo a Rota da Seda, dominados pelos Otomanos;
c - a África Ocidental fornecia ouro, escravos, e sal ao Egipto e à Arábia
d - a Índia e a Insulíndia dominados pelos portugueses e holandeses
e - as Américas com muitas nações índias dominadas por Espanha e Portugal;
f - a África cujos muitos pontos na costa eram dominados pelos Portugueses, mas com o interior controlado por potentados locais;
g - e a Ásia com vastas regiões independentes como a Insulíndia, China e o Japão, mas com portos na costa controladas por Portugueses e Holandeses.
Até cerca de 80 anos depois da descoberta do caminho marítimo para a Índia pela frota de Vasco da Gama em 1498, Lisboa tornou-se o maior centro comercial da Europa, e uma das cidades mais ricas do planeta. Figura de Theodor De Bry, 1592.
Haviam sete rotas de comércio internacionais principais:
1 - a principal, dentro da própria Europa para uma grande variedade de artigos oriundos de todo o mundo; outra entre os potentados Otomanos e Árabes e as repúblicas Italianas (Veneza e Génova) para produtos exóticos e, especiarias;
2 - entre a Índia, a China e a Europa por terra da através da antiga e extensa Rota da Seda para faiança fina, tecidos (seda), especiarias, mobiliário, artigos de luxo;
3 - entre os mesmos mercados (Índia e China e Europa), mas através rota marítima do Cabo. Da Insulíndia vinham principalmente especiarias - gengibre, nóz-moscada,
canela, cravo-da-índia, açafrão, cardamomo, pimenta, coentro, cominho,
cajú, chá, e muitos aromas de caril.
4 - entre as Américas (especialmente incluindo as Antilhas) e a Europa para produtos coloniais, com destaque para minérios ricos (principalmente ouro e prata), açúcar, algodão, e tabaco.
5 - entre África Ocidental e o Egipto e o Norte de África iam escravos, ouro, sal, e marfim, por terra através do deserto do Sahara,
6 - Entre a África Central e Ocidenta ouro e marfim para a Europa e escravos para as Américas.
7 - havia ainda, se bem que mais distante, um significante volume de
comércio directo de prata e faiança, entre as Américas e
o Extremo-Oriente (a Carreira de Manila entre Acapulco no México e Manila nas Filipinas) através do imenso Oceano Pacífico.
Painel em papel desdobrável em doze blocos (um Nambam) mostrando a chegada de um galeão português ao porto de Nagasaki para comerciar, e o seu capitão a ser recebido por quatro japoneses cristãos. Nambam do período Edo (1625-75).
A Espanha no Oceano Pacífico - A Carreira de Manila
A Espanha foi a primeira potência europeia a ter colónias nas costas Este (México na América Espanhola) e Oeste (arquipélago das Filipinas) do Oceano Pacífico. Desde cedo estas colónias espanholas estabeleceram relações comerciais importantes usando como elo de ligação a Carreira de Manila. Esta consistia numa caravana anual de três ou quatro galeões que transportavam pessoas e mercadorias entre essas duas regiões.
A rota da Carreira de Manila foi estabelecida pela expedição de de Miguel Lopez de Legazpi em 1564, (45 anos depois da chegada de Fernão de Magalhãesàs Filipinas) de que Andrés de Urdaneta recebeu o crédito, e em que o escravo luso-africano Lopo Martin teve um papel preponderante.
A rota ligava as cidades de Acapulco, na costa sudoeste do Oceano Pacífico do México, e Manila, capital da colónia espanhola das Ilhas Filipinas, fundada em 1571, num percurso de ida-e-volta de cerca de 30.000 km, a carreira marítima comercial mais longa do mundo até 1815, período da guerra de independência do México (1810-1821).
As rotas seguiam as linhas dos ventos e correntes marítimas sazonais, partindo os navios de Acapulco em Janeiro, rumando directamente a oeste até às Filipinas,e de Manila em Julho, primeiro rumando Nordeste até chegar à costa do Japão, depois directamente este (perto do paralelo 35º Norte até atingir o Cabo Mendocino na costa da Califórnia, e finalmente rumando sudeste ao longo da costa do México, até chegar a Acapulco.
Estima-se que durante os cerca de 250 anos da Carreira de Manila, que 181 galeões completaram 798 viagens, e que 40 se perderam em naufrágios ou foram aprisionados por corsários (principalmente ingleses).
Mapa das rotas de ida e de volta dos dos Galeões de Manila (1565-1815)
De facto, Acapulco e Manila eram os entrepostos comerciais finais que se ligavam com redes comerciais locais e regionais trocando um grande número de mercadorias. Acapulco estava ligada por terra a Vera Cruz, o principal porto mexicano na costa atlântica, através das caravanas de mulas de carga que atravessavam a Serra Madre do Sul. Acapulco estava também ligada às minas de prata no México (Zacatecas, Pachuca,e Guanajuato), ao Panamá e Porto Belo, e às inesgotáveis minas de prata do Cerro de Potosi no Alto Perú (hoje Bolívia). Por sua vez, Vera Cruz estava ligada directamente por mar ao porto de Havana, na Ilha de Cuba. Como porto espanhol principal nas Américas, era de Havana que a "carreira das Índias" partia todos os anos para o porto de Sevilha, no sudoeste de Espanha.
Por sua vez, Manila era o nódulo principal de uma rede comercial muito extensa que incluia todo o extremo-oriente e Insulíndia, nomeadamente:
- do Japão (Nagasaki) de onde vinham ambar, facas e espadas, mobílias, e artigos em cobre e bronze;
- da China (Macau) e da Ilha Formosa (Taipé) de onde vinham tecidos e vestuário em seda, porcelana chinesa, tapetes, brinquedos, peças de mobiliário e arcas de cânfora, e estatuetas em jade, e artigos religiosos, todas a troco de prata;
- da Conchichina (Hanoi), Sião, Camboja, Malásia (incluindo Malaca e Acheh) vinham o ébano, marfim, pedras preciosa (rubis e safiras);
- da Índia (Cochim, Bengala e Pegu/Birmânia), de Ceilão (Colombo), e de Sumatra e Java (Batávia) vinham tecidos de algodão, esculturas em madeira, mobiliário, especiarias, pedras preciosas e diamantes;
- para sul, Manila estava ligada a Bornéu, e às Ilhas das Especiarias (Celebes, Molucas, e Banda), e de Timor de onde vinham madeiras preciosas como o sândalo, canela, cravo da Índia, e noz moscada.
Todo este comércio era levado a cabo por uma rede densa de comerciantes e agentes comerciais de várias nacionalidades, que incluia muitos portugueses, holandeses, ingleses, franceses, espanhois, japoneses, filipinos, e principalmente chineses. Em Manila, os europeus viviam afluentemente dentro do perímetro da muralha que rodeava a cidade, ao passo que os filipinos e chineses ( (a maioria) viviam extra-muros. O comércio em Manila era dominado por comerciantes chineses. A prata, produzida no México e no Alto Perú era a principal moeda de troca.
Esta rota foi importante para o comércio mundial durante dois séculos e meio. É de notar que a China só aceitava a prata como forma de pagamento para as suas exportações de seda e loiças, pelo que a maior parte da produção de prata das colónias espanholas seguia directamente do Perú para as Filipinas e China como moeda de pagamento.
Um galeão de Manila rodeado de nativos Chamorros em canoas na Ilhas Marianas (Ilhas dos Ladrões, como as chamou Fernão de Magalhães em 1521), no Oceano Pacífico. Gravura de 1590, autor desconhecido.
Em termos de impérios coloniais, o mais importante era o espanhol que incluia imensos territórios nas Américas e nas Filipinas; o império Português, que era uma talassocracia de entrepostos comerciais e militares, composto de três regiões distintas (Brasil, costa de África, e costa da Índia); Holandês com colónias nas Antilhas e na Insulíndia; e Inglês com as treze colónias na costa leste da América do Norte e algumas ilhas nas Antilhas. A França controlava extensos teritórios na América do Norte - Quebec e todo o interior da Louisiana até aos Grandes Lagos, subindo o curso do rio Mississipi.
Mapa-Mundo mostrando as mais famosas viagens de exploração por terra e por mar na época dos Descobrimentos, e as culturas e produtos principais oriundos de cada região (em Inglês).
A corôa espanhola tinha o maior império, abrangendo o sudoeste dos actuais Estados Unidos, a Califórnia, o México, toda a América Central, as ilhas de Cuba, Porto Rico e Santo Domingo, e a metade norte, oeste, e sul da América do Sul. Para facilitar a administração de tão extenso império, a corôa espanhola dividiu o império em quatro vice-reinos principais (Nova Espanha, com capital na cidade do México, cobrindo todos os territórios na América do Norte e Central, Caraíbas, e Filipinas; Perú, com capital em Lima, cobrindo o resto da América do Sul; Mais tarde, já no século XVIII, o vice-reino do Perú foi dividido em dois: do Perú propriamente dito, e de Nova Granada, com capital em Santa Fé de Bogotá, abrangendo os actuais territórios do Panamá, Equador, Colômbia, e Venezuela (a antiga federação da Grã-Colômbia); e o vice-reino do Rio da Prata, com capital em Buenos Aires, que abrangia a actual Bolívia, Paraguai, Chile, e Argentina.
Mapa do Império Espanhol nas Américas, nos fins do sé. XVIII. Este mapa não mostra as Ilhas Filipinas, no Pacífico Ocidental, que estavam também sob o domínio espanhol.
A primeira tentativa da colonização portuguesa do Brasil teve como base o regime de capitanias hereditárias que tinha sido usado na colonização das ilhas da Madeira, Açores, Cabo Verde, e São Tomé. A primeira donataria brasileira foi conferida pelo rei Dom Manuel I a Fernão de Noronha para a ilha que havia de receber o seu nome em 1504. Em 1532 a costa do Brasil foi dividida em quinze lotes de cerca de cem léguas de comprimento de costa cada e conferida a doze donatários sob o regime de capitanias hereditárias, e em 1549 a administração do Brasil foi recuperada pela corôa e centralizada sob a autoridade de um governador-geral (mais tarde vice-rei).
Passadas que foram algumas décadas, o balanço da experiência das capitanias hereditárias não foi o que se esperou. De facto, apenas duas, a de Pernambuco a norte, atribuída a Duarte Coelho, e a de São Vicente, a sul, atribuída a Martim Afonso de Sousa, é que conseguiram sobreviver o grande desafio que se esperava delas - a de Pernambuco pela sua relativa proximidade de Portugal, pela riqueza de madeira do pau-brasil, e pela qualidade das suas terras que mostraram condições ideais para a cultura da cana-de-açúcar; e a de São Vicente pelo facto de ser a boca do vale que levava as férteis terras já um tanto povoadas do planalto do Piratininga (São Paulo). Um segundo factor no sucesso da capitania de São Vicente foi o excelente tacto militar e administrativo do donatário Martim Afonso de Sousa.
Mapa das Capitanias Hereditárias na costa brasileira, 1532. Apenas duas capitanias hereditárias prosperaram - a de Pernambuco de Duarte Coelho (a norte) e a de São Vicente de Martim Afonso de Sousa (a sul).
Na costa oriental da América do Sul (no Brasil), os portugueses dominavam (Maranhão, Pará, Pernambuco, Bahia, Espírtito Santo, Rio de Janeiro, e São Vicente), tendo entrado inicialmente muito para o interior, principalmente ao longo da bacia do Amazonas, no vale do rio São Francisco, e no Chaco e Mato Grosso.
Na região sudeste (Minas Gerais, Rio de Janeiro, e São Paulo) o padrão de colonização foi diverso. O território de Minas Gerais desenvolveu-se graças à descoberta de grandes jazigos de ouro e diamantes nos princípios do séc. XVIII; o Rio de Janeiro devido principalmente à sua função de capital política e administrativa do vice-reino, reino, império, e finalmente república federativa, e à expansão da cultura do café nos fins do séc. XIX; e São Paulo à grande expansão da cultura do café durante o mesmo período, e à industrialização acelerada durante as primeiras décadas do séc. XX.
A região Sul (Paraná, Santa Catarina, e Rio Grande do Sul), dominada pela bacia do rio Paraná (rio caudaloso em tupi-guarani) foi desde cedo esparsamente povoada por madeireiros no séc. XVI (a palavra Curitiba quer dizer pinheiral na língua tupi-guarani).
Até à assinatura do Tratado de Madri em 1750, esta região era parte dos domínios da corôa espanhola, então sob forte influência das missões e reduções jesuíticas. No século seguinte, a região foi alvo das expedições dos Bandeirantes, que abriram a região à colonização europeia. Já nos fins do séc. XIX, a região sul tornou-se o destino preferido para grande número de imigrantes açorianos, italianos, alemães, e polacos que desenvolveram muito a capacidade agrícola e pecuária da terra.
Sonhos Franceses no Brasil
França Antártica - Quando um dia o rei da França Francisco I discutia com diplomatas
espanhois a validade universal do Tratado de Tordesilhas, sancionado pelo Papa em 1494 entre os reis de Portugal e Castela, ele afirmou
"Eu gostaria de ver a cláusula no testamento de Adão que me afastou da
partilha do mundo", como manifestação reprovando a sua validade universal pelos outros reinos europeus.
De facto, desde a chegada dos portugueses ao Brasil, a corôa francesa mostrou sempre um interesse especial em estabelecer colónias na costa brasileira. A França foi a primeira potência europeia a extrair pau-brasil (le brézil) e a comerciá-lo activamente na Europa através do portos de Rouen, Dieppe, e Saint-Malô, o que resultou em dar o nome de Brasil a toda a costa oriental da América do Sul, antes mesmo dos portugueses, que chamavam à região terra de Vera Cruz.
Em 1530 haviam já várias povoações francesas na região da baía de Guanabara (Rio de Janeiro), e em 1555 Nicolas Durand de Villegaignon organizou uma esquadro com o intuito de estabelecer uma colónia calvinista francesa (huguenotes) no Rio de Janeiro, contratando o Almirante Gaspard Comte de Coligny como almirante da frota. Uma vez na baía de Guanabara, de imediato Villegnaignon mandou construir um fortim de madeira como semente da nova cidade de Henriville, capital da França Antártica, que em 1560 já mostrava sinais de certa prosperidade.
Detalhe do mapa da antiga colónia da França Antártica, na Baía de Guanabara, Rio de Janeiro, Brasil, (1555-65) indicando a capital de Henriville (Fort Colingy), na Ilha de Villegaignon, reconquistada pela armada portuguesa de Estácio de Sá em 1565.
Apesar de um certo sucesso inicial, a vida na colónia francesa da França Antártica nunca foi fácil. Problemas de abastecimento, de disciplina, de disputas religiosas, e de falta de mulheres, e dos sempre iminentes ataques portugueses, tornaram a vida impossível em Henriville. Entretanto, como medida efectiva para combater a influência francesa na região, o rei português Dom João III estabeleceu em 1532 o regime de capitanias hereditárias na costa brasileira.
Em Fevereiro de 1565 apareceu na baía de Guanabara uma esquadra portuguesa composta por nove navios e cerca de duzentos homens sob o comando de Estácio de Sá, sobrinho do governador Mem de Sá, que sitiou a guarnição francesa durante três semanas. Os franceses tinham-se aliado aos índios Tamoio, e os portugueses por seu lado tinham-se aliado aos índios Tupiniquim, inimigos rivais dos Tamoio. Perante a não submissão da guarnição francesa, os portugeses atacaram no dia 18 de Março e os franceses viram-se obrigado a render-se dois dias depois. A resistência francesa em pequena escala continuou por mais dois anos até que em 1567 Henriville foi competamente destruida, os franceses foram expulsos, e a nova cidade portuguesa de São Sebastião do Rio de Janeiro foi fundada, acabando de vez com o sonho francês da França Antártica.
França Equinocial - Como disse acima, havia algumas décadas que navios franceses visitavam regularmente a costa do Maranhão no norte do Brasil com o fim de obter pau-brasil. Em 1593 um corsário e comerciante de pau-brasil de nome Jacques Riffault, que conhecia muito bem a região, voltou para a França com o intuito de assegurar suporte militar e administrativo para fundar a colónia francesa de Maragnon. Em 1604 os índios Tupinambá mostraram interesse em converterem-se ao cristianismo e aliaram-se aos franceses contra a presença portuguesa na região. Nesse tempo, a linha do Equador era chamada a Linha Equinocial, daí o nome de França Equinocial, pois o território do Maranhão situava-se logo a sul do Equador.
Vista alegórica da antiga cidade de Saint Louis de Maragnon, na colónia da França Equinocial, 1612. Imagem colorida por AI.
Depois de algumas dificuldades, este objectivo foi atingido em Julho de 1612, quando uma forte expedição de três navios e quinhentos homens sob o comando de Daniel de la Touche de la Ravardiére chegou ao Maranhão. Celebrou-se a primeira missa no dia 12 de Agosto, e a 8 de Setembro deu-se início à construção da fortaleza, que levaria à fundação da cidade de São Luis do Maranhão, que se passou a designar como capital da França Equinocial.
Quando o rei Felipe II da União Ibérica (de Portugal e Espanha) soube desta medida francesa, ele determinou logo de seguida a formação de uma expedição naval militar comandada por Jerónimo de Albuquerque que chegou a São Luis em Novembro de 1614. As forças portuguesas atacaram a cidade acabando por vencer a guarnição francesa. Em Novembro do ano seguinte La Touche entregou São Luís aos Portugueses e foi metido a ferros com destino a Lisboa, onde passou três anos encarcerado na Torre de Belém. Acabou assim o sonho francês da França Equinocial.
É importante mencionar que os interesses franceses na América do Sul não cessaram. Em Setembro de 1711, o corsário francês René Duguay-Trouin à frente de uma poderosa frota de 18 navios, 5.764 homens, 740 peças de artilharia, e 10 morteiros apareceu ao largo do Rio de Janeiro e atacou a cidade. Perante tamanha força, o governador militar português Castro Morais não teve outra alternativa senão pagar um pesado resgate de 600.00 cruzados, 100 caixas de açúcar, e 200 bois para evitar que a cidade não fosse destruída. No regresso a França, a frota de Trouin foi atingida por uma violenta tempestade na qual perdeu dois navios principais e 1.200 homens.
Ainda hoje, uma reminiscência da presença francesa na costa norte da América do Sul é o enclave da Guiana Francesa, mesmo a noorte da fronteira do Brasil.
Como Luanda, a cidade de São Luis do Maranhão foi tomada de assalto pela Companhia Holandesa das Índias Ocidentais em 1641, um ano depois da restauração da monarquia portuguesa, e reconquistada pelos portugueses em 1644, quatro anos antes de Luanda em 1648.
Os Bandeirantes na História do Brasil
A acção dos Bandeirantes é um capítulo especial da História do Brasil que merece uma breve referência. Os Bandeirantes eram aventureiros, pioneiros, e exploradores que organizados em grupos (bandeiras) durante os séculos XVI e XVII se metiam sertão adentro em busca de escravos índios para trabalho forçado, e de metais preciosos.
Mapa
da América Portuguesa (Brasil) depois do Tratado de Madri, 1750. As
rotas em castanho indicam as principais "entradas" dos Bandeirantes no
século XVIII para o interior, a partir de São Paulo, Rio de Janeiro,
Salvador, e Recife. As áreas sombreadas a azul indicam territórios em
que se fez sentir mais a acção dos jesuítas através das suas reduções e
missões até 1759.
As expedições saiam principalmente de São Paulo na região Centro-Sul do Brasi, que duravam entre seis a nove meses cobrindo centenas de quilómetros para o interior do Mato Grosso, Goiás, e Minas Gerais, apesar de algumas que chegaram até Manaus na Amazónia terem durado mais de três anos e coberto muitos milhares de quilómetros.
Na procura de índios para escravizar, os Bandeirantes entraram em conflito com os jesuítas no sul do Brasil e no Paraguai, que tinham organizado as comunidades índias em Missões (reduções). Estas missões foram frequentemente atacadas por Bandeiras que resultaram em verdadeiras razias.
Com a extensão das suas entradas bem no interior do continente, os Bandeirantes permitiram a ocupação pelos portugueses de um extenso território a oeste da linha do Tratado de Tordesilhas, acabando por dar ao teritório brasileiro a sua imensa extensão. Com o Tratado de Madri, assinado entre Portugal e Espanha em 1750, as provisões do Tratado de Tordesilhas foram extintas e a ocupação dos territórios explorados pelos Bandeirantes foram reconhecidos como fazendo parte do Brasil. Na região do Pantanal (no Mato Grosso) muitas entradas eram feitas de barco que cobriam extensas áreas alagadas. Esses bandeirantes eram chamados de "monçoneiros", porque o calendário das entradas seguia o ciclo natural das cheias, a que chamavam "monções".
O acampamento de uma entrada de monçoneiros, bandeirantes que seguiam rotas fluviais algures no Pantanal, Mato Grosso, Brasil, no séc. XVII. Na imagem podem ver-se escravos índios e africanos. Imagem melhorada por AI.
O legado dos Bandeirantes na história do Brasil é controverso. Muitos criaram e promoveram o mito de heróis que numa epopeia extraordinária abriram as entranhas do país; ao passo que outros os vêem como mercenários brutais que mataram nações nativas inteiras, na ordem de milhões de pessoas.
Em termos de mão-de-obra, para alimentar os engenhos de açucar, minas, e mais tarde plantações de tabaco e algodão, a África foi sempre a principal fornecedora de mão-de-obra escrava desde os princípios do século XVI até aos finais do século XIX.
Já depois da abolição da escravatura e do tráfico de escravos, na segunda metade do século XIX, muitos trabalhadores indianos e chineses (já não como escravos, mas como trabalhadores "livres" contratados) foram trazidos para as Caraíbas e Guianas para trabalharem nos engenhos de açúcar, e na construção de caminhos de ferro nos Estados Unidos e no Canadá. Foi assim que muitas famílias madeirenses emigraram para as Ilhas Hawaii e Suriname (Guiana Holandesa), e açoreanas emigraram para o estado de Santa Catarina (Florianópolis) no sul do Brasil.
O representante da corôa portuguesa no Brasil era um capitão-general, mais tarde designado governador, e ainda mais tarde vice-rei. Nos últimos anos do domínio português, o Brasil foi governado directamente pelo rei de Portugal D. João VI, que se refugiou no Rio de Janeiro para fugir às invasões francesas a Portugal em Dezembro de 1808, estabelecendo o Reino Unido de Portugal e Brasil.
Ciclos Económicos na História do Brasil
A história económica do Brasil é com frequência dividida em ciclos. No início da colonização portuguesa, a economia brasileira assentava na exportação de pau-brasil e décadas depois produção de açúcar, e mais trade, já no século XVIII, na sua vasta riqueza em ouro e diamantes. Nos séculos XIX, o café passou a ser a principal produção brasileira. Hoje, o Brasil tem uma economia muito diversificada, mas continua a ter uma base agrícola e pecuária muito importante.
Em África, os portugueses estavam estabelecidos em Cabo Verde, nos portos de Bissau e Bolama, nas Ilhas de São Tomé e Príncipe, na costa da África Central dominavam toda a costa desde a foz do rio Zaire até à foz do Cunene. O papel da colónia de Angola no sistema económico colonial português era o de fornecedor de escravos. Luanda era a principal cidade portuguesa na costa de África.
Na região do golfo da Guiné desde a Serra Leoa até à costa de Loango (a norte de Cabinda) haviam muitas feitorias de vários países europeus que lá resgatavam ouro, escravos, marfim, e especiarias. Desta longa orla costeira, a Costa da Mina, mais tarde repartida em Costa da Malagueta, Costa do Marfim, Costa do Ouro, e Costa dos Escravos por causa da especialidade do comércio que predominava em cada uma das sub-regiões, era a base principal da maioria das feitorias europeias no Golfo. Feitorias eram povoações controladas por vários estados europeus onde o comércio de ouro, escravos, marfim, e especiarias realizava. As feitorias mais importantes eram portuguesas, holandesas, francesas, dinamarquesas, suecas, espanholas, e inglesas.
Os portugueses foram os primeiros comerciantes europeus a chegar à região, apesar de haver referência (não confirmada) de uma viagem levada a cabo pelo navegador chinês Hanon no ano 525 a.C. (cerca de mil anos antes) que descreve a erupção de um vulcão na região, único visivel do mar. A primeira feitoria portuguesa foi o Forte de São Jorge da Mina, construído em 1582, praticamente pre-fabricado em Portugal por Fernão Gomes, arrendatário do comércio de ouro e escravos na região, e remontado posteriormente tijolo a tijolo na costa do actual Gana.
O forte holandês d'Elmina, construído em 1641, principal feitoria europeia para resgate de escravos no Golfo da Guiné. Reconquistado pelos portugueses em 1648.
Em 1637, quatro anos antes da tomada de Luanda, os holandeses expulsaram os portugueses do antigo forte de São Jorge da Mina e construiram perto uma nova e maior fortaleza, o Forte de Elmina, com o objectivo de assegurar o fornecimento de escravos para o emergente Brasil Holandês.
Entretanto, outras feitorias europeias foram estabelecidas para regatar escravos, tornando-se a região aberta ao comércio livre de escravos à escala internacional, tornando-se a segunda mair fonte de escravos no mundo, a seguir à bacia do Congo e Angola.
Mapa das feitorias europeias no Golfo da Guiiné, séc. XVII
Na costa oriental, os portuguese dominavam um número de portos importantes (Inhambane, Ilhas Bazaruto, Sofala, Beira, Quelimane, Angoche, Moçambique, Cabo Delgado, Quíloa, Zanzibar, Pemba, Mombassa, e Melinde ) e de alguns territórios no hinterland (prazos na Zambézia, Sena, Tete, e Niassa). A economia colonial de Moçambique estava mais ligada à Índia Portuguesa do que a Portugal, mas o que atraiu os portugueses à região em meados do século XVI foram as minas de ouro do Monomotapa.
Mapa do império do Monomotapa, onde se encontravam as famosas minas de ouro, perto da cidade de Zimbabué, meados do século XVI, onde se encontram as famosas ruínas de Zimbabwe. Nesse tempo, os portugueses chamavam ao rio Zambeze, Rio Cuama.
Na Insulíndia, os portugueses perderam os ricos territórios de Ceilão, Malaca, e as ilhas das especiarias (Ilhas Molucas, Banda, Sunda, e Timor), que juntamente com Java e Sumatra passaram anos mais tarde a ser o centro de riqueza do império holandês na Insulíndia.
Mapa dos domínios portugueses na Insulíndia, meados do séc. XVI
Crise Religiosa na Europa - Reforma e Contra-Reforma
Depois de quase mil anos de supremacia não disputada na Europa, a Igreja Católica teve no Renascimento o seu maior desafio. A ideia de um novo homem, a proliferação de novas ideias, o início do pensamento científico, e o questionar dos dogmas que regiam a supremacia da Igreja, todos atacaram a base do poder da Igreja.
Para atender a este desafio existencial, a Igreja Católica adoptou uma série de medidas ao longo de um século e meio, que para além das excomunhões e autos de fé da Inquisição e da Contra-Reforma foram destinadas a cortar o mal da dissenção pela raíz. Infelizmente, o terror da Inquisição não foi suficiente, e a Igreja viu-se na necessidade de mudar de estratégia, e superar-se a si própria com novas soluções para novos desafios.
Martin
Lutero (1483-1546) com a sua Biblia protestante impressa em 1455 em
Wittenburg por Johannes Gutenberg (1493/1406- 68) começou o movimento
da Reforma Protestante, que havia de dominar os conflitos religiosos na
Europa durante os próximos trezentos anos.
Em resposta directa às 95 Teses de Martin Lutero (1483-1546) afixadas na porta da sua igreja em 1517 (que tinha sido excomungado pelo Papa Leão X em 1521), o Papa Paulo III (1468-1549) convocou em 1545 o XIX Concilio Ecuménico da Igreja Católica para a cidade de Trento, nos Estados Papais do norte da Itália, que veio a ser conhecido como Concílio de Trento, que decorreu naquela cidade até 1563, com o intuito de discutir reformas mais profundas na estrutura da Igreja que melhor poderiam revitalizar a Igreja dar respostas aos desafios postos pela Reforma Protestante.
Martinho Lutero (1483-1536), autor das 95 Teses. Retrato coevo feito por Lucas Cranach, o Velho, 1530,
Imagem do Musée International de la Réforme, Genebra, Suiça.
Entre as conclusões mais importantes do Concílio de Trento contaram-se a defesa e aprimoramento da doutrina católica através de maior disciplina e mais cuidadosa formação do clero, e a afirmação de que tanto a fé como as acções eram necessárias para a salvação, com especial atenção para os sete sacramentos. Neste concílio, a Igreja Católica reafirmou ainda a Vulgata Latina como a sua Bíblia oficial.
A resposta da Igreja Católica à Reforma Protestante foi acordada no
Concílio de Trento baseada numa estratégia dual simultânea de defesa e de ataque ao status-quo. A defesa assentou na
expansão da Inquisição (o Tribunal do Santo Ofício) como instituição repressiva e na expansão da acção do Índice de Livros Proibidos (Index Librorum Prohibitorum) que suprimia a dispersão de novas ideias, e o ataque na criação da
Companhia de Jesus como ponta-de-lança da nova evangelização católica.
Sessão geral do Concílio de Trento convocado pelo Papa Paulo III, realizado entre 1545-63. Gravura de Ela Maurizio (1589-1657), pintada em 1633, existente no Museo de Palazzo del Buenoconsiglio, em Trento, na Itália.
A Inquisição
No inicio da contra-reforma, muitos jesuítas colaboraram activamente na perseguição de cristãos-novos em Espanha e Portugal e no trabalho nefasto da Inquisição (liderada pelos padres Dominicanos), como foi o caso dos autos de fé em Lisboa, Coimbra, Évora, e Goa.
O tribunal do Santo Ofício da Inquisição, como era chamado, era uma polícia
religiosa tenebrosa conhecida pelos seus métodos àsperos de castigo -
desde vergonha pública, excomunhão, confiscação de propriedade, tortura,
castigos públicos, até morte na fogueira, que através dos seus "Autos de Fé"
levaram à morte de entre 3.000 a 5.000 vítimas em Espanha, cerca de
1.200 em Portugal, e 50 no Brasil entre 1485 e 1680.
Para fugir à
Inquisição, muitos cristão-novos fugiram de Espanha para Portugal em 1492, e
daqui para a Holanda, Brasil, Caraíbas, São Tomé, Angola, e Índia, acabando por
serem os pioneiros no povoamento europeu dessas regiões então remotas.
Gravura
mostrando vários métodos de suplício a heréticos usados pela
Inquisição. Note-se a presença do inquisitor e do escriturário para a
obtenção e registo de confissões de culpa das vítimas.
Os
crimes contra a fé católica julgados pela Inquisição eram muitos e
variados, incluindo heresia, cripto-judaismo, cripto-islamismo, animismo, feitiçaria, bruxaria, blasfemia, misticismo, usura, bigamia, e leitura e
posse de livros proibidos. A maior parte das vítimas eram judeus e
mouros e seus descendentes, homens de ciência, filósofos e pensadores
independentes, padres, e mulheres (especialmente parteiras, curandeiras,
e viúvas acusadas de bruxaria).
A Inquisição de Goa
foi o tribunal religioso que mais se destacou no ultramar português.
Entre 1560 e 1773, estima-se que 4.167 pessoas tenham sido castigadas em autos
de fé em Goa, que eram cerimónias públicas de grande pompa com a presença do
Vice-Rei e do Bispo de Goa, e assitidas por grandes multidões de
espectadores. As vítimas eram normalmente pessoas nativas acusadas
anonimamente de práticas religiosas hinduistas ou outros rituais
gentílicos, e judeus ou cristãos-novos portugueses fugidos de Portugal,
ou muçulmanos. Os autos de
fé começavam com uma grande procissão, seguida missa, cortejo para a
sentença, sermão, leitura da sentença, e punição imediata e cruel das
vítimas. As penas para os crimes
contra a fé investigados pelos quatro tibunais da Inquisição em Portugal
(Lisboa, Coimbra, Éora, e Goa) através dos Autos de Fé eram por norma
muito severos, variando de castigos corporais, a multas, trabalho
forçado, prisão, e sentença de morte.
Um
auto de fé na Inquisição de Goa, no séc. XVII. Os autos de fé eram
espectáculos públicos de crueldade organizados pela Igreja Católica que de certa forma lembravam as lutas de gladiadores
nos coliseus no tempo do império romano.
O Index Librorum Prohibitorum
O ìndice de Livros Proibidos (Index Librorum Prohibitorum em latim) foi uma lista publicada pelo Vaticano que continha uma lista de obras e autores heréticos considerados contrários aos ensinamentos da Igreja Católica. O Index foi criado em 1529, sob os auspícios da Sagrada Congregação do Índice (e só foi extinto em 1966) como resposta oficial da Igreja à explosão do número de impressoras independentes que foram estabelecidas imediatamente depois da invenção da imprensa por Johannes Gutenberg.
Até lá, a produção e divulgação de livros era ciosamente controlada pela Igreja. Os livros eram copiados à mão e guardados a cadeado nas bibliotecas dos mosteiros e da universidades, e a sua leitura só era permitida com licença especial da autoridade canónica local
Os impressores independentes eram vistos pela Igreja como rebeldes que avançavam heresias, pelo que o processo de publicação de qualquer trabalho em forma de livro, requeria uma licença prévia (imprimatur) especial da Igreja (na maioria dos casos) ou do rei como autoridade civil. As prensas tipográficas independentes eram activamente perseguidas pela Igreja e pelo estado, resultando na maioria dos casos em serem fechadas e incendiadas. Estima-se que nos primeiros cem anos depois da invenção da impressora movel por Gutenberg, mais de 500 prensas tipográficas independentes foram queimadas pela Igreja Católica.
A edição do Index Librorum Prohibitorum publicada pelo Papa Gregório XI em 1711. Note-se na figura à esquerda o papel do Espírito Santo a fornecer fogo para a queima de livros.
Antes da sua publicação, os livros eram sujeitos a um processo de revisão e censura composta por clérigos, que resultava na aprovação ou proibição da sua publicação. O primeiro Índice Romano foi publicado em 1557 pelo Papa Paulo IV (1555-59). Em breve o Índice se tornou num livro cada vez maior, contendo mais de 800 obras e autores na sua lista.
Com a expansão do Iluminismo na Europa nos séculos XVII e XVIII, o Índex tornou-se um dos instrumentos principais da contra-reforma católica nos países fiéis ao Vaticano (Portugal, Espanha, França, Estados Papais na Itália, e principados católicos na Alemanha (no Sacro Império Romano-Germânico).
Galileu Galilei (1564-1642) teve as suas obras listadas no Index Librorum Prohibitorum. Como resultado, ele foi obrigado a renunciar às suas ideias, e foi condenado pelo Tribunal do Santo Ofício (Inquisição) a prisão perpétua domiciliária em 1633.
Apesar dos esforços da Igreja, o Índice não conseguiu conter a expansão do conhecimento científico e a proliferação de ideias libertárias. A última edição do Índice, que continha uma lista de 4.000 títulos, teve lugar em 1948. No entanto, é curioso notar que algumas obras científicas listadas no Índice, eram estudadas nas universidades católicas.
A Companhia de Jesus
Nasceu assim em 1534 em Paris uma nova ordem católica, a Companhia de
Jesus, sob a iniciativa de Inácio de Loyola, aprovada pelo Papa Paulo
III em 1540 através da bula Regimini militantis Ecclesiae. Porém, esta ordem era muito diferente de todas as ordens anteriores, pois tinha uma nova postura quanto à
Contra-Reforma. Ela baseava-se num formação muito superior dos seus
membros e num esforço de evangelização muito mais aturado. Em breve os
Jesuítas se espalharam pelo mundo levando consigo métodos de educação
religiosa e instrução de nativos muito mais refinados.
No seu trabalho de evangelização, os jesuítas desenvolveram um novo método de trabalho baseado na inculturação de povos nativos e aristocracias locais, em que os padres da Companhia aprendiam a língua, história, tradiçoes e costumes, e organização social desses povos, focavam na educação, e ensinavam o apostolado católico tendo em conta esses variáveis culturais. Nomes como Francisco Xavier, Matteo Ricci, Bento de Gois, Roberto de Nobili, José Anchieta, Manuel da Nóbrega,
António Vieira, e Luiz Gonzaga tornaram-se assim os arautos da educação e
evangelização católica do mundo de então.
Anagrama da Ordem dos Jesuítas (Companhia de Jesus)
A Ordem dos Jesuítas (Companhia de Jesus) foi fundada em Paris em 1534 por Inácio de Loyola (1491-1556,
basco de nascimento) e cinco colegas chegados - Francisco Xavier, Nicolau Bobedilla, Pedro Fabro, Diogo Laynez, Simão Rodrigues, e Alfonso Salmeron, que estudavam no Colégio de Santa Bárbara da Universidade de Paris, quando juraram fidelidade na capela de Saint-Denis, em
Montmartre, aos Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola sob o lema "Ad maiorem Dei gloriam" (Para a maior glória de Deus),
e a sigla S.J. (Societas Iesu), que foram approvados pelo Papa Paulo
III em 1540.
Como em todas as ordens católicas nesse tempo, a "língua
franca" da comunicação escrita era o latim, que era usado não só nas
orações e na missa, mas também nas famosas "cartas", "sermões" e "relações" dos padres jesuítas que se vieram a a espalhar pelo mundo.
Imagem
de Santo Inácio de Loyola, SJ, destacando Frei Gonçalo da Silveira, SJ,
para trabalhar em Moçambique, Século XVI. Dom Gonçalo da Silveira foi
martirizado e estrangulado em 1561 pelo rei do Monomotapa Chisamharu, e o
seu corpo foi deitado ao rio, sob influência de mercadores árabes que
não viam com bons olhos a entrada dos portugueses no comércio de ouro do
Monomotapa.
A
ordem do Jesuítas foi a principal instituição católica especificamente designada a
combater os desafios da Reforma religiosa apresentados pelo luteranismo e
o calvinismo, que assolou a Europa nos séculos XVII e XVIII. O guia
fundamental da Ordem dos Jesuítas (Companhia de Jesus), os "Exercícios Espirituais", escritos por Inácio de Loyola,
definiam os parâmetros da formação e da vida de um padre jesuíta: votos
de caridade, castidade, obediência, e pobreza, oração intensa, educação
esmerada, formação intelectual avançada, dedicação à pregação, uma
vida apostólica muito activa, e um espírito de entrega total e aventura para onde quer que fosse destacado.
Com efeito, sinto que tenho de citar Jaime Balmes, em "Protestantism and Catholicity Compared", em 1849, mencionada por Jonathan Wright na sua obra "Os Jesuítas - missões, mitos, e histórias" , Editora Relume Ldª., Rio de Janeiro, 2006, "é impossível lembrar das instituições religiosas, da história religiosa, política e religiosa da Europa durante os três últimos séculos sem encontrar os jesuítas a cada passo do caminho: não se pode viajar aos países mais distantes, cruzar mares desconhecidos, visitar as terras mais remotas, ou penetrar os desertos mais aterradores sem encontrar em todos os lugares sob os nossos pés alguma marca dos jesuítas".
A história da Companhia de Jesus em Portugal, e consequentemente em Angola, foi sempre um pouco atribulada. Alguns autores dividem-na em quatro períodos principais:
a-
o primeiro período desde a criação da ordem em 1540 até à sua expulsão
de Portugal em 1759 pelo Marquês de Pombal, com consequências negativas para o ensino em Angola;
- o segundo período que vai desde 1834, quando os jesuítas são de novo expulsos de Portugal como consequência das lutas liberais, até 1848;
- o terceiro preríodo que vai desde 1848, ano em que o padre João Carlos Rademaker vindo da Itália restabeleceu a Província Jesuítica de Portugal e fundou o Colégio de Campolide em Lisboa em 1858, até 1910, ano em que a ordem foi de novo expulsa, como uma das consequência da implantação da república;
- e o quarto e último período, desde 1910 até à actualidade. Durante este período, a Companhia aumentou os seus efectivos, especialmente depois de 1941 (depois da assinatura da Concordata entre Portugal e a Santa Sé em 1940), e concentrou a sua acção no Estado da Índia até 1961, quando a União Indiana tomou militarmente Goa, Damão, e Diu, concentrando o seu trabalho depois nas províncias de Macau, Moçambique, Angola, e Timor. É de notar que durante todos estes quatro períodos, a Companhia de Jesus teve sempre uma presença muito marcante nas ilhas da Madeira e nos Açores.
Os Jesuítas em Portugal e no Mundo
A primeira província da Companhia de Jesus foi estabelecida em Portugal no reinado do rei Dom João III em 1540. Com grande appoio do rei, os Jesuítas depressa passaram a controlar em Portugal o ensino primário, secundário, e superior. Em 1537 eles passaram a operar a Universidade de Coimbra, em 1542 criaram o Colégio de Jesus (também conhecido como o Colégio das Onze Mil Virgens), e em 1553 assumiram o controlo do Colégio do Espírito Santo de Évora (depois Colégio do Sagrado Coração) em Évora, que o Papa Paulo VI promoveu o colégio a Universidade de Évora através de uma bula publicada em 1559, já no reinado do cardeal Dom Henrique.
A Universidade de Évora, fundada pela Companhia de Jesus em 1559.
Com o correr do tempo, eles estabeleceram colégios noutras cidades portuguesas como Braga, Bragança, Funchal, nos Açores (Angra do Heroísmo, Ponta Delgada, Horta, Faial, São Miguel, e Santa Maria), Faro, Portalegre, Santarém, Porto, Elvas, Faial, Setúbal, Portimão, Beja, e Gouveia, chegando a operar mais de trinta colégios servindo mais de 20,000 jovens. Vinte anos após o estabelecimento da Companhia de Jesus em Portugal, em 1560, eles tinham cerca de 400 membros; 620 em 1603, 770 em 1709, 861 em 1749, e 789 em 1759, ano da expulsão da ordem pelo Marquês de Pombal.
O complexo de edifícios do Colégio dos Jesuítas de Coimbra, também conhecido como Colégio das Onze Mil Virgens, um centro importante de educação jesuíta em Portugal, imagem de 1732.
A
educação dos jovens (rapazes) era o seu ministério principal. Para tal,
a formação de um Jesuíta era muito completa, longa, e rigorosa
conferindo ao padre jesuíta um nível de educação muito esmerado, muito
acima da média do homem de então. Para além da educação, os jesuítas
trabalhavam também nas cadeias, nos hospitais, no consolo a condenados à
morte, na assistência espiritual a populações pobres, e ajudavam em
epidemias e calamidades.
A Companhia de Jesus não só estabeleceu missões, colégios, seminários (para a formação de novos jesuítas) e universidades,
mas também destacou os seus membros individualmente para os lugares
mais remotos do mundo de então. Os Jesuítas trabalharam não só na Europa como também nas colónias dos reinos católicos no Novo Mundo e África, e nas terras distantes da Ásia, (Índia, Sião, Filipinas, China, Tibete, e Japão). Em 1542 foi estabelecida a Província jesuítica de Goa, e em 1549 a do Japão, e em 1583 foi estabelecida a Vice-Província da China. Em 1567, o Papa Gregório XIII através da bula Super specula militantis Ecclesiae criou a diocese de Macau, que abrangia "a China, o Japão e todas as ilhas adjacentes com as suas fortalezas, vilas, castelos, territórios, e distritos."
Uma alegoria à acção dos Jesuítas na Ásia - São Francisco Xavier promovendo os planos de expandir a evangelização jesuíta à China. Gravura de 1653.
O primeiro missionário jesuíta a ser destacado para trabalho missionário fora da Europa foi Francisco Xavier (o "Apóstolo do Oriente" - 1506-52), que veio a ser canonizado em 1622 (ao mesmo tempo que Inácio de Loyola) pelo seu trabalho de evangelização na Índia (Goa e Malaca), China (Macau), e Japão. O exemplo de Francisco Xavier foi seguido por gerações de jesuítas espalhados pelo mundo.
Imagem japonesa de Francisco Xavier (1506-52), o Apóstolo das Índias.
Em poucas décadas, os jesuítas espalharam-se pelo mundo, abrindo missões e colégios no Congo, em Angola, no Brasil(São Vicente, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Maranhão e Amazónia), em Moçambique, em Goa, na Etiópia, em Macau, em Cabo Verde e na Guiné, no Canadá, no Mississipi, na Flórida, na Argentina, no Paraguai, no México, no Perú, no Pegú (Birmânia), em Bengala, na Conchchina, no Cambodja, no Tibete, em Tonquim, no Laos e Sião, no Tibete, na China, no Japão, e nas Filipinas.
A Igreja do Bom Jesus em Goa (1605), o maior edifício construído pelos portugueses no Oriente.
Entre os muitos jesuítas notáveis, Matteo Ricci, S.J. (1552-1610) destacou-se como o primeiro missionário europeu a ser convidado a visitar o Imperador Wanli (1563-1620) da China da dinastia Ming na Cidade Proibida (então Pequim, a antiga e mítica cidade de Khanbalik, sede do Império do Meio, também conhecido como reino do Cataio, onde residio o Grande Kubilai Khan, tão falada por Marco Polo), onde acabou por viver a maior parte da sua vida. O trabalho missionário e intelectual de Ricci foi notável, porque focou na interacção e reconciliação das ideias de pensar e agir entre o ocidente e o oriente, especialmente entre as ideias do filósofo chinês Confúncio (551 AC-479 AC) e o teólogo e filósofo católico (doutor da Igreja) São Tomás de Aquino (1225-74).
O padre jesuíta italiano Matteo Ricci, S.J. (1552-1610), viveu na China entre 1583 até à sua morte em 1610, foi nomeado superior da Companhia de Jesus na Província da China em 1597, teve grande influência intelectual na corte do Imperador Wanli.
Em Maio de 1577, Matteo Ricci deixou Roma com destino a Lisboa, onde chegou em Julho do mesmo ano. Depois de uma breve estadia em Lisboa, ele visitou Coimbra, e embarcou para a Índia, chegando a Goa em Setembro de 1578, onde esteve estacionado até Abril de 1582, com uma breve estadia de cinco meses em Cochim no sul da Índia. Em Abril de 1582 ele foi destacado para Macau. No ano seguinte, ele foi destacado para a China, onde serviu até à sua morte em 1610.
Matteo Ricci era descendente de familias letradas na Itália. Ele acreditava que a expansão do cristianismo na China passava primeiro pela conversão das classes mais nobres, e que esta conversão tinha lugar primeiro no mundo das ideias (no conhecimento e na interacção intelectual e cultural). Ele acreditava que a filosofia de vida chinesa não era uma religião, e que havia uma boa oportunidade para cristianizar o país. Ele adoptou métodos de apostolado revolucionários para o seu tempo, como o uso da língua chinesa na interacção diária, e principalmente na escrita, no vestuário (ele vestia à chinesa), na culinária, na arquitectura, e na troca de ideias e propagação do conhecimento europeu. Ele acreditava firmemente no provérbio "Em Roma, sê romano". Esta interacção não era numa só direcção, pois ele acreditava também na difusão de ideias e práticas europeias, como foi o caso da introdução do pão de trigo e do tempura no Japão.
Como homem de saber, ele traduziu os Elementos de Euclides para chinês, e os textos clássicos de Confúncio para latim, e publicou o primeiro mapa-mundi em grafia chinesa. Foi também Matteo Ricci quem introduziu na China a grafia dos algarismos árabes, que substituiram a grafia tradicional chinesa.
O "Mapa Geográfico Completo das Dez Mil Nações" publicado por Matteo Ricci (1552-1610) em grafia chinesa.
Contudo, o que mais deslumbrou as camadas sociais mais altas na China foi a publicação do seu "mappamondo", em 1602. O "Mapa Geográfico Completo das Dez Mil Nações" ("Kunyu wanguo quantu" em chinês) é um mapa-mundo em seis grandes paineis, xilogravado em madeira, e impresso em grafia chinesa, que mostrou pela primeira vez o lugar do território da China no mundo, bem como os outros continentes e oceanos muito bem delineados, o que era uma novidade na China. O mapa incluia ainda mapas lunares, movimento dos planetas, e tabelas científicas, reunindo numa só fonte o conhecimento europeu e oriental desse tempo. Nesta importante obra, Ricci foi ajudado por Li Zhiao, o famoso matemático, astrónomo e geógrafo da corte Ming, e foi impresso na corte Ming por Zhang Wentao, de Hangzhou. O mappamondo de Ricci teve muitas edições, algumas delas pirateadas.
A Grande Viagem de Bento de Gois (ou Goes) à China
O grande explorador padre jesuíta Bento de Gois (1562-1607), que sob o patrocínio do rei português Felipe I e do imperador Grão-Mogol Akbar Babur, que lhe ofereceram salvo condutos e ajudaram custear a viagem, realizou a grande viagem entre a Índia e a China - de Lahore (no actual Paquistão) e Suzhou, na província de Jiangsu, junto à Grande Muralha da China - através das inóspitas e perigosas terras do deserto de Takla Mecão, Caracorum, planalto do Pamir (Tecto do Mundo), deserto de Gobi, Mongólia, e China, ao longo de quatro anos e de mais de 6.000 quilómetros de percurso.
Bento de Gois, nome de baptismo Luís Gonçalves, nasceu em Vila Franca do Campo, na Ilha de São Miguel, nos Açores em 1562. Ele ofereceu-se como soldado para a Índia. Aí conduziu uma vida boémia durante alguns anos até ter sentido uma revelação da Virgem na capela de Travancor, na Índia, que o levou a alistar-se na Companhia de Jesus em Goa, onde assumiu o nome de Bento de Góis.
Ele desde cedo se revelou pelas suas qualidades actuando como diplomata do Grão-Mogol Akbar Babur (1542-1605), de quem tinha conquistado a sua confiança. Ele manteve correspondência com o padre jesuíta Matteo Ricci, que estava estacionado na China. Bento de Gois foi escolhido para liderar uma viagem de exploração entre a Índia e a China subsidiada pelo rei de Portugal e o Grão Mogol. Ao
contrário da viagem do seu percursor, Marco Polo, pelas mesmas
regiões, o objectivo de encontrar comunidades cristãs nestorianas ao
longo do caminho nunca se viria a concretizar.
Devido à sua extensão, a preparação da viagem levou algum tempo, o que incluiu aprender línguas locais. Antes de partir e por razões de segurança e anonimato, Bento de Gois assumiu o nome de Abdullah Isaias ou Banda Abdullah (Mestre Cristão, Servo do Senhor) como mercador arménio. A viagem seria perigosa, seguindo uma das variantes da milenar Rota da Seda, o terreno era extremamente difícil, o clima muito rigoroso devido à altitude, a recepção à caravana ao longo da rota seria hóstil devido à religião, e a imunidade às doenças desconhecidas e perigosas seriam também um factor a ter em conta. Com efeito a caravana viria a ser assaltada várias vezes por bandos de ladrões, que lhes roubaram quase todos os haveres, incluindo alimentos, cavalos, e outros animais de carga.
Bento de Gois veio a morrer por doença em 1607 na cidade de Suzhou, não muito longe de Khanbalik, sem ter atingido o termo da viagem. Ainda hoje , na sua campa na cidade de Suchow pode ler-se "Aqui jaz Bento de Gois, que ao ter encontrado o Cataio entrou no paraíso".
A partir dos diários de viagens de Bento de Góis, Matteo Ricci compilou uma descrição da memorável viagem que veio a ser publicada na famosa "Relação anual das coisas que fizeram os Padres da Companhia de Jesus nas partes da Índia Oriental - nos anos de 1600 a 1609", da autoria do do Padre Fernão Guerreiro.
O Padre jesuíta António d'Andrada, primeiro europeu a visitar o Tibete em 1624.
Como disse acima, os Jesuítas portugueses viajaram aos lugares mais remotos da Terra. De facto, pouco menos de vinte anos mais tarde, o jesuíta português Frei António d'Andrada viria a ser o primeiro europeu a atravessar os Himalaias e a chegar ao Tibete. Em Março de 1624 ele partiu da cidade de Agra, na Índia, disfarçado de peregrino hindu, viajou até Delhi, e rumou norte atravessanto o famoso Passe de Mana, a 5.600 metros de altitude, onde enfrentou muita neve e frio. Em Agosto, ele finalmente chegou a Tsaparang, então cidade capital do Tibete Ocidental, e aí fundou uma missão católica e construiu uma igreja, concluída em 1626. António d'Andrada deixou a Missão do Tibete em 1629 e regressou a Goa para servir como Principal da Província de Goa, onde ele veio a morrer envenenado em 1624. Ele deixou uma descrição pormenorizada da sua memorável viagem na sua obra "Novo Descobrimento do Gram Cathayo ou Reinos de Tibete".
As famosas (e misteriosas) ruínas de Zimbabwe, visitadas pelo jesuítae mártir português frei Gonçalo da Silveira, S.J., e pelo governador Francisco Barreto mais tarde em 1561.
Em 1749 os Jesuítas tinham 669 colégios espalhados pelo mundo. Muitos colégios de jesuítas deram origem a grandes cidades como São Paulo do Piratininga no Brasil, e alguns tornaram-se mais tarde universidades de grande prestígio internacional. Pela sua militância, eles eram chamados os "soldados de Deus" e foram de facto os pontas-de-lança da luta da contra-reforma levada a cabo pela Igreja Católica durante os séculos XVII e XVIII no confronto com ideias iluministas emergentes nessa época.
Os jesuítas tinham um sistema único de produção e distribuição de informação: as suas "cartas" ou "relações", as chamadas "litterae indipetae", que cada missão ou colégio era encorajada a escrever regularmente ao Superior Geral da Companhia. As "cartas" eram relatórios periódicos que continham uma secção sobre estatísticas normais da actividade da missão ou colégio (lista de irmãos, alunos, baptismos, falecimentos, chegadas e partidas de membros, etc., e outra parte mais geral sobre outros temas como geografia, vegetação, animais, descrição de povos nativos, viagens, doenças, visitas, e encontros com chefes locais. As cartas eram enviadas aos principais das províncias jesuíticas, que as copiavam depois e distribuim-nas às outras províncias, que por sua vez as faziam disponíveis ao padres jesuítas no terreno espalhados pelo mundo. Além do objectivo de informar, as cartas eram um instrumento aglutinador de construção de identidade e unidade comum (a companhia) que uniam os padres da Companhia numa espécie de corpo único de eucaristia universal. Esta estratégia de informação foi iniciada por Santo Inácio de Loyola, que ele e próprio e com a sua mão escreveu 6.815 cartas durante a sua vidade jesuíta.
As cartas, relatórios e memorandos mandados periodicamente para os superiores da Companhia eram cuidadosamente lidos e organizados de forma a aumentar o saber e o poder da Companhia. Esses relatórios não se limitavam a fins evangelizadores; eles ajudavam a desenvolver e implementar a estratégias políticas e diplomáticas da ordem e das nações envolvidas.
A estes elementos temos que adicionar a prática confissão nos meios católicos. Não podemos esquecer que os jesuítas eram os confessores das principais figuras de poder. Através da confissão de membros chaves da sociedades - reis, ministros, governadores, mercadores, chefes militares, juízes, e até cléricos, os jesuítas tinham acesso a um manancial precioso de saber e informação, como descobertas, viagens, conflitos, alianças, intrigas, negócios, e planos dos confessados que aceitavam cegamente o sigilo da confissão pelos membros da Companhia.
Este sistema sofisticado de recolha, análise, e circulação de informação todo coordenado numa vasta rede de informação e saber colocou os jesuítas numa situação priviligiada na estrutura do poder dos países católicos da Europa. Situação de privilégio que eles exploraram em todo o seu potencial.
Muito do conhecimento que se sabe hoje sobre a história dos primeiros tempos da colonização portuguesa e espanhola de vastos territórias nas Américas, África, Índia, Insulíndia, China, e Japão foi coligido das cartas e relações de jesuítas (litterae indipetae).
As escolas e colégios jesuítas eram gratuitos e para todos, sem distinção de status social
(excepto escravos e raparigas). Os professores (só homens) não cobravam qualquer salário pelo seu trabalho,
devido ao seu voto de pobreza.
O currículo de cada colégio estava dividido em dois escalões: um para primeiras letras, que podemos chamar primário, para o ensino básico da leitura, escrita (em português ou espanhol, e latim), aritmética, geometria, e doutrina cristã, e outro, a nível secundário, focava na retórica, gramática, humanidades, e teologia moral, complementado por ensino profissional (principalmente ligados à construção - pedreiros e carpinteiros).
Cada colégio era auto-suficiente, assim os Jesuitas tornaram-se nas colónias importantes agentes económicos envolvidos na agricultura e pecuária com muitas terras que dependiam de trabalho escravo. No caso particular do Colégio de Luanda, os Jesuítas tinham grandes arimos (fazendas agrícolas) na Barra do Dande e no Bem-Bem, onde tinham mais de mil escravos a trabalhar nas suas hortas.
O Colégio de São Paulo, Brasil, fundado pelos padres jesuítas Manuel da Nóbrega e José Anchieta, no então planalto de Piratininga em 1554. Quadro de Benedito Calixto, Museu de Arte Sacra de São Paulo.
No seu apogeu, a província jesuítica de Portugal tinha colégios em
Lisboa, Coimbra (sua base inicial), Évora, Funchal, Ponta Delgada, São Salvador do Congo depois transferido para Luanda, Ilha de Moçambique, Sena, Tete, Goa, Cochim, Madurai, Macau,
Salvador da Baía, São Paulo, Rio de Janeiro, Olinda, Vitória do Espírito Santo, e Belém do Pará.
Nos meados do século XVII, a Companhia de Jesus tinha mais de 800 membros e um número quase idêntico de padres nas colónias portuguesas no Brasil, África, Índia, e Insulíndia, francesas no Canadá, Nova França e Louisiana, e espanholas nas Américas e nas Filipinas.
Com o monopólio do mesmo sistema de ensino - o mesmo currículo e a mesma língua - eles podiam destacar recursos a breve trecho para qualquer parte do mundo, e assim fortalecer a sua posição de privilégio no mundo de então.
O Padre jesuíta António Vieira (1608-97), apóstolo no Brasil e uma das mentes conservadoras mais conhecidas do séc. XVII, era conhecido em todo o mundo pelos seus "Sermões" e "Cartas". Ele estudou no Colégio de Jesus de Coimbra e formou-se na Universidade de Coimbra. Imagem do frontispício da sua peça de teatro "A Arte de Furtar, Espelho de Enganos" (1744).
Já nos século XX, os jesuítas distinguiram-se no campo da cultura em Portugal com a publicação da "Revista Brotéria", e da "Revista Portuguesa de Filosofia e Economia e de Sociologia", e nos trabalhos de compilação da "Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura", publicada pela Editorial Verbo.
As Missões Jesuíticas nas Terras dos Índios Guarani
As Missões Jesuíticas (Reduções) na bacias dos rios Paraná, Uruguai e Paraguai (Brasil, Argentina, Uruguai, e Paraguai) fundadas para defender os Índios Guarani das investidas dos Bandeirantes do Brasil, foram durante décadas o modelo mais refinado de colonização e civilização de povos nativos em todo o mundo. O esforço das Reduções Jesuíticas estendeu-se também para o Maranhão e a Amazónia.
Planta urbanística da missão jesuítica de São Miguel Arcanjo no Sul do Brasil, séc.XVII
As Reduções jesuíticas eram aldeamentos organizados e administrados pelos Jesuítas para reunir povos indígenas em aldeias autosuficientes de 8.000 a 15.000 residentes e defendê-los das razias escravizantes (as entradas) dos Bandeirantes no sul do Brasil, e do regime de trabalho forçado criado com as "encomiendas" no império espanhol nas Américas.
Havia um modelo geral que se aplicava a todas as reduções - cada redução (ou missão) era auto-suficiente, tinha uma igreja, uma escola, casas colectivas, oficinas, pomares e hortas, uma estância de gado, e um cemitério. Haviam também normas de convivência uniformes que eram estabelecidas e impostas por um conselho (cabildo) de caciques (líderes locais), operando como cidades organizadas, onde cada residente tinha um papel específico dentro da comunidade. A acção dos padres jesuítas concentrava-se na educação, catequese, e organização do trabalho colectivo e vida comunitária. No seu apogeu, haviam mais de trinta reduções jesuíticas na região. Pela sua organização e eficiência, as reduções jesuíticas eram vistas por muitos como estados dentro do estado.
O diferendo entre o Marquês de Pombal e os jesuítas foi disputado não só dentro das fronteiras de Portugal Continental - ele travou-se também no Brasil. Aqui, a disputa teve lugar no estabelecimento da companhia majestática de comércio do Grão Pará e Maranhão, que reduziu grandemente a influência dos jesuítas no norte do Brasil e na Amazónia, e os tratados de Madri (1750) e de Santo Ildefonso (1777), entre Portugal e Espanha, pelos quais os povos guaranis no sul do Brasil (e as suas reduções jesuíticas) foram forçados a deixar de residir em território português e mudarem-se para território controlado por Espanha, esvaziando assim toda a relevância da Companhia de Jesus face à ofensiva das entradas dos Bandeirantes no Brasil.
É interessante mencionar aqui que o Tratado de Madri extinguiu o Tratado de Tordesilhas, e consequentemente, a linha imaginária a 370 léguas a oeste de Cabo Verde como a linha divisória para os dois impérios na América do Sul. De facto as fronteiras mudaram muito no sul do Brasil com o Tratado de Madri, pois os portugueses cederam à Espanha a colónia do Sacramento e receberam em troca o território a sul de São Paulo (território dos actuais estados de Santa Catarina, Paraná, e Rio Grande do Sul) e os extensos territórios do Mato Grosso e Goiás no interior, e a norte na Amazónia, estabelecendo a fronteira oeste do Brasil centenas de quilómetros (e em alguns casos, milhares de quilómetros) para o interior do continente.
Dentre muitos, o trabalho de três padres Jesuítas é amplamente reconhecido na história do Brasil: Manuel da Nóbrega, José Anchieta, e António Vieira. Grande número de povoações, como São Paulo de Piratininga, foram criadas pelos jesuítas (1554), que vieram a tornar-se mais tarde grandes metrópoles no mundo.
Pela sua relevância história e arquitectónica, o conjunto das reduções jesuíticas dos Trinta Povos é hoje reconhecido como património mundial da UNESCO.
Vestígios da Redução de Santa Ana, em Posada, Missiones, Argentina, Património Mundial da UNESCO
A Supressão da Companhia de Jesus
As sementes da hegemonia da Companhia de Jesus acabaram por ser também as sementes da sua supressão. Os excessos cometidos a partir da sua rede de informação, a prominência sobre as figuras políticas, o acesso a privilégios reais, a influência religiosa, e o monopólio da informação acabaram por levar a um clima de desconfiança, perseguição e eventual expulsão da Ordem em Portugal em 1759, na França em 1764, na Espanha em 1767, e até suprimida pelo Papa Clemente XIV em 1773.
Com o advento da revolução do pensamento científico e do iluminismo, os jesuítas passaram a serem vistos como os guardas da ordem política vigente e caduca (a Inquisição era vista como uma polícia religiosa e política) e
de pensar antiquados, o que veio a criar grandes problemas ao
seu programa tomista e aristotélico de educação. O monopólio que tinham sobre a educação, influência no governo, e vasta riqueza de terras e propriedades foram também factores que alimentaram este ressentimento geral.
Estes factores contribuiram para a sua impopularidade geral, e eles acabaram por ver encerradas os seus colégios e universidades, e ser expulsos
pelo Marquês de Pombal (um iluminado que os odiava) de Portugal e seus territórios ultramarinos em
1759, da França em 1764, e pelo Papa Clement XIV através da bula
"Dominus ac Redemptor" emitida em 1773.
Gravura coeva sobre a Expulsão dos Jesuítas de Portugal, ordenada pelo Marquês de Pombal em 1759.
Em 1759, o Colégio de Jesus em Coimbra foi encerrado (nacionalizado) e integrado na Universidade de Coimbra, e a Universidade de Évora foi extinta, só vindo a reabrir como universidade secular dois séculos mais tarde em 1979.
Com a expulsão dos Jesuítas de Portugal em 1759 e a extinção da Ordem pelo Papa em 1773, o sistema das "reducionnes" nas bacias dos rios Paraná e Paraguai desintegrou-se de imediato com a extinção e abandono da maioria das missões.
A
expulsão dos jesuítas foi brusca e violenta em Portugal (1759), França
(1764), e Espanha (1767) pois a supressão da ordem pelo Papa Clemente
XIV em 1773 foi radical: Eles foram proibidos de ensinar, metidos
imediatamente em barcos tendo sido expulsos para os Estados Papais na
Itália, e as suas propriedades e riqueza foram expropriadas pelos
respectivos monarcas. O próprio Superior Geral da Ordem, Padre Lorenzo
Ricci, foi encarcerado pelo Papa para o resto da sua vida.
A ordem dos Jesuítas foi restabelecida na Igreja Católica em 1814 pelo Papa Pio VII, masreformada e mais aberta aos novos ventos da revolução cientifica. Contudo, muitos colégios não reabriram, como foi o caso do Colégio dos Jesuítas de Luanda, e muitos deram lugar a prestigiosas universidades.
A obra educativa dos Jesuítas em Angola parou em 1759, só vindo a ser reavivada já nos últimos anos de Angola colónia. Os seus sucessores no campo da instrução foram os Irmãos Maristas para rapazes e as Irmãs de São José de Cluny e as Irmãs Doroteias para raparigas. É de notar que já em 1970 o grande dinamizador do Curso Superior de Economia da antiga Universidade de Luanda foi o Padre jesuíta Abílio Lima de Carvalho, S.J..
Evolução do Pensamento Científico na Europa
Idade Dourada de Bagdad
Influência Árabe e de Bizâncio
O Renascimento
Roger Bacon
Francis Bacon
Nicolau Maquiavel - O Príncipe
René Descartes
Cronograma da evolução do Pensamento Científico na Europa - Séculos XVI a XVIII. Gravura da Enciclopédia Histórica Mundial
Nicolau Copérnico (1473-1543)
Nicolau
Copérnico (1473-1543) foi um astrónomo polaco que formulou a tese
heliocêntrica, uma teoria que abalou radicalmente a maneira medieval de
pensar e ver o universo e lançou as bases para a Revolução Científica. A
sua família eram comerciantes ricos. Após a morte do seu pai, quando tinha apenas dez anos, ele recebeu uma educação esmerada tutelada pelo
seu tio Lucas Watzenrode que era bispo da cidade de Torum, na Polónia.
Copérnico foi um polímata que estudou artes liberais, matemática e astronomia na
Universidade de Cracóvia, direito canónico e astronomia na Universidade
de Bolonha, medicina e grego na Universidade de Pádua, e doutorou-se em
direito canónico na Universidade de Ferrara.
Nicolau
Copérnico (1473-1543), o primeiro grande polímato da Renascença que com
a sua teoria heliocêntrica do universo, tornou-se o pioneiro da
Revolução Científica na Europa
Durante
a sua longa vida de 70 anos, Nicolau Copérnico foi um verdadeiro homem do
Renascimento: ele exerceu as funções de cónego, médico, diplomata,
governador, e até economista,
pois foi o primeiro a estudar a teoria quantitativa do dinheiro. A sua
principal contribuição à ciência foi a sua teoria heliocêntrica que
propunha que o Sol estava numa posição fixa e estática no centro
douniverso, com os planetas girando à volta dele; como um Planeta, a
Terra girava diaramente em torno do seu eixo e anualmente à volta do
Sol.
Contudo,
a interpretação heliocêntrica de Copérnico era contrária e desafiava directamente a
teoria geocêntrica de Claudio Ptolomeu, que reinava hegemonicamente o
pensamento "científico" e religioso por mais de 1.300 anos, e era a
pedra angular do pensamento aristotélico e da astronomia católica.
Ciente do perigo da consequência das suas ideias colidirem frontalmente
com a doutrina oficial da Igreja, Copérnico só publicou o seu livro "De revolutionibus orbium coelestium"(Sobre as Revoluções das Esferas Celestes),
que havia concluído em 1530, pouco tempo antes da sua morte em 1543.
Com efeito, ele só recebeu as primeiras páginas impressas do seu livro,
quando já se encontrava no seu leito de morte, falecendo poucos dias
depois.
Representação cosmográfica da teoria heliocêntrica de Nicolau Copérnico. Gravura de Andreas Cellarius, 1661.
De
facto, logo após a sua morte, o seu livro gerou polémica imediata,
recebendo da Igreja Católica (e mesmo do oponente Martin Lutero) as
críticas mais acérrimas. Contudo, as observações astronómicas dos factos
corrobraram a sua tese, e em breve o seu trabalho foi continuado e
aprofundado por Galileu Galilei, Johannes Kepler, e Isaac Newton,
abrindo o caminho para a Revolução Ciêntifica.
Johannes Kepler (1571-1630)
Johannes Kepler estudou e foi professor em Graz, na Áustria. Astrónomo, matemático, filósofo natural, e astrólogo. Ele foi uma figura chave da revolução científica, vendo a astronomia como uma nova física celeste. A sua primeira obra em astronomia Mysterium Cosmographicum em 1596, e segunda edição em 1621. Ele advogou o heliocentrismo, pelo o qual o planetas movem-se num movimento
elíptico orbital à volta do Sol, em que o Sol é um dos focos da elipse
(1604). Ele demonstrou este postulado matemáticamente, confirmado mais
tarde por observação científica.
Kepler é considerado por muitos como o "pai" da óptica moderna. Ele inventou o telescópio refractor, foi também um matemático notável - ele usou recém-descobertos logaritmos de Napier para os cálculos das suas Tabelas Astronómicas Rudolfinas em 1617. Como astrónomo, ele trabalhou com Tycho Brahe.
Ele postulou as Leis do Movimento dos Planetas, que não foram imediatamente aceites pela comunidade científica, mas foram a base para Isaac Newton derivar as suas leis - 1ª Lei - Os planetas movem-se numa orbita eliptica à volta do Sol; 2ª Lei - No seu movimento orbital à volta do Sol, os planetas movem-se mais rápido, quando estão mais perto do Sol; 3ª Lei - Há uma relação matemática entre a distância de um planeta ao Sol e o tempo que leva a completar uma órbita - "o quadrado dos períodos está entre si como o cubo das distâncias médias".
Kepler foi matemático imperial (astrólogo), encarregado de aconselhar astrológicamente o Imperador. Ele publicou
a obra "Astronomiae Pars Optica", ilustrando a estrutura dos olhos humanos e de várias espécies de animais. Ele foi também o primeiro a
reconhecer que as imagens são projectadas invertidas e espelhadas pela
lente do olho na retina. Ele escreveu Astronomiae Pars Optica. Ele melhorou a tecnologia no telescópio de Galileu para o telescópio astronómico kepleriano.
Ele viveu durante o período da Guerra dos Trinta Anos, no apogeu das lutas religiosas. Kepler defendeu sua mãe, Katharina Guldenmann, curandeira e herborista, contra acusações de bruxaria. Ele é também considerado como "pai" da literatura de ficção científica através da sua obra famosa Somnius, em que descreve uma viagem interplanetária fantástica à Lua.
Kepler via a astrologia com um pouco de desdenho em relação à astronomia,
apesar de a sua principal fonte de rendimento para viver provinha de
aconselhar nobres em astrologia. Devido às suas ideias contra o canon do seu tempo, ele foi
excomungado pela Igreja Luterana em 1619, apesar de ele defender a tolerância
religiosa entre as várias denominações cristãs, quando afirmou que
"Cristo, o Senhor não era nem é luterano, nem calvinista, nem papista".
Por
razões práticas e científicas, Kepler apoiou o novo calendário gregoriano
(Papa Gregório XIII) adoptada em 1582, que substituiu o antigo
calendário juliano. Esta correcção foi necessária para alinhar o ano
civil com o ano solar, pelo que foi necessário inserir 10 dias no calendário currente, de modo
que dia 4 de Outubro de 1582 (uma quarta-feira) foi imediatamente
seguido pelo dia 15 de Outubro, uma sexta-feira.
O astrónomo Johannes Kepler (1571-630) explicando ao Imperador Rodolfo II (1576-1612) de Praga o funcionamento do horóscopo
Galileu Galilei
bio a desenvolver
Galileu
Galilei abjura a sua doutrina científica perante o Tribunal do Santo
Ofício (Inquisição) em Roma, em 1633. Ele acabou por ser condenado a
prisão perpétua domiciliária.
O
julgamento de Galileu Galilei (1542-1602) sobre o heliocentrismo,
movido pelo Tribunal do Santo Ofício em Roma, em 1633, é considerado um
dos grandes julgamentos da história. Galileu Galilei publicou em 1632 o
seu Diálogo Sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo, em que avançava a
tese heliocêntrica (O Sol, não o planeta Terra) estava no dentro do
universo. Esta tese levantou de imediato o protesto da Igreja Católica,
que a via contrária às Sagradas Escrituras. Ele acabou por ser condenado
por heresia e condenado a prisão perpétua, pena que foi comutada logo
depois para prisão domiciliária permanente. Galileu Galilei teve de
abjurar das suas ideias, e a Igreja Católica teve de comutar a pena
devido à fama (e fé genuína) de Galileu Galilei.
Giordano Bruno
Giordano Bruno (1548-1600) foi um padre dominicano, cosmógrafo, e filósofo, que na sua obra "Sobre o Infinito, o Universo, e os Mundos", publicada em 1584, defendia a tese de que o Universo era infinito e não podia ter um centro.
Giordano
Bruno acreditava que o universo era infinito e não tinha um centro,
tese que era então contrária aos ensinamentos da Igreja Católica. Ele
acabou julgado pela Inquisição e sentenciado à morte na fogueire em
1600. Esta figura mostra Girodano Bruno espreitando para além do
universo clássico do seu tempo.
Devido às suas ideias contra a teoria heliocêntrica, então teoria
oficial da Igreja Católica, ele foi acusado pelo seu próprio pai e foi
perseguido pela Inquisição, foi julgado, e condenado por esta, acabando
por morrer na fogueira em Roma em 1600. Alguns historiadores acreditam
que Giordano Bruno não foi condenado somente pelo seu alinhamento às teses de Nicolau Copérnico e as suas teses
cosmológicas, mas também (e principalmente) pela sua interpretação
herética de certas doutrinas da Igreja, coma danação eterna, a Trindade,
a virgindade de Maria, a divindade de Jesus Cristo, e a reincarnação da
alma.
Tycho Brahe (1546-1601)
Quem foi Tycho Brahe? a desenvolver
Tycho Brahe estudando observações astronómicas no seu observatório na Ilha de Hven, na Dinamarca,
Tycho Brahe
(1546–1601) foi umNobre dinamarquês e figura fundamental na astronomia observacional moderna.Conhecido
por sua personalidade excêntrica e observações a olho nu notavelmente
precisas, ele fez a ponte entre a antiga visão geocêntrica (centrada na
Terra) e o modelo heliocêntrico moderno (centrado no Sol).
Início da vida e excentricidades
Uma educação nobre:
Nascido em uma poderosa família dinamarquesa, Tycho foi "sequestrado"
ainda bebê por seu tio rico e sem filhos, que o criou para ser
advogado.
O Nariz de Metal:
Em 1566, Tycho, então com 20 anos, perdeu a ponte do nariz em um duelo
com outro estudante para decidir quem era o melhor matemático. Pelo
resto da vida, ele usou uma prótese nasal feita de prata e ouro (ou
cobre, para uso diário).
Inspiração: Sua paixão pelas estrelas surgiu aos 13 anos, quando testemunhou um eclipse solar previsto, que ele considerou "algo divino".
Principais Conquistas
Observações de Precisão:
Antes da invenção do telescópio, Tycho desenvolveu instrumentos de alta
precisão, como quadrantes e sextantes de grande porte, para medir a
posição das estrelas com uma exatidão sem precedentes — dez vezes mais
precisa do que qualquer recorde anterior.
Uraniborg: O rei Frederico II da Dinamarca concedeu-lhe a ilha de Hven, onde construiuUraniborg, o observatório mais avançado da sua época, que funcionava como um enorme instituto de pesquisa científica.
Desafiando os Céus: Em 1572, ele observou uma "nova estrela" (hoje conhecida comoSupernova de Tycho)
e, posteriormente, um cometa em 1577. Essas observações provaram que os
céus não eram "perfeitos e imutáveis", como se acreditava
anteriormente.
Isaac Newton
Quem foi Isaac Newton (a desenvolver)
(1643–1727) foi um polímata inglês que se tornou um dos cientistas mais influentes da história. Mais conhecido por formular asleis do movimentoeda gravitação universal, ele essencialmente fundou a mecânica clássica.
Principais Contribuições Científicas
As Leis do Movimento: Ele estabeleceu três princípios fundamentais que descrevem como os objetos se movem.
Gravitação Universal: Ele identificou a gravidade como a força que faz com que os objetos caiam na Terra e que governa as órbitas planetárias.
Cálculo: Juntamente comGottfried Wilhelm Leibniz, ele desenvolveu este ramo da matemática para lidar com taxas de variação.
Óptica: Newton descobriu que a luz branca é uma composição de um espectro de cores e construiu o primeirotelescópio refletorprático .
Obra principal: OsPrincipia
Publicado em 1687, seu livroPhilosophiæ Naturalis Principia Mathematica(Princípios
Matemáticos da Filosofia Natural) é considerado uma das obras mais
importantes da ciência. Nele, ele expôs suas leis da física e forneceu
um modelo matemático para o universo.
Carreira e vida posterior
Os "Anos Milagrosos" (1665-1666): Durante um surto de peste que fechoua Universidade de Cambridge, Newton retornou à casa de sua família emWoolsthorpe, onde fez suas descobertas mais famosas.
Vida pública: Ele atuou comoProfessor Lucasiano de Matemática, Mestre da Casa da Moeda Real e Presidente daSociedade Real.
Título de cavaleiro: Ele foi condecorado cavaleiro pela Rainha Ana em 1705.
Apesar do sucesso público, ele era uma figura solitária que também dedicou grande parte da vida ao estudoda alquimia e das profecias bíblicas. Está sepultado naAbadia de Westminster.
Você gostaria de explorar suastrês leis do movimentocom mais detalhes ou aprender sobre suarivalidade com Leibniz?
Gravidade e leis de gravitação dos corpos celestes
Leis de Movimento de Newton
Cáculo diferencial e integral
"Principia Mathemática"
Figuras do Renascimento em Portugal
Damião de Gois - humanista
Pedro Nunes - matemático
Garcia de Orta - botânico
O Mar Tenebroso
Com
a excepção das viagens de rotina de travessia do Oceano Índico pelos
árabes entre a costa oriental da África e a Índia, e da grande viagem do
almirante chinês Zheng He (Cheng Ho) entre 1405 e 1433, as
viagens transoceânicas que os portugueses começaram no fim da Idade
Média eram cheias de perigos, em que o mêdo de monstros marinhos
estranhos e outras criaturas fantásticas se misturava com as terríveis
tempestades que com grande frequência acabavam em naufrágio.
Criaturas
fantásticas na viagem lendária de São Brandão ao Atlântico ocidental. O
Cabo Bojador, situado na costa do actual Sahara Ocidental, a sul de
Marrocos, foi até 1436, ano em que o navegador português Gil Eanes o dobrou, um lugar mítico da maior importância psicológica na empresa dos Descobrimentos portugueses.
As
lendas das Ilhas Afortunadas de São Brandão no Atlântico ocidental, do
Cabo Bojador na costa ocidental de África, e do Mostrengo no Cabo das
Tormentas são apenas alguns exemplos dos muitos perigos que se escondiam
nos mares. Era preciso que os navegadores tivessem muitos
conhecimentos, cabeça fria, e muita coragem para vencer essas criaturas
fantásticas.
A mitologia dos Descobrimentos é descrita de forma mágica no poema "O Mostrengo" do grande poeta português Fernando Pessoa, que em 1918 escreveu na sua obra "Mensagem":
O MOSTRENGO
Omostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso,
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo;
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»
As
caravelas do grande navegador Bartolomeu Dias resistiram com grande
perícia e coragem às tormentas mandadas pelo (mostrengo) Adamastor ao
dobrar a ponta sul de África (Cabo das Tormentas) em 1481. Com efeito,
esta era uma das passagens mais perigosas nos oceanos. Como sinal de
esperança em atingir a Índia, o rei de Portugal D. João II mudou o nome
do cabo para "Cabo da Boa Esperança".
As viagens dos descobrimentos portugueses foram feitas com barcos à vela, dependentes assim das correntes marítimas e regimes de ventos nos diversos oceanos e em vários
períodos do ano. O processo de aprendizagem de navegação oceânica era
baseado na experiência dos capitães dos navios na arte e na ciência de
navegar, num certo conhecimento de matemática
e astronomia, no conhecimento cartográficos antigos, e no
desenvolvimento de instrumentos náuticos mais aperfeiçoados que foram
melhorados ao longo dos séculos à medida que as navegações dos
Descobrimentos evoluiam.
O
uso de instrumentos náuticos e astronómicos como a sonda, o relógio de
areia ou de sol, a bússula, o quadrante, o astrolábio, e a balestilha
(que esta figura mostra) inventada pelo sábio português Pedro Nunes, foi
um factor fundamental no sucesso da empresa dos Descobrimentos
Portugueses.
Com efeito, sem a juda de instrumentos náuticos, como a ampulheta para indicar a hora do dia, a sonda para medir a profundidade da àgua, a barquinha para medir a velocidade do navio, a bússola para indicar o norte magnético, o quadrante para medir a latitude do local, a rosa dos ventos para indicar a direcção dos pontos cardeais, oastrolábio para melhor cálculo da latitude, e a balestilha para medir distâncias e a altura do sol, a luneta para ver objectos ao longe, e os mapas de atlas antigos e portulanos
(mapas que continham os detalhados da costa) desenhados em cada viagem,
a abertura do mundo não teria sido possível nesse tempo.
Planisfério de correntes oceânicas e regimes de ventos. Correntes quentes a vermelho e frias a azul.
Os
navegadores portugueses tiveram também que aprender por experiência
própria como o regime de ventos e correntes marítimas condicionavam as
viagens transoceânicas, e adaptar as viagens às estações do ano locais
(tornados na América, monções na Índia, e tufões na Insulíndia).
O conhecimento dos mares foi um factor da maior importância na partilha do mundo. Por exemplo, o Tratado de Tordesilhas
que foi acordado entre as corôas portuguesa e espanhola em 1494,
ampliando a linha divisória do mundo de 100 para 370 léguas (cerca de
2.050 quilómetros) a oeste do meridiano que passa pelas ilhas de Cabo
Verde foi de facto um refinamento do Tratado de Alcáçovas que
tinha sido assinado pelas mesmas corôas em 1479, pois os cartógrafos e
navegadores portugueses sabiam já da existência da existência do Brasil,
e quanto importante era para as caravelas portuguesas terem que rumar a
oeste até perto do Mar dos Sargaços, antes que pudessem rumar para sul (dar a chamada Volta do Mar)
para evitar o Mar dos Sargaços e a corrente fria de Benguela no
Atlântico Sul, para dar acesso aos mares do hemisfério oriental que
couberam a Portugal.
Quando falamos no Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494, devemos ter em mente que somente no século XVIII é que se conseguiu medir a longitude precisão, pelo que a definição precisa do meridiano de 370 léguas a oeste de Cabo Verde era relativamente vaga e difícil de se verificar com a tecnologia disponível na época. O mesmo problema se levantou no paralelo antípoda à linha de de 370 léguas a oeste de Cabo Verde, se as Ilhas Filipinas e as Ilhas das Especiarias de Ternate e Sunda ficavam na esfera portuguesa, se na espanhola. Depois de muitos esforços que levaram muitos anos a realizar, provou-se que as mesmas se encontravam na esfera portuguesa. Entretanto, já no século XVII, Portugal e Espanha concordaram que as Filipinas fariam parte do império espanhol.
O
Tratado de Tordesilhas assinado em 1494 entre Portugal e Espanha foi de
facto um refinamento do Tratado de Alcáçovas, assinado em 1479, que
permitiu às caravelas portuguesas "dar a volta" no centro do Atlântico, e
tirar vantagem do regime de ventos e correntes marítimas no Atlântico
Sul
O papel da matemática foi fundamental na empresa dos Descobrimentos. De facto, desenvolvimentos dramáticos na matemática aplicados a navegação foram o prelúdio da revolução científica. A então recente adopção da grafia árabe para os algarismos (até lá a nomenclatura dos algarismos era baseada na embaraçosa e limitada grafia romana) e os progressos na trigonometria passaram a permitir o desenvolvimento de tabelas trigométricas muito fáceis de ler, exactas, e completas para ajudar a calcular a posição exacta dos astros em lugares diferentes ao longo do ano (tabelas astronómicas),
no cálculo de distâncias e direcções em rotas marítimas, e no
aperfeiçoamento da cartografia através de maior precisão na localizaçaõ
de lugares. A invenção de logaritmos já no século XVII e uso de tabelas logarítmicastambém ajudou muito a navegação pois facilitou muito a computação de cálculos longos e complexos.
Tabela astronómica portuguesa usadas nas viagens marítimas dos Descobrimentos no Séc. XVI
Contudo, um grande desafio não foi resolvido na época dos Descobrimentos - era impossível calcular com exactidão a longitude
de um lugar, especialmente a posição longitudinal de um navio no mar
alto. Este desafio só veio a ser resolvido dois séculos depois com o
desenvolvimento do cronómetro. Da mesma forma, o escorbuto
continuou a ceifar milhares de vidas até se constatar já no século XVIII
o benefício que o consumo de rutas faziam à falta de vitamina C.
Ao mesmo tempo, aperfeiçoamentos na construção naval
permitiram grande progresso, manifestado pelo aparecimento de novos
navios de melhor navegabilidade, maior tamanho e capacidade, e melhor
poder de fogo, permitindo ultrapassar as viagens de cabotagem ao longo
da costa, e lançarem-se em grandes viagens que demoravam anos a
completar. Assim a nau deu lugar à caravela; e esta por seu lado deu lugar à carraca e ao galeão.
Carraca portuguesa da Carreira da Índia, imagem de 1557.
É importante recordar que a mortalidade
média das tripulações nas grandes viagens dos Descobrimentos era muito
alta, de facto à volta dos 40%, e que em média um em cada três navios
jamais regressava a Lisboa. Estimativas apontam que dos mais de 200.000+
marinheiros portugueses que se fizeram ao mar durante a época dos
Descobrimentos, mais de 80.000+ nunca regressaram. As causas de tão alta
mortalidade prendiam-se com um conjunto de factores como tempestades,
frio ou calor, naufrágios, doenças a bordo e nas terras descobertas, má
alimentação e falta de água, falta de higiene nos navios, ataques de
corsários e piratas, combates com navios de nações rivais, e confrontos
com povos nativos, penas de justiça marítima, e exaustão pura e simples
das tripulações pelo trabalho árduo.
As condições de vida e de trabalho das tripulações nas viagens dos Descobrimentos eram atrozes.
O pragmatismo empírico dos Descobrimentos também assentou no registo obrigatório do diário de bordo,
onde se anotavam religiosamente todos os registos necessários à
navegação, bem como a história da viagem e descrição das terras e povos
encontrados.
Geopolítica na Idade Moderna - Hegemonia Ibérica
Por quê dividir o mundo? Parties - Portugal e Espanha
Teoria da Descoberta - Terra nullius
Direito Internacional - Mare Clausum
O Papa como ábitro supranacional europeu
Diplomacia dos Descobrimentos (em desenvolvimento)
Momento histórico
Viagens dos portugueses ao longo da costa africana - Castelo da Mina 1481, Diogo Cão atinge a foz do Zaire em 1483
Cristóvao Colombo e a descoberta do Novo Mundo em 1492
Vasco da Gama e o caminho marítimo para a Índia em 1498
Viagens de Américo Vespúcio e Duarte Pacheco Pereira à costa americana
Pedro Álvares Cabral e a descoberta oficial do Brasil 1500
A geopolítica do Mare Clausum e reacção do Mare Liberum
Doutrina do Mare Liberum - argumento legal de Hugo Grotius 1625 - Reacção argumento do Padre Serafim Freitas
Bula Dum diversas de 1452
Em Junho de 1452 o Papa Nicolau IV autorizou por bula papal o rei Dom Afonso V de Portugal a conquistar sarracenos (muçulmanos), pagãos e outros infiéis, e a subjugar e reduzir essas populações à escravidão perpétua, permissão que abriu as portas aos portugueses para o tráfico transatlântico de escravos.
Bula Romanus Pontifex de 1455
Três anos mais tarde, em 1455, e através da sua bula papal Romanus Pontifex, o Papa Nicolau IV codificou formalmente a chamada "Doutrina da Descoberta" concedendo ao rei português Dom Afonso V e os seus sucessores os direitos exclusivos de comércio, colonização de terras, e escravização de "infiéis" ao longo da costa africana. De acordo com esta bula, Portugal era autorizado a "invadir, procurar, capturar, vencer e subjugar povos não cristãos (sarracenos e pagãos)", e a apropriar-se das terras e propriedades de não-cristãos e de os reduzir à servidão perpétua.
Tratados entre os reis de Portugal e Espanha
Como não podia deixar de acontecer, estas bulas papais levantaram preocupações sérias ao rei de Castela, que abordou o rei de Portugal para discussões e negociações directas enter os dois monarcas. Assim, e durante os próximos 50 anos, os reis de Portugal e Castela (Espanha), sem a interferência da Igreja, concordaram em três acordos diplomáticos que visavam resolver os conflitos criados pelas novas terras descobertas.
O Tratado de Alcáçovas de 1479
O
descobrimento das ilhas atlânticas desabitadas da Madeira (1419),
Açores (1427), e Cabo Verde (1460) pelos portugueses e o dominio
(contestado pelos portugueses) de Castela sobre as Ilhas Canárias
(Afortunadas), e a sua eventual colonização e desenvolvimento comercial
levantou a questão da delimitação geográfica necessária das esferas de
influência entre Portugal e Castela no Atlântico.
O primeiro acordo firmado em 1479 entre Portugal e Castela e ratificado no ano seguinte em Toledo foi o Tratado de Alcáçovas.
De acordo com este tratado que pôs fim à Guerra de Sucessão Espanhola, o
rei de Portugal Dom Afonso V reconheceu Fernando e Isabela como reis
legítimos de Castela, e dividia as áreas de influência no Atlântico
central, em que Portugal obteve o controle da costa de África e as ilhas
que tinha descoberto, e a Espanha recebia as Ilhas Canárias. O Tratado
de Alcáçovas permitiu a Portugal prosseguir livremente nas décadas
seguintes as viagens ao longo da costa de África a sul de Cabo Verde, incluindo a Guiné, o golfo da Guiné, São Jorge da Mina, Loango, Congo e Angola.
O
rei de Portugal Dom Afonso V, o "Africano", que em 1479 assinou com os
Reis Fernando e Isabela o Tratado de Alcáçovas, que primeiro dividiu as
esferas de influência no Atlântico entre Portugal e Castela (Espanha)
A Bula Aeterni regis clementia de 1481
A bula papal Aeterni regis clementtia, emitida pelo Papa Sisto IV em 1481 reconheceu oficialmente pelo Vaticano o fim da Guerra de Sucessão de Espanha, a divisão dos territórios atlânticos entre Portugal e Castela acordados no Tratado de Alcáçovas, e confirmou a jurisdicção espiritual desses territórios à Ordem de Cristo em Tomar.
A Bula Inter caetera de 1493
Como consequência imediata da descoberta do Novo Mundo por Cristóvão Colombo em 1492 (que ele pensava ter chegado à Índia), logo no ano seguinte (a 3 de Maio de 1493) o Papa Alexandre VI, (Rodrigo Borgia, que era espanhol) logo após o regresso da Cristóvão Colombo da sua primeira viagem ao Novo Mundo, emitiu a bula Inter Caetera, que entre outras coisas, estabeleceu que os povos nativos não tinham alma, e concedeu aos Reis Católicos espanhois (Fernando e Isabela) todas as terras a oeste das ilhas dos Açores e a sul das Ilhas de Cabo Verde, e as restantes para a corôa portuguesa.
As Bulas Alexandrinas
No mesmo dia, o Papa Alexandre VI emitiu uma segunda bula, a Eximiae devotionis, que outorgou aos ereis espanhois os mesmos privilégios que tinham sido concedido aos monarcas portugueses pela bula Romanus Pontifex emitida em 1453. No dia seguinte, ele emitiu ainda uma bula mais, também intitulada Inter Caetera, em que exortava os monarcas espanhois "a difundir a fé para o oeste a partir de uma linha imaginária (um meridiano) a cem léguas para oeste de qualquer uma das ilhas conhecidas como Açores e Cabo Verde", e no mês seguinte o mesmo papa, através de outra bula, a Piis fidelium, nomeou o rei Fernando de Castela vigário apostólico das Índias (isto é, do Novo Mundo)
É importante mencionar aqui a extraordinária importância das bulas no contexto diplomático da era dos Descobrimentos. À falta de organizações supranacionais que regulassem as relações entre reinos soberanos cristãos da Europa, a palavra escrita do Papa era tida como suprema. As bulas eram assim vistas como documentos escritos (ordens) emitidos pelo Papa (se bem que estudados e revistos por outros cardeais e juristas), como autoridade suprema da cristandade, para resolver diferendos, que não só resolviam questões que se aplicavam a todos os reinos cristãos, mas que os mesmos tinham de observar e obedecer.
É neste contexto que a bula Inter Caetera tem um legado devastador e duradouro para os povos das novas regiões encontradas pelos europeus. Ela formalizu a usurpação das terras conquistadas pelas reinos católicos ibéricos, e baseado na permissa que os povos nativos não tinham alma, a bula Inter Caetera sancionou a extinção da sua identidade como povos livres com cultura própria, reduzindo à escravatura milhões de seres humanos durante as gerações seguintes, e o genocídio de um número ainda maior, tudo sob o nome de Deus.
O Tratado de Tordesilhas de 1494
Um efeito importante, mas não previsto, desta bula papal e do Tratado de Tordesilhas foi que quase todo o Oceano Pacífico e acosta oeste da América do Norteforam entregues à Espanha. O rei João II, naturalmente, recusou-se a entrar numa competição sem esperança em Roma e simplesmente ignorou as bulas, não reconhecendo assim a sua autoridade nem desafiando a Igreja. SegundoOskar Spate, se Roma estava nas mãos de Fernando, figuras importantes da corte espanhola estavam nas mãos do rei João e mantinham-no bem informado sobre os seus movimentos.[7]Controlando as rotas marítimas de Espanha para asAntilhase possuindo bases nos Açores ena Madeira, Portugal ocupava uma posição naval estratégica e optou por prosseguir com as negociações.
Nenhum dos lados deu atenção às bulas do Papa Alexandre.[7]Em vez disso, negociaram o Tratado de Tordesilhas de 1494, que moveu a linha mais para oeste para um meridiano 370 léguas a oeste das ilhas portuguesas de Cabo Verde, dando agora explicitamente a Portugal todas as terras recém-descobertas a leste da linha.[11]
Em resposta à descoberta dasIlhas das Especiariaspor Portugal em 1512, os espanhóis apresentaram a ideia, em 1518, de que o Papa Alexandre VI havia dividido o mundo em duas metades.[12]Nessa altura, porém, outras potências europeias já haviam rejeitado de forma esmagadora a noção de que o Papa tinha o direito de conferir soberania a regiões tão vastas como o Novo Mundo. Mesmo dentro de Espanha, vozes influentes como a deFrancisco de Vitóriadenunciaram a validade daInter caetera. Embora Espanha nunca tenha renunciado às suas reivindicações baseadas em bulas papais, a coroa espanhola também não procurou obter sanções papais relativamente à linha de demarcação do Oceano Atlântico. Em vez disso, Espanha negociou diretamente com Portugal.[2]
Uma vez na ilha de Hispaniola, Buil viu os efeitos dos conquistadores e discordou de Colombo sobre o tratamento severo dado aos colonos e aos indígenas. Vendo que a situação era impossível para a evangelização e catequese, Buil partiu para a Espanha, derrotado, seis meses depois, em 3 de dezembro de 1494.[13]Dois outros frades que ele havia deixado nas Américas retornaram à Espanha em 1499.
A raínha Isabela de Castela e o rei Fernando de Aragão
XXXXX
O rei de Portugal Dom João II, o "Príncipe Perfeito"
XXXX
O rei de Portugal Dom Manuel I, o "Venturoso"
XXXXXX
Fac-simile da primeira página do Tratado de Tordesilhas e caravela portuguesa à descoberta do Mundo.
xxxxxxxxxxx
Mapa da divisão do mundo pelo Tratado de Tordesilhas entre Portugal e Castela (1494)
Bulas Papais Udum siquiden
Bula Ea quae pro bono pacis 1506
O Tratado de Saragoça 1529
Com
os tratados de Alcáçovas (1479), Tordesilhas (1494), e Saragoça (1529),
Portugal e Espanha dividiram o mundo em duas esferas de influência.
Portugal ficou com o Atlântico Sul e o Índico (costa de África, Índia, e
Insulíndia) incluindo as Ilhas Molucas. A Espanha ficou com as
Américas, (excepto Brasil), Caraíbas, e o Pacífico, e as Ilhas
Filipinas. O Tratado de Tordesilhas, apesar de outorgado pelo Papa, não
foi respeitado nem reconhecido pelas outras potências europeias.
Bula Sublimis Deus 1537
Perante o terror e devastação dos povos nativos do Novo Mundo pelos espanhois nas décadas logo a seguir à sua chegada às Américas, e em resposta aos protestos de muitos, incluindo Frei Bartolomeu de las Casas, o Papa Paulo II promulgou em 1537 a bula Sublimis Deus em que finalmente reconhecia a liberdade e o direito de propriedade dos povos indígenas (especialmente os Índios das Américas) e proibia a sua escravização., afirmando que "Os Índios são seres humanose não devem ser roubados da sua liberdade e propriedade".
Contudo, esta medida foi tardia e não suficiente para parar a destruição dos povos nativos das novas terras "descobertas". Ao genocídio inicial, seguiaram-se logo o regime de "encomiendas" e a escravização dos povos Índios, que haviam de durar séculos, e a colonização mais recente, em que os povos nativos continuam ainda hoje a ser os mais pobres e explorados em todos os países das Américas.
Frei Bartolomeu de las Casas
1484 - 1556
O Apóstolo das Índias. Dominicano. Bispo de Chiapas
Sistema das Encomiendas e a escravização e genocídio de povos inteiros Índios
Grande debate de Valladolid 1550-51
Juan Ginés de Sepúlveda
Cardinal Ximenez de Cisneros
"Todos os povos do mundo são humanos"
Papa Paulo III e a bula Sublimis Deus
Substituição dasEncomiendas pelas Rediciones
Importação de escravos de África
Obra: Brevíssima Relación de la destrucción de las Índias
História de las Índias
História Sumária Apologética dos Povos destas Índias
Memorial de Remédios para las Índias
Talassocracia Portuguesa
na costa africana - Arguim, Mina, Loango, Congo, e Angola
no Índico - Calicute, Cochim, Goa, Ormuz, e Malaca
Consolodidação
do império português na Índia - Pedro Álvares Cabral, Francisco de
Almeida e a 1511 Batalha de Diu em 1511, Afonso de Albuquerque, e João de
Castro
Reconhecimento dos impérios coloniais de Portugal e Espanha - As bulas papais
Entretanto no Novo Mundo...
Viagens de Cristóvão Colombo 1492 - 1502
Ouro em La Hispaniola
1519 Hernán Cortês conquista o México - o ouro começa a correr...
1532 Francisco Pizarro conquista o Império Inca do Perú, ainda mais ouro é encontrado
O sonho do El Dorado
Francisco Vasquez Coronado e Alvar Cabeza de Vaca e o mito das Sete Cidades de Ouro de Cibola
A descoberta de prata no Cerro Rico de Potosi no Perú, a maior mina de prata que jamais existiu
1588 A derrota da Armada Invencível e o ocaso de Portugal e Espanha
Corsários e piratas e a expansão holandesa na Índia e inglesa na América e Caraíbas,
Reacção internacional
O
rei Francisco I de França afirmou "Eu gostaria de ver a cláusula do
testamento de Adão em que ele divide o mundo entre portugueses e
espanhois"
França no Quebec 1541, Maranhão (França Equinocial), e Rio de Janeiro (França Antártica)
Corsário Francis Drake e os corsários ingleses
Holandeses em New Amsterdam, Guianas, e Antilhas
Henrique VIII da Inglaterra corta com a Igreja Católica e funda a Igreja Anglicana
A derrota da Armada Invencível 1588
Cerro
Rico de Potosi, no antigo vice-reino de Perú (hoje Bolívia), a maior
mina de prata que jamais existiu. A prata de Potosi sustentou o império
espanhol (e muitas guerras) por cerca de dois séculos.
Contencioso ainda não resolvido entre Portugal e Espanha
Tratado de Madri 1750
Tratado de Santo Ildefonso 1777
Resquícios no Séc. XXI - Conhecimento tradicional na história do conhecimento, e Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos Humanos dos Povos Indigenas 2007
O Termo "Descobrimento"
Uma nota sobre o termo "Descobrimentos"
portugueses - que significava "achamento de novas terras"; os primeiros
descobrimentos portugueses foram de arquipélagos desabitados: Madeira,
Açores, Cabo Verde, e São Tomé e Príncipe. As ilhas Canárias (habitadas
por indígenas chamados "Guanches") e as Ilhas de Fernão de Pó e Ano Bom,
habitadas pelos povos indígenas Bubi e Andos, não foram descobertas;
foram também conquistadas. O Cabo Bojador não foi descoberto; foi
dobrado; outro exemplo ainda, a Índia não foi descoberta; o que foi descoberto foi o caminho marítimo para a Índia.
Contudo, o
termo "descoberta" ficou na língua portuguesa para designar uma época
histórica cheia de novidades e também a acção do achamento por
navegadores portugueses de terras e povos desconhecidos para eles, mesmo
que habitadas por povos indígenas. Os termos "descoberta/descobrimento"
foram generalizados e acabaram então por serem adoptados por outras
línguas europeias. As bulas papais, então instrumentos de diplomacia e
documentos de direito internacional, ajudaram a popularizar e formalizar
estes termos no mundo.
Na
minha vida profissional com os índios Kootenay (Ktunaxa) da Colômbia
Britânica, Canadá, onde vivo, eu aprendi que eles se ofendem quando
usamos o termo "descobrimento". De acordo com o seu pensar, as Américas
não foram descobertas pelos europeus, pois os povos nativos já cá viviam
há milhares de anos.
O Planisfério de Cantino, 1502, mostrando a verde as terras visitadas pelos portugueses
Conforme
o historiador Jaime Cortesão nos revelou, os portugueses praticaram uma
política apertada de sigilo para proteger o grande
investimento feito
nas grandes viagens, continuar a sua supremacia nos mares, e manter o
monopólio comercial que daí adveio, impedindo assim que os seus segredos
náuticos caíssem nas mãos do seus rivais. Contudo, apesar das pesadas
penas por infracção a esta política de sigilo (morte era a norma),
Lisboa foi entre 1450 e
1540, o centro mais activo de espionagem da Europa, e tornou-se de facto
impossível para a corôa portuguesa proteger o sigilo das suas viagens.
A Ilha da Madeira,
o primeiro arquipélago a ser descoberto pelos portugueses em 1420,
actuou durante os primeiros cem anos como o primeiro laboratório
administrativo colonial - em que foi desenvolvido o sistema de donatarias na administração colonial, e o regime de bispados para a administração das novas colónias - a Diocese do Funchal, onde muito cedo se estabeleceu um Colégio Jesuíta,
abrangia nos tempos do principio da expansão portuguesa o território
mais extenso no mundo), e de culturas coloniais - melhoramentos
significativos na cultura e produção de açúcar, de vinho e bebidas destiladas (Poncha e Vinho Madeira), e cultura de novas frutas
como bananas, ananás, e maracujás, e até formas de expressão musical
(como o uquelele no Hawai, já nos fins do século XIX). O mesmo fenómeno
se repetiu com as plantações de chá nos Açores. Com efeito, podemos dizer que o mundo deve muito à Ilha da Madeira.
Mapa das Ilhas da Madeira e Porto Santo, Jacques Bellin, Paris, 1758
O comércio de ouro na costa do Ouro e no Castelo da Mina
O resgate de escravos na costa africana
A "descoberta" do Novo Mundo (Américas)
O
grande intercâmbio com o Novo Mundo - "novas" pessoas, alimentos,
animais, plantas, climas, doenças, religiões, ideias, e maneiras de ver
o mundo
Nova economia - Uma nova mina: as especiarias das Ilhas Molucas, mais baratas do que as fornecidas pelo Levante.
O
tráfico transatlântico de escravos como solução para o problema da
falta da mão-de-obra nas economias de plantação e de mineração nas
colónias
A Carreira de Las Índias e o fluxo de ouro para a Espanha
A Carreira de Manila e o fluxo de prata para a China através do Pacífico
A Carreira da Índia e o fluxo de especiarias a Lisboa
O
ocaso do comércio do Levante (Veneza, os Otomanos, e a Rota da Seda) e a
ascendência de Portugal e Espanha (Lisboa e Sevilha) no novo contexto
do comércio europeu.
Reacção do rei Portugal à concorrência estrangeira
O
regime de donatarias como estratégia portuguesa de colonização -
Madeira, Açores, São Tomé, Brasil, e mais tarde Angola. Prazos em
Moçambique.
Diogo
Cão chega à foz do Zaire (rio Poderoso) que abria uma possível ligação
fluvial directa com o reino do Preste João. A subida do Zaire até às
cataratas de Ielala.
Francisco Barreto conquista o reino de Monomotapa no interior de Moçambique
Segunda viagem de Diogo Cão até à actual Costa dos Esqueletos na Namíbia
O mito das minas de Prata de Cambambe a montante do Cuanza e a ocupação de Angola por Paulo Dias de Novais. Manuel Cerveira Pereira e as minas de cobre do Sumbe Ambela.
A
morte de Paulo Dias de Novais 1589 e a sindicância de Domingos de Abreu
e Brito 1591 - o fim do regime de donataria em Angola - a colónia passa
agora a ser administrada directamente pela corôa.
As caravelas portuguesas foram pioneiras na abertura do mundo no século XV
Descobrimento da América (a desenvolver)
Viagens dos Vikings à America do Norte
Quatro Viagens de Cristovão Colombo
Viagens de John Cabot 97-98
Viagens de Vicente Yánez Pinzón
Viagens de João Fernandes Lavrador à Terra Nova e Península do Lavrador
Início da pesca do Bacalhau na Terra Nova
Viagens dos irmãos Gaspar e Miguel Corte Real
Viagens de Juan Dias Solis à foz do Rio da Prata 1508
Viagem de João Álvares Fagundes
Viagens de Giovanni da Verrazzano 1524-28
Viagens de Jacques Cartier 1534 - 41
Duarte Pacheco Pereira (1460-1533)
Alguns
historiadores portugueses defendem o argumento que o rei Dom Mamuel I
mandou organizar uma expedição secreta antes da viagem de Pedro Álvares
Cabral para explorar a costa norte da América do Sul (Guianas e
Maranhão) comandada pelo militar, navegador, cartógrafo, e homem de
conhecimento Duarte Pacheco Pereira (1460-1533) por volta do ano de 1498.
De
acordo com a política estrita de sigilo sobre as viagens seguida pela
corôa portuguesa, Duarte Pacheco Pereira não publicou nada sobre esta
viagem. Contudo, no seu "Esmeraldo de Situ Orbis"
publicado em 1506, ele faz referência a povos índios, paisagens,
animais, e flora da região, o que dá suporte à tese de que quando a
armada de Pedro Álvares Cabral parou na costa brasileira em Abril de
1500, os portugueses já sabiam da sua existência, e fizeram esta paragem
para anunciar ao mundo o descobrimento (melhor, a posse) dessas
terras.
O grande navegador, soldado, cartógrafo, e homem do Renascimento português, Duarte Pacheco Pereira (1460-1533), o "Aquiles Lusitano"
como Luís de Camões o chamou, viajou antes de Pedro Álvares Cabral,
mapeou, e descreveu as Américas, as Ilhas de Cabo Verde, o Castelo da
Mina, e as costas de Angola e Moçambique. Ele foi também um destacado comandante
militar na Índia.
Amérigo Vespucci (1454-1512)
Logo após o achamento (?) do Brasil pela esquadra de Pedro Álvares Cabral, o
rei Dom Manuel I de Portugal contratou Américo Vespúcio (nome em
português) em 1502 para fazer uma viagem secreta de reconhecimento à costa norte
da América do Sul (Guianas e Maranhão), que ele descreveu
detalhadamente esta viagem no seu relatório "Novus Mundus",
publicado logo depois em Veneza, o que era frontalmente contra a
condição de sigilo imposta pelo Rei, pois o seu livro tornou-se de
imediato o maior "best-seller" na Europa desse tempo. Alguns
historiadores acreditam ainda que
Américo Vespúcio era um dos muitos espiões italianos que nessa altura
operavam em Lisboa e Sevilha desde 1492, pois ele era também agente comercial da
poderosa familia Medici de Itália.
Selo da República Italiana comemorativo do Quinto Centenário do Nascimento (1454-1954) de Amerigo Vespucci (Florença 1454 - Sevilha 1512).
Américo Vespúcio,
nascido em Florença em 1454, era já um navegador com conhecimentos e
experiência do Novo Mundo. Com efeito, ele fez duas viagens ao Novo
Mundo antes da viagem de Pedro Álvares Cabral à costa do Brasil em 1500 -
a primeira, entre 10 de Maio de 1497 a 15 de Outubro de 1498, e a
segunda entre 16 de Maio de 1499 e 8 de Setembro de 1500, ambas ao
serviço da corôa espanhola. Logo após o regresso da sua segunda viagem,
Américo Vespúcio foi contratado pelo rei português Dom Manuel I para
fazer uma viagem secreta de reconhecimento à costa da América do Sul.
Ele voltou à região numa quarta viagem também ao serviço do da corôa
Portuguesa, que teve lugar entre 10 de Maio de 1503 e 18 de Junho de
1504. Em 1505, por decreto real, ele naturalizou-se espanhol, e em 1508
foi nomeado piloto-mor da Casa de Contratación em Sevilha, onde veio a
falecer em 1512.
O primeiro encontro de Amerigo Vespucci com Índios da América. Gravura de Theodore Galle e Jan van der Strae, 1580.
Fernão de Magalhães
Em nossa casa, nós tínhamos também uma biografia de Fernão de Magalhães que tive a sorte de ler, o famoso navegador português primeiro a dar a volta ao mundo, escrita por Stefan Zweig a partir do diário de bordo escritos por António Pigafetta, um livro pequeno e despretensioso também publicado pela Livraria Civilização Editora que capturou de imediato o meu interesse em grandes feitos e viagens.
O feito de Fernão de Magalhães é para mim um dos maiores feitos (senão o
maior e mais difícil) de exploração e descobrimento na história da humanidade. Contra
tudo e contra todos, Fernão de Magalhães continuou fiel ao que pensava, acreditava, e queria atingir.
Embora uma personalidade reservada, e de poucas palavras e acção certa no momento certo, ele foi um líder
extraordinário que grangeou o respeito e a admiração de todos, e é hoje o
português mais reconhecido no mundo (talvez com a excepção de CR7
Cristiano Ronaldo...), ele deu o nome ao maior oceano do mundo (o
Pacífico) e o seu nome foi dado ao estreito mais remoto e selvagem na
Terra, a uma espécie de pinguins na Antártica, a um mar na Lua, e a uma
nebulosa numa galáctica distante. Como muito bem escreveu Luis de Camões, podemos dizer de Fernão de Magalhães: "Qual será o mais excelente: se ser do mundo rei, se de tal gente!"
O grande navegador português Fernão de Magalhães (1480-1521)
Fernão de Magalhães nasceu em Sabrosa (ou Porto, não está estabelecido ao certo) no norte de Portugal, em 1480, de origem de pequena
nobreza. Aos 10 anos foi mandadocomo
pagem para
a corte da raínha Dona Leonor, esposa do Rei Dom Manuel. Alistou-se
como militar para lutar contra os mouros em Marrocos, oferecendo-se de
seguida para lutar na Índia. Participou na batalha de Diu em 1509 e na
conquista de Malaca em 1511. Devido a ferimentos recebidos em combate na Índia, ele coxeava um pouco da perna esquerda.
Fernão de Magalhães partilhava da opinião de Américo Vespúcio (1451-1512) de que o Novo Mundo, descoberto por Cristóvão Colombo em 1492 não era parte da Ásia (da Índia), mas sim um novo continente separado por dois oceanos. Ele acreditava ainda que havia de haver uma passagem no sul do continente, pois ele pensava que a foz do Rio da Prata descoberta em 1516 por Juan Diaz de Solís permitia a navegação directa para as Ilhas das Especiarias, e que ele também acreditava se encontrarem na área que cabia à Espanha pelo Tratado de Tordesilhas. Ele acreditava ainda que as mesmas Ilhas das Especiarias estavam muito mais perto, pois os seus cáculos assumiam erroneamente que o planeta Terra era muito mais pequeno do que na realidade.
Se comprovadas pelos factos, todas estas hipóteses haviam de facilitar imensamente a corôa espanhola pois permitia a navegação directa para as Ilhas das Especiarias, sem o inconveniente de terem que atravessar o hemisfério oriental que tinha sido atribuído a Portugal pelo mesmo Tratado de Tordesilhas, acordado emtre os reis de Portugal e Espanha em 1494.
Detalhe do mapa de Martin Waldseemuller, publicado a 25 de Abril de 1507, sob o título "Universalis Cosmographia", em que o Novo Mundo é pela primeira vez designado como América como um continente separado da Ásia, como referência às viagens de Amérigo Vespucci. Este mapa publicado em mil cópias criou uma verdadeira revolução na percepção do Novo Mundo, que tinha sido descoberto 15 anos antes por Cristóvão Colombo.
Dos
muitos navegadores e soldados portugueses com experiência na Índia,
Fernão de Magalhães destacava-se não só pelo seu conhecimento científico
e experiência militar e náutica mas também pela sua personalidade e
trato de chefia. Ele mantinha correspondência
com Francisco Serrão, agente comercial e militar português nas Ilhas Molucas, Duarte
Barbosa, seu sogro e marinheiro experiente, e o cosmógrafo e matemático Rui Faleiro (que era também um tanto lunático).
De volta a Portugal em 1512 Fernão de Magalhães consegue uma audiência com o Rei Dom Manuel I
em que oferece a hipótese de conseguir chegar às ilhas das especiarias,
navegando sempre para oeste, pois sugeriu que havia uma entrada a sul
da foz do rio da Prata. O rei português rejeita o plano, já então
beneficiando do comércio com a Índia através da rota do Cabo da Boa
Esperança, bem como a pensão que Fernão de Magalhães lhe pedira pelos
seus anos de trabalho na Índia. O plano era similar ao de Cristovão
Colombo, que 25 anos antes tinha apresentado aos reis Fernando e Isabella de
Espanha.
Mapa do Novo Mundo (Die Nuw Welt), de Sebastian Munster, 1540, mostrando toscamente, mas com certo detalhe e clareza, a forma das Américas e Antilhas, a Baía de Hudson, a Passagem do Noroeste, a Baixa Califórnia (então pensada como uma ilha), o México e a Flórida, Cuba, o Japão, e a Antártica. Foi com este mapa que o nome "América", como referência ao navegador Amerigo Vespucci, se popularizou como nome do Novo Mundo.
Perante
a rejeição do rei Dom Manuel I (que nunca gostou dele), Fernão de
Magalhães decide renunciar à sua qualidade de português e oferecer os seus serviços ao rei de Espanha. Ele
muda-se muda-se para Sevilha, assume a nacionalidade espanhola, muda o seu nome para Fernando de Magallanes, e casa
com a filha do seu amigo Duarte Barbosa, de quem vem a ter um filho que
nunca havia de conhecer.
Depois de um período de estudo e preparação
aturados, e com a juda de Juan de Aranda, feitor da Casa de Contratação das Índias em Sevilha, Fernão de Magalhães consegue obter uma audiência com o Rei
Carlos I (mais tarde Imperador Carlos V de Espanha e primeiro
imperador do Sacro Império Romano-Germânico) na corte em Valladolid em
1517 em que propõe, como Cristóvão Colombo tinha exposto aos reis
Fernando e Isabella, chegar às Ilhas das Especiairias (Molucas)
navegando sempre para oeste. Carlos I ficou impressionado com o plano e aprovou o projecto.
O
financiamento da expedição durou algum tempo a concretizar-se e só foi
conseguido a muito custo, pela elevada incerteza e risco que a viagem
apresentava. Apesar de todas as dificuldades, com a ajuda do abastado
comerciante e banqueiro de Burgos Cristóbal de Haro, Fernão de Magalhães conseguiu o financiamento da expedição através da participação da familia de banqueiros alemães Fugger (Haro era o representante dos Fugger em Burgos), do cardeal de Burgos Juan Rodriguez de Fonseca como financiador importante da expedição e de seu sobrinho / suposto filho ilegítimo Juan de Cartagena, que foi
designado inspector general e segundo comandante da
expedição reportando directamente ao rei espanhol.
Nota - Os dois grupos principais de banqueiros na Europa desse tempo eram as famílias Fugger, de Augsburg, e Welser, de Augsburg e Nuremberg, na Alemanha, que financiaram grande número das frotas para resgate de ouro no Novo Mundo, muitas guerras, e muitos governos. Ambas as famílias tornaram-se imensamente ricas e poderosas com os muitos empréstimos muito lucrativos que fizeram ao Imperador Carlos V de Espanha, para novo comércio internacional de mercados globais e para o tráfico transatlântico de escravos que entretanto emergiam no Novo Mundo na forma de capitalismo mercantil. A familia Medici eram também banqueiros muito importantes, mas concentravam o seu negócio com o Vaticano e as repúblicas italianas de Florença, Veneza, e Génova.
Apesar
do investimento privado, a corôa espanhola acabou por ser o principal financiador
da expedição, cobrindo os custos de fornecer as cinco naus, homens, e suprimentos
para dois anos. Apesar dos conhecimentos de Juan de Cartagena se
circunscreverem à contabilidade e ele não ter quaisquer conhecimentos sobre
navegação, mas em reconhecimento da sua importância como delegado dos
financiadores da viagem, Fernão de Magalhães conferiu-lhe o cargo de
capitão da nau San Antonio, o maior navio da frota. A expedição recebeu o nome de Armada del Maluco, nome indonésio para as Ilhas das Especiarias.
A frota era composta de de cinco
naus: San António (144 toneladas, tripulação 55), Trinidad (132 toneladas e 62 de tripulação), Concepción (108 toneladas e 45 de tripulação), Victoria
(102 toneladas e 46 de tripulação), e Santiago (90 toneladas e 33
de tripulação). A tripulação era de 265 marinheiros no total, dos quais
cerca de dois-terços eram espanhóis (170), 24 portugueses, e 27
italianos. O jovem veneziano Antonio Pigafetta, um estudante de geografia e astronomia, que se apelidava de "Patricio de Veneza e Cavaleiro de Rodes" foi escolhido para cronista da
expedição, apesar da sua categoria na expedição ser um simples "sobressaliente" (supranumerário).
António
Pigafetta (1491?-1531) foi o cronista da primeira viagem de
circum-navegação do globo, liderada pelo navegador português Fernão de
Magalhães. Ele descreveu no seu diário de viagem de forma muito
interessante muios povos nativos, animais, plantas, línguas, costumes, fenómenos climáticos, e
marcos geográficos. Pigafetta foi um percursor da antropologia e da etnografia, pois preocupou-se sempre em descrever os costumes dos povos que encontrou na viagem.
Apesar
de ter recebido a aprovação do rei Dom Carlos I de Espanha, Fernão de
Magalhães, um português que tinha renunciado à sua pátria, nunca foi
visto sem um pouco de desconfiança pelos espanhois. A este facto devemos
considerar ainda o facto de que Fernão de Magalhães reservou aos
experientes navegadores portugueseso os postos mais importantes na
expedição, o que causou um certo ressentimento (preocupação e inveja até) aos
candidatos espanhois. Esta situação de desconfiança haveria de causar
muitos e sérios problemas a todos, conforme veremos mais tarde.
A Primeira Viagem à Volta do Mundo
Depois de quase dois anos de aturada preparação, a frota partiu de
Sanlúcar de Barrameda a 10 de Agosto de 1519. A rota que seguiu, o mais possível junto à costa africana até mais ao sul possível, era mais longa do que a habitual para se esconderem da vista de navios portugueses,
pois o Rei Dom Manuel tinha ordenado a formação de duas patrulhas com o
objectivo único de destruir a frota de Fernão de Magalhães.
A primeira paragem da frota teve lugar em Tenerife nas Ilhas Canárias, onde Fernão de Magalhães recebe uma mensagem secreta do seu sogro Duarte Barbosa alertando-o do facto de que os capitães espanhois, liderados por Juan de Cartagena, estavam planeando uma revolta contra si. A mesma mensagem informou-o de que o rei Dom Manuel de Portugal tinha mandado duas frotas de caravelas para aprisionar a sua Armada de Maluco.
Em Dezembro descem âncora na Baía de Guanabara (onde anos mais tarde se havia de fundar a cidade do Rio de
Janeiro) para abastecimento de alimentos frescos. Os marinheiros adoraram a
beleza exótica das mulheres Índias, que andavam nuas no seu dia-a-dia. Em
Janeiro de 1520 seguem ao longo da costa da América do Sul ate chegarem à boca
do Rio da Prata, onde param durante duas semanas para reabastecimento e reparações.
A frota levanta
âncora e continua a navegar para sul em direcção à baía das Onze Mil Virgens, perto da Baía de São Julião, já na
actual região da Patagónia (terra dos homens de pés grandes).
Dá-se então a primeira
revolta contra Fernão de Magalhães, liderado por Juan de Cartagena, em
que os revoltosos são severamente castigados (alguns degolados) por Fernão de Magalhães.
Entretanto,
em princípios de Abril a nau Santiago perde-se num naufrágio.
Devido às condições difíceis de navegação
durante os meses de inverno na ponta sul do continente sul-americano, a frota estaciona durante cinco meses na Barra de São Julião até fins de
Agosto. Juan de Cartagena ajudado pelos capitães espanhois das naus Concepción (Gaspar de Quesada) e Victoria (Luis de Mendoza) lidera uma segunda revolta contra Fernão de
Magalhães, que desta vez decide então desterrar Juan de Cartagena e o capelão-mor da expedição Pedro Sanchez de Reina numa praia inóspita no sul da Argentina, para nunca mais serem vistos.
Em Setembro a frota chega à Terra do Fogo, chamada assim pelos fogos que os nativos (os Patagões - homens de pés gigantes, daí o nome Patagónia) faziam nas praias para aquecimento no inverno, à entrada do estreito (que mais tarde viria a ser chamado de Estreito
de Magalhães), onde se demoraram cerca de quatro meses a explorar e atravessar.
Entretanto, em Outubro, a nau San António, comandada por Estêvão Gomes,
deserta a frota e volta para a Espanha, onde
chega a Sevilha a 8 de Maio de 1521 com 55 sobreviventes a bordo.
Por
razões mais ou menos óbvias que se ligam ao orgulho nacional português,
que eu saiba, não há nenhuma estátua de Fernão de Magalhães em Portugal
ou nas suas antigas colónias. Esta é uma estátua dedicada em 1920 a Hernando de
Magallanes, na Plaza de Armas em Punta Arenas (Tierra del Fuego, Chile) no ponto mais
meridional da América do Sul, a meio do estreito a que veio a ser dado o
seu nome. A viagem de Fernão de Magalhães é considerada por muitos como a viagem mais extraordinária da história da humanidade.
Entretanto, em Janeiro de 1521, a frota de Fernão de Magalhães avista
pela primeira vez o grande Mar do Sul, que Magalhães dá o nome de Oceano
Pacífico, que tinha sido avistado em 1513 por Vasco Nunes de Balboa no istmo do Panamá.
A travessia do
Pacífico começa em Janeiro de 1521, durante os primeiros cem dias nenhuma ilha
é avistada. Assediada por falta de alimentos, falta de água potável, e escorbuto (falta de vitamina C),
grande número de marinheiros adoecem e morrem nesta secção da viagem. Sem alimentos
frescos, os marinheiros vêm-se obrigados a comer ratos, sola de sapato cozida
em água a ferver, e biscoitos já desfeitos e cheios de bichos. No seu diário, Pigafetta escreveu: "Durante
três meses e vinte dias não conseguimos comida fresca. Comemos bolo,
embora não fosse bolo, mas poeira misturada com minhocas e o que restava
cheirava aurina de rato. Bebíamos água amarela, que estava podre, por
muitos dias. Também comemos algumas peles de boique cobriam a parte
superior do pátio principal."
Ao
cruzar o imenso Oceano Pacífico, Fernão de Magalhães enfrentou difíceis problemas
com a tripulação, a maioria dos quais relacionados com a ausência de terra à vista, qualidade da
alimentação e com o escurbuto e outras doenças que afligiam a sua tripulação. Como capitão da armada, ele foi ríspido na aplicação de justiça.
Em Março de 1521,
a ilha de Guam (no arquipélago das Ilhas Marianas) é avistada (então chamada a Ilha dos Ladrões), uma semana depois a frota pára em Homohon, já nas
Filipinas, onde estaciona durante algumas semanas para descanso da tripulação, reabastecimento de víveres, e
reparação das naus. Para sua grande surpresa, Fernão de Magalhães nota que o
seu escravo Henrique de origem malaia que tinha trazido consigo
desde os tempos da Índia, pode compreender a língua dos habitantes das
ilhas, prova de que
a frota tinha chegado aos antípodas de Espanha e Portugal, confirmando
que de
facto, Henrique foi o primeiro homem a dar a volta ao mundo.
A 27 de Abril de
1521, Fernão Magalhães comanda uma força de cerca de 60 marinheiros para
combater o rival do chefe local. Entre muitos marinheiros, Fernão de Magalhães é morto em combate na
praia pelas forças do chefe rival Silapu Lapu nessa escaramuça que envolvia
questões antigas entre o Rajah Humabon e Silapu Lapu, os dois chefes locais mais prominentes na Ilha de Mactan.
O capitão português João Carvalho é escolhido pela tripulação para substituir Fernão de Magalhães
como comandante da frota.Devido à falta de marinheiros, em Junho de
1521 a nau Concepción é descarregada de tudo quanto ainda fosse útil à expedição e incendiada. Em Julho, a frota pára de novo para reparar problemas nos navios, que estavam a
meter água. A expedição passa a ter agora apenas duas naus: a Trinidad e a Victoria
Em Novembro de
1521 a frota chega às desejadas Ilhas Molucas. A tripulação descansa por
algumas semanas e troca mercadorias com os chefes locais na Ilha de Tidore, onde
381 sacos de nós moscada são carregados na nau Victoria, que levanta âncora em
direcção a Timor. O valor de venda deste carregamento de especiarias à chegada
a Espanha é suficiente para cobrir todas as despesas da viagem e gerar um
pequeno lucro aos investidores que financiaram a viagem.
Nas
Molucas, a
frota é dividida ao meio e a seguir rotas opostas: uma continua em
direcção oeste e a outra em direcção leste. A Nau Trinidad, comandada
por Gonzalo Gómez de Espinosa, toma a rota este de volta à América do Sul, onde em breve é atacada e destruída, e a nau Victória, sob o comando do capitão basco Juan Sebastian d'Elcano continua na direcção oeste navegando através da das conturbadas águas do sul do Oceano Índico na sua extensão completa, onde deparam
com ventos e tempestades muito violentas para se esconder de barcos
portugueses, em direcção ao Cabo da Boa Esperança.
Sebastian d'Elcano (1476-1526) capitão espanhol que substituiu Fernão de Magalhães no comando da Armada de Maluco de volta a Sevilha em Setembro de 1522.
Finalmente, a "Victória" parou na cidade da Praia em Cabo
Verde, e António Pigafetta perguntou que dia era, ao que lhe responderam que era 9 de Julho de 1522. Ele notou de imediato que
estava um dia atrazado no seu diário de bordo, pois mostrava 8 de Julho, o que ele achou muito estranho, pois tinha registado fielmente cada e todos os dias da viagem. Com efeito, ele não sabia que tinha perdido um dia quando tinha dado a volta ao mundo navegando sempre para oeste.
Eles foram obrigados de contra-vontade e com medo a fazer a paragem em Cabo Verde para obter alimentos, pois já tinham esgotado todas as provisões, e a fome grassava outra vez pela tripulação. As autoridades portuguesas desconfiaram da existência de um barco sem registo e sem bandeira, pelo que perguntaram de onde vinha, ao que a tripulação respondeu em português que era de facto um barco português que se tinha perdido no Atlântico. No fim, depois de se abastecerem de alimentos, e como não tinham moeda portuguesa (só tinham maravedis de Espanha), eles não discutiram o preço e fizeram o pagamento em sacos de cravos da Índia e noz-moscada, o que levantou imediatamente a suspeita às autoridades portuguesas. Houve de imediato uma escaramuça no porto e 13 membros da tripulação foram presos, tendo o resto da tripulaçãofugido apressadamente para a nau Victória que estava ao largo, levantado âncora e deixado o porto da Praia em fuga apressada para o mar alto.
Finalmente, a 18
de Setembro de 1522, os últimos dezoito marinheiros exaustos da nau Victoria chegam a Sevilha. No
total, a viagem durou 3 anos e 27 dias (num total de 1.123 dias)e
percorreu mais de 70.000 quilómetros, a maioria das quais através de
águas desconhecidas e hostis. Da tripulação inicial de 265 marinheiros,
só 18 chegaram a Sevilha,
com um índice de mortalidade de quase 75%. António Pigafetta com o seu
diário da viagem estava entre os sobreviventes.
Em reconhecimento do seu grande feito, o rei de Espanha Carlos I
conferiu a Sebastião d'Elcano um título de nobreza. D'Elcano também lucrou com a viagem, recebendo 613.250 maravedis, 104.526 como vencimentos e o resto como lucro na venda da sua quota de nós-moscada, o que era uma fortuna na época. No seu brasão de nobreza reconhecido pelo imperador Carlos V, ele inscreveu o seu lema sobre um globo terrestre: "Primus circumdedisti me" (O primeiro a circum navegarte). Infelizmente, poucos anos depois em 1526, Sebastian d'Elcano morreu de escorbuto no mesmo Oceano Pacífico numa nova tentativa de atingir as Ilhas Molucas.
Já era conhecimento corrente nos meios náuticos dessa época de que o planeta Terra era de forma esférica; o que não se sabia era que o planeta era tão grande, especialmente o oceano Pacífico que era maior em área do que todos os continentes juntos. Da mesma forma, até a expedição de Magalhães atingir a Patagónia e a Terra do Fogo, não se sabia que o tempo das estações do ano era inverso no hemisfério sul.
Fernão de
Magalhães, comandante da expedição, morto nos antípodas da Península Ibérica,
não chegou nunca a ver ou beneficiar do âmbito do seu feito, contudo ele foi quem mais trabalhou para de facto poder dizer "Primus circumdedisti me". Hoje nós podemos aferir a natureza épica dessa tão dificil viagem, através da pena de António Pigafetta que publicou mais tarde em 1524-25 o seu diário
da viagem - "La Relazione del Primo Viaggio intorno al Mondo".
A rota da incrível primeira viagem à volta do mundo (1519-21) da expedição de Fernão de Magalhães (1480-1521).
Após ler a história da sua vida e a descrição da sua incrível viagem de circumnavegação, Fernão de Magalhães
ficou a ser uma das personagens históricas que mais admirei na vida; de
facto, ele passou a ser o meu herói para o resto da minha vida, e de me
dar razões para ter um grande orgulho em ser português.
Selo memorativo do grande navegador português Fernão de Magalhães (1480-1521)
Deste
livro recordo em especial os capítulos sobre o àspero tratamento que
recebeu do rei português Dom Manuel I em 1516, da justificação quase científica que substanciou a viagem (com a ajuda dos seus amigos
Francisco Serrão e Rui Faleiro), do esforço hercúleo em obter financiamento, através de Cristóvão de Haro, agente da conhecida casa bancária Fugger em Sevilha, e
preparar uma viagem de três anos por mares desconhecidos para uma frota
de cinco navos com uma tripulação de cerca de 265 marinheiros a mando
de um rei estrangeiro, e da maneira sábia, resoluta e justa como ele
geriu as revoltas dos comandantes espanhóis (João de Cartagena, Gaspar
Quesada, e António de Coca - a mando do célebre e influente financiador
Cardeal Fonseca de Burgos) contra a sua autoridade na baía de São Julião
(na ponta sul da costa argentina), e das tentativas malogradas de
atravessar o tenebroso estreito que havia de ter o seu nome.
Quando a expedição entrou no estreito, Fernão de Magalhães sabia que estave a cruzar um estreito marítimo, e não um rio, pois a água era salgada. Mas ele não tinha ideia que o estreito era tão longo (cerca de 580 km), se bem que já soubesse quão duro o Inverno havia de ser. Menos ainda sabia ele que o Oceano Pacífico, a que ele próprio havia de dar o nome, era tão extenso. Por ironia do destino, a rota seguida na
travessia do vazio e imenso oceano Pacífico fez-se sem avistar qualquer
ilha por mais de três meses e ao longo de milhares de quilómetros de mar.
Em breve, a tripulação viu-se se sem alimentos frescos e
muito afectada por escorbuto sofreu muitas mortes que lhe subtraíam a
tripulação numa cadência galopante. Os biscoitos viraram poeira com bichos, e eles viram-se obrigados a comer ratos de
porão, que comandavam um preço altíssimo (mais de um mês de vencimento por cada rato!) entre os membros da
tripulação, e sola de sapatos e de artigos de couro amolecido em água a ferver.
A armada de Fernão de Magalhães foi a primeira a chegar ao Oceano Pacífico atravessando por mar o sul da Patagónia em 1521. Patagónia é um termo mais usado na Argentina; Tierra del Fuego é mais usado no Chile. Ambos os nomes se referem à mesma região em geral.
Quis
a ironia da história que Fernão de Magalhães não chegasse a ver o fim
da sua grande viagem. Tal como Cristóvão Colombo que regressou a Sevilha
como prisioneiro acorrentado, Hernán Cortez humilhado por todos,
Francisco Pizzarro assassinado pelos seus colegas, Nuñez de Balboa
decapitado, Pedro de Valdívia morto, e o nosso príncipe dos poetas, Luis de Camões, preso e
caluniado em Lisboa, Fernão de Magalhães não viveu sequer um minuto de
glória pela sua maior e mais extraordinária odisseia na história da
Humanidade.
Fernão
de Magalhães morreu heróica e desnecessariamente mente numa escaramuça local na Ilha de Cebu,
nas Filipinas, depois de ter constatado que a sua expedição tinha dado a
volta ao mundo pois realizou que o seu leal escravo, o jovem Henrique, de origem malaia, era capaz de entender a língua dos nativos das ilhas que tinham aportado.
Infelizmente, Fernão de Magalhães não conseguiu chegar às ilhas das especiarias (Molucas - Ternate,
Tidore, Amboim, e Banda) mas teve a satisfação de saber que elas não estavam longe. O corpo
de Magalhães nunca foi recuperado, pois Silapu Lapu recusou-se a devolvê-lo à
tripulação. Pelo seu papel de resistência à chegada dos espanhois e na
morte de Magalhães, Silapu Lapu é considerado nas Filipinas como primeiro
herói nacional, e o dia 27 de Abril (dia da morte de Fernão de
Magalhães) é celebrado com celebrações especiais por toda a nação
filipina.
No
seu livro, Stefan Zweig escreve com eloquência um capítulo sobre a eulogia escrita pelo seu leal cronista António Pigafetta após a
morte de Fernão de Magalhães na Ilha de Mactan, nas Ilhas Filipinas, em
que não oculta o amor, o respeito, e a veneração que toda a tripulação
(incluindo os seus antigos inimigos) tinham por ele.
A morte heróica de Fernão de Magalhães, na Ilha de Mactan, nas Ilhas Filipinas, em 1521.
Stefan Zweig (1881-1942) foi
um escritor austríaco de origem judaica que escreveu muitos livros de
grande popularidade nos anos Trinta, Quarenta e Cinquenta do século
passado, dos quais acabei por ler toda a sua obra, e que destaco as
biografias de Fernão de Magalhães,Maria Antonieta, Maria Raínha da Escócia, Joseph Fouché, e Américo Vespúcio (que também recomendo muito a sua leitura), e as suas obras "O Mundo de Ontem" (a sua autobiografia/memórias), "Carta de uma Desconhecida", "Amok", "Os Grandes Momentos da Humanidade", "A Marcha do Tempo" e "24 Horas na Vida de Uma Mulher", que foram best-sellers durante muito tempo. Os seus escritos eram de um humanismo muito profundo e saudosista que tocava o papel do homem no mundo.
O escritor austríaco de origem judaica Stefan Zweig (1881-1942)
Zweig era oriundo de famílias com dinheiro, o seu pai era dono de uma fábrica de tecelagem, e a família da sua mãe eram banqueiros muito conhecidos na Austria. Ele teve a uma educação esmerada, tendo-se doutorado em filosofia pela Universidade de Viena. Ele via-se como um internacionalista, de facto "um cidadão do mundo", como ele se intitulava frequentemente.
Infelizmente,
descoroçoado com a expansão do nazismo no mundo, Stefan Zweig e sua segunda esposa Lotte fugiram da Áustria e da Alemanha e refugiaram-se primeiro na Inglaterra em 1934, pois estavam a ser perseguidos pelo regime nazista, seguindo depois em Nova York nos EUA, mudando-se finalmente em 1940 para o Brasil. Aqui, desiludidos com o expandir do
fascismo no mundo (o regime Nazi alemão dominava a Europa em 1942), eles acabaram por se suicidar ambos ao mesmo tempo na cidade de
Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro, em 1942. Os seus corpos foram encontrados em casa de mãos dadas. Ele deixou uma carta/testamento.
Charles Robert Darwin (1809-82)
Eu li nessa altura um livro sobre a famosa viagem de exploração e pesquisa científica que Charles Darwin (1809-82) deu à volta do mundo entre 1831 e 1836 no navio H.M.S. Beagle,
sob o comando do Capitão Robert Fitz Roy. Foi nessa viagem que Darwin
colectou a evidência necessária para dar corpo à sua teoria de evolução biológica natural tão bem explicada no seu livro "A Origem das Espécies" publicado anos mais tarde em 1859.
O famoso cientista Charles Robert Darwin (1809-82), que desenvolveu a teoria de evolução biológica baseada na selecção natural. Imagem colorida por AI.
É de notar que o próprio Charles Darwin publicou em 1839 uma descrição muito detalhada desta viagem, acompanhada das notas do Capitão Fitz Roy, livro que por seu próprio mérito se tornou um clássico de viagens e divulgação científica admirado no mundo inteiro. O título original deste livro é muito longo: "Journal of Researches into the Natural History & Geology of the Countries Visited During the Voyage Round the World of the H.M.S "Beagle" Under the Command of Captain Fitz Roy, R.N." by Charles Darwin, M.A., F.R.S., author of "Origin of Species, etc."
A corveta HMS Beagle da Royal Navy, algures na costa sul do Chile. A corveta Beagle transportou o cientista Charles Darwin na sua longa viagem de exploração e estudo à volta do mundo entre 1831 e 1836. Imagem colorida por AI.
A viagem da corveta Beagle começou a 27 de Dezembro de 1831 quando deixou o porto de Devonport (Plimouth) na Inglaterra. Em Janeiro e Fevereiro de 1832 pararam primeiro no Funchal (Ilha da Madeira), onde visitou o jardim botânico, seguindo depois para as ilhas Canárias (Tenerife), e Cabo Verde (Santiago, Praia, e Ribeira Grande). Rumaram depois para os rochedos de São Paulo, as Ilhas de Fernando de Noronha, já no Atlântico Sul, e daqui para a costa brasileira aonde chegaram a Salvador da Baía em Março de 1832, onde passaram alguns dias.
Charles Darwin (1809-1882) no Rio de Janeiro, cidade que ele visitou (e não gostou) em 1832. Imagem colorida por AI.
Depois seguiram para o Rio de Janeiro para uma paragem breve em Abril de 1832, antes de seguirem para Montevideo no Uruguai, aonde chegaram em Julho de 1832. Daqui seguiram para as Ilhas Falkland, quase na ponta sul da costa sul-americana, onde estiveram até Dezembro de 1832, regressando de volta a Montevideo em Abril de 1833. Aqui arranjaram mantimentos e consertaram o navio para o preparar para dobrar a ponta sul da América do Sul, rumando para Baía Branca, Santa Cruz, Patagónia, e Ilhas Falkland outra vez.
Mapa da secção do percurso à volta da América do Sul da viagem da corveta Beagle (1831-36) em que Charles Darwin conduziu grande parte da sua pesquisa sobre a influência do ambiente natural na evolução de animais e plantas, especialmente nas Ilhas Galápagos. Mapa obtido do National Geographic History Magazine Maio/Junho 2020.
Daqui, continuram para oeste para visitar a Terra do Fogo em Junho de 1834 e visitar o canal que mais tarde se viria a chamar canal Beagle, e onde hoje se situa a cidade de Ushuaia (na Argentina). Depois continuaram para sul até entrar no estreito de Magalhães, entrando depois no Oceano Pacífico rumando norte ao longo da costa chilena até à cidade de Valdívia, onde chegaram em Novembro do mesmo ano. Eles visitaram em seguida a Ilha de Chiloé e voltaram a Valparaíso. Este troço da viagem durou dois anos (1833-4), pois eles pararam em muitos lugares para estudar animais e plantas e colher specimens. Já em Fevereiro de 1835, eles saíram de Valdívia em direcção a Valparaíso, tendo aqui visitado a cordilheira dos Andes.
Um bilhete postal antigo da cidade pacata de Valdívia, no Chile (1905), visitada por Charles Darwin em 1834-35. Imagem colorida por AI.
Em Março de 1835 eles deixaram Valparaíso com destino ao porto de Arica, de onde seguiram para o porto de Callo, perto de Lima no Perú, onde chegaram em Julho de 1835. Aqui eles fizeram os preparativos para rumar para as ilhas Galápagos, aonde chegaram em Setembro de 1835. Foi nas ilhas Galápagos onde Darwin passou cinco semanas e estudou muitas espécies únicas de animais e plantas, incluindo tartarugas e iguanas, e em especial os seus estudos de ornitologia sobre o bico dos pardais nas diferentes ilhas do arquipélago, elemento que se tornou fundamental para a confirmação da sua teoria da evolução biológica através da selecção natural.
Gravura de Charles Darwin na sua obra "Sobre a Origem das Espécies" sobre os bicos de pardais das Ilhas Galápagos, mostrando a adaptação biológica às condições ambientais locais.
Completados estes estudos, o Beagle rumou para sudoeste em direcção às Ilhas do Tahiti, onde chegaram em Novembro de 1835, e depois Nova Zelândia (Dezembro 1835), e finalmente chegaram a Sidney (Austrália), onde chegaram em Janeiro de 1836. Depois de uma paragem breve em Hobart, na Ilha da Tasmânia, em Fevereiro, eles seguiram para a Barra do Rei George, em Março, no canto sudoeste da Austrália. Já no Oceano Índico, rumaram em direcção às Ilhas Coco (Keeling), a sudoeste de Java, onde chegaram em Abril de 1836. Daqui foram directos às Ilhas Maurícias, no meio do oceano Índico, onde após uma paragem breve rumaram em direcção à Cidade do Cabo, na ponta sul de África, aonde chegaram em Junho de 1836.
Passaram alguns dias na Cidade do Cabo, e após arranjarem mantimentos para o último troço da viagem, rumaram em direcção à Ilha de Santa Helena, e daí para a Ilha de Ascenção, em Julho de 1836. Daqui rumaram oeste em direcção a Salvador da Baía, onde já tinham estado na viagem de ida, e chegaram em Agosto de 1836.
No troço final da viagem, o Beagle fez uma paragem breve na cidade do Recife (Pernambuco, Brasil) seguiu depois para Cabo Verde, onde chegaram em meados de Agosto, e daí para os Açores em fins de Agosto, onde pararam dor um dia, seguindo logo para Plimouth, aonde finalmente chegaram a 2 de Outubro de 1836, porto de onde tinham partido quase cinco anos antes.
Capa da 1ª Edição do Livro "On the Origin of Species", de Charles Darwin, 1859, um marco na história da ciência. Imagem colorida por AI.
Para
além da maravilhosa descrição zoológica, botânica, e geológica da costa oeste da
América do Sul (Brasil, Argentina e da região da Patagónia, Terra do Fogo, Chile, Perú e Equador), e das Ilhas Galápagos, este livro
abriu a minha mente à teoria da evolução natural, que estava em
contraste frontal com as explicações sem fundamento científico contidas
na Bíblia até então propagadas pela Igreja.
Lembro-me ainda dos estudos detalhados de animais e plantas que Darwin fez nas Ilhas da Madeira (onde há um registo da sua visita no Jardim Botânico do Funchal) e de Cabo Verde e no Rio de Janeiro quando lá parou na sua viagem de ida. Darwin adorou a Ilha da Madeira, especialmente o Funchal, mas detestou a cidade do Rio de Janeiro. Ele era a favor da abolição da escavatura e testemunhou nas ruas do Rio de Janeiro cenas de punição bárbara de escravos à mão dos seus donos que o horrorizaram.
Aprendi assim com a viagem de Charles Darwin no H.M.S. (His/Her Majesty Ship) Beagle a
discernir a diferença entre ciência (método científico) e religião (fé), e a luta que ele teve consigo próprio durante o resto da sua vida em reconciliar a fé e a evidência científica do seu trabalho. A esposa de Darwin, o seu nome era Emma Wedgewood (1808-96), que era também sua prima, com quem veio a ter dez filhos, dos quais sete viveram até a idade adulta, era muito crente em Deus e ele (Charles Darwin), com grande sacrifício e durante muitos anos, ocultou dela o a sua batalha íntima entre a religião e a ciência só para não ferir os sentimentos de Emma.
Emma Wedgewood Darwin (1808-96), esposa de Charles Darwin. Imagem colorida por AI.
Para mim (e para muitos), a teoria da evolução biológica de Darwin representa o passo mais importante na evolução da ciência biológica, pois ajudou-nos a corrigir a percepção divina que o homem tinha de si próprio e o seu lugar no mundo, resultando numa verdadeira revolução na ciência, na religião, e até na filosofia.
Até 1859, a grande maioria das pessoas que professavam a religião cristã acreditava que Deus tinha criado o homem e a mulher, já completos e evoluídos e outros animais, plantas, e outras formas de vida na sua forma corrente há relativamente pouco tempo (há pouco mais de seis mil anos), de acordo com o livro de Génesis e o mito da arca de Noé.
Através do seu trabalho meticuloso e rigoroso método científico que Darwin conduziu na América do Sul e nas Ilhas Galápagos, ele provou que os seres vivos tiveram uma origem muito mais remota (de facto de muitos milhões de anos antes) e que os mesmos evoluiram gradual e um tanto aleatoriamente ao longo do mesmo período.
Ele constatou que todas as espécies de ser vivos aumentam em número ao longo do tempo até a uma altura em que não há alimento para todos. Então eles lutam entre si pelos alimentos disponíveis ou morrem à fome. Ele constatou ainda que cada em cada geração cada ser vivo pode ser um bocadinho diferente dos seus pais e irmãos, e que cada criatura que nasce com uma diferença que lhe pode conferir uma vantagem sobre os seus irmãos, permite-lhe ganhar a luta pelos alimentos e lhe dá uma chance melhor de sobrevir e continuar a vida da espécie para as gerações vindouras.
Entretanto, ao fim de muitas gerações, os filhos que herdaram essa nova qualidade biológica e a passam aos seus descendentes, têm uma melhor capacidade para sobreviver, enquanto os que não têm essa qualidade biológica morrem eventualmente sem que as suas características passem às gerações vindouras e a sua espécie entre eventualmente em extinção. Assim, ao longo de muitas gerações a configuração biológica, fisiológica, e mental dos elementos de todas as espécies de todas as formas de vida seguem um trajecto evolutivo de selecção natural ao longo de milhões de anos.
Uma alegoria à teoria da evolução biológica de Charles Darwin baseada na sua tese da selecção natural, que foi uma das ideias mais revolucionárias na história da ciência.
Charles Darwin deixou uma prolífica científica muito extensa. Ele escreveu vinte livros e centenas de artigos científicos, dos quais "Sobre a Origem das Espécies", "A Viagem do Beagle", e "A Descendência do Homem e a sua Selecção em Relação ao Sexo" são os mais conhecidos.
A teoria da evolução pela selecção natural de Charles Darwin destronou o mito cristão de Adão e Eva.
A teoria da evolução biológica de Darwin causou uma verdadeira revolução no mundo da ciência do seu tempo. Apesar de bem aceite nos meios científicos, Darwin sofreu uma resistência muito dura, especialmente de pessoas e instituições religiosas mais conservadoras, especialmente a Igreja católica e outras igrejas cristãs fundamentalistas que o acusaram da avançar a tese que o homem descendia do macaco. Por incrível que pareça, já no século XXI, ainda existem igrejas fundamentalistas nos Estados Unidos que refutam a validade científica da teoria da evolução biológica e a substituem por pseudo-teorias creacionistas. Como bem diz a Bíblia, "Abençoados os pobres de espírito, que deles é o reino dos céus!".
Infelizmente, as suas ideias de evolução baseada na selecção natural foram estendidas sem base científica por alguns pensadores às ciências sociais (o darwinismo social), com consequências muito dramáticas que resultaram eventualmente no genocídio de milhões de pessoas tidas como vindas de "raças inferiores", e para a continuação e expansão do racismo no mundo.
Charles Darwin foi muito vilificado pelas acérrimas críticas que foi alvo das facções mais conservadoras da sociedade. Por incrível que pareça, ainda hoje, existem muitas igrejas cristãs fundamentalistas que advogam o creacionismo em oposição à teoria de evolução biológica advogada por Darwin. Imagem colorida por AI.
É importante notar que o naturalista inglês Alfred Russell Wallace (1823-1913) baseado no seu trabalho científico conduzido ao longo de anos em África, na América do Sul, e no arquipélago da Malásia entre 1854 a 1862 aperfeiçoou ao mesmo tempo uma teoria de evolução biológica muito semelhante à de Charles Darwin, mas este com a publicação da sua obra "Sobre a Origem das Espécies" em 1859 antecipou-se a Wallace passando a ser reconhecido mundialmente como o inventor da teoria da evolução.
O naturalista Alfred Russell Wallace (1823-1913), que desenvolveu independentemente de Darwin uma teoria de evolução biológica baseada na selecção natural ao mesmo tempo que Charles Darwin.
Alexander von Humboldt (1769-1859)
Não se pode falar sobre o avanço do pensamento científico e da ciência dsem deixar de se mencionar o trabalho poneiro de Alexander von Humboldt na geografia e ecologia.
O grande explorador e pioneiro da geografia e da ecologia como ciências, Alexander von Humboldt (1769-1859). Imagem retocada por AI.
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Gravura de Alexander von Humboldt na sua biblioteca. Imagem colorida por AI.
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Alexander von Humboldt e Aimé Bonpland na Selva Amazónica. Pintura de ???, 1810. Imagem retocada por AI.
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Mapa das Zonas Ecológicas do Monte Chimborazo, no Equador, idealizado, classificado, e desenhado por Humboldt e Bonpland em 1803. Imagem retocada por AI.
XXX
O Mapa das Zonas Isotérmicas de Humboldt foi o primeiro mapa mundial a indicar zonas de clima e ecologia semelhante. Já Ptolomeu, o grande geógrafo da Antiguidade, mil e quinhentos anos antes, tinha avançado o conceito semelhante de "climatas".Imagem retocada por AI.
Franz Boas (em desenvolvimento)
Não é justo falar do legado seminal de Charles Darwin e de William Wallace nas ciências biológicas, e não lembrar o legado fundamental de Franz Boas na antropologia. De um modo geral, as ciências sociais só se formalizaram com corpo e métodos científicos entre os meados do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Até lá, elas "pediram emprestado" a sua metodologia às outras ciências, especialmente das biológicas, que eram então dominadas pelas ideias darwinistas de evolução, do simples para o complexo, do inferior para o superior, e do antigo para o actual.
De facto, numa pespectiva cultural, a evolução das sociedades e os os estágios culturais de grupos humanos eram vistos através de uma óptica evolutiva, começando no primitivo, inferior, tosco e incipiente, e evoluindo ao longo do tempo para o mais complexo, superior, e mais moderno, que constituiam as bases do Darwinismo social, que liderado por Herbert Spencer (1820-1903), via os mesmos principios de selecção natural, segundo os quais os organismos mais bem adaptados ao seu ambiente são os que têm maior sucesso em sobreviver e se reproduzir. Assim, aplicado ao espaço social, algumas sociedades (raças e civilizações) eram vistas como tivessem certas características benéficas e hereditárias que justificavam a sua hegemonia (e a sua missão hegemónica) ao longo do tempo histórico - o europeu era visto (pelo europeu, numa perspectiva eurocêntrica)) como uma raça superior ao africano, ao índio, ao esquimó (inuit), ao indiano, ao asiático, e ao aborígene australiano, que eram vistos pelos europeus como inferiores.
Boas lutou contra essa visão de racismo científico, que via a raça como um conceito biológico.
Boas era de ascendência judia e deixou a Europa para se fixar nos Estados Unidos, onde foi alvo de acções anti-semíticas.
Franz Uri Boas (1858-1942), o "Pai da Antropologia" moderna e do relativismo cultural.
4.6 A Escravidão e o Tráfico de Escravos
A escravidão é uma instituição social e económica mais antiga do que as civilizações da Grécia Antiga e do Império Romano. Evidência arqueológica e documentos mostram que a escravidão era a base económica dos impérios assírios há cerca de mais de cinco a seis mil anos atrás, mesmo antes da civilização egípcia.
Escravatura ou escravidão refere à condição social e individual e vida do escravo. Tráfico de escravos refere-se à aquisição e disposição de escravos - através de rapto, rapina, conquista, processo judicial, ou compra e venda de escravos em mercados, por exemplo.
A Condição de Escravo
A condição fundamental da escravidão é a propriedade de um ser humano por outro. O direito de propriedade era baseado na coerção, força, e controle que o dono exercida à sua vontade sobre o escravo.
A condição de escravo estava sempre associada à violência - rapto e rapina, guerra, esturpo, castigos físicos violentos, prisão; deprivação de alimentos (fome), trabalho perigoso e árduo, espectro de ser vendido, e morte.
Como propriedade, o escravo podia ser comprado ou vendido pelo dono. Tipicamente, o escravo não pertencia à comunidade; ele era um "outro de fora". A condição de escravo era herdada dos seus pais, e dependia completamente da livre vontade do dono. Os filhos dos escravos não pertenciam aos seus pais; eles eram também propriedade do senhor. O escravo não tinha possibilidade de escolha sobre nada; tudo dependia da vontade do deu dono.
O escravo estava sempre ligado ao trabalho. O escravo era usado no aparelho militar e em guerras; na administração pública; trabalho doméstico; como objecto sexual; e no processo produtivo (agricultura, minas, comércio, indústria; construção, trabalho artesanal, e em certas ocupações liberais.
O senhor tinha controle sexual sobre a escrava e sobre a capacidade reprodutiva da mesma. O senhor tinha o direito de acesso sexual às suas escravas ou escravos quando quizesse. Em geral, no tráfico árabe de escravos, os eunucos (homens castrados) e as mulheres mais atraentes comandavam um preço mais alto.
A Escravidão Africana no Tempo Pré-Colonial
Comércio de Escravos
Resgate de Escravos - Razias e Guerras de Kwata! Kwata!
Apanha de Escravos
Viagem para a Costa
Rotas do Tráfico -
Sahara - Norte de África, Arábia, e Império Otomano
TÍndico - Arábia, Império Otomano, e Índia
Trans-Atlântico - América do Norte, Brasil, América Espanhola, e Caraíbas
Europa - Portugal e Espanha
Período de Espera de Navio em Barracões
"Branding"
A Igreja, a escravatura, e o tráfico de Escravos
Baptismo de Escravos
Passagem do Meio
Chegada ao Porto de Destino
O Mercado de Escravos
Leilão de Escravos
Vida em Quotidiana em Cativeiro
Associações Mutualistas
Resistência e Revoltas
Quilombos
Alforria
Abolição da Escravatura
Abolição do Tráfico de Escravos
Morte de Escravo
Legado - África, Américas, Caraíbas, Arábia e Império Otomano, IÍndia, e Europa
O Tráfico Trans-Atlântico de Escravos
A
instituição da escravatura na Àfrica Central já existia antes da
chegada dos portugueses ao Congo. Nas sociedades tradicionais africanas, uma pessoa podia tornar-se um escravo como
prisioneiro de guerra, por sentença de crime grave na comunidade, por não pagamento ou garantia de dívida, e em casos menos comuns por entrega voluntária própria ou de
familiares por razões de pobreza irremediável.
Na
sociedade ancestral Bakongo os escravos eram classificados em duas classes principais: escravos domésticos (Bana a nzo, bana-a-bata, e kijikos) e escravos que podiam ser vendidos (Bantu a mbongo, bantu a nzimbo, e mubikas). O escravo doméstico (mubikas) eram tratado com
indulgência, como uma pessoa da comunidade e não como uma mercadoria, ao passo que o kijicos eram considerados estrangeiros.
Embora o escravo mubica não pudesse ser considerado como membro de uma kanda, nem
tivesse direitos de propriedade, ele/ela não passava o estatuto de
escravo para os seus filhos, e podia em certas situações tornar a ganhar o estatuto de não-escravo, ou mesmo aceder a um papel de relevo social e político na comunidade.
O Mapa de África (colorido), de Fillipo Pigafetta, na sua "Relatione del Reame di Congo et delle Circonvicine Contrade", 1591. "Relação do Reino do Congo e das Terras Circunvizinhas", tradução de Rosa Capeans, Agência Geral do Ultramar, Lisboa, 1951.
O tráfico de escravos africanos ganhou fôlego em Portugal em Agosto de 1444, quando uma expedição comandada por Lançarote, composta de seis caravelas chegou de volta a Portugal trazendo um carregamento de 235 escravos da costa de Arguim em África chegou a Lagos, no Algarve, e ali teve lugar o primeiro leilão de escravos sob a égide do Infante Dom Henrique, o Navegador, e governador da Ordem de Cristo desde 1420. O cronista-mor do reino, Gomes Eanes de Azurara, registou este acontecimento histórico na sua "Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné", em 1453, e estas foram as suas pungentes palavras:
"Uns tinham as caras baixas e os rostos lavados em lágrimas, olhando uns para os outros; outros estavam gemendo muito dolorosamente, esguardando a altura dos céus, firmando os olhos em eles, bradando altamente, como se pedissem socorro ao Pai da natureza; outros feriam o seu rosto com as palmas das mãos, lançando-se estendidos no meio do chão; outros faziam as suas lamentações em maneira de canto, segundo o costume de sua terra, nas quais, posto que as palavras da linguagem não pudessem ser entendidas dos nossos, bem correspondiam ao grau da sua tristeza.
Mas para seu dó ser mais acrescentado, sobrevieram aqueles que tinham cargo de partilha e começaram a apartá-los uns dos outros, a fim de pôr os seus quinhões em igualeza; onde convinha a necessidade de se apartarem os filhos dos pais, e as mulheres dos maridos e os irmãos uns dos outros. A amigos nem a parentes não se guardava nenhuma lei, somente onde a sorte o levava! [...] Quem podia acabar aquela partição sem mui grande trabalho? Que tanto que os tinham postos em uma parte, os filhos, que viam os pais na outra, alevantavam-se rijamente e iam-se para eles; as mães apertavam os outros filhos nos braços e lançavam-se com eles de bruços, recebendo feridas, com pouca piedade das suas carnes, por lhes serem tirados!"
O Mercado de Escravos de Lagos, no Algarve, onde se realizou em Portugal em Agosto de 1444, o primeiro leilão de escravos Azenegues da Costa de Arguim, em lotes de cinco escravos cada um, sob os auspícios do Infante Dom Henrique, que assistiu ao leilão montado no seu cavalo.
Em 1455 o Papa Nicolau V concedeu ao rei português o direito de continuar o tráfico de escravos na África Ocidental, sob a condição de que toddos os escravos fossem convertidos ao Cristianismo.
Baseados em dados que compreendiam o período entre 1501 e 1867, as regiões fornecedoras de escravos na costa de África (apresentadas por volume de tráfico) incluiam as seguintes estimativas de volumes e percentagens do total:
- África Central e Ocidental (que incluia Congo e Angola), 5.695.000 escravos, 45,5%
- Golfo de Benin 1.999.000 escravos, 16%
- Golfo de Biafra 1.595.000 escravos, 12,7%
- Costa do Ouro 1.209.000 escravos, 9,7%
- Senegâmbia 756.000 escravos, 6%
- Costa de Moçambique 543.000 escravos, 4,3%
- Serra Leoa 389.000 escravos, 3,1%, e
- Libéria 337.000 escravos, 2,7%.
Para o grande total de 10.703.000 escravos exportados de África para as Américas durante o mesmo período (de 1501 a 1867). Em termos de género, não existem estatísticas detalhadas para este período, mas estima-se que 62% dos escravos transportados para as Américas eram homens e 38% eram mulheres.
Estima-se que por volta do ano 1850 haviam cerca de 4 milhões de escravos no Brasil, cerca de 2 milhões nos estados do Sul dos Estados Unidosas, e 1 milhão nas Antilhas. Nas costas do Oceano Índico haviam cerca de 1 milhão, e no interior de África haviam cerca de 7 milhões. É de notar que entre 1800 e 1850 houve dois grandes movimentos migratórios de escravos nas Américas: depois da abolição nos estados do norte dos Estados Unidos, cerca de 1 milhão de escravos foram mudados para os estados do sul; e no Brasil, cerca de um milhão de escravos foram mudados dos engenhos de açúcar no Nordeste para as novas fazendas de café em São Paulo e no Rio de Janeiro. Um século antes, com a descoberta de ricos jazigos de ouro e diamantes na região de Minas Gerais no Brasil, cerca de um milhão de escravos foram transferidos da costa atlântica para o interior Mineiro.
Em termos demográficos, a mortalidade de escravos era muito elevada, a fertilidade baixa, e a taxa de extracção de escravos por ano era de cerca de duas pessoas por cada mil residentes nas comunidades rurais africanas.
Com
a chegada dos portugueses à foz do Rio Zaire em 1483 e o
estabelecimento de relações com o Antigo Reino do Congo, a instituição tradicional da escravatura conguesa mudou radicalmente em poucos anos. Em vez de continuar a a circunscrever-se à comunidade local tradicional, o escravo deixou de ser escravo doméstico e passou a ser uma mercadoria valiosa para ser exportada para mercados estrangeiros.
Esta transformação da pessoa em mercadoria teve também um impacto político e social profundo nas comunidades tradicionais: os chefes aproveitaram-se dos escravos para se enriquecer, acabando por imporem sistemas políticos e de justiça domésticos assentes na violência e terror constantes, e de se passarem a guerrear com outro chefados próximos para conseguir mais escravos. Em pouco tempo, a guerra e consequente captura de escravos passou a ser a norma para um grande número de chefados tradicionais.
Contudo, em termos económicos, a oferta de escravos não se baseou somente no número de escravos domésticos e aqueles obtidos através das guerras de kwata! kwata!. Os portugueses impuseram condições duras de vassalagem aos chefados locais, sempre com base na obrigatoriedade dos chefes africanos fornecerem um número específico de escravos todos os anos às autoridades coloniais. Essa pressão acabou por compelir os chefes a obeter um número muito maior de escravos, o que os levou a adulterar o sistema doméstico de justiça, que passou a condenar à escravidão um número cada vez maior de pessoas por crimes de cada vez menor importância social, estabelecendo um sistema de terror permanente.
O valor de um escravo estava na capacidade de produção ao longo da sua vida. Assim, os jovens adultos comandavam os preços mais altos. Os homens eram geralmente usados para trabalhos mais pesados, e o valor económico das mulheres era, para além da sua capacidade imediata de trabalho, eram apreciadas pela sua capacidade de reproduzir uma nova geração de escravos. Assim, as mulheres ainda ferteis comandavam em geral um preço mais alto. De notar que o filho de uma escrava, quem quer que fosse o pai, era considerado escravo.
Geografia do Tráfico Transatlântico de Escravos em África
Inicialmente no século XV, o tráfico português de escravos africanos limitava-se à costa de África Ocidental, primeiro nas Ilhas Canárias, depois na Mauritânia e na na Guiné, e mais tarde no Golfo da Guiné. O âmbito do comércio de escravos era local, trocando-os por ouro vindo do interior. Com a expansão da cultura do açúcar para o Brasil e Caraíbas, e de tabaco e algodão para os estados do sul dos Estados Unidos, o tráfico atingiu um volume muito maior e ganhou uma amplitude trans-Atlântica.
Mapa antigo das Ilhas de Cabo Verde, século XV.
Após a chegada dos portugueses, o destino
inicial da maioria dos escravos do Congo eram os engenhos de açúcar nas Ilhas de São Tomé e Príncipe, estabelecidos
pelos cristãos-novos (antigos judeus convertidos não voluntariamente ao cristianismo) portugueses que para ali se refugiaram depois das perseguições judaicas em Portugal, entre 1481 e 1540. De facto, os primeiros habitantes permanentes das ilhas de São Tomé e Príncipe foram os escravos vindos do Congo e Angola, então chamados Angolares, pois estas ilhas (então ainda desabitadas) tinham sido descobertas em 1470 pelos navegadores portugueses João de Santarém e Pero Escobar.
Ruínas
da antiga Ribeira Grande (Cidade Velha) na ilha de Santiago, perto da Cidade da Praia, Cabo Verde. A Ribeira Grande foi durante séculos um dos depósitos mais importantes de escravos antes de serem levados da costa de África para as
Américas.
A situação geográfica privilegiada das Ilhas de Cabo Verde ao largo da costa de África e a meio caminho para as Américas fez com
que elas tivessem um papel importante no tráfico transatlântico de
escravos. Com efeito, o arquipélago de Cabo Verde foi um entreposto importante para a exportação de escravos da África Ocidental para as Américas. Por esse motivo, as ilhas de Cabo Verde foram vítimas de muitos ataques de corsários e piratas ao longo de três séculos.
O Pelourinho da Ribeira Grande (Cidade Velha), na Ilha de Santiago, Cabo Verde, erigido pelos portugueses em 1520, e hoje classificado pela UNESCO como Património Cultural da Humanidade.
Os escravos eram trocados capturados no interior do Sahel e transportados para a feitoria de Cacheu, na Guiné-Bissau, de onde eram trazidos para a antiga Ribeira Grande (hoje Cidade Velha), na Ilha de Santiago, em Cabo Verde, para esperar embarque para as Américas.
O porto de Cacheu, na foz do Rio XXX, na Guié-Bissau, foi durante séculos um importante entreposto negreiro na costa Ocidental de África.
Em 1471, o rei português D. Afonso V estabeleceu a feitoria de São Jorge da Mina, na região a que mais tarde se viria a designar como Costa do Ouro, hoje Gana. O
Castelo da Mina, a principal feitoria portuguesa no Golfo da Guiné foi estabelecida para o resgate de escravos para serem trocados por
ouro com os potentados locais. O monopólio do comércio local de escravos foi inicialmente arrendado por cinco anos ao comerciantede Lisboa Fernão Gomes da Mina, que assumiu a obrigação de explorar 100 léguas da costa africana por ano.
Com o advento do tráfico transatlântico de escravos, a feitoria foi conquistada pelos holandeses em 1642, onde construiram um forte muito maior, perto da antiga feitoria portuguesa.
Forte d'El Mina, construído pelos holandeses em 1642, perto do antigo castelo português de São Jorge da Mina, estabelecido pelos portugueses para funcionar como feitoria comercial e porto negreiro principal no Golfo da Guiné.
O manicongo Mvemba-a-Nzinga (1456-1543), que foi rei do Congo D. Afonso I entre 1506 e 1543, protestou contra o tráfico de Bakongos para São Tomé. Em 1520 ele enviou uma carta ao seu rei-irmão D. Manuel de Portugal em que claramente se posicionou contra as viagens de navios que vinham da Ilha de São Tomé resgatar escravos à costa de Panzelungo (margem direita do Zaire), afirmando "Estou muito escandalizado, não somente por mim, mas pela minha gente, que me lança em rosto que, sendo eu cristão e vassalo d'el rei nosso irmão, como vêm homens brancos à minha porta fazer o trato e resgate com os meus contrários."
Mapa holandês antigo da Ilha de São Tomé, meados do séc. XVII
Depois, com o começo do ciclo do açúcar no Brasil, durante as duas últimas décadas do séc. XVI, a maioria dos
escravos passaram a ser levados para os engenhos de açúcar na costa brasileira da Amazónia,
Grão Pará, Maranhão, Pernambuco, Recife e Bahia a norte, e até às cidades do Rio de
Janeiro, São Vicente (Santos e São Paulo) a sul, e até um pouco mais a sul para a Colónia do Sacramento e até Buenos Aires, de onde eram
levados para as pampas da Argentina e para as minas de prata da Bolívia e do Perú através da bacia dos rio Paraná e Uruguai.
A famosa cidade de Loango na costa da África Central, gravura de Olfert Dapper (ca. 1680)
Entretanto, após este período inicial, grande número de
escravos do Congo foram levados para as Caraíbas (para Cuba e Haiti em
especial), pois os holandeses, ingleses, franceses, espanhois, suecos e dinamarqueses copiaram nas
Antilhas e nas Guianas o modelo de exploração agrícola tropical com base na plantação
de açúcar estabelecida pelos portugueses na Ilha da Madeira, depois
melhorado na Ilha de São Tomé, e mais tarde ainda mais aperfeiçoado no
Brasil.
Durante o ciclo do ouro e diamantes no Brasil (nos princípios do Séc. XVIII), o
fluxo de escravos aumentou para alimentar as minas de ouro e diamantes em Minas
Gerais, para além das minas de prata do Cerro de Potosi no Perú,
onde durante o período de 350 anos de trabalho na minas, se estima que tenham morrido entre 5 a 10 escravos por dia (mais de um milhão no total).
A
região costeira e todo o hinterland africano até cerca de mil quilómetros da
costa de África a sul do Gabão até um pouco a sul de Benguela (Caconda,
Quilengues, e Nano), foi durante todo o período do tráfico
trans-Atlântico a que mais escravos forneceu às Américas (Sul, Norte e
Caraíbas). O número de pessoas vítimas do tráfico transatlântico estima-se em mais de 12 milhões de africanos arrancados das suas terras e vilas durante um
período de mais de 350 anos (entre 1455 e 1880).
Já
no Séc. XIX, e como resultado do esforço da abolição da escravatura na Europa, os
escravos de Angola, continuaram a ser levados para as as plantações de
algodão e tabaco nos estados do sul dos Estados Unidos da América até 1871, para as
plantações de açúcar e de tabaco em Cuba, e para as fazendas de café do
Brasil, até à a promulgação da Lei Áurea no Brasil em 1888, que aboliu de vez a escravatura e o tráfico de escravos no Brasil, e encerrou de vez o capítulo triste do tráfico transatlântico de escravos na história da humanidade.
Para quaisquer cidades que os escravos africanos fossem levados, eles constituiram comunidades, que apesar da sua origem diversa, rapidamente se tornavam homogéneas, refelctindo de certa maneira as tradições africanas. Tal foi o exemplo do bairro do Mocambo ao longo do Tejo em Lisboa, a oeste de Alcântara, onde hoje se situam os bairros de Madragoa, Belém, Restelo, Pedrouços, e Algés. O bairro do Mocambo foi estabelecido ainda no séc. XV, quando os primeiros escravos da costa ocidental de África foram trazidos para Lisboa. Este bairro existiu por mais de 300 anos, e ainda hoje restam alguns vestígios nos nomes das ruas locais, como a rua das Trinas do Mocambo e a Rua do Poço dos Negros. Estima-se que a população africana de Lisboa rondava os 15.000 residentes nos meados do séc. XIX.
O antigo bairro do Mocambo evocva a separação física do africano em Lisboa, pois situava-se fora-de-portas da cidade, ao mesmo tempo que nos relembra quanto indispensáveis eles eram para a vida da cidade. Durante séculos, eram os africanos que faziam o trabalho que ninguém nunca quis fazer em Lisboa, eles recolhiam o lixo, fezes, urina e detritos domésticos, carregavam a água e carvão, e as regateiras vendiam produtos alimentares (fruta, peixe, doces etc.) através da cidade.
O antigo bairro do Mocambo, em Lisboa. Azulejo de Gabriel del Barco 1700-25, Museu Nacional do Azulejo, Lisboa.
O antigo bairro do Mocambo, hoje desaparecido, era onde gerações de africanos escravos e livres (forros) viviam. Logo a leste encontrava-se o Poço dos Negros, onde os corpos dos escravos africanos falecidos eram lançadados depois de morrerem, os quais eram pulverizados com cal para decomposição mais rápida dos corpos, como medida de sanidade pública para afastar os animais. É de lembrar que o próprio nome Mocambo é um termo de raiz africana (umbundo de Luanda), que significa "local de refúgio". No Mocambo, os africanos viviam em comunidade em que à noite se despiam do seu nome português, do cristianismo, e da língua portuguesa, e emergiam no seu universo cultural africano proibido pelas leis. Havia mesmo a "Corte do Congo", responsável pela vida africana e pulsantes festejos do bairro.
Trecho actual da Rua do Poço dos Negros, ao fim do bairro da Madragoa, na freguesia de Estrela, fora-de-portas em Lisboa, onde dos séculos XV ao XVIII se situava o bairro do Mocambo.
A historiadora Isabel Castro Henriques na sua notável obra "A Herança Africana em Portugal", edição dos CTT, Lisboa, 2009, dedica um capítulo inteiro à história e importância do antigo bairro do Mocambo em Lisboa, chamando-o o bairro mais africano da Europa.
O bairro do Mocambo não era o único exemplo da agremiação de populações de culturas distintas. Desde os tempos mais antigos, Lisboa teve sempre bairros de árabes e seus descendentes (Madragoa, e Mouraria), bem como a antiga judiaria de Alfama. Assim, desde o seu nascimento, Lisboa foi sempre uma cidade muito cosmopolita em que várias culturas conviveram e religiões viveram em relativa (embora nem sempre) paz e progresso.
O mesmo padrão de povoamento urbano africano teve lugar no Rio de Janeiro, onde comunidades africanas se ajuntavam em bairros próprios como o bairro da Saúde, do Gamboa, Valongo, Leblon, e Santo Cristo, e enterraram os seus mortos nos cemitérios do Valongo e Gamboa, e no cemitério de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos na Baixada Fluminense.
O mesmo aconteceu em Salvador da Bahia, onde os africanos preferiram morar no bairro do Pelourinho, do Calabar, da Mata Escura, do Morro do Ipiranga, e enterrar os seus familiares no cemitério dos Africanos.
Mesmo em Luanda podemos observar o mesmo padrão. Cedo na expansão urbana de Luanda se criaram os quintais para guardar escravos, mais tarde organizados em bairro, nas Ingombotas, na encosta acima da antiga Cidade Baixa. De igual modo, o cemitério para os africanos (livres e escravos) era logo acima das Ingombotas, na área do Maculusso.
Apesar do seu desaparecimento físico ao longo dos séculos, poucos vestígios sobreviveram à expansão destas cidades, mas a herança cultural africana ainda hoje está viva e ainda se pode sentir e encontrar.
É ainda importante lembrar que a percentagem de escravos na população destas cidades variava entre cerca de 10% para Lisboa e cerca de 50% para o Rio de Janeiro e Salvador da Bahia, durante a maior parte do século XVIII.
Tráfico Trans-Sahariano de Escravos
É
de notar aqui que dois outros grandes sistemas de exploração de
escravos africanos existiram em África, talvez com dimensão ainda superior ao do tráfico trans-Atlântico de escravos. Desde os tempos muito
antigos das civilizações núbia e egípcia, do apogeu de Cartago, e mais tarde do Império
Romano, escravos eram trazidos do Sudão (em árabe bilad al-sudan - a terra (país) dos negros) e do Sahel
através do deserto do Sahara (conhecido como o tráfico trans-Sahariano
de escravos) para servir esses mercados. Este sistema durou mais de dez
séculos, estimando-se que cerca de dez milhões de escravos foram
extraídos da África a sul do Sahara.
Caravana de escravos a caminho da costa do Senegal (Séc. XIX)
A principal região fornecedora de escravos para este mercado foram os povos que habitavam a faixa do Sahel e sul até à costa do golfo da Guiné, e através de todo o território a sul do Sahara até ao Sudão e à costa do Mar Vermelho. O comércio trans-sahariano de escravos era controlado por potentados muçulmanos. Estima-se que o número total de escravos extraídos do Sahel tenha atingido mais de 12 milhões, e que só três ou quatro em cada dez escravos sobrevivia a travessia do deserto do Sahara e chegava vivo ao destino (Magreb - Marrocos, Argel, Tripoli, Tunis, e Cairo, Ibéria - Córdova e Granada, Próximo-Oriente - Damasco, Arábia e Meca, e Império Otomano - Constantinopla), e que destes a maioria ia servir como eunucos (homens castrados) e concubinas residentes em harens para servir sexualmente aristocratas árabes.
Traficante de escravos francês, na Ilha de Goreia, em frente a Dakar, Senegal, século XVII.
Por sua vez, do reduzido número de escravos que sobreviviam a travessia do deserto, a mortalidade da castração (amputação do penis ou remoção dos testículos) de escravos adolescentes masculinos (realizada em norma por judeus) era superior a 90% devido a hemorragias e infecções não tratáveis poucos dias depois. Só para se ter uma ideia da dimensão deste tráfico, a corte do califa de Bagdad em 908 tinha cerca de 11.000 eunucos. Por outro lado, não era raro encontrar haréns controlados por um califa com centenas de concubinas.
Um mercado árabe de escravas europeias nos Balcãs. Entre os séculos XVI e XIX, o mercado de escravos da Barabaria no Mediterrâneo vendeu mais de um milhão de europeus no Império Otomano.
Durante esse mesmo período, o tráfico de escravos europeus na península Ibérica e no mar Mediterrâneo era também muito elevado, pois, como exemplo, o califa de Córdova tinha um exército de 60.000 escravos europeus. Acredita-se ainda que o harém do famoso Rei Salomão fosse constituído por 700 esposas e 300 concubinas.
Rotas do tráfico de escravos trans-Sahariano
Tráfico de Escravos no Oceano Índico
O tráfico de escravos do Oceano Índico é conhecido desde a Antiguidade, mas com
a expansão do domínio religioso muçulmano à antiga Pérsia, Índia, Ásia Central, e
litoral africano no Índico, desde Axum até Sofala, o tráfico de escravos
africanos aumentou muito, pois o mercado consumidor de escravos
africanos aumentou exponencialmente com a exportação de escravos para a
Turquia (Império Otomano) Índia (Império Mogul), Bengal, Ceilão, e
mercadores da Insulíndia (Java, Sumatra, Sião, Camboja, Vietname, e China).
Estima-se, sem números exactos, que o volume do sistema
ìndico de tráfico de escravos foi talvez maior e durou muito mais tempo (dos Séculos X aos fins do Século XIX) do que o
trans-sahariano e que o trans-Atlântico. Este comércio era controlado
por potentados muçulmanos da região e comerciantes indianos que também
controlavam o comércio no Oceano Índico.
Com a chegada dos europeus à região no século XVI, portugueses, ingleses, franceses, e holandeses também se envolveram na compra e venda de escravos, não só para a região, mas também para a África do Sul, Brasil e Antilhas.
Os escravos eram usados como
soldados (mamelucos), eunucos e concubinas, empregados domésticos e
trabalhadores agrícolas nas plantações europeias. O tráfico de escravos
no Oceano Índico foi abolido pela Inglaterra em 1843, mas algumas formas
residuais de servidão persistiram até hoje, como é o caso no Sudão e em
certas regiões da Índia.
As regiões fornecedoras de escravos no mercado índico foram principalmente a África Oriental (actual Quénia, Uganda, Tanzânia (Zanzibar), Moçambique, Zimbabue, Malawai, e Zâmbia) e os principais mercados de escravos no Oceano Índico eram os portos
da costa Swahili de Melinde e Quíloa, as ilhas de Zanzibar e de
Moçambique, e a costa de Sofala (já no actual território de Moçambique), bem como as ilhas Comores, Madagáscar, Mauricius, e Reunião, e ilhas da Insulíndia.
Mapa do tráfico de escravos árabe na África Oriental
Angola Perante a Escravatura
O
tráfico de escravos do Atlântico começou com a chegada de escravos da
costa ocidental de África ao porto de Lagos, no Algarve, em Portugal em
1455, tão bem descrito por Gomes Eanes de Azurara na sua Crónica dos Feitos na Guiné,
continuando latente até cerca de 1580, começando a intensificar durante
todo o século XVII, e atingindo volume muito maior e nunca visto
durante as últimas décadas do século XVIII.
O
Brasil foi destino para o maior número de escravos arrancados de África
com mais de 4,5 milhões, entre 1550 e 1888. Basta lembrar que em média e
para o mesmo período, em cada cem pessoas chegadas ao Brasil, 86 eram
escravos.
As
populações que viviam ao longo da costa e no interior da bacia do rio
Zaire, e territórios para além do interior da Lunda e da bacia do rio Zambeze a
leste, e para sul até para além dos planaltos do Huambo, Bié e Huíla a
sul, foram as que sofreram os horrores da escravatura por mais tempo.
Existiam três métodos principais no resgate de escravos:
- por via de guerra - Apanhados nas guerras kwata!-kuata! (razias de escravos) no
interior, com ou sem a conivência dos sobas locais, as populações eram
arrancadas das suas aldeias e eram organizadas em caravanas de escravos
que tinham que fazer longas caminhadas acorrentados e a pé regiões (alguns por mais de mil quilómetros) desde o local de
aprisionamento até aos barracões em Luanda, Benguela, ou Malembo na costa atlântica. Essa caminhada durava às vezes, entre seis a nove meses.
- por comércio - Por outro lado, a compra local de escravos era feita por pumbeiros, que eram aviados (agentes comerciais) dos comerciantes de escravos de Luanda e Benguela, e financiados por estes, que se metiam pelo sertão a dentro e compravam escravos aos chefes locais, a troca de dinheiro, tecidos, sal, bugigangas, geribita, e armas.
- por tratados de vassalagem (os Undamentos no antigo reino do Ndongo), que eram arranjos diplomáticos e militares impostos pelos portugueses aos chefes locais, pelas quais eles eram obrigados a pagar um tributo em forma de escravos, sob severas consequências pelo não cumprimento, a fornecer um número mínimo de escravos por ano às autoriadades portuguesas do presídio mais próximo, ou mesmo ao governador em Luanda ou em Benguela.
Com base em estatísticas frágeis das comunidades de origem, estima-se que 40% dos escravos eram raptados; 25% eram obtidos através de incursões militares (incluindo guerras kwata! kwata!); 20% eram dispostos pela própria família; e 15% como resultado de decisão judicial do chefe.
É de notar que até à chegada dos portugueses ao Congo, a escravatura era uma instituição de longa tradição nestes chefados, mas tinha uma amplitude local e não comercial - os escravos não eram comprados ou vendidos, pois não eram trocados nas feiras. Alguns eram usados como escravos domésticos e outros nas hordas militares. Muitos escravos eram absorvidos pelas comunidades e famílias com quem viviam, e o estatuto de escravo não era hereditário.
Mercados de Escravos na África Central Ocidental
As rotas locais do tráfico de escravos na África Central e actual
território de Angola, seguiam em geral o curso e a orientação dos maiores rios
no fim dos quais se situavam os principais portos negreiros. Estes eram os mesmoms caminhos ancestrais usados pelos povos locais desde há muitas gerações, que ligavam o interior planáltico ao mar. Nos
primeiros tempos após a chegada dos portugueses, os escravos eram
capturados nas regiões vizinhas aos rios no território Bakongo (Loango, Malembo, Cabinda, Pinda, e margem esquerda do rio Zaire), mas à
medida que as populações rareavam nestas regiões devido ao volume anual de escravos
capturados, as fontes fornecedoras de escravos passaram mais para o interior,
chegando a atingir regiões situadas a mais de mil e quinhentos quilómetros da costa (para
além dos rios Cassai, Zambeze, Lungué-Bungo, Cuando, e Cubango.
Uma caravana de escravos africanos a serem levados para a costa (figura do Séc. XVIII)
Assim, o mercado do Congo abrangia o hinterland do Loango e Congo
(povo Bakongo) que ia confluir nos portos negreiros de Loango (Ponta Negra), Malembo e Cabinda, e de Pinda (Sonho). O nome ancestral da cidade de
Cabinda é "Tchioa", o que significa empório de grande comércio de
pescados. A área de captação de escravos para este mercado era muita
vasta abrangendo Cacongo (Lândana) e o Loango (a norte da floresta do
Maiombe), Mpumbu, Nsundi (Lago Malebo, Kinshasa) e Tio (Bateke / Anzico) e as
áreas de Kuilo, Nkusu, Sosso, Zombo, Yaka, Wando, e Sonho. Inicialmente,
os escravos eram levados de Tchioa e Cacongo para a Ilha de São Tomé,
mas depois a principal zona de destino passaram a ser as costas brasileiras de
Maranhão, Pará, Pernanbuco, e Bahia.
O porto de Loango foi durante muitas décadas um dos principais portos negreiros franceses na região para suprir
as necessidades de força de trabalho escrava para as plantações e
engenhos de açúcar da colónia francesa do Haiti. Outros portos negreiros na região incluiam a baía de Malembo e Cabinda, de onde durante o período de 350 anos do tráfico transatlântico de escravos foram exportados cerca de 2,5 milhões de pessoas.
Principais chefados da África Central fornecedores de escravos para o tráfico trans-atlântico de escravos (Sécs. XVI - XIX)
O
mercado do Ambriz captava escravos ao longo dos rios Loge e Mbridge nas
áreas vizinhas dos Dembos, Encoge, Caipemba, Nabuangongo, Quibaxe, Ambuíla,
Ambuela, Ambrizete, e Tomboco, povoadas pelo povo Bakongo. O mercado do
Ambriz foi dominado durante muito tempo por negreiros ingleses, que
exportavam escravos principalmente para as plantações de açúcar nas
Antilhas e para os Estados Unidos da América. De facto, a questão do Ambriz e Mossul em 1858 entre Portugal e a Inglaterra nasceu da intenção britânica de controlar directamente a região como medida para combater o tráfico e travar o tráfico transatlântico.
Escravo Africano acorrentado e coberto por malha de rede para não fugir. Golfo da Guiné Séc. XIX.
O
mercado de escravos da bacia do Cuanza, um monopólio português com base
em Luanda, abrangia as áreas de captação dos antigos potentados
ambundos de Angola, Kissama, Dondo, Muxima, Massangano, Pungo Andongo,
Ambaca, Ndongo, Matamba, Jinga, Cassange, Holo, Songo e Lunda, portanto a
maior parte das actuais províncias de Luanda, Malange, Cuanza-Norte,
Cuanza-Sul, e Lunda-Norte. Os principais mercados de destino de escravos
que saíam de Luanda era o Brasil (Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro,
Paraná, Rio Grande do Sul, e a Colónia do Sacramento, actual Uruguai),
Buenos Aires, e a as minas no Perú e na Bolívia. Luanda foi durante todo o período do
tráfico trans-Atlântico de escravos (três séculoes e meio) o maior
porto exportador de escravos do Atlântico e do mundo.
O
mercado de escravos do Sumbe (Novo Redondo/Porto Amboim), abrangia as regiões ao longo do rio Ngunza e vizinhas do Seles,
Quibala, Amboím, e as áreas ribeirinhas ao rio Queve (Cuvo), povoadas
pelo povo ovimbundo. Antes da fundação de São Filipe de Benguela, o principal porto
negreiro da região era Benguela-a-Velha (Porto Amboím/Kissonde). Com a criação da vila de Novo Redondo em 1769, no tempo do Governador Sousa Coutinho, o porto negreiro
principal entre Luanda e Benguela passou a ser o de Novo Redondo (Sumbe/Ngunza).
O
mercado de escravos de Benguela, abrangia o hinterland dos planaltos
populosos do interior do povos ovimbundo, ao longo dos rios Catumbela e
Caporolo, bem como as terras mais para o interior, como Caconda,
Quilenges, Bibala, Nano, Lubango, Huambo, Bié, Andulo, Ganguelas,
chanas do Moxico até além-Zambeze, e Cuando Cubango. A maioria dos
escravos embarcados em Benguela e Novo Redondo eram levados para o Rio
de Janeiro, São Paulo, e sul do Brasil. O número de escravos exportados por Benguela foi também muito alto, apesar de inferior a Luanda e Cabinda.
Carta dos Reinos de Angola e Benguela, Séc. XVII
A Caminhada do Local de Captura até ao Porto de Embarque
A
caminhada do ponto de captura até ao porto negreiro, que durava de três
a nove meses e em certas áreas ainda mais tempo, era feita sob
condições muito duras, a pé, sujeita a todas as formas de violência,
fome, doenças, ataques de animais selvagens, abuso sexual, e de terror de assaltos de
outros ladrões de escravos. As caravanas andavam em filas de dois escravos acorrentados por libambas nos tornozelos e por uma corrente que prendia um grupo maior de escravos.
Caravana de escravos acorrentados em caminhada na África Oriental a serem levados por árabes para a costa do Índico (meados do Séc. XIX). Note-se à esquerda o escravo doente implorando clemência, mas prestes a ser morto.
A Espera nos Barracões e o "Kirimbo"
Quando chegavam já exaustos à costa os
escravos eram guardados em barracões nauseabundos durante alguns meses
mais até que o próximo navio negreiro os levassem para o além-Kalunga. A vida nos barracões era árdua. Uma vez ao dia, os escravos eram trazidos para fora do barracão para uma pequena caminhada e um banho na água do mar.
Barracão de armazenamento de escravos algures na costa de África, à espera de embarque para as Américas. Séc.XIX
Em Luanda, os barracões estavam situados na Ilha de Luanda e no Morro da Cruz, na Barra da Corimba. Os escravos eram aí marcados com um ferrete a ferro e fogo (o "kirimbo") no barracão, e baptizados por um padre antes de embarcar.
Um aspecto de Benguela na década de 1880s. Note-se o "quintalão" a seguir ao terreiro ao centro da foto. Era no quintalão que os escravos eram guardados à espera de embarque para as Américas. Encontramos o mesmo na zona do antigo Bungo, em Luanda, onde as casas tinham grandes quintais muralhados para guardar escravos antes de embarque. Imagem colorida por AI.
É de notar que de acordo com o "Ensaio de Dicionário Kinbúndu - Portuguez" coordenado por João Cordeiro da Matta, publicado em Lisboa em 1893 pela Typographia e Stereotypia Moderna (Casa Editora António Maria Pereira), a palavra "Kirimbo" que em português quer dizer "Carimbo", é de facto de origem kimbundo. Na sua língua materna, a palavra "Kirimbo" refer-se a "sinal, marca, carimbo, selo", com que eram marcados os escravos antes de embarcar para a "Kalunga".
No embarque, o navio negreiro ficava ao largo, e os escravos eram levados em pequenos bateis em grupos de dois ou três, devidamente amarrados, para não resistir, e levado para o navio negreiro.
Dois ferretes com as marcas dos donos de escravos usados para os marcar a ferro em brasa no peito, no braço, ou ao cimo das costas. Antilhas, Século XIX.
Em Benguela, o barracão de escravos principal era o Armazém de escravos de Benguela, que serviu mais tarde como armazém da Alfândega, e mais recentemente foi adaptado Como Museu Nacional de Arqueologia de Benguela. Durante cerca de 250 anos, pelo porto de Benguela foram exportados cerca de 750.000 escravos.
O edifício do antigo Armazém de Escravos de Benguela, mais tarde usado como armazém da Alfândega, e mais recentemente readaptado a abrigar o Museu Nacional de Arqueologia em Bengeuela, Angola.
Baptismo antes do Embarque (a desenvolver)
Kalunga - A Passagem do Meio (a desenvolver)
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Passagem do Meio - Escravos no porão do tumbeiro brasileiro "Albanez", apreendido pela Royal Navy na foz do rio Quanza em 1845
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Escravos a serem atirados ao mar, algures no Atlântico, Século XIX
Duração da Travessia do Atlântico e Mortalidade
Mapa mostrando a duração em dias das viagens transatlânticas e percentagem de mortalidade nos escravos transportados. Mapa obtido de "Escravidão" de Laurentino Gomes, Globo Livros, Rio de Janeiro, 2020.
Da Guiné Bissau a São Luís (Maranhão) 33 dias de viagem; 7% mortalidade
de Luanda a Recife (Pernambuco) 34 dias de viagem; 7% de mortalidade
do Golfo de Benim à Bahia de Todos os Santos (Bahia) 40 dias de viagem; 13% de mortalidade
da Costa do Ouro (Gana) a Havana (Cuba) 51 dias de viagem; 15% de mortalidade
da Costa de Moçambique ao Rio de Janeiro 63 dias de viagem; 16% de mortalidade
da Costa de Moçambique a São Domingo (Haiti, Caribe) 130 dias de viagem; 22% de mortalidade
Em geral quanto mais longa era a viagem, mais alta era a mortalidade. Da mesma forma, e baseado na expectativa de sobrevivência, quanto mais distante fosse a origem da captura dos escravos, mais baratos eles eram para os armadores dos navios.
A Chegada ao Porto de Destino
Todos os portos no Brasil tinham o seu cais dedicado ao desembarque de escravos de África. Depois de comprados, os escravos
eram levados para o engenho, plantação, mina, ou residência doméstica e
outra vez marcados a ferro em braza com a marca do novo dono. No Rio de Janeiro, o Cais do Valongo, e o Cais da Cidade Baixa em Salvador, Bahia foram a entrada sem retorno para milhões de escravos africanos no Brasil.
Gravura do Cais do Valongo no Rio de Janeiro, principal porto de desembarque e mercado de escravos do Brasil nos séculos XVIII e XIX. Pintura de Johann Moritz Rugendas, 1835.
Engorda e Besuntamento com Óleos
Ao
chegarem ao porto de destino e antes de irem para os leilões de
escravos para serem vendidos, os escravos recebiam uma ou duas refeições
melhores, e eram depois inspeccionados, lavados, e besuntados com óleo
de palmeira para parecerem mais saudáveis e luzidios e assim poderem
atrair um preço mais alto no leilão.
O Mundo do Negócio do Tráfico Transatlântico de Escravos
Redes de Captura
Redes de Distribuição
Redes de Financiamento - Captação e aplicação de fundos
Redes de Abastecimento de comida e vestuário
Mercados de Venda e Compra de escravos - Leilões de escravos
Investidores e Accionistas
O Negócio de Transporte de Escravos
A Indústria de Seguros no Tráfico de Escravos
Returno on Investment - Cálculo financeiro
Família guarani a ser capturada no sertão por um caçador de escravos. Pintura de J B Debret.
Escravidão e ciclos económicos no Brasil
Pau brasil - escravatura índia
Escravos africanos
Engenhos de Açúcar
Minas Gerais - Ouro e Diamantes - Estrada Real
Café - Rio de Janeiro e São Paulo
Um leilão de escravos no Rio de Janeiro, Brasil. Pintura de Debret 1838.
Leis da Escravatura
Financiamento
Seguros
Impostos
Trabalho de escravo
Escravo doméstico
"Uma Senhora de algumas posses" com os seus escravos domésticos no Rio de Janeiro. Pintura de Debret.
Escravos de ganho - Ganhadeiras (vendedoras de rua)
Uma cena de rua no Rio de Janeiro - Escravas vendendo aluá, limões doces, e refresco de açúcar. Pintura de Debret.
XXXXX
Escravas vendedoras de Mocotó Pelado, Bolos da Baía, e Polvilho de Forma, nas ruas do Rio de Janeiro. Pintura de J B. Debret.
Escravos de ganho - Artesãos
Sapateiro castigando escravo na sua oficina. Mulher mestiça com bébé ao colo olhando. Pintura de JB Debret.
Escravos de Ganho - Barbeiros
Barbeiros ambulantes no Rio de Janeiro; corte de barba e cabelo nas ruas do Rio de Janeiro. Pintura de J B Debret.
XXXXXX
Loja de barbeiro, cabaleireiro, sangrador, dentista, e doutor de bixas numa rua do Rio de Janeiro. Pintura de J B Debret, 1821.
Escravos de Ganho - Comércio
Escravo comprando tabaco na loja de rapé. Pintura de Debret, 1824.
XXXXX
Escravos de Ganho - Transporte
Negros Cangueiros transportando barricas grandes de água. Pintura de Debret, 1820-30
Escravos de Ganho - Padaria
Escrava na Padaria comprando pão, e escravos atrás fazendo pão. Pintura de Debret, 1820-30.
Escravas de Ganho - Prostituição
Escravos no Engenho de Açúcar
Ecravos moendo um engenho manual que faz caldo de açúcar (moenda portátil), Pintura de J B Debret, 1821.
Escravos em Trabalhos Públicos
Negros calceteiros construindo ruas calcetadas no Rio de Janeiro. Pintura de Debret, 1824.
Escravos na Mineração
Escravos trabalhando numa mineração de diamante em Minas Gerais. Gravura de Carlos Julião, fins do séc. XVIII
XXXXXX
Escravos trabalhando na escolha de cascalho numa exploração de diamantes em Minas Gerais, sendo o seu trabalho inspeccionado por capatazes. Gravura de Carlos Julião, fins do séc. XVIII.
XXXXX
Escravos lavando ouro numa exploração em Minas Gerais. Fotografia de Marc Ferrez, 1888.
XXXXXX
Revista de Escravos na mina do Morro Velho, Minas Gerais. Fotografia de Augusto Reidel, 1868.
Essa Mina foi explorada desde o inicio do século XVIII, após o bandeirante Domingos Rodrigues de Fonseca Lima, em 1701, ter descoberto ouro nos riachos dos Cristais e Cardoso, afluentes do Rio das Velhas. Até 1830, ela pertenceu à família Freitas. O último membro dessa família a explorá-la foi o padre Antônio de Freitas, que a vendeu para o capitão George Francis Lyon, superintendente da mina de Congo Soco, situada em Caeté, pertencente à Saint John del Rey Mining Company Limited.
Anos mais tarde o Dom Pedro II se hospedaria na nessa mesma Mina durante visita a Minas Gerais em 1881.
A São João d'El Rey Mining Company incentivou a imigração de cidadãos britânicos para o Brasil para trabalhar na mina. A companhia também empregou o trabalho de escravos, que predominaram na força de trabalho na mina até a emancipação brasileira no final do século XIX.
Em relação ao tratamento dado aos escravos ocupados na mina, Richard Burton em 1873 afirma ter ficado impressionado com a qualidade de suas vidas. A comida era farta, o vestuário confortável, moradia salubres, hospital com médico trazido de Londres para cuidar das suas doenças, cuidados especiais com as grávidas, e ainda tinham licença para cultivar suas hortas e tratar de seus porcos e suas galinhas, bem como para se divertirem com suas danças e batuques, nos feriados, domingos e horas de folga.
Escravatura durante o Ciclo do Café
Escravos no terreiro de secagem de café numa fazenda em São Paulo. Fotografia de Marc Ferrez, 1888.
Formatura de escravos ao raiar um dia de trabalho numa fazenda de café em São Paulo. Fotografia de Marc Ferrez, 1888.
Vida de Escravo no Brasil Colonial
Nascimento
Meninice
Casamento de escravos
Casamento entre escravos de famílias ricas do Rio de Janeiro. Gravura de Debret.
Funcionário reinol e sua família em passeio pelas ruas do Rio de Janeiro, seguido do seu séquito de escravos
Instrumentos de Punição e Prisão
Objectos de prisão e castigo de escravos usados no Brasil Colonial. Foto do Museu Afro Brasil Emanoel Araújo, São Paulo
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Mordaça
que impedia o escravo de comer ou beber, usada no Brasil Colonial. Foto
do Museu Afro Brasil Emanoel Araújo, São Paulo, Brasil.
XXXX
Escravo de ganho com colar de ferro. Gravura de J B Debret, 1831.
XXXXX
Escravos
no Tronco, uma forma de punição em que o escravo passava dias preso
pelas pernas a um tronco trancado, não podendo assim andar. Gravura de Debret.
Protesto e Resistência - Os Quilombos
Os
escravos revoltavam-se sempre que possível da tirania dos traficantes,
tripulação de tumbeiros, senhores de engenhos de açúcar, e autoridades
coloniais, chegando a criar estados independentes com governo e
território independente como os quilombos no Brasil, e a revolução no Haiti.
O quilombo de
Palmares na Serra da Barriga, na região fronteiriça entre Alagoas e Pernambuco, no Brasil, durante cerca de um século, é um exemplo de um estado organizado por escravos fugidos aos engenhos de açúcar no Brasil que resistiu durante décadas à conquista
pelos luso-brasileiros, sob a liderança de uma linha de chefes famosos que incuem Aqualtuna (1630-50), Nganga Zuma (1650-78), Nganga Zona (1678), e Zumbi dos Palmares (1678-95).
Durante o período colonial, os escravos foragidos criaram centenas de quilombos espalhados pelos actuais estados de Maranhão, Pará, Pernambuco, Alagoas, Goiás, Mato Grosso, Bahia, e Minas Gerais. Nos quilombos, os escravos foragidos viviam livres de acordo com as suas tradições culturais africanas.
Quadro
do famoso pintor alemão Johann Moritz Rugendas (1802-58), mostrando a
vida quotidiana dos escravos africanos num qilombo, no Brasil.
O quilombo de Palmares chegou a albergar mais de 50.000 pessoas em 1650 que viviam em nove mocambos (ou quilombolas), que eram aldeias autosuficientes escondidas no mato protegidas por vegetação espessa, cercas, e armadilhas. Após muitas tentativas pelos luso-brasileiros e holandeses, o Quilombo de Palmares só veio a ser conquistado e destruído em 1695 por uma coluna de Bandeirantes liderados por Domingos Jorge Velho.
Classes Sociais no Brasil Colonial
A sociedade no Brasil Colonial (1530-1815) era altamente hierarquizada, patriarcal e baseada no escravismo, com baixíssima mobilidade social. Estruturava-se em torno do latifúndio e da monocultura, dividindo-se fundamentalmente entreproprietários de terras/escravos (elite) e a massa de trabalhadores explorados (escravizados e livres).
Principais Grupos e Classes Sociais:
Senhores de Engenho e Elite Colonial:No topo, donos de grandes terras, engenhos e escravizados. Possuíam alto poder social, político e econômico, formando a aristocracia rural.
Homens Livres (Camada Intermediária):Grupo heterogêneo composto por trabalhadores assalariados, funcionários públicos, militares, padres, comerciantes, artesãos e agregados que viviam nas terras dos senhores em troca de proteção e trabalho.
Escravizados (Base Social):A maioria da população, composta primeiramente por indígenas e, majoritariamente, por africanos trazidos à força. Eram considerados propriedade, submetidos a trabalho forçado e condições desumanas.
Mulheres no Brasil Colonial:As mulheres brancas de elite viviam reclusas no ambiente doméstico, sob a autoridade do pai ou marido (patriarcalismo). Mulheres escravizadas e libertas ocupavam postos de trabalho no campo ou na casa.
A economia de plantação (exportação e escravidão) consolidou essa estrutura polarizada entre os detentores dos meios de produção e a força de trabalho escravizada.
Estuda o processo de ascenção social no Brasil durante o período colonial. A condição de escravo ou proprietário de escravo era determinante na separação de classes; porém, diversas outras indicações demarcavam as diferenças sociais. De acordo com a legislação da época, vigente tanto na metrópole quanto na colônia, para o exercício do poder ou gozo da estima social era necessário ser homem bom, tratar-se nobremente, ser limpo de sangue e outras expressões semelhantes. A análise desta legislação indica que no Brasil colônia houve acomodações entre a manutenção de valores do estamento nobiliárquico e a aceitação social de pioneiros que triunfaram pela fortuna. Assim, para serem aceitos como membros do estamento dominante e considerados homens bons, imigrantes pobres e comerciantes poderiam enriquecer até se transformarem em senhores de engenho, fazendeiros de café e proprietários de terra e escravos, enquanto os letrados e funcionários graduados poderiam se casar com filhas de ricos proprietários. Indica os impedimentos legais colocados à ascenção social de pardos, negros, índios e cristãos novos, os quais tinham poucas chances de destaque na sociedade, apenas através de honras militares ou pela obtenção de cargos oficiais.
Cliometria do Tráfico Transatlântico de de Escravos
Desde a sua captura inicial à compra pelo senhor no destino, o escravo passava por um percurso cheio de perigos, privações e violência: Captura na sua comunidade original, transporte para a costa, espera do embarque em barracões na costa, travessia da temível Passagem do Meio, chegada ao porto de destino, leilão e compra pelo seu novo senhor, transporte para o seu destino final, e finalmente trabalho árduo para o resto da sua vida.
Assim, com base nos números globais geralmente aceites por estudiosos do tráfico de escravos africanos, vou tentar dar uma explicação estatística de cada uma dessas fases do tráfico.
No primeiro passo, o escravo era comprado ou raptado na sua comunidade de origem. Se era comprado, não existem fontes documentais que atestem quaisquer números. Se eram capturados através das guerras de Kwata! Kwata!, não era possível estimar quantos membros da comunidade morriam nesses ataques. Assim estamos diante uma lacuna estatística importante, pois sabemos que em certas guerras no interior dos reinos do Congo e do Ndongo o número de vítimas mortais foi muito elevado, e sabemos também que todos os sobreviventes foram capturados para serem vendidos em Luanda.
Estima-se
que cerca de 20% a 30% das vítimas não sobrevivia a viagem do interior à
costa e o período de espera de embarque, que podia chegar a muitos
meses, o que se traduziu em mais de dois milhões de homens, mulheres, e
crianças perecidas nestas caminhadas de morte. Na caravana, os escravos adultos eram presos por libambos que se punham no pulso da mão direita ou no pescoço, ligados em cadeia para nenhum fugir. As crianças apriosionadas caminhavam junto aos seus pais. Os que morriam no caminho, eram simplesmente desligados do libambos e eram deixado ao ar livre para serem comidos por animais selvagens. Como prova de perda de escravos que morriam no caminho, os pumbeiros usavam o método macabro de cortar a mão direita do infeliz escravo que tinha morrido, e pô-la num saco cheio de mãos, que traziam para Luanda para comprovar a perda do escravo no caminho.
Quando as caravanas de escravos chegavam à costa, eles eram guardados em barracões durante meses, à esepra de um navio negreiro que os levasse além do oceano. Neste estágio alguns escravos morriam por doença, subnutrição, e
A este número já em si
catastrófico, temos que adicionar cerca de 10% a 18% mortalidade na travessia atlântica nos tumbeiros (a Passagem do Meio), que se traduziu em mais de um milhão de africanos mortos na horrorosa e medronha travessia. Os navios que
transportavam escravos chamavam-se tumbeiros (navios de morte, túmulos flutuantes) pela elevada mortalidade dos escravos que transportavam para as Américas.
Croquis do tumbeiro britânico "Brookes", 1800. Note-se como os escravos eram "armazenados" sem espaço sequer para mexer os seus corpos durante toda a viagem no convés e no porão para maximizar a carga de escravos no navio. A viagem durava entre um a cinco meses.
Seguindo as estatísticas do tráfico, entre os anos de 1500 e 1850 (350 anos), por cada 100 escravos capturados no interior de Angola, apenas 70 chegavam à costa, entre 6 a 10 morriam nos barracões na costa durante a espera de embarque, entre 10 a 18 morriam na Passagem do Meio, chegando apenas 45 ao destino. Destes 45, cerca de 15 morriam nos primeiros três anos de cativeiro. Assim, do número original de 100 de pessoas escravizadas, apenas 30 pessoas sobreviviam após três anos, com uma mortalidade de cerca de 70%.
Escravos num tumbeiro Francês, ca. 1800. Note-se que as mulheres eram guardadas no convés, separadas dos homens que ficavam nos porões, para mais fácil accesso sexual à tripulação do tumbeiro.
Assim, em números acumulados, chegamos a uma estimativa de cerca de 9 a 10 milhões de pessoas escravizadas arrancadas aos povos do que é hoje
Angola e Congo (RDC e Brazzaville), dos quais cerca de 3 milhões morriam na viagem para a costa, cerca de 760.000 morreram nos barracões à espera de embarque, cerca de 6 milhões foram exportados
pelos portos ao longo da costa de Angola. Estima-se que de Loango, Malembo, Cabinda, Pinda, Sonho, e Ambriz exportaram-se cerca de 2 ,5 milhões, de Luanda, Dande, e Corimba (cerca de 4 milhões), e de Benguela-a-Velha (Porto Amboím), Novo Redondo (Sumbe), Negunza, Benguela, Catumbela e Moçâmedes (cerca de 2,5
milhões).
Cerca de 1,8 milhões morreram na travessia do oceano, e que apenas cerca 4,2 milhões chegaram ao destino. Destes, cerca de 630 mil morreram durante os primeiros três anos no Novo Mundo, só cerca de 3,5 milhões finalmente sobrevivendo o genocídio.
Morte do Capitão Ferrer na revolta de escravos do tumbeiro Amistad, ao largo de Cuba em 1839
Ao longo de cerca de 380 anos de tráfico transatântico activo (entre 1500 e 1850, realmente até 1888), e usando médias gerais para cada fase do processo, 25.000 escravos eram comprados ou raptados em Angola por ano (cerca de 70 por dia); cerca de 8.000 morriam por ano (cerca de 21 por dia) na viagem para a costa; cerca de 2.000 morriam por ano nos barracões à espera de embarque; cerca de 3.740 morriam na travessia da Passagem do Meio por ano (10 por dia); e cerca de 11.250 chegavam ao porto de destino nas Américas por ano (30 por dia).
Em termos de portos negreiros principais, por Luanda foram exportados em média cerca de 10.500 escravos por ano (28 por dia); por Cabinda e Malembo, cerca de 6.600 por ano (18 por dia), e por Benguela outros 6.600 por ano (18 por dia).
Uma vez chegado ao destino, cerca de 9.200 morriam por ano (25 por dia) durante os primeiros três anos de cativeiro, por doença, suicídio, violência, ou exaustão por trabalho árduo.
As estatísticas acima enumeradas são baseadas em médias gerais globais, podendo os números específicos variar significantemente para cada estágio ou período de tempo.
É
de notar aqui que estas estimativas não podem ser tomadas com grande
grau de confiança. Por exemplo, não podemos saber o número aproximado de
pessoas capturadas e mortas nas guerras de kwata! kwata!. Os números
que usamos referem-se somente ao tráfico legal, quando sabemos bem que o
volume do tráfico ilícito praticado às escondidas das autoridades era
muito elevado. O volume do tráfico oscilou muito através de regiões e do
tempo. Não sabemos ainda o impacto do corso no grande número de navios
negreiros que foram capturados por corsários e piratas. Assim, todos
estes factores que desconhecemos o seu impacto com certa exactidão,
podem potencialmente aumentar o número de vítimas afectadas pelo tráfico
de escravos para uma dimensão ainda maior.
Da mesma forma, é importante relembrar que a sorte dos membros das tripulações dos tumbeiros que atravessaram o Atlântico não era muito melhor, pois a taxa de mortalidade na travessia sé era sensivelmente mais baixa do que a dos escravos (10% a 12%).
Apesar de todas estas limitações estatísticas, nós temos hoje acesso à "Trans-Atlantic Slave Trade Database" organizada pelos respeitados historiadores David Eltis, David Richardson, Stephen Behrendt, e Herbert Klein, com base nos trabalhos originais de Philip De Armond Curtin (1922-2009), expostos na sua obra notável "The Atlantic Slave Trade - A Census", publicado pela University of Wisconsin, Madison, EUA, em 1969.
Esta notável database disponível na internet (Viagens de Escravos) contém registos de mais de 50.000 viagens de navios negreiros, efectuadas entre 1514 e 1896, contendo para cada uma o nome do navio, datas da viagem, número de escravos embarcados e desembarcados, porto de embarque e desembarque, e portos visitados durante a viagem, dono e capitão do navio, e bandeira sob a qual o navio viajou.
Os resultados deste estudo foram também publicados em forma de livro muito bem ilustrado "Atlas of the Atlantic Slave Trade", coordenado depos professores David Eltis (Emory University, EUA) e David Richardson (University of Hull, Inglaterra), publicado pela Yale University Press, New Haven & Londres, em 2010.
É importante relembrar que as estatísticas da "Trans-Atlantic Slave Trade Database" se referem somente a escravos embarcados nos portos de origem, transportados em navios negreiros através da Passagem do Meio, e desembarcados nos portos de destino. Elas não incluem números que se referem à compra ou captura de escravos no interior de África, nem à sua viagem para a costa, nem mesmo ao período de espera de embarque nos barracões na costa. Assim, estima-se que para cada 100 escravos embarcados num porto, tinham de ser capturados no interior, transportados para a costa, e retidos em barracões no porto exportador, entre cerca de 135 a 140.
A Relevância da África Central e Angola no tráfico trans-Atlântico de escravos (1455-1888)
Até
aos fins do século XIX, a escravatura era a instituição social e
económica que melhor definia Luanda, pois Luanda foi durante alguns
séculos o maior porto negreiro africano e do mundo. Asssim, Luanda era um
grande porto exportador de escravos, com toda a estrutura necessária ao
tráfico (comércio, barracões, armazéns, transporte, hortas, água,
alimentos, armação de navios, reparações, inspecção médica, pedra para
baptismo de escravos, e estrutura militar para garantira segurança do
tráfico), e também era uma cidade que dependia totalmente do trabalho
escravo para a sua economia.
Com
efeito, e até aos finais do séc. XIX, mais de metade da população de
Luanda era constituída por escravos domésticos, de aluguer, e agrícolas,
que faziam todos os tipos de trabalho, desde amamentar os bébés das famílias de
posses, a empregados domésticos, até transportar água do poço da
Maianga (ou mesmo até do rio Bengo), como prestação de serviços, como
pedreiros, sapateiros, alfaiates, cozinheiros em casas de pasto, prostitutas de renda, pedreiros na construção de edifícios, etc., até soldados de "guerra preta" para suportar as guerras "Kuata!, Kuata!".
Os escravos eram frequentemente sujeitos a castigos muito severos mesmo para as faltas mais leves. A figura acima de Jean-Baptist Debret mostra um escravo a ser castigado no Rio de Janeiro, em 1834.
Se
bem que as maiores fortunas no tráfico de escravos se fizeram em
Portugal, na Inglaterra e nos Estados Unidos, também
grandes fortunas se fizeram em Luanda, Benguela, em Salvador da Baía, e
no Rio de Janeiro, no Brasil. O controle do resgate de escravos no
interior do actual território de Angola estava nas mãos de famílias
mestiças angolanas (mãe angolana e pai português) muito ricas e de
grande influência na sociedade luandense, que mantinham uma vasta rede
de aviados, pumbeiros e funantes por todo o hinterland do rio Cuanza,
terras além Cuango, e mesmo além Cassai. Com efeito o tráfico de
escravos foi a principal actividade económica em Luanda nos seus
primeiros trezentos e cinquenta anos de existência. Como tal, Luanda
tinha o seu pelourinho (só demolido em 1884) para administrar castigos
exagerados e crueis aos escravos que desafiassem o status quo da ordem
social e económica da escravatura.
Luanda, Benguela, Pinda, e Malembo na Economia do Tráfico Transatlântico de Escravos
Em Angola e no Brasil, muitos escravos foragidos quando eram apanhados pelas autoridades eram presos e usados nos trabalhos das câmaras municipais. Eles eram acorrentados com libambos e organizados em pequenos grupos vigiados por um soldado ou polícia (cipaios em Angola) que eram usados em obras públicas nas vilas e cidades, como abastecimento de água a hospitais, prisões, e quarteis, arranjo de estradas, e construção de edifícios públicos.
Escravos acorrentados com libambos ao pescoço (Pretos no Libambo) carregando água no Rio de Janeiro, em 1841. Gravura de Joaquim Lopes de Barros Cabral Teive.
Resistência à Escravatura e ao Tráfico
Frei Bartolomeu de las Casas e a sua "Brevíssima Relación de la Destrucción de las Índias", de 1542
Retrato coevo de Frei Bartolomeu de las Casas
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XXXXX
Frei Bartolomeu de las Casas foi um acérrimo defensor dos Índios contra a violência dos espanhois nas Américas. Esta imagem mostra ele dando os últimos sacramentos a um chefe Índio que tinha sido condenado a morrer na fogueira.
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Gravura de Theodor de Bry mostrando as atrocidades cometidas pelos Espanhois aos povos Índios da América, segundo os relatórios de Bartolomeu De Las Casas.
O debate de Toledo com Juan Ginis Sepúlveda (1490-1573)
Juan Ginis de Sepúlveda (1490-1573) que argumentou a favor da escravatura, no famoso debate de Toledo com Frei Bartolomeu de las Casas.
XXXX
Cardeal Ximenes de Cysneros, que aceitou a proibição da escravatura de povos índios das América e argumentou a favor do uso de escravos africanos nas Américas.
A Igreja Católica Perante a Escravatura e o Tráfico
A
escravatura foi ainda justificada e suportada por um discurso religioso que
apresentava o cativeiro como um meio de salvação espiritual temporário (mas necessário) para os escravos. A igreja católica determinou que era responsabilidade
do monarca português assegurar a catequese e o baptismo dos escravos
africanos antes do embarque para as Américas, pois só assim se podia
facultar a salvação da alma. Assim, antes de embarcar e deixar a costa de África, os escravos eram baptizados, para qual a Igreja cobrava um montante por escravo baptizado.
Padre António Vieira pregando aos Índios
Com efeito, o Padre António Vieira num dos seus sermões do Rosário disse: "Oh
se a gente preta tiradas das brenhas de sua Etiópia, e passada ao
Brasil, conhecera bem quanto deve a Deus, e a sua Santíssima Mãe que
pode parecer desterro, cativeiro e desgraça, e não é senão milagre e
grande milagre!", confirmou o vínculo entre a escravidão e a salvação
espiritual. Esta teoria foi oficialmente adoptada pela Companhia de
Jesus, em que era aceite que a escravidão dos africanos e o comércio
negreiro fossem vistos como legítimos na medida em que permitia arrancar os
africanos da idolatria e do pecado, e submetê-los ao domínio de
senhores cristãos que os instruíam no caminho da verdadeira
salvação cristã para a vida eterna (sic!).
Foto do escravo foragido Peter Gordon com cicatrizes de chicotadas nas costas,
Louisiana, Estados Unidos da América, 1863
Assim
em Luanda, os escravos deviam receber catequese e ser baptizados nos
barracões de espera de embarque, antes de embarcarem nos tumbeiros. De facto, houve durante séculos nas Portas do Mar em Luanda (perto do Largo dos Correios) uma
cadeira de pedra na praia da baía de Luanda, na Corimba, e
no Morro da Cruz houve um espaço próprio
especialmente dedicado ao baptismo de escravos por
padres seculares (de maioria africanos) antes do ebarcaque nos navios
negreiros para a temível Passagem do Meio, para o qual os padres reebiam uma pequena quantia por cada escravo baptizado.
É
certo que o mero baptismo, ainda que fosse a porta de entrada para o
reino dos céus, não era suficiente para a salvação da alma, pois era
preciso instruir os escravos nos mistérios da fé católica e conduzi-los a
receberem os outros sacramentos, e tal só se conseguia através da
catequese. Porém, a questão da catequese era mais difícil de realizar,
pois por norma não havia tempo suficiente para catecatizar os escravos
nos barracões de espera, nem padres fluentes nas diversas línguas
nativas para o fazer, para além do facto de que os traficantes de
escravos não queriam assumir quaisquer custos adicionais, pois eles queriam o escravo para trabalhar, não para o evangelizar.
A maioria dos residentes portugueses que viviam na costa de Angola, estava de uma maneira ou outra ligados ao comércio negreiro. Armadores, mercadores, soldados, governantes, funcionários, e até religiosos viviam do tráfico de escravos. A própria Igreja Católica tinha algumas fazendas na periferia de Luanda em que tinha centenas de escravos engajados em tarefas agrícolas.
O historiador Alfredo de Albuquerque Felner na sua importante obra "Angola - Apontamentos sobre a Ocupação e Início do Estabelecimento dos Portugueses no Congo, Angola, e Benguela, Extraídos de Documentos Históricos", edição da Imprensa da Universidade de Coimbra, 1933, documento Nº 43 do Apêndice, dá conta do número de escravos que a Companhia de Jesus possuia na área de Luanda, em 1623, segundo um documento coevo:
330 escravos existentes nas sanzalas de Luanda
294 na Fazenda e Arimo do Bengo
30 no arimo da Quilunda
27 no arimo de Mucari
4 no arimo do Zengo
13 no arimo do Quinjungo
1 no arimo de Catumba
22 no arimo de Piry
7 no arimo de Canbondo
15 no arimo de Quimbondo
2 no arimo de Sala Anga
52 no arimo do Dande
2 no arimo do Icao
3 no armazém da Barra do Dande
55 no arimo de Caly
26 no arimo da Zambela
11 no arimo de Cafucala
133 no arimo de Quiagonga
21 no arimo do Quixoto no Lembo de Massangano
20 no arimo de Muongo
12 no arimo de Quisequele
Para um total 1.080 escravos em 20 arimos (fazendas) em Luanda e na sua vizinhança.
O valor total dos bens de raíz, bens, casas, e arimos de que a Companhia de Jesus era proprietária era estimado em $35:937$800 reis. O valor dos 1.080 escravos era estimado em 26:279$400 reis, e o valor dos bens móveis, dinheiro, e créditos era de 10:512$411 reis, para um total de 72:729$611 reis, o que era uma grande quantia na época.
Abolição do Tráfico de Escravos e da Escravaura
Apesar do esforço da abolição da escravatura nos finais do século XVII I e princípios do século XIX, esta continuou ainda a crescer (ainda que ilegal) até aos fins de 1880s, década em que começou a cair muito.
Portugal e colónias
Europa - França e Inglaterra
Antilhas e América do Sul
Estados Unidos
O Brasil e Cuba foram os últimos países a abolir a escravatura. O Brasil fê-lo através de um longo processo d esforços que culminaram com a Lei do Ventre Livre promulgada em 1871 e a Lei Áurea, promulgada a 13 de Maio de 1888, que aboliu definitivamente a escravidão no Brasil.
Lei Áurea do Brasil, de 13 de Maio de 1888, que aboliu a escravidão no Brasil
Cronologia da Abolição em Angola
Mesmo depois da abolição formal do tráfico de escravos no Atlântico, a escravatura como instituição económica e social continuou em forma ilegal em Angola como escravatura doméstica, se bem que em números mais baixos, e em forma de trabalho forçado para trabalhos públicos, como construção de estradas e obras públicas, até às duas primeiras décadas do século XX.
Ferreiro inglês removendo a libamba da perna de um escravo, na costa de Moçambique em 1907
Referências Bibliográficas
Antes
de passar ao próximo tópico neste esboço macro-histórico de África,
cabe-me oferecer aqui algumas sugestões bibliográficas, além da database
indicada acima, para aqueles que queiram aprofundar o seu conhecimento
sobre o tráfico angolano de escravos, que penso podem ajudar muito:
O livro seminal "The Atlantic Slave Trade - A Census", do Prof. Philip D. Curtin, publicado pela University of Wisconsin Press, Madison, USA, em 1969, que deve ser lido a acompanhar a leitura do "Atlas of the Atlantic Slave Trade" mencionado acima.
O livro "Way of Death Merchant Capitalism and the Angolan Slave Trade 1730-1830" (Caminhos de Morte), do Prof. Joseph C. Miller,
publicado em 1988 pela University of Wisconsin Press, Madison,
Wisconsin, USA; Existe uma tradução portuguesa, mas eu não
tenho os detalhes sobre a mesma.
O livro "The Slave Trade - The History of the Atlantic Slave Trade 1440-1870", de Hugh Thomas, publicado por Picador, MacMillan Publishers Ltd. (Simon & Schuster Inc. in New York, USA), London, 1997;
O livro "Transformations in Slavery - A History of Slavery in Africa", 2ª Edição, da autoria do Prof. Paul E. Lovejoy, publicada pela Cambridge University Press, London, 2000;
O livro "O Tratado de Viventes - Formação do Brasil no Atlântico Sul", do Prof. Luiz Felipe de Alencastro, publicado pela Companhia das Letras, São Paulo, 2000;
O livro "De Costa a Costa - Escravos, marinheiros e intermediários do tráfico negreiro de Angola ao Rio de Janeiro (1780-1860)", do Prof. Jaime Rodrigues, também publicado pela Companhia das Letras, São Paulo, 2005;
O livro "A Manilha e o Libambo - A África e a Escravidão de 1500 a 1700", do Prof. Alberto da Costa e Silva, publicado pela Editora Nova Fronteira Participações S.A., Rio de Janeiro, 2011;
O livro do Prof. Arlindo Manuel Caldeira "Escravos e Traficantes no Império Português - O comércio negreiro português no Atlântico durante os séculos XV a XIX", publicado pel'A Esfera de Livros, Lisboa, 2013;
Os três volumes da obra "Escravidão", de Laurentino Gomes, publicada pela Globo Livros, Rio de Janeiro, em 2019; Esta trilogia de leitura muito acessível foca mais na relevância da escravatura e tráfico de escravos no Brasil;
Para o estudioso da economia política do tráfico transatlântico de escravos, é útil a leitura do livro "Capitalism and Slavery", de Eric Williams, publicado pela University of North Carolina Press, em 1944;
E finalmente, a obra " The Portuguese Seaborne Empire 1415-1825", de Charles Ralph Boxer, publicada pela editora Carcanet em associação com a Fundação Calouste Gulbenkian e a Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos, Portugueses, Lisboa, 1991. Existe uma tradução portuguesa desta importante obra.
Eu penso que todos os livros nesta lista são essenciais, mas se só tiveres a oportunidade para ler um livro só da lista acima, eu sugiro o livro "O Tratado de Viventes - Formação do Brasil no Atlântico Sul", do Prof. Luiz Felipe de Alencastro, que é na minha opinião a análise mais compreensiva e mais inteligente da economia política do Atlântico Sul durante toda a época do tráfico de escravos. Neste livro, o Prof. Alencastro usa a mesma metodologia histórica que o prof. Celso Furtado uso sua obra clássica "Formação Económica do Brasil", mas expande-a ao contexto do Atlântico Sul (e até à escala global). Uma verdadeira joia da bibliografia em língua portuguesa sobre o tráfico transatlântico de escravos.
4.6 O Grande Intercâmbio entre a Europa, a África, e o Novo Mundo
Os Descobrimentos Portugueses abriram o mundo ao intercâmbio verdadeiramente global (à escala planetária) de pessoas, mercadorias, alimentos, doenças, e ideias que transformaram profundamente o mundo. Este intercâmbio global recebeu dos historiadores o nome de "Grande Intercâmbio" ("Columbian Exchange" em inglês).
Desde os tempos da antiguidade que países de continentes diferentes comerciavam entre si, como atesta no contexto europeu o comércio marítimo à volta do Mar Mediterrâneo, a lendária Rota da Seda ligando por terra a China à Europa Oriental, e o intenso comércio com o Levante, que Constantinopla e Veneza faziam com Bagdad, Arábia, e Índia.
Contudo, a natureza e a dimensão do novo comércio com o Novo Mundo eram diferentes. Eles eram baseados no conceito de exploração de riqueza, e não na troca de mercadorias. Essa exploração assentava na usurpação pelos europeus da riqueza agrícola e mineral das novas terras descobertas, complementados pela usurpação da mão-de-obra escrava africana vinda de África.
Cabe antes do mais referir aqui que os termos "Novo Mundo" e "Velho Mundo" carecem de uma explicação mais cabal. Eles reflectem somente a perspectiva europeia. É um facto que para os Europeus, as Américas eram um "Novo Mundo", mas na verdade os povos nativos a que os europeus chamaram de "Índios" (cerca de 75 milhões) que as habitavam, já lá viviam há mais de mil gerações ao longo de mais de vinte mil anos, organizados num mundo muito diverso de grandes civilizações entre os mais de 500 grupos culturais (nações de facto) que habitavam os dois continentes, com economias e unidades políticas prósperas, e tecnologias próprias, e falando mais de 2.000 línguas diferentes.
O intercâmbio que adveio do contacto entre povos de regiões muito díspares no mundo não se limitou ao comércio de produtos agrícolas, minerais, e industriais; com efeito o este intercâmbio incluiu movimentos migratórios pessoas, animais, plantas, cereais, alimentos, doenças, ideias, cruzamento de culturas, e até a uma nova maneira de ser e estar no mundo - um homem novo.
Em termos de migrações humanas, o intercâmbio global causou a emigração voluntária de milhões de Europeus e involuntária de milhões de Africanos para as Américas. Estes movimentos de milhões de pessoas ao longo de quatro séculos foi acompanhado por um grande movimento de alimentos, mercadorias, e doenças.
As novas doenças, como a malária, a varíola, a sífilis, e a febre amarela, para as quais a maioria dos povos agora em contacto não tinham imunidade biológica acabaram por resultar na morte de milhões de nativos nas Américas, e de muitos europeus em África. O Grande Intercâmbio entre o Velho e o Novo Mundo permitiu também a transmissão de muitas doenças mortais com efeitos devastadores para os dois lados. Contudo, foi nas Américas que essas doenças, como a varíola, o tifo, a gripe, o sarampo, o paludismo, a difetria, e a tosse convulsa causaram o maior número de vítimas. Por outro lado, a malária e a febre amarela foram levadas da África para as Américas, o que resultou em consequências ainda piores.
Estima-se que nos primeiros cem anos de contacto entre europeus e africanos e povos nativos das Américas, cerca de 95% da população nativa americana pereceu à violência espanhola e às novas doenças para as quais não tinham defesa. No sentido contrário, a sífilis propagou-se das Américas para a Europa com resultados devastadores durante os próximos quatro séculos.
Na farmacopeia, onde uma verdadeira revolução teve lugar, muitos novos remédios, principalmente chás, plantas, ervas, e especiarias passaram a ser usados em todo o mundo, como por exemplo o quinino, que era usado originalmente pelos Ìndios do Perú no tratamento do paludismo. A ervanária e a medicina tradicional das novas regiões foram adaptadas para uso na Europa.O tabaco e o chocolate vindos da América, e o café vindo de Áfricaeram vistos inicialmente como bons produtos para a saúde, passaram a ser consumidos na rotina da vida quotidiana.
Em termos de novos alimentos vegetais vindos das Américas e chegados à Europa temos entre outros, a batata, o tomate, a mandioca, o milho, o feijão, o amendoím, a batata doce, a abóbora, o abacate, o pimento, o ananás, a baunilha, o cacau. Em sentido oposto, isto é, trazidos da Europa para as Américas, temos a cana de açucar, a uva, a laranja e o limão, a azeitona, a cebola, o nabo, o pêssego, a pêra, e cereais como o trigo, o arroz, o centeio, e a aveia. Da África vieram a banana e o café. Por seu lado, o consumo de arroz generalizou-se para todo o mundo e todos estes alimentos se tornaram alimentos básicos nas dietas de todo o umundo.
É interessante mencionar que este intercâmbio foi tão profundo e duradouro na culinária que muitos de nós somos inclinados a pensar erradamente que devido ao ao seu uso generalizado e enraizado na culinária, o tomate veio da Itália, a batata da Polónia ou da Rússia, o arroz da América do Sul, o bacalhau de Portugal, e a mandioca da África a sul do Sahara.
A movimentação de animais domésticos foi também extensa. Da Europa sairam o boi, a ovelha, o porco, o cavalo, e da América veio o perú. Mesmo as abelhas foram trazidas para as Américas. É depois desta troca a nivel das grandes regiões pecuárias e cerealíferas do mundo que hoje encontramos os maiores rebanhos de gado e plantações de cereias na Argentina, nos Estados Unidos e Canadá, no Brasil, e na Austrália, todas situadas no Novo Mundo.
As famosas acácias rubras de Luanda e Benguela
O Grande Intercâmbio também afectou profundamente o mundo das ideias. Da constatação da variedade da espécie humana nasceu a ideia do Bom Selvagem, ao mesmo tempo que o racismo se instalou na mente humana, e finalmente do relativismo cultural para nos sentirmos mais iguais. Na filosofia, na religião, e na ciência e tecnologia, o impacto foi ainda maior, ao mesmo tempo que na política novas formas de organização do estado e do governo nasceram e foram adoptadas.
Buganvílias em Luanda
Toda esta troca de produtos e ideias só se tornou possível com a intensificação do comércio internacional e das tecnologias de transporte. O mundo dos negócios descobriu novos métodos que acabaram por transferir para a Europa e para a América do Norte a maior fatia da riqueza mundial.
4.7 Rotas de Comércio
A
empresa dos descobrimentos portugueses abriu o mundo para toda a sua
extensão. De quatro macro-regiões económicas relativamente fechadas
entre si (Europa, Mundo Árabe, Índia, e Extremo Oriente), os portuguese
trouxeram "novos mundos ao mundo" com a abertura da África, das
Américas, e do Pacífico ao comércio internacional de então. Esta
abertura realizou-se em dois planos principais: comércio (produtos) e
evangelização (mentalidades).
Desde a Antiguidade até ao fim da Idade Média, ou melhor, até à época dos Descobrimentos Portugueses, o
intercâmbio comercial à escala mundial operou-se basicamente em dois sentidos - do Oriente (Japão, Coreia, China, Índia, Insulíndia, Ásia Central, e Médio Oriente) para o Ocidente (Europa, Médio Oriente, e Norte de África), e vice-versa (da Europa para o Oriente). Este comércio mundial de longo curso era controlado pelos muitos potentados muçulmanos da Ásia Central e pelas répúblicas Italianas (Veneza, Florença, e Génova). Devemos ainda lembrar que havia um comércio inter-europeu muito activo ligando todas as regiões da Europa, incluindo a Rússia.
Com a excepção da Rota da Seda, até à época dos Descobrimentos Portugueses as rotas de comércio eram predominantemente regionais - Mediterrâneo, Báltico, Índico, Insulíndia, e Mar do Japão - não ligando estas a uma rede global de comércio mundial.
O Mundo Colonial, que então compreendia a presença dos - os Portugueses em África, o Império Espanhol nas Américas e no Pacífico, as colónias nas Caraíbas, Portugal e o Brasil, América do Norte (França e Inglaterra), o império colonial Russo, o Império Otomano, os Árabes na costa oriental da África, a Inglaterra e a Índia, a Holanda e a Insulíndia, a Inglaterra na Austrália, interesses comerciais ocidentais na China e no Japão, e as colónias no Pacífico.
Com o advento dos Descobrimentos Portugueses, o comércio mundial tornou-se pela primeira vez verdadeiramente global. Para além das antigas rotas de comércio (Mediterrâneo e a Rota da Seda), novas rotas se estabeleceram sendo a principal entre o
Novo Mundo (Américas) e o Velho Mundo (Europa, e Ásia) e
vice-versa e a outra entre a Europa e a África. Neste quadro global de trocas coube à Àfrica a exportação de
força de trabalho através do tráfico trans-Atlântico de escravos; às
Américas coube a produção de produtos coloniais (açúcar, algodão,
tabaco, e café), bem como a mineração de ouro e prata; e coube à Europa a
produção de meios de transporte, produtos manufacturados, e a gestão do sistema financeiro mundial.
Com
a expansão portuguesa e holandesa na Índia e Insulíndia e a espanhola nas Américas,
duas novas rotas marítimas de comércio de longo curso floresceram: a Rota do Cabo (Sul da África) trazendo principalmente especiarias da Índia e Insulíndia para a Europa, controlada inicialmente pelos Portuguese e mais tarde pelos
holandeses, e a Rota do
Pacífico, ligando o México às Filipinas (a Carreira de Manila (ou Galeões de Manila), ambos sob domínio espanhol),
Insulíndia, e China. Mais tarde, já no princípio do Séc. XVIII, os Ingleses passaram a controlar a Rota do Cabo quando ocuparam a Índia.
No quadro mundial de trocas, os grandes perdedores foram as répúblicas Italianas, o Império Otomano, os Moghuls da Índia, e os potentados da Insulíndia. O papel da China não se alterou muito,
pelo que continuou a fornecer ao Ocidente tecidos, louças e faiança, chá, e especiarias, e importar prata e outros produtos manufacturados.
Com a ocupação europeia das Caraíbas e da América do Norte nos sécs. XVI e XVII, um novo sistema de trocas mundiais tomou raíz (Comércio Triangular), caracterizado essencialmente por capitais e produtos manufacturados da Europa, mão-de-obra Africana para
as Américas, e produtos coloniais (açúcar, algodão, tabaco, e café) das
Américas para a Europa, que se manteve até a ascensão dos Estados Unidos como maior potência económica do mundo, já no Séc. XX.
4.9 - A Exploração do Continente Africano (a desenvolver)
Mungo Park (1771-1806) Rio Niger
René Caillé (1779-1838), Timbuctu
Heinrich Barth (1821-65), Chade, Norte da Nigéria, e Sahara
Ricahrd Burton (1821-90), com Speke, Zanzibar, África Oriental e a nascente do Nilo
David Livoingstone (1813-73), África Central e Oriental, de Luanda a Quelimane em Moçambique, Lagos Tanganika, MWere, e Niassa, rio Rovuma, e Zanzibar
Pierre Savorgnan de Brazza (1852-1905)
Pierre Paul François Camille Savorgnan de Brazza foi um explorador ítalo-francês . Com o apoio financeiro de sua família, explorou a região de Ogooué, na França Central... Leia mais
Visão geral da IA
Pierre Savorgnan de Brazza(1852–1905) foi um oficial naval e explorador francês nascido na Itália, famoso por liderar expedições à África Central e fundar Brazzaville .
Política de Exploração e Paz: Entre 1875 e 1882, ele explorou as bacias dos rios Ogooué e Congo. Ao contrário de muitas figuras coloniais europeias da época, ele era conhecido como "le conquérant pacifique" (o conquistador pacífico) por priorizar tratados, negociações e diplomacia em vez da força militar.
O Tratado de Makoko: Em 1880, ele negociou um tratado histórico com o Rei Makoko do Reino de Téké, colocando a margem norte do Rio Congo sob proteção francesa e garantindo o local que se tornaria Brazzaville , a capital da República do Congo.
Administração e Investigação Colonial: Ele serviu como governador-geral do Congo Francês de 1886 a 1897, onde tentou instituir reformas. Em 1905, retornou à África para liderar uma investigação oficial sobre o trabalho forçado brutal e as violações dos direitos humanos cometidas por empresas concessionárias coloniais.
Legado: Ele morreu em Dakar em 1905, quando retornava à França, e seus restos mortais foram posteriormente sepultados em um mausoléu de mármore em Brazzaville, em 2006. Seu nome também permanece na nomenclatura biológica, como no caso do macaco de Brazzaville .
Gostaria de saber mais sobre suas expedições específicas à África (1875–1882) , sua rivalidade com Henry Morton Stanley ou a investigação de 1905 sobre trabalho forçado ?
Henry Morton Stanley (1841-1904), Loango, Malebo, África Central, África Oriental (Tanganika, Zanzibar, Monte Rwenzori, Lagos Albert, Leopoldo.
Mary Kingsley (1862-1900)
Mapa das Viagens do explorador inglês David Livingstone (1841 a 1873) através da `África. Imagem retocada por AI.
Dr. Paul Pogge
O explorador africanista Dr. Paul Pogge (1838-84) chegou à região do Luluaba no Congo e foi quem primeiro estudou o povo Batwa (Mbuti/Pigmeus). Imagem retocada por AI.
O Dr. Paul Friederich Johann Moritz Pogge foi um explorador africanista alemão doutorado em direito pelas universidades de Berlim, Munique e Heidelberga, que fez três viagens a África. A primeira foi à Colónia do Cabo, na África do Sul entre 1865 e 66, foi uma viagem pessoal em que ele se dedicou à caça de animais de grande porte, que o encantou pelo continente africano.
A pedido da Sociedade Africana Alemã ((Afrika - Gesellschaft), ele realizou uma segunda viagem entre 1874 e 76, acompanhado por Alexander von Homeyer, que teve de ser evacuado para Luanda por motivo de doença, Paul Pogge chegou em 1875 à Mussumba, capital do império Lunda, onde se encontrou com o Muata Iamvo.
Em 1880 ele começou a sua terceira viagem, desta vez partindo de Luanda com destino ao império do Muata Iamvo na Lunda, acompanhado pelo Tenente Hermann Wissemann. Nesta viagem, eles chegaram à região do Luluaba, no coração da África Central, onde pela primeira vez se encontraram com povos Mbuti (pigmeus) na floresta do Ituri.
As viagens do Dr. Pogge são importantes no contexto da exploração do interior da África Equatorial pelas potências europeias. Elas "convenceram" os portugueses a realizar as expedições da travessia de África por Serpa Pinto e a expedição de Henrique de Carvalho à Lunda, e aceleraram a decisão de Bismark em convocar a Conferência de Berlim para dividir os territórios africanos entre as potências europeias. Os mapas desenhados pelo Dr. Pogge foram usados extensivamente mais tarde pelo governo alemão na demarcação da África Oriental Alemã, que compreendia os territórios de Tanganika, Ruanda e Burundi. O Dr. Paul Pogge morreu em Luanda em 1884 de febres tropicais.
4.10 A Partilha de África
Antecedentes - Roma, Árabes, e Portugueses
África até 1815
África entre 1815 e 1882
Leopoldo II da Bélgica;
Alemanha - colonizadora indecisa e tardia
Conferência de Berlim (1884-85)
Estabelecimento de colónias. Bacia Convencional do Zaire - Liberdade de culto e tolerança religiosa. Missões e ensino religioso. Ocupação militar e administrativa do Congo e de Angola pelos Portugueses
As Campanhas Militares de Ocupação
Dembos
Costa a Norte da foz do rio Mbridge
O Mossul e Ambriz
Reino do Congo
Benguela - Dombe Grande, Hanha, Caconda, e Quilengues
Sudoeste - Baías do Sul, Planalto da Huíla - Nhaneca-Humbes, Ovambos, Hereros
Nordeste - Ambaca, Cassange, Malange, Bondos, e Lunda
Campanha do Seles
Planalto Central - Huambo, Bié
Artur de Paiva e o Cuando Cubango
Henrique de Carvalho e a Lunda
Moxico e Cuando-Cubango
Os Boers em Angola - O Grande Treck
Campanhas de Pacificação do Sul de Angola
A guerra com a Alemanha ao longo do rio Cunene
Evolução administrativa - Presídeos militares, distritos, circunscrições administrativas, concelhos, distritos e províncias
Luta de libertação
Descolonização
Independência
Demarcação de Fronteiras das Colónias
Apesar das conclusões específicas da Conferência de Berlim não demarcarem nem homologarem a criação de colónias em África, a consequência directa mais importante da Conferência foi o assalto imediato a África pelos poderes coloniais europeus, e a partilha da mesma entre a Inglaterra, a França, a Alemanha, e Portugal.
Este assalto tomou várias formas, incluindo conquista e ocupação militar, tratados de suzerania e protecção com chefados locais, aquisição de território, criação de monopólios coloniais através de companhias majestáticas, imigração de colonos europeus para ocuparem as terras conquistadas, e ocupação administrativa e imposição da autoridade colonial.
O Forte da Quibala desenvolveu um papel de relevo na ocupação e pacificação da região do Libolo, no Cuanza Sul. Imagem retocada por AI.
Materialismo Histórico
Como
tudo no mundo das ideias, há várias teorias que procuram explicar a
evolução histórica da humanidade; umas mais completas e convincentes e
outras com bases mais ténues. A teoria do materialismo histórico,
desenvolvida por Karl Marx (1818-1883) nos meados do século XIX é tida como uma das mais aceites.
Com base no conceito de dialéctica explicado pelo filósofo alemão Georg Wilhelm Friederich Hegel,
(1770-1831) em que uma ideia, ao apresentar-se como uma tese, suscita
inerentemente a sua antítese, e a contradição que daqui resulta é
superada por uma síntese, não havendo assim verdades imutáveis. Para
Hegel, no mundo tudo o que se pensa e existe não é imutável; tudo está
sempre em contínua transformação e evolução. Marx adaptou este conceito
de dialética de Hegel às condições materias de vida humana e destas à
história da humanidade, chegando assim ao conceito chave de materialismo
histórico.
De acordo com ele, o materialismo histórico
explica a história da humanidade através das contradições criadas pelas
condições materiais e económicas da vida, e não pelas ideias. De acordo
com Marx, a contradição principal reside no facto de que só uma porção
do valor do trabalho fica com o trabalhador; ficando o resto (a
mais-valia ou excedente) com a classe que controla a sociedade. A base
económica das sociedades (que inclui o modo de produção e as relações de
produção) determinam a superestrutura social (instituições políticas, legais, religiosas, filosóficas, e culturais), e o principal agente de mudança é a luta de classes,que
é o conflito inerente entre as classes sociais (opressoras e oprimidas)
pelo controle dos meios de produção que gera revoluções e mudança
social entre as forças produtivas (trabalho e tecnologia) e as relações
de produção (propriedade e classes sociais).
O Conceito de Modo de Produção
Assim, a luta de classes é o motor da história, e o conceito de Modo de Produção refere-se à maneira pela qual as sociedades produzem os seus meuos de subsistência e se associam como sociedades.
O estágio dessas contradições e inerente luta de classes em cada sociedade manifestam-se através do conceito de modo de produção,
que é a forma como uma sociedade organiza a produção e repartição do
produto social. Para Marx, o sistema económico e o sistema político são
ambos lados da mesma moeda; e as condições materiais de vida moldeiam a
maneira de pensar, e não o contrário; isto é, a economia moldeia as
ideias políticas, e não o reverso. De acordo com Marx, a história não é
senão a progressão dos modos de produção ao longo da história humana e
manifesta-se em vários estágios (modos de produção) distintos, incluindo
o comunismo primitivo, e o modo de produção asiático, esclavagista,
feudal, capitalista, e socialista, culminando num estágio final de
comunismo sem classes nem exploração. A história humana é assim o processo histórico de evolução das sociedades que resulta das contradições internas e luta de classes que geram a superação de um modo de produção pelo próximo.
Em
termos económicos, o modo de produção é o sistem socio-económico
predominante numa sociedade, e é constituído por quatro processos
(circuitos) principais:
- Produção -
que é a forma como a sociedade se organiza para sobreviver através de
recursos materiais (recursos naturais, bens de consumo, e serviços)
- Circulação - a forma como a sociedade processa circulação (intercâmbio e troca) de bens e serviços (mercadorias);
- Consumo - que é a forma comos as diferentes classes sociais consomem as mercadorias produzidas.
- Investimento
- que é o processo pela qual o capital é aplicado em novos bens de
investimento (capital mercantil, investimento em empresas, equipamentos,
ferramentas, fábricas, explorações agrícolas, minas, barragens,
estradas, etc.)
As forças produtivas
incluem todos os elementos necessários à produção - terra, alimentos,
matérias-primas, minérios, energia e combustíveis, capital (máquinas, ferramentas,
e fábricas) e a habilidade da mão-de-obra (tecnologia). Por seu lado,
as relações sociais de produção incluem os relacionamentos ente
as pessoas e classes, e os processos de interacção entre as pessoas e as
força produtivas através das quais se tomam decisões sobre o que fazer
com o produto social. Assim, o conceito de modo de produção não é mais
do que a união das forças produtivas e as relações sociais de
produção.
O primeiro e mais antigo modo de produção, mais duradouro e mais espalhado por todo o mundo pré-histórico, o comunismo primitivo,
aplica-se às sociedades de caçadores/colectores. A organização social e
económica é caracterizada pela propriedade colectiva dos meios de
produção, sem classes ou estado, baseado na cooperação e distribuição
equalitária do produto social. No modo de produção primitivo, todos na
comunidade trabalhavam juntos e eram recompensados egualitariamente pelo
seu esforço de trabalho. As sociedades não eram divididas em classes, e
as trocas de bens eram de caracter celebrativo, não havendo mercadorias
e dinheiro.
O Modo de Produção Asiático (ou Tributário)
aplica-se às sociedades antigas (Egipto, Índia e China, África a sul do Sara, e
Américas - Aztecas, Maia, e Incas) com grande controle estatal sobre a
produção, propriedade comum, e excedente de produção. O Estado ficava
com uma fatia grande da produção, e as populações eram obrigadas a dar o
seu esforço de trabalho para a construção de grandes projectos como
muralhas, templos, estradas, e sistemas de irrigação. É no modo de
produção asiático (ou tributário) que começam a surgir a divisão da
sociedade em classes, onde um pequeno grupo detinha o poder económico e
político. É ainda neste modo de produção asiático que o dinheiro começa a
ser usado como meio de troca e a escrita começa a ser usada na
contabilidade social.
O Modo de Produção Esclavagista
é característico de sociedades como a Grécia antiga e Império Romano,
em que cidadãos livres usavam o trabalho do escravo para tudo. A
característica principal do modo de produção esclavagista era a
diferença clara entre as classes sociais. Haviam três classes
principais:
- Escravos - que eram propriedade dos senhores e trabalhavam em todos os campos, e que produziam quase tudo o que se consumia;
- Senhores
- que eram os donos dos escravos e constituiam uma minoria que
organizava a exploração do trabalho escravo. A classe dos senhores
ficava com a maior fatia da produção social;
- Plebeus
- Era a classe dos trabalhadores e artesãos livres e independentes que
produziam para auto-consumo e troca do excedente produzido.
Marx
não estudou as sociedades tradicionais africanas a sul do Sahara.
Contudo, no geral elas apresentam formas de organização económica e
social comum que se podem agrupar num modo de produção característico a
que o historiador e especialista em escravatura em África Paul Lovejoy chama de Modo de Produção de Linhagem ou Doméstico.
Este
modo de produção tipico principalmente das sociedades tradicionais
africanas Bantu a sul do Sahara caracteriza-se por sociedades divididas
em classes baseadas em género e idade. Embora a terra fosse propriedade do clã, os mais velhos controlavam os
meios de produção e o acesso a mulheres, garantindo assim o poder
político a uma gerontocracia fechada. O produto do trabalho da terra era privado. O marido preparava a terra,
construia a casa, e caçava, e a mulher tabalhava a terra e gerava
filhos. Esta era por norma casada com um homem muito mais velho do que
ela, podendo o mesmo homem ter várias mulheres, e ser pai de uma prole
relativamente grande de filhos e filhas (família poligínica). Para casar, o homem tinha de
pagar o alambamento à família da mulher, o que requeria uma certa
independência económica não disponível aos mais jovens. Nestas
sociedades haviam escravos, mas eles não eram usados como trabalhadores rurais nem eram mercadoria que se podia
trocar.
O Modo de Produção Feudal
é característico dos países europeus durante a Idade Média depois da
decadência do esclavagismo, em que os senhores (nobres) controlavam a
vida e o trabalho dos servos (camponeses e trabalhadores rurais)
ligados à terra, através de obrigações e tributos. A comercialização do
excedente da produção era realizado em feiras que tinham lugar em cidades num calendário regular. A terra era propriedade dos senhores feudais (donos da terra e aparato militar) e trabalhada pelos camponeses em troca da protecção militar dos senhores (nobres). Os artesãos, que viviam em cidades e organizavam-se em guildas usufruiam de uma certa autonomia, e os comerciantes detinham um poder económico considerável, que acabou por lhes conferir o control e poder político para dominar a economia. A nobreza era constituída pela família real e pelos senhores feudais, todos auxiliados pelo clero no controle do aparelho do estado.
No Modo de Produção Capitalista, que sucedeu ao modo de produção feudal, os donos dos meios de produção (a burguesia) apropriam-se de uma parte do valor social do trabalho dos trabalhadores, em busca da apropriação da mais-valia gerada pelo proletariado e lucro. O trabalho é transformado em mercadoria através assalariamento da força de trabalho. A propriedade privada
dos meios de produção (mão-de-obra, terra, tecnologia, quintas,
plantações, fábricas, minas, lojas, escritórios, navios, etc.) permite
aos seus donos acumular valores cada vez mais altos e mais concentrados
de capital, e a riqueza extraída das colónias (através do imperialismo) ajudou a ampliar esta concentração de poder económico e político num número cada vez mais restrito de agentes. O Estado passou a ser um instrumento da classe dominante (a burguesia). O salário
é a remuneração do trabalho, que é pago aos trabalhadores em forma de
dinheiro, num montante suficiente para manter a subsistência destes, e o
capital é usado em mais investimentos que visam a extracção ainda maior e mais acelerada da mais-malia ao trabalho da classe operária.
O
sistema e o estado capitalista foram alvos das críticas de muitos
filósofos e cientistas sociais desde os fins do século XVIII, e durante
os séculos XIX e XX. Por exemplo, o filósofo anarquista Pierre-Joseph Proudhon (1809-65) considerava que a "a propriedade é um roubo", que "os grandes só são grandes porque estamos de joelhos; Levantêmo-nos!", e que "Ser
governado é ser vigiado, inspecionado, espionado, regido por leis,
numerado, regulamentado, dirigido, inscrito, doutrinado, alvo de
sermões, controlado, fiscalizado, avaliado, valorizado, censurado,
comandado por criaturas que não têm direito, a sabedoria, ou a virtude
para fazê-lo. Ser governado é ter cada operação, cada transacção
anotada, registada, contada, tributada, selada, medida, numerada,
avaliada licenciada, autorizada, admoestada, impedida, proibida,
reformada, corrigida, punida. É sob o pretexto de utilidade pública e em
nome do interesse geral, ser submitido à controbuição, instruído,
explorado, monopolizado, extorquido, espremido, enganado, roubado; e
então, à menor resistência de queixa, ser reprimido, multado,
vilipendiado, assediado, caçado, abusado, espancado, desarmado,
amarrado, estrangulado, preso. Julgados, condenados, fuzilados,
deportados, sacrificados, vendidos, traídos ; e, para coroar tudo,
zombados, ridicularizados, escarnecidos, ultrajados, desonrados. Isso é
governo; essa é a justiça; essa é a sua moralidade."
Ideologia
A economia e filosofia política de Marx não são apenas uma teoria filosófica; elas constituem uma ideologia
que pode guiar o progresso das sociedades humanas. Assim, com base na
progressão histórica dos modos de produção, Marx previu a existência de
dois novos modos de produção no futuro: o Modo de Produção Socialista, e
o Modo de Produção Comunista, que passo a cobrir a seguir.
Para ele,
tinha que se passar das palavras à acão, quando escrveu que "os filósofos não têm feito mais do que interpretar o mundo de diferentes maneiras, mas o que importa é transformá-lo", na sua XI tese sobre Feuerbach.
Segundo Marx, o Modo de Produção Socialista
é o modo de produção que sucede imediatamente ao Modo de Produção
Capitalista. O elemento fundamental do modo de produção socialista é a economia planificada controlada pelo Estado
que substitui o sistema de mercados (encontro de oferta e procura de
bens e serviços) no capitalismo. O foco do modo de produção socialista é
promover a ditadura do proletariado, através da extinção da burguesia. A propriedade privada dos meios de produção é abolida, e passa a ser controlada pelo Estado.
Em certa medida, o Modo de Produção Socialista é um passo intermédio para o Modo de Produção Comunista.
Com a extinção da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) em
1991, só dois países no mundo se podem classificar como usando o modo
de produção socialista: Cuba e Coreia do Norte. A China e o Vietname são
republicas socialistas só de nome, pois de facto praticam um modo de
produção capitalista, em que a propriedade privada dos meios de produção ainda é muito significante.
Na última fase da história humana (o fim da história), Marx previu que o modo de produção socialista se transforme eventualmente em Modo de Produção Comunista,
caracterizado fundamentalmente pela abolição completa da propriedade privada e
das classes sociais, pois não haveria jamais a exploração do homem pelo
homem.
Cabe
mencionar aqui que a análise e critica do sistema capitalista feitas
por Marx tiveram lugar num certo período concreto da história humana -
meados do século XIX - e que necessariamente reflectem (e se limitam) a
esse período concreto. Desde então, e como resposta às críticas
avançadas por Marx, o sistema capitalista superou a fase de exploração
sagaz dos trabalhadores típicos da Revolução Industrial, tornam-se mais
"ameno", permitindo melhores condições de vida às classes oprimidas -
não ao trabalho infantil, sindicalização dos trabalhadores, crédito à
habitação, melhor escolaridade, previdência social, e melhoramentos na
acção do Estado.
Com efeito entre 1883 e 1889, o Chanceler Otto von Bismark,
do então recentemente formado estado alemão, desenvolveu uma política
social especialmente desenhada para combater as soluções socialistas
advogadas por Marx que então dominavam na Europa. Ele criou um seguro de
saúde, outro contra acidentes de trabalho, e um novo sistema de seguro
de velhice e invalidez que acabaram por ser adoptados pela maioria dos
países europeus na geração seguinte. Com este novo modelo social, o
socialismo foi adiado, e o capitalismo sobreviveu à custa de uma mudança
fundamental no papel do estado para uma nova política de bem-estar
social.
Entretanto,
esse atenuamento das condições de exploração na Europa e na América do
Norte só foi possível com a transferência da "carga exploratória" paras
as colónias e povos periféricos, o que teve lugar na fase imperialista (mundial), para manter os níveis de exploração e lucros para manter o sistema, como explicou Vladimir Ilyich Ulianov (Lenin) (1870-1924) no seu famoso estudo "Imperialismo Estádio Supremo do Capitalismo"
(Petrogrado, 1917). Alguns estudiosos dividem o capitalismo em várias
fases intermédias, incluindo, o capitalismo mercantilista,o capitalismo
monopolista, o imperialismo, a globalização, e o neoliberalismo.
Como
nota à descrição dos diferentes modos de produção, cabe-me dizer aqui
que eu penso que a experiência do modo de produção socialista é um tanto
utópica. Sem dúvida que houveram grandes avanços na economia da URSS,
China, e países satélites; mas tal só se conseguiu a custos sociais e
económicos proibitivos (maiores do que no sistema capitalista, como as
fomes e purgas de Joseph Stalin (1878-1953) e a Revolução Cultural de Mao Tsé Tung
(1893-1976) em que pereceram muitos milhões de cidadãos, e as suas
economias acabaram por "perder o fôlego" e implodir sob o seu próprio
peso. Em geral, e em comparação com os países capitalistas do centro, as
economias comunistas eram pobres e o nível de vida muito mais baixo e
precário. A economia cubana é um bom exemplo dessa pobreza.
A Experiência Socialista em Angola
No
caso concreto de Angola, logo após a sua Independência em 1975, o MPLA
tentou a implantação de um regime
socialista em Angola, contudo, esta tentativa foi incipiente e efémera, e não sucedeu.
Alguns dos factores que determinaram este resultado incluem os resquícios históricos da escravatura, a recente
herança de exploração colonial, a purga de 27 de Maio de 1977 em que uma grande número
de quadros foi eliminado, a desgastante guerra civil contra a UNITA, o
desmoronamento
da URSS em 1992, e a incapacidade e convicção dos quadros do MPLA em
prosseguir a via
socialista.
Durante
o seu I Congresso realizado em Dezembro de 1977 em Luanda, o MPLA
tornou-se um partido - o MPLA - Partido do Trabalho, de orientação
ideológica marxista-leninista. Em 1991, o MPLA renunciou essa linha ideológica, aceitou um sistema político
multi-partidário, e embarcou na via capitalista liderado por uma cleptocracia atroz.
De facto, após os acordos de Nova Iorque em 1988, o incipiente aparelho
de estado socialista em Angola foi em breve substituído por um regime pseudo-democrático
caracterizado pelo roubo indiscriminado de recursos naturais levado a
cabo pelo regime de cleptocracia do presidente Eduardo dos Santos e os
seus familiares e amigos mais chegados que durante as duas últimas gerações roubaram ao povo angolano a oportunidade
de progredir económica- e socialmente.
Sistemas Mistos
Eu
acredito que a solução não está na adopção de um sistema único
(capitalista ou socialista), mas sim num sistema de economia mista em
que a liberdade individual do cidadão é respeitada, a iniciativa privada
empresarial tem um papel a desempenhar, ao mesmo tempo que o Estado se
engaja a distribuir a oportunidade e riqueza numa forma equalitária.
6. Refugiados do Congo Belga em 1960
Já
em 1959 e 60, assisti à debandada dos colonos europeus do então Congo
Belga, onde viviam os nossos tios Agostinho e Mélita, e o meu primo Hugo
e a minha prima Luísa, com quem íamos passar férias de vez em quando à
vila de Moerbeck, onde viviam. Os refugiados do Congo Belga passavam diariamente em
longas filas de carros caros Mercedes abarrotados de bens pessoais pela
nossa pacata Vila da Damba em direcção a Luanda, e daí para a Europa.
Perguntei
à minha mãe o que é que estava a acontecer, e ela disse-me então que
eram refugiados do Congo Belga que temiam a independência da colónia do
Congo Belga marcada para 30 de Junho de 1960, e que era uma questão de
tempo até acontecer o mesmo aos portugueses em Angola.
Mapa do Antigo Congo Belga, 1955
Ainda no mesmo ano não fez sentido para mim a suspensão do Grande Rally Automóvel Leopoldville - Luanda - Matadi - Leopoldville,
o maior acontecimento do ano naquelas pacatas paragens, e muito menos
este êxodo de carros e famílias que dia-a-dia aumentava em volume e
intensidade. Este rally automóvel era famoso com prova de endurance pois a geografia era difícil e as estradas eram péssimas.
Momento de Partida do Rally Leopoldville - Luanda - Matadi - Leopoldville, 1959
Percurso do Rally Leopoldville - Luanda - Matadi - Leopoldville
O rally era organizado pelo Automóvel Clube de Leopoldville em Abril (ainda na época da chuva) todos os anos entre1955 e 1960. O percurso do rally começava em Leopoldville (actual Kinshasa), seguinto em direcção a sul para Thysville (actual Mbanza Ngungo) (154 km), Quipango (na fronteira entre o Congo e Angola - em Kimbata no lado de Angola) (150 km), Maquela do Zombo, Quibocolo, Damba (144 km), 31 de Janeiro, Bungo, Negage (158 km), Entre-Rios, Camabatela, Samba Caju, Lucala, Vila Salazar (Ndalatando) (248 km), rumando então para oeste com destino a Zenza do Itombe, Catete e Luanda (272 km). Daqui, seguia para nordeste em direcção nordeste para o interior - Caxito, Úcua (133 km), Quibaxe, Dembos, Vista Alegre, Aldeia Viçosa, Quitexe, Carmona (Uíge) (235 km), e então em direcção a oeste para o Songo, Toto (134 km), Quibala, Bessa Monteiro e Ambrizete (180 km), seguindo daqui em direcção norte para Tomboco, Lufico, e Noqui (264 km). Atravessava então a fronteira do Congo Belga em direcção a Matadi, e daqui de volta a Thysville (215 km), entrando aqui no lanço final até Leopoldville 154 km).
A distância total do percurso do rally era de 2.364 quilómetros a serem percorridos em pouco mais de uma semana. O troço Úcua - Uige - Songo - Nova Caipemba - Toto era o mais difícil pela geografia e condição da estrada.O mais inóspito era de Ambrizete a Matadi, e o mais longo e mais fácil era de Salazar a Luanda, já com algumas estradas asfaltadas.
Já na década de Setenta, este rally veio a ser substituído pelo Rally de Dakar na África Ocidental. No Congo Belga, havia outro rally muito famoso - o Rally do Lago Kivu, e em Angola, havia o Grande Rally de Angola.
A SABENA (Linhas Aéreas Belgas) tinha ligação regular entre Leopoldville (Kinshasa) e Luanda. Fotografia de um avião DC-3 Dakota no antigo aeródromo Emílio de Carvalho situado entre os bairros da Vila Alice e do Café (1953).
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