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é uma tarefa sem fim em vista, pois continuo a melhorar este blogue
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22. Estudos Gerais Universitários de Angola e Universidade de Luanda, minha "alma mater"
Os Centros de Estudos Universitários de Angola foram inicialmente criados no papel pelo Diploma Legislativo nº 3.325 de 21 de Abril de 1962 pelo então governador-geral General Venâncio Deslandes e pelo Conselho Legislativo da Província de Angola, em Luanda, medida que foi considerada imediatamente como inconsitucional pelo então Ministro do Ultramar Adriano Moreira e pela Junta de Educação Nacional, e consequentemente revogado por razões inconstitucionais (anulado) três meses depois pelo Decreto nº 44.472 de 23 de Julho de 1962 do governo português em Lisboa.
O mesmo Diploma Legislativo 3.325 previa que os Centros de Estudos Universitários haviam de trabalhar junto dos Institutos de Investigação de Angola então já existentes, a saber, (Instituto de Investigação Científica (IICA) em Luanda, Instituto de Investigação Veterinária (IIVA) em Nova Lisboa, Instituto de Investigação Agronómica (IIAA) em Nova Lisboa, Instituto de Investigação Médica (IIMA) em Luanda (então em formação), e Laboratório de Engenharia de Angola (LEA) em Luanda, e das seguintes novas instituições de investigação e aprendizagem: Centro de Estudos de Ciências Pedagógicas em Sá da Bandeira, e o proposto Centro de Estudos de Ciências Económicas a ser estabelecido em Luanda.
A anulação do diploma legislativo que criava os Centros de Estudos Universitários de Angola pelo governo central de Lisboa gerou acalorados protestos em toda a Angola, bem como o desafio directo do governador-geral de se demitir das suas funções. Estes protestos fizeram recuar o Ministro do Ultramar Adriano Moreira da sua oposição a esta iniciativa, e a 23 de Julho de 1962, o governo central de Lisboa (manifestamente contrariado) criava os Estudos Gerais Universitários nas províncias de Angola e Moçambique "integrados na Universidade Portuguesa".
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O Governador-geral de Angola General da Força Aérea Venâncio Augusto Deslandes (1909-1985), fundador dos Centros de Estudos Universitários de Angola, em Abril de 1962
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Eventualmente, as diferenças entre o General Venâncio Deslandes e o Ministro Adriano Moreira, levaram o governador-geral a ser exonerado pelo Ministro do Ultramar a 25 de Setembro de 1962, com grande consternação para a população portuguesa de Angola.
Entretanto, a semente tinha caído na terra e havia de germinar brevemente, e em poucos meses os Estudos Gerais Universitários de Angola (EGUA) começaram a funcionar em 1963, com a ajuda da Universidade de Lisboa e da Universidade de Coimbra.
Ainda em 1962 foi nomeado o primeiro reitor dos EGUA, Prof. Dr. André Francisco Navarro, do Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa, e também presidente da Junta Central da Legião Portuguesa. O Prof. André Navarro pediu a demissão por razões de saúde, sendo substituído pelo Prof. Dr. António Mendonça Monteiro, catedrático de Química da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Em 31 de Março de 1966 tomou posse o novo reitor Prof. Dr. Ivo Ferreira Soares, professor catedrático do Curso de Medicina Veterinária, que se manteve à frente da Universidade de Luanda até 1974.
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O Magnífico Reitor da Universidade de Luanda, Prof. Dr. Ivo Ferreira Soares (1917-2009)
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Em Agosto de 1963, os EGUA começaram a funcionar oferecendo os seguintes cursos a funcionar em Luanda: Curso Médico-Cirúrgico, Curso de Engenharia Civil, Curso de Engenharia de Minas, Curso de Engenharia Mecânica, Curso de Engenharia Electro-Técnica, e Curso de Engenharia Quimico-Industrial; o Curso Superior de Agronomia, o Curso Superior de Silvicultura, e o Curso de Medicina Veterinária a funcionar em Nova Lisboa; e o Curso de Ciências Pedagógicas a funcionar em Sá da Bandeira. O número total de alunos foi de 286.
A 23 de Dezembro de 1968, os Estudos Gerais Universitários de Angola (EGUA) passaram a designar-se Universidade de Luanda (UL).
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Os brazões dos antigos Estudos Gerais Universitários de Angola (com o lema original Universitas Lusitana Angolae Studium Generale - Spiritus et Mundus - e o lema da (então nova) Universidade de Luanda - Vniversitas Lvandensis - Spiritvs et Mvndvs), numa grafia mais vetusta que o substituiu. |
As licenciaturas em Biologia, Física, Química, Matemática, e Geologia começaram a funcionar no ano lectivo 1968/69, na recém-criada Faculdade de Ciências. Em 1971 foi criado o Laboratório Electrónico de Tratamento de Informação (LETI), sob a direcção do Prof. Dr. David Lopes Gagean. Em Julho de 1971 realizou-se o primeiro doutoramento (em engenharia de Minas) do engenheiro Carlos Dinis da Gama na Universidade de Luanda.
Embora os Estudos Gerais Universitários de Angola (e de Moçambique) tivessem
sido fundados em 1962, a Universidade de Luanda em 1969 oferecia cursos
em ciências, engenharia, medicina (em Luanda), agronomia e veterinária
(em Nova Lisboa), e letras, história, e geografia (em Sá da Bandeira), e era notória
a falta em Angola de uma faculdade de economia e uma de direito.
Os
alunos que quisessem prosseguir estudos nesses campos tinham de fazer um
exame especial de aptidão à universidade e depois seguir para a Metrópole
(Portugal - Lisboa, Coimbra ou Porto) a fim de prosseguir os seus
estudos nas universidades portuguesas.
23. Curso Superior de Economia
O
governo português era naturalmente adverso a esses desejos, e assim
resistiu durante sete mais anos em autorizar que esses cursos fossem leccionados
nas colónias. Contudo, em 1969, um grupo de alunos (que nós chamávamos Comissão Instaladora do Curso de Economia da Universidade de Luanda)
finalistas do Liceu Salvador Correia (do qual eu fazia parte), de
finalistas do Instituto Comercial de Luanda, e um número de alunos
militares, resolveu concentrar energias no sentido de persuadir o Governador Geral Coronel Rebocho Vaz e o Reitor da Universidade de Luanda Prof. Dr. Ivo Soares da necessidade premente de se criar imediatamente uma faculdade de economia na Universidade de Luanda.
Para nosso espanto, o nosso pedido foi ouvido, e em Agosto de 1970, o Curso Superior de Economia foi
finalmente estabelecido em Luanda (e em Lourenço Marques (Maputo),
Moçambique), e moldado segundo o modelo do Curso Superior de Economia da
Universidade do Porto.
Os alunos que seguiam o curso de economia vinham de
dois ramos principais: a) os que vinham do 7º ano do liceu alínea G (de
Luanda, Sá da Bandeira, Nova Lisboa e Benguela), e b) os que vinham do
instituto comercial (Luanda e Sá da Bandeira). Os que vinham do liceu
tinham em geral uma propensão mais para economia (geografia, filosofia, história,
matemática, OPAN e Inglês), ao passo que os que vinham dos institutos
comerciais tinham melhor preparação em contabilidade e gestão de
empresas.
Em
Julho de 1970 eu fiz o exame de aptidão à universidade do qual dispensei das
provas orais (só três alunos entre mais de cento e cinquenta fizeram
essa proeza), e em Outubro já assistia às primeiras aulas na recém
criada Faculdade de Economia, situada num prédio ao lado da Faculdade de Ciências arrendado à firma Mário
Cunha (que tinha extensas plantações de café na região do Seles , Cuanza-Sul), na sublime Avenida Marginal
(Avenida Paulo Dias de Novais, de nome oficial de então, e hoje 4 de
Fevereiro), junto à delegação da TAP (Transportes Aéreos Portugueses),
perto da Ermida da Nazaré.
Durante todo o primeiro ano eu aluguei um quarto no Bairro dos Ferreiras, na esquina da Rua General Alves Roçadas e a Rua Sousa Lara, perto da Farmácia Africana, na rua Serpa Pinto, já perto do Largo Serpa Pinto. O Bairro dos Ferreiras situava-se entre a Avenida do Hospital e a Rua Serpa Pinto, e oferecia uma característica única em Luanda - as ruas eram de pedra calcetada, e não de asfalto.Os donos da casa (um casal com uma filha de 16 anos) eram muito simpáticos e tomavam bem conta de mim, tudo fazendo para que não me faltasse nada. Contudo, já no fim do ano lectivo, eu sentia-me muito sózinho, pelo que optei em mudar-me para uma residência universitária.
O quarto em que morava no Bairro dos Ferreiras ainda era longe da Faculdade de Economia (que era na Avenida Marginal junto à Igreja da Nazaré), pelo que eu ia a pé ou de maximbombo (autocarro) até ao Largo da Mutamba e depois a pé até à Universidade, mas à noite (muito à noite, já de madrugada) eu vinha normalmente a pé todo o percurso ou apanhava boleia de carro com um colega.
Ainda no primeiro ano eu fiz um exame psico-técnico no gabinete de psicologia da Universidade de Luanda para saber qual era o meu quociente de inteligência e quais os campos de estudo e trabalho que mais propícios para eu seguir. Para meu espanto, os resultados dos testes vieram com um QI muito alto de 130 (acima de 98.5% das pessoas), e com a sugestão de que eu deveria seguir economia ou engenharia mecânica, pois ambos os campos faziam muito uso de capacidade que tinha para a resolução de problemas (problem-solving skills, especialmente lógica, números, e relações), rápida aprendizagem, e boa memória.
Talvez
pelo papel activo que tinha desenvolvido na fundação da Faculdade de
Economia, eu fui eleito delegado de curso (e re-eleito no segundo ano), o
que foi para mim um cargo de grande responsabilidade. Fiz assim o melhor
que pude em ouvir, compreender, representar, defender, e avançar os interesses
e aspirações dos alunos, e nesse processo tive o privilégio de trabalhar muito perto
com o Prof. Dr. Abílio Lima de Carvalho, fundador e director do Curso Superior de Economia, que a passos rápidos se ia construindo.
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O Prof. Dr. Padre Abílio Lima de Carvalho (S.J.) (1928-2006)
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O Prof. Lima de Carvalho,
padre jesuíta, falecido em 2006, era um homem justo, uma mente brilhante, um cientista
social de craveira internacional, e um organizador nato. Ele frequentou algumas das melhores escolas superiores de ciências sociais (como a Columbia University em Nova York) e tinha uma compreensão muito clara do desafio colonial português. Com ele
aprendi muito e com ele travámos juntos umas poucas batalhas com o Reitor Professor Ivo Soares e Vice-Reitor Professor Fernando Real
e a burocracia da Universidade das quais o resultado era normalmente
positivo para nós, e com ele aprendi melhor qual o papel que a
universidade cabia desenvolver na dinamização económica e social de
Angola.
O
Curso Superior de Economia oferecido na Universidade de Luanda era uma
licenciatura que focava em três ramos principais de disciplinas, a
saber: economia, gestão de empresas, e tópicos subsidiários. O ramo da
economia incluia o conjunto completo de tópicos (micro- e
macroeconomia). O ramo de gestão de empresas incluía contabilidade,
cálculo comercial, gestão, marketing, e outros tópicos relacionados com a
administração de empresas. O ramo dos tópicos subsidiários incluía
matemática (análise matemática, funções, algebra linear, cálculo
diferencial e integral, estatística, e econometria), ciências sociais
(sociologia, antropologia, demografia, e métodos de pesquisa), e direito
(teoria do direito, direito das obrigações, direito civil (e de
processo civil), teoria da fiscalidade e direito fiscal, e direito comercial).
O
curso tinha a duração de cinco anos, e as disciplinas eram anuais,
oferecidas em dois semestres (Setembro-Fevereiro e Fevereiro-Julho), com
mais cursos semestrais no quarto e quinto anos. De uma forma geral, os
cursos do primeiro ano eram uma introdução geral aos tópicos, os do
segundo e terceiro anos cobriam a análise detalhada dos conceitos e
teorias principais, e no quarto e quinto anos cobriam em detalhe os
tópicos mais avançados de gestão de empresas, política económica e planeamento (acção). Os
cursos de direito eram anuais nos primeiros dois anos, e depois
semestrais, quando estudávamos os diferentes códigos legais (civil,
processo civil, fiscal, comercial, e os diversos códigos de impostos angolanos).
O curso começou no primeiro ano em salas de aula emprestadas pela Faculdade de Ciências na esquina da Avenida Marginal e a Ermida da Nazaré. No segundo ano o Professor Lima de Carvalho conseguiu arrendar dois andares no prédio Mário Cunha, que se situava mesmo ao lado do prédio da Faculdade de Ciências para onde todas as aulas do Curso de Economia foram transferidas. A localização era excelente, pois ficava a dois passos do complexo que abrigava a biblioteca geral, a cantina/refeitório e o bar/sala de convívio, bem como a sede do CDUA (Centro Desportivo Universitário de Angola) e do CCUL(Círculo de Cinema Universitário de Luanda), todos localizados no prédio dos antigos armazéns da Mampeza, conhecida antiga firma comercial de exportação de café e importação de carros Mazda, e não muito longe do Centro Médico dos Estudantes da Universidade de Luanda, localizado no próximo quarteirão da Rua Direita de Luanda, e da Reitoria, Secretaria Geral, e Serviços Sociais, localizados no prédio do Hotel Presidente, localizado no Largo Diogo Cão, à entrada da Avenida Marginal.
Nas novas instalações, já tínhamos salas de aulas de muito boa qualidade, afectas a cada disciplina e cada professor tinha um pequeno espaço próprio, existindo ainda um secretaria da faculdade e uma biblioteca própria. A biblioteca começou a funcionar com algumas dezenas de livros, e rapidamente cresceu para alguns milhares. No terceiro ano, com uma nova leva grande de alunos, a Faculdade de Economia arrendou mais dois andares no prédio Mário Cunha, para acomodar o dobro do número de alunos e cadeiras.
É
de notar que a composição do corpo discente (alunos) da Faculdade de Economia
era um pouco diferente das outras faculdades, pois embora a maioria dos
alunos fossem jovens dos 18 aos 25 anos que atendiam às aulas full-time,
havia também um número muito grande de alunos já não tão jovens que eram
estudantes trabalhadores que já tinham familia ou que se encontravam a prestar serviço
militar. Este número elevado de alunos já não jovens era devido à
procura não satisfeita de o Curso Superior de Economia só ter sido
criado cerca de sete anos depois dos outros cursos oferecidos pela
Universidade de Luanda. Haviam também muitos alunos que estavam a cumprir serviço militar como oficiais milicianos em Angola, que não tinham completado os seus estudos nas universidades em Portugal, pois foram compelidos a servir serviço militar em Angola.
É
ainda importante lembrar que nós (alunos do Curso Superior de Economia)
tínhamos grandes dificuldades em obter os livros recomendados para a
maioria dos cursos, pois o mercado livreiro local não estava preparado
para servir as necessidades de uma nova faculdade em Luanda. As livrarias
Lello,
ABC,
Argente Santos, e o
Centro do Livro Brasileiro
em Luanda
eram os principais locais onde se
podia comprar alguns livros, mas por norma tínhamos de os mandar vir de
Portugal. É certo que tínhammos uma pequena biblioteca na Faculdade de
Economia que tinha alguns dos livros adoptados para alguns cursos, mas em
quantidade reduzida e nunca em quantidade suficiente para satisfazer a
procura.
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Edifício da antiga Livraria e Papelaria Lello, Luanda, 1960s
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A esta grave limitação tínhamos de
adicionar o factor custo, pois os livros de estudo eram normalmente muito caros, ao que ainda tínhamos de considerar o factor linguagem, pois para além de português, tínhamos de ler
(e
compreender) livros em inglês, espanhol e francês. Para colmatar estas
deficiências, a Biblioteca Geral da Universidade de
Luanda tinha um gabinete de reprodugrafia muito bom, onde eram policopiados os
capítulos mais importantes das obras mais carentes, que os alunos
podiam comprar a um preço mais acessível. Como exemplo, o livro principal
para o curso de Economia I, Lições de Economia, do Prof. Dr. Francisco Pereira de Moura só foi disponível no mercado local um ano depois de termos concluído a cadeira. Por essa razão tive de usar este livro emprestado pela minha prima Manuela Rodrigues Graça, que entretanto tinha completado o curso de assistente social no Instituto de Educação e Serviço Social Pio XII.
24. Programa do Curso Superior de Economia, Disciplinas, Livros, Autores, e Professores
O ramo de análise económica começava com um curso de introdução à economia - Economia I - (baseado nas lições do livro do Prof. Francisco Pereira de Moura (do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, da Universidade Nova de Lisboa), Lições de Economia, e no livro clássico Economia, do Prof. Paul Samuelson,
professor do MIT (Massachusetts Institute of Technology) e prémio Nobel
de Economia, que era nessa altura o melhor livro de introdução à
economia, lecionado pelo Dr. Mário Vicente Arraia, que era então chefe do Gabinete de Estudos Económicos do Banco Comercial de Angola.
O Prof. Dr. Francisco Pereira de Moura, professor catedrático do antigo ISCEF (Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras) da Universidade de Lisboa, foi um economista português que além dos livros aqui indicados também escreveu "Problemas Fundamentais da Economia" e "Para Onde Vai a Economia Portuguesa?". Juntamente com Vitorino Magalhães Godinho, Armando Castro, e Alfredo de Sousa, ele foi um dos economistas mais destacados da sua época em Portugal.
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O grande economista português, Prof. Dr. Francisco Pereira de Moura (1925-98). |
No segundo ano, o foco da cadeira de Economia II era macroeconomia e análise do rendimento nacional, baseado no livro do Prof. Francisco Pereira de Moura, Análise Económica da Conjuntura, e do livro do Prof. Jan Pen (Universidades de Groninger e Livre de Bruxelas), Moderna Teoria Económica (uma excelente introdução à económica keynesiana), e do livro clássico do Prof. Gardner Ackley, da Universidade de Michigan, Teoria Macroeconómica. Em termos de economia internacional, nós seguimos o livro clássico Economia Internacional do Prof. Charles Kindleberger (do MIT). No tópico de teoria e política monetária, seguimos o texto Moneda Y Credito do Prof. James Duesenberry, da Universidade de Harvard. A cadeira de Economia II foi lecionada pelo Dr. João Manuel Serrão, então director da Inspecção Geral de Créditos e Seguros.
No terceiro ano, o foco de Economia III era na teoria e processo de desenvolvimento económico, lecionado outra vez pelo Dr. Vicente Arraia, recorrendo a um maior número de obras fundamentais, das quais destaco os livros do Prof. Celso Furtado (economista brasileiro de renome internacional, um dos meus heróis), "Teoria e Política do Desenvolvimento Económico" e "Formação Económica do Brasil", do Padre J. M. Albertini, "Les Mécanismes du Sous-Dévelopment", dos profs. Gerald Meier e Robert Baldwin, "Desenvolvimento Económico, Teoria, História, e Política", a obra clássica do Prof. Arthur Lewis (prémio Nobel da Economia), "A Teoria do Desenvolvimento Económico", a obra do Prof. W. Rostow, "Etapas do Desenvolvimento Económico", as obras do Prof. François Perroux "Economia e Sociedade em África" e "A Economia das Nações Jovens", a obra do Prof. Everett Hagen, "Economia do Desenvolvimento", a obra do Prof. Simon Kuznets (mais tarde prémio Nobel da Economia), "Aspectos Quantitativos do Desenvolvimento Económico", e as obras fundamentais do Prof. Joseph Schumpeter "História da Análise Económica", e "Teoria do Desenvolvimento Económico", de quem não esqueço o conceito original de creatividade destrutiva.
Embora escassamente referido nas aulas (efeito demonstração em economia) e na bibliografia sobre a teoria económica, eu encontrei a obra de Thornstein Veblen "A Teoria da Classe do Lazer" que muito me impressionou pela sua originalidade e discernimento, e me abriu a mente a um campo mais vasto da ciência económica e a uma relação mais chegada à psicologia e sociologia.
A juntar a todos estes livros, nós prestámos muita atenção às teorias e
políticas de desenvolvimento económico no resto de África, e na
América Latina de cariz marxista e não-marxista (estruturalista e institucionalista), com
especial atenção dada à teoria de dependência e conceitos de centro e periferia, e estratégias de industrialização, substituição de importações, e intervenção estatal formuladas na década de
cinquenta na América Latina pela CEPAL (Comissão Económica para a America Latina) através dos seus arautos Raul Prebisch e Celso
Furtado, e mais tarde por outros estudiosos como Rui Mauro Marini, Caio Prado Junior, Joan Robinson, Frantz Fanon, Andre Gunder Frank, Samir
Amin, Paul Sweezy, Paul Baran, Maurice Dobbs, Charles Bettelheim,
Arghiri Emamanuel, Walter Rodney, Christian Palloix, e Emmanuel Wallerstein.
O livro de Celso Furtado "Formação Económica do Brasil" foi fundamental para nós em ajudar-nos a analizar os factores históricos de subdesenvolvimento de Angola numa perspectiva histórica e estruturalista e a compreender que o subdesenvolvimento do Terceiro Mundo (a periferia) é uma condição necessária para o desenvolvimento avançado dos países da Europa e da América (o centro).
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O
grande economista brasileiro Prof. Dr. Celso Furtado (1920-2004), que pugnou pela
intervenção estatal na economia, pela substituição das importações, e
pela industrialização acelerada das economias subdesenvolvidas
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Da mesma forma, o livro do Padre J.M. Albertini "Les Mechanismes du Sous-Dévelopment" ajudou-nos a comprender melhor a economia dualista de Angola através de três vertentes distintas: a histórica, a estatística, e a estrutural.
Um outro livro, "Épocas de Portugal Económico" de João Lúcio de Azevedo captou-me muito a atenção em demonstrar a importância dos impérios ultramarinos, especialmente as colónias de Angola e Brasil, na formação económica de Portugal e da Europa. João Lúcio de Azevedo nasceu em Sintra, Portugal, em 1855, de origem açoreana, tendo emigrado em 1873 com apenas dezóito anos para o Brasil (Belém do Pará), imediatamente após ter concluído os seus estudos no Instituto Industrial e Comercial de Lisboa em 1872. Ele naturalizou-se cidadão brasileiro em 1885. Em 1900, ele regressou a Portugal, depois de ter visitado os Estados Unidos em 1896. Mais tarde ele visitou a França, a Suiça, e a Alemanha. Ele era fluente em português, espanhol, francês, e inglês, e traduziu várias obras em holandês.
Apesar de ter concluído o curso comercial e ele próprio ser um empresário de sucesso com uma livraria, uma empresa de borracha, e uma empresa de navegação de cabotagem, o seu legado foi como historiador que se formou a si próprio, tendo-se especializado em história económica (Séculos XVII, XVIII, e XIX, especialmente nas épocas do Padre António Vieira e do Marquês de Pombal, da acção dos os Jesuítas no Brasil, e da colonização portuguesa na América), que ganhou o respeito e a admiração de todos.
Para além de "Épocas de Portugal Económico", João Lúcio de Azevedo escreveu outras obras notáveis, em que se ressaltam "História de António Vieira", "História dos Cristãos-Novos em Portugal", "O Marquês de Pombal e a sua Época", e a "Evolução do Sebastianismo". João Lúcio de Azevedo é considerado por muitos como um pioneiro e um dos estudiosos mais importantes da história económica portuguesa. Ele foi sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia de Ciências de Lisboa, tendo falecido em 1933.
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João Lúcio de Azevedo (1855-1933), pioneiro de estudos em História Económica de Portugal |
Ainda no terceiro ano tínhamos a cadeira de Finanças Públicas lecionada pelo Dr. Alberto Ramalheira, director do Instituto de Crédito de Angola. Os livros para este curso eram Public Finance in Theory and Practice, dos profs. Richard Musgrave (da Universidade de Harvard) e sua esposa prof. Peggy Musgrave (da Universidade da Califórnia - Santa Cruz), e Governmet Finance - Economics of the Public Sector, do Prof. John F. Due (da Universidade de Illinois) e Prof. Ann Friedlander
(do MIT - Massachsetts Institute of Technology).
O Dr. Alberto Ramalheira era
uma pessoa extraordinária pois tinha o dom de poder
transmitir ideias e conceitos difíceis numa forma fácil e de atraír (e
manter) o interesse do estudante ao tópico em causa, e encorajar o estudante a aprender mais. Eu gostei muito
deste curso. O Dr. Alberto Ramalheira era então um dos quadros superiores do recém-criado Instituto de Crédito de Angola. Nos anos seguintes, a cadeira de Finanças Públicas foi lecionada pelo Dr. António Teixeira (Teixeirinha), que também grangeou o interesse e aplauso dos alunos.
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O grande economista argentino Raúl Prebisch (1901-1986), líder da CEPAL e secretário-geral da UNCTAD, e impulsionador da teoria da dependência e do pensamento económico estruturalista.
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No quarto ano o foco de Economia IV (Política Económica) era o estudo do subdesenvolvimento económico, baseado na obra fundamental dos profs. A. N. Agarwala e S. P. Singh, "A Economia do Subdesenvolvimento".
Este foi um curso mais aplicado às realidades concretas do subdesenvolvimento, se bem que tivessemos coberto os
contextos históricos e teóricos do subdesenvolvimento, economias
externas e desenvolvimento equilibrado, e em especial os diversos
modelos de desenvolvimento económico. Este curso foi também lecionado
pelo Dr. Mário Vicente Arraia, e foi sem duvida para mim uma das cadeiras (disciplina) que mais gostei de todo o curso.
No quinto ano, o foco foi em planeamento e desenvolvimento económico, lecionado pelo Dr. Manuel Serrão e pelo Dr. Zenha Rela, falecido recentemente.
O Dr. Zenha Rela, trabalhava na direcção provincial dos Serviços de Planeamento
e Integração Económica, e lecionava no Instituto de Educação e Serviço Social Pio XII (para a formação de
assistentes sociais). Apesar de não ser economista por formação, o Dr. Zenha Rela era
talvez a pessoa que melhor conhecia a economia angolana, e foi um
privilégio para mim ser seu aluno. Este foi o único curso que tivémos
especificamente sobre a economia angolana.
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O grande economista Arthur Lewis (1915-91) e professor da London School of Economics, galardoado com o prémio Nobel da Economia em 1979, pelos trilhos que abriu na teoria do desenvolvimento económico dos países subdesenvolvidos (tese da oferta ilimitada de mão-de-obra)
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As obras principais incluiam o livro do Prof. Arthur Lewis (da Universidade de Princeton, e prémio Nobel da Economia), "Política Económica - A Programação do Desenvolvimento", e a obra do Prof. Louis Walinsky, "Planejamento e Execução do Desenvolvimento Económico", e a obra do Dr. Walter Marques,"Problemas do Desenvolvimento Económico de Angola" publicada em dois volumes em 1964, e mais tarde foi Secretário Provincial do Planeamento. Este curso focou também nos documentos e stratégias principais do III e
IV planos de fomento de Angola. Ao nível da economia regional, o Plano Calabube (sobre o distrito de Cabinda) foi analizado em detalhe.
O
ramo de gestão de empresas começava com dois cursos semestrais de
introdução à prática comercial (cálculo comercial e fundamentos de
contabilidade), chamados Propedêutica Comercial I e II, seguidos de um
curso anual em contabilidade geral no segundo ano, e de um curso sobre contabilidade
analítica (de custos) no terceiro ano, por sua vez seguidos de cursos
semestrais específicos à administração de empresas, como marketing,
gestão de pessoal, gestão financeira, investimentos e análise financeira
de projectos. O Dr. Francisco Manuel Reis, director do Banco de Fomento
Nacional, foi quem lecionou a maioria dos cursos de contabilidade,
sendo os outros cursos lecionados por licenciados com experiência na
matéria em estudo normalmente recrutados nas maiores empresas locais. O curso de economia de empresa foi dirigido pelo Dr. Henrique Constantino, e o curso de Economia de Empresa foi lecionado pelo Dr. Victor Correia. Um curso adicional sobre Política Económica foi dirigido pelo então jovem Dr. Jorge Braga de Macedo, então oficial miliciano em Luanda, uma mente brilhante que trouxe à Faculdade de Economia uma perspectiva muito mais aberta sobre os diversas opções políticas e sociais de desenvolvimento económico.
Os ramos subsidiários (disciplinas em matemática,
ciências sociais e direito), incluíam principalmente conceitos
fundamentais no primeiro e segundo anos, pois estes eram necessários
para uma compreensão mais completa dos ramos de economia e gestão de
empresas, e tópicos mais específicos. À medida que os estudos avançavam,
tínhamos alguns cursos em profundidade nos anos mais avançados, como
era o caso em direito, onde tínhamos um conjunto de cursos que visava o
estudo individual de vários códigos legais (código do processo civil, direito comercial,e direito fiscal), e em matemática, onde
tínhamos uma cadeira de estatística no terceiro ano e outra de Econometria no quarto ano.
Assim, o curso de introdução às ciências socias era somente oferecido no primeiro ano, sendo lecionado pelo Prof. Dr. Lima de Carvalho,
que trouxe à universidade de Luanda o melhor em conhecimento em
ciências sociais ensinado nas melhores universidades. Este curso não
tinha um livro específico pois assentava em fotocópias de capítulos
essenciais de um grande número de obras fundamentais (em várias línguas)
dos melhores professores e pensadores, incluindo Émile Durkheim, Franz Boas, Max Weber, Marcel
Mauss, Bronislaw Malinowski,
Alfred Radcliffe-Brown, Karl Mannheim, Talcott Parsons, C. Right Mills, Florestan Fernandes, Misha
Titiev, Pitirim Sorokin, Melville Herskovits, Claude Lévi-Strauss, A. Sedas Nunes, Maurice Godelier, e Marshall Sahlins. Apesar de só termos tido um curso só sobre ciências sociais (e a nível muito introdutório), o curso cobriu os fundamentos de sociologia, antropologia, psicologia social, e pesquisa social, que no meu caso pessoal me levou a abraçar o interesse pela antropologia cultural.
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O grande sociólogo brasileiro Florestan Fernandes (1920-95), da Universidade de S\ao Paulo |
Tornou-se evidente muito cedo que apenas um curso introdutório às ciências sociais no curriculum do Curso Superior de Economia não era suficiente para os alunos terem uma compreensão completa da realidade social e económica de Angola, e que cursos em sociologia e antrpologia eram necessários no curriculum do curso. Esta falta foi colmata pelo Prof. Dr. Lima de Carvalho que trouxe à Faculdade de Economia especialistas de renome como o Dr. José Redinha, o Dr. Mesquitela Lima, o Dr. Ramiro Ladeiro Monteiro, o Dr. Zenha Rela, o Dr. Carlos Ervedosa, o Prof. Dr. Henrique de Barros, e o Prof. Dr. Alfredo de Sousa,
que compartilharam o seu saber connosco em forma de cursos breves de dois a
três dias nos tópicos da sua especialidade. De grande utilidade foi
ainda um curso lecionado pelo Prof. Dr. Enes sobre Metodologia de Pesquisa e como Preparar e Apresentar uma Monografia, que foi de grande utilidade para todos nós.
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O grande estudioso dos povos e culturas de Angola, em especial da Lunda, etnógrafo Dr. José Redinha (1905-1983)
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No
ramo de matemática, o programa começava com um curso em análise
numérica (funções, séries, e algebra linear) no primeiro ano, seguido de
um curso sobre cálculo diferencial e integral no segundo ano, ambos lecionados pelo Dr. Gerberto Dias, após o
qual tínhamos um curso em estatística, e no quarto ano tinhamos outro em
econometria. No segundo ano tinhamos um curso prático de programação de
computadores (linguagens COBOL e FORTRAN). Este curso era oferecido
pela Faculdade de Ciências, e nós tínhamos accesso ao laboratório do
computador a certas horas do dia (e da noite), onde preparávamos os
cartões perfurados com as instruções para o computador IBM UNIVAC
processar. No terceiro ano tínhamos um curso anual de Estatística que foi dirigido pelo Prof. Manuel Murta. A cadeira de Econometria no quinto ano foi lecionada pelo Prof. José Marques Henriques.
Eu
reparei que no campo da matemática, nós tivemos bons professores que
eram formados em matemática mas com pouco conhecimento e experiência em
economia, o que criava um certo desfazamento entre o que tínhamos
realmente de saber em economia matemática e o que o professor em
matemática achava que tínhamos de aprender. Para acentuar mais este
desfazamento, as matérias explicadas não eram apresentadas num contexto
de economia ou da empresa (sem exemplos concretos relacionas com economia, ou
finanças), como foi o caso específico do curso de estatística lecionada pelo Prof. Manuel Murta, (talvez a
disciplina mais difícil do curso), que foi organizado e explicado num
formato estrito de matemática teórica clássica, cheio de teoremas exotéricos e
complicados, mas pouco relacionados com estatística aplicada à economia, pesquisa social, demografia, contabilidade, ou gestão de empresas.
No ramo de direito, o programa começava com um curso geral de introdução ao direito e às leis, lecionado pelo Prof. Dr. Augusto Penha Gonçalves,
juiz desembargador do Tribunal da Relação de Luanda, seguido de um
curso sobre Contratos e Direito das Obrigações (no segundo ano), seguido por sua vez
por um curso sobre o Código Civil e outro sobre o Código do Process Civil,
todos lecionados pelo Prof. Dr. Penha Gonçalves. No terceiro e quarto anos, os tópicos de direito incidiam sobre direito comercial, lecionado pelo Dr. Gândara de Oliveira, e direito
fiscal, com particular atenção nos diferentes códigos de imposto em
vigor em Angola nesse tempo. A maior parte deste cursos foram lecionados
pelo Dr. Fernando Mendes, do Instituto de Crédito de Angola.
Eu gostei mais das disciplinas de economia do que das
disciplinas de administração e gestão de empresas. De facto, os cursos
de economia incorporavam os conhecimentos mais avançados da época dos
pensadores mais conceituados no mundo de então, ao passo que em termos das
cadeiras do ramo de gestão de empresas, passados muitos anos e tendo em
conta o que aqui estudei e aprendi no Canadá, eu sou forçado a concluir
que o ramo de gestão de empresas era muito leve e fraco, pois confesso
que aprendi muito mais no primeiro dos cinco anos de aprendizagem no
Canadá do que aprendi em todos os cinco anos na Universidade de Luanda.
A estrutura do Curso Superior de Economia era rígida, pois obrigava todos os alunos a completar uma série de disciplinas prescritas no plano do curso, e não dava a oportunidade aos alunos de escolherem cursos electivos mais em sintonia com o plano de estudos de cada um.
É
de notar que o programa do curso não cobria a totalidade dos tópicos para uma formação sólida e integral em economia ou gestão de empresas em cinco anos, pois faltava no programa do curso de economia, um curso
sobre história económica, um curso sobre a história do pensamento económico, um curso sobre economia regional e
sectorial, um curso sobre recursos naturais e economia do ambiente, um curso sobre gestão financeira da empresa, um curso sobre métodos quantitativos no contexto de tomada de decisões, um curso
sobre comportamento organizacional, e um curso sobre gestão de recursos humanos. Talvez tivéssemos que adicionar um ano para cobrir todos estes tópicos, o que não era possível, já que tínhamos que seguir o programa do Curso Superior de Economia da Universidade do Porto.
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O Padre Carlos Estermann, da Congregação dos Espírito Santo, (1896-1976), foi o grande etnógrafo dos povos do sudoeste de Angola
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Em Maio de 1972, a Faculdade de Economia ofereceu aos seus estudantes e ao público em geral os primeiros colóquios sobre temas sociais, dirigido pelo Dr. José Redinha, notável etnografo angolano de renome internacional, sobre o tema "Introdução ao Estudo das Sociedades Tradicionais de Angola". No mês seguinte, Junho de 1972, fizémos a primeira visita de estudo à Missão de Extensão Rural no Andulo e Bailundo (no Bié, coração de Angola), que era dirigida pelo Engenheiro Herman Possinger. A Missão de Extensão Rural de Angola representava na altura a tentativa mais sistematizada sobre o trabalho de mobilização social das populações rurais no continente africano. Ainda no mesmo ano, 1972, o Prof. Franz-Wilhelm Heimer, da Universidade de Friburgo, Alemanha, dirigiu um curso breve sobre "Teoria e Métodos de Investigação Social".
Em 1973 realizámos outra visita de estudo, viajando num avião NordAtlas (Barriga de Ginguba) da Força Aérea Portuguesa, desta vez à capital do distrito do Uíge, principal região produtora de café em Angola. Além da visita a uma roça de café da firma RIMAGA, esta visita de estudo incluiu também uma breve visita à grande fazenda de criação de gado bovino dos Irmãos Costa, na vila do Bungo, não muito longe da Vila da Damba, onde passei a minha meninice. A fazenda de criação de gado dos Irmãos Costa do Bungo era uma das maiores empresas de criação de gado em Angola desse tempo, possivelmente só ultrapassada pela Diamang (Companhia dos Diamantes de Angola) na Lunda.
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O meu amigo e colega António Carranca e eu, na antiga estátua de Silva Porto, na antiga cidade de Silva Porto, Bié (Kuito), em 1973. |
Integrado no âmbito do programa de Economia III (Teoria e Política do Desenvolvimento Económico), o Prof. Lima de Carvalho convidou o Prof. Alfredo de Sousa, Professor catedrático da Universidade Técnica de Lisboa para dar um breve círculo de lições sobre "Economia e Sociedade em África". O Prof. Alfredo de Sousa foi um economista português de renome internacional, lembrado por muitos pela sua acção no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e Empresa, e também profundo conhecedor da realidade económica e social africana. Infelizmente, o Prof. Alfredo de Sousa faleceu precocemente, atropelado numa rua em Lisboa, quando ainda tinha muito mais para partilhar o seu conhecimento.
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O Prof.
Dr. Augusto Mesquitela Lima (1929-2007), natural de Cabo Verde,
etnólogo e grande impulsionador da pesquisa antropológica em Angola. |
Ainda em 1973, a Faculdade de Economia ofereceu mais três colóquios/seminários. Desta vez, coube ao Dr. Mesquitela Lima, antropólogo de craveira internacional muito conhecedor das culturas tradicionais de Angola, a responsabilidade de desenvolver e ministrar um curso especial sobre "Angola: Tradição e Modernismo". O Dr. Mesquitela Lima ajudou-nos a compreender a diferença entre a descrição etnográfica e a investigação antropológica, pois ele foi o primeiro em Angola a subir esse plano (da descrição para a análise científica).
Em Junho do mesmo ano, o Dr. Ramiro Ladeiro Monteiro liderou um seminário internacionalmente aplaudido sobre "Os Muceques de Luanda - Alguns Aspectos Socioeconómicos" e meses mais tarde, já no ano lectivo seguinte, o Prof. Henrique de Barros, professor catedrático do Instituto Superior de Economia, em Portugal, ministrou um curso breve sobre "Os Grandes Sistemas de Economia Agrícola" destinada aos alunos do Curso Superior de Economia e nos mesmos moldes (embora mais breve), aos alunos do Curso Superior de Agronomia e Silvicultura, algumas semanas antes em Nova Lisboa. Todos estes cursos/seminários/colóquios eram de três ou quatro dias de duração foram muito concorridos, tendo sido abertos ao público em geral, embora mais orientado aos alunos do Curso Superior de Economia.
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EAMA - Escola de Aplicação Militar de Angola, em Nova Lisboa, onde fiz a recruta do Curso de Oficiais Milicianos (COM) do Exército Português, de Junho a Setembro de 1974. |
Em
Março de 1974, os alunos do 4º ano fizeram uma visita ao Brasil e à
Argentina, passando pela África do Sul, pois nessa altura não haviam
vôos directos entre Angola e a América do Sul. Eu não pude ir, pois entretanto o meu Pai faleceu em Cabinda a 23 de Maio, e em
fins de Junho eu tinha de começar a recruta de oficial miliciano do Exército Português na Escola de
Aplicação Militar em Nova Lisboa (EAMA). Esta viagem de curso foi memorável
pois permitiu aos alunos verem (e sentirem) em primeira mão outros
modelos de desenvolvimento económico e social de países mais avançados, mas ainda não completamente desenvolvidos. A
viagem demorou cerca de três semanas, e os alunos estavam de volta a
Luanda poucos dias antes da eclosão do golpe de 25 de Abril.
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Marisco (o delicioso caranguejo de Moçâmedes /sapateira), cerveja, e Coca-Cola - Esplanada Amazonas, na antiga Avenida dos Restauradores de Angola, Luanda, Abril de 1973 da esquerda para a direita: Ita Delgado, Toninho Delgado, Ema Fernandes, Gutó Monteiro, Eu (Helder Ponte), Estela Monteiro, Rui Altão, e Gracinha Coelho. |
25. Residência Universitária Nº 2 (Rua José Oliveira Barbosa)
No Segundo ano (1971) mudei de alojamento, do quarto que arrendava na Rua Alves Roçadas (perto da Faarmácia Africana, na Rua Serpa Pinto) para a Residência Universitária nº 2, situada na Rua José Oliveira Barbosa, perto da Zona Verde entre o Bairro da Maianga e o Bairro de Alvalade. Deixei assim o ambiente um tanto solitário em que vivia e vim juntar-me a um grupo diverso de colegas e amigos muito activo. Na residência universitária tinhamos quarto compartilhado com outro estudante, roupa lavada, e pequeno almoço, para o que pagávamos uma mensalidade de $800.00. A residência era gerida pela governanta Dona Conceição Madruga, que era natiural dos Açores, e de quem guardo as mais gratas recordações.
Nós tomávamos o almoço e o jantar na cantina da Universidade (na rua Direita de Luanda, perto do edifício da Faculdade de Ciências, junto à ermida da Nazaré), pelo o que pagávamos $10 escudos por refeição (de $6 escudos quando entrei em 1970). A qualidade da comida na cantina não era má (sopa, escolha de prato do dia, pão, e fruta ou doce), mas também não era o que mais desejássemos na vida.
Apesar da heterogeneidade do grupo dos residentes (ou talvez por isso mesmo), nós dávamos-nos todos muito bem, criando um espírito muito solidário de répública estudantina, em que se pode dizer que o termo "um por todos, todos por um" se aplicava por completo. Os colegas da residência incluiam o Beça Peixoto da Gabela, que estudava medicina, com quem eu partilhava o quarto, o Toninho Delgado do Lobito, de engenharia de minas; e o Víctor Valente do Dundo, de engenharia mecânica; o Vasco Afonso (Vascão) do Lobito, e o Óscar (Ligório da Piedade Alavares Furtado), de Benguela, que estudavam engenharia Civil; e o China,(Fernando Manuel Duarte Vieira) da Vila Nova (Huambo), de engenharia de minas; o Bolacha (Mário Jorge Agualusa Pires) de Nova Lisboa, que estudava engenharia civil; o António Castro e Silva (Xibias) de Nova Sintra (Bié), que estudava engenharia de minas; e os seguintes alunos que estudavam medicina: o Peter (José Eduardo Lucas Pedro), da Chipeta (Bié), o Jorge Pestana, de Catete, o Carlos Guerra (Guerrita) de Cabinda, e o Aires do Espírito Santo de Malange, que estudavam Medicina. E por último o José Páscoa, também do Dundo, que estudava engenharia civil. Eu era o único aluno de economia na residência, e era também o único que tinha uma estante de livros razoável, para além dos livros normais de studo.
Cabe aqui referir que nós privávamos muito com alunas universitárias, pois haviam duas residências universitárias femininas não muito longe da nossa. Ao princípio do mês quando ainda tínhamos algum dinheiro, nós íamos com elas a restaurantes para comer sapateiras/caranguejo de Moçâmedes, à praia, e rallies e gincanas de carro, desporto, etc.) mas também estudávamos muito. Apesar de não me conseguir lembrar dos seus nomes, não esqueço aqui a morte trágica de duas irmãs nossas amigas de Salazar (Ndalatando), que morreram num acidente de carro conduzido pelo seu irmão.
De todos os colegas salientava-se o Xíbias (de Nova Sintra/Catabola, Bié), que foi talvez a pessoa mais inteligente que conheci na minha vida, pois enquanto que para os outros tinham de estudar um tópico durante cinco ou seis horas, o Xíbias só tinha que rever a matéria em menos de 15 muinutos, e reter tudo o que aprendeu, não só para um exame, mas para o resto do tempo. Ele tinha também uma capacidade invulgar de explicar conceitos e processos complicados numa forma clara, fácil e acessível. Depois de uma vida um tanto atribulada, pois ele sofreu um bocado nas prisões do MPLA em Angola, ele veio a ser, como todo o mundo esperava, um notável como engenheiro de petróleos e professor universitário, o Xíbias foi ministro da Economia e do Mar, do governo socialista de António Costa (2022-24), em Portugal.
26. Vida Académica
No
Terceiro Ano deixei de ser delegado de curso e dediquei-me a fundo à
obra de expandir os serviços de alojamento da Universidade, que em três
anos do meu trabalho árduo (e de mais alguns) cresceu em termos de
lugares em residências universitárias de seis alunos inicialmente para
mais de duzentos três anos mais tarde, o que ainda era ainda um número
muito aquém das necessidades dos alunos que vinham do interior para
Luanda seguir os seus estudos.
Assim, mudei para a Residência Universitária nº 4 (RU4), na Rua Coronel Artur de Paiva, à entrada do Bairro do Maculusso, com a capacidade para 42 alunos. As instalações desta nova residência universitária eram muito melhores do que s as anteriores, pois o prédio tinha sido inicialmente planeado para uma residência para professores visitentes e temporários. A RU4 era gerida (com grande eficácia) pela Dona Ermelinda Ferreira, que para o efeito tinha sido transferida da RU1, no Bairro de Alvalade.
Ainda durante esses três anos, e talvez
porque era estudante de Economia, fui eleito Presidente do Conselho
Fiscal do nosso saudoso CDUA (Centro Desportivo Universitário de Angola).
Eu frequentava muito o Círculo Universitário de Cinema que funcionava
no primeiro andar do prédio da cantina (refeitório) da Universidade.
Havia nesse segundo andar uma varanda muito ampla e comprida que era o
nosso lugar predilecto para discutirmos política e onde resolvíamos os
problemas mundiais mais graves e prementes, ao mesmo tempo que jogávamos uma partida de ping-pong.
A biblioteca e o centro de
reprodução bibliográfica estavam também nesse prédio (o antigo prédio da
Mampeza) , mas e situavam-se no lado do patio oposto ao centro de convívio/bar. Havia
ainda o Orfeão Universitário de Luanda (OUL) que oferecia saraus culturais e
de música coral de grande qualidade, e a Secção de Intercâmbio e Turismo
Universitário de Angola (SITUA), que embora muito activo em viagens de
fim de curso, era menos conhecida.
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Residência Universitária Nº 4, que nós fundámos na esquina da antiga Avenida Coronel Artur de Paiva e Rua Tavares de Carvalho, entre o bairro do Café e a Vila Clotilde em Luanda em 1973. |
Ainda nesse ano completei o meu primeiro estudo sobre a Indústria Extractiva em Angola, que ganhou o primeiro lugar do prémio institucionado pela Direcção dos Serviços de Economia e destinado aos alunos da Faculdade de Economia da Universidade de Luanda. Este estudo abriu-me os olhos ao peso da Diamang
em Angola, que de facto era um estado dentro do estado. Lembro-me que o
prémio de vinte contos ($20.000 escudos) dos Serviços de Economia era
relativamente grande (para mim, pelo menos como estudante), o que me
levou a comprar uma calculadora científica com um display de 12 dígitos,
que me custou bom dinheiro.
No segundo ano fui escolhido para colaborar
na prestigiosa revista de actividade económica "Prisma" como assistente de pesquisa. Ainda
no segundo ano fizemos um projecto de grupo (eu, o João Freitas Basílio, o
António Carranca, o Manuel Ribeiro, o José Agostinho Neves, e a Manuela Moura) sobre a População de Angola (entre 1930 e 1970) que despertou em mim a importância (e o interesse) pela demografia e por métodos numéricos e estatística.
Infelizmente, não havia publicados a tabulação do recenseamento da população de Angola em 1930 e os dados do Censo de 1970 também nunca foram publicados pelos Serviços de Estatística, o que tornou a nossa tarefa um pouco mais difícil de realizar, pois não pudémos comparar um número grande de variáveis, especialmente as de maior detalhe, do início ao fim do período de estudo (1930 - 1970). Para complicar mais ainda este estudo, os dados preliminares do censo de 1970 não tinham informações quanto a origem étnica, o que tornava impossível comparar os níveis de bem-estar (ou melhor dizendo, de mal-estar) entre as populações branca, mestiça, e preta.
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Eu, o Pensador, num picnic na Barra do Dande, com a Isabel Andrade sorridente a "pôr-me os palitos" (1973) |
27. Alargar os Horizontes
Já
desde os tempos de liceu que eu sentia um interesse especial pela
cultura angolana, contudo na Universidade este interesse tornou-se muito maior. É certo que a maioria dos textos estavam proibidos pela censura, mas o certo é que através dos subterrâneos da Liberdade da UL nós tínhamos sempre acesso sem qualquer probema a qualquer obra que quizéssemos ler, pois havia sempre um colega ou amigo que tinha o livro que queríamos ler.
Eu fui um grande subscritor (a
nível pessoal) do movimento "Vamos Descobrir Angola" iniciado pela geração de Viriato Cruz e segui de perto o movimento literário da "Mensagem - A Voz dos Naturais de Angola". Assim, em termos de literatura eu era um ávido leitor dos textos de cariz nacionalista, como Alberto de Lemos, de Luandino Vieira (Luuanda, e Vida Verdadeira de Domingos Xavier), e das crónicas de Ernesto Lara Filho (o Seripipi Angolano) no jornal ABC.
Em termos de poesia, eu li quase tudo o que havia à disposição. Adorei ler a poesia de Tomás Vieira da Cruz (1900-1960) que não estava proibida pela censura, especialmenteos seus poemas "Romagem a Quicombo", "O Colono", "Quissange - Saudade Negra". De Maurício Gomes (1920-2012) não esqueço o poema "Estrela Pequenina"; De Alda Lara (1930-1962) lembro para sempre os poemas "Prelúdio" , "Presença Africana" e "Regresso". De Geraldo Bessa Victor (1917-1985) os poemas "Kalundu" e "O Menino Negro Não Entrou na Roda". De António Ervedosa Abreu (1927-2017) lembro o "Poema da Hora da Partida". Do Dr. Cochat Osório (1917-2002) de Luanda lembro o poema "Dominga"; De Ermelinda Xavier (1931-?) o poema "Mensagem". De Agostinho Neto (1922-1979) os poemas "Adeus à Hora da Largada" e "A Voz Igual". De Antero Abreu o "Poema da Hora da Partida". De António Jacinto (1924- 1991) os inesquecíveis poemas "Carta de Um Contratado" e "Monangamba". De Mário António (1934-1989) o seu poema tão popular "Rua da Maianga". De Viriato Cruz (1928-1973), os poemas "Makèzú" e em especial "Namoro" que nunca havemos de esquecer. De Aires de Almeida Santos (1922-1991) os poemas "A Mulemba Secou" , "Quem Tem o Canhé" e "Meu Amor da Rua Onze". De Mário de Andrade o poema "Canção de Salabu". De António Cardoso (1933-2006) o poema "Pela Calçada da Maria da Fonte". De Arnaldo Santos (1936-) o poema "Regresso". De Costa Andrade (1936-) o poema "Mulato". De Ernesto Lara Filho (1932-1977) os poemas "Caminhos de Musseques", "Na Noite dos Cazumbís", e "Elisa Mulata". De João Abel (1938-) o poema "Negro João". De Luandino Vieira (1936-) o poema "Canção Para Luanda". De Tomás Jorge (1928-2009), filho de Tomás Vieira da Cruz, o poema "Colonização". De Alexandre Dáskalos (1924-1961) os poemas "A Sombra das Galeras", "Que é S. Tomé", e "Mulher Negra". De Manuel Lima (1935-) o poema "África". De Manuel Rui (1941-) o poema "5" . De Maria Eugénia Lima (1935-) os poemas "Quitandeira de Luanda" e "O Graxa". De Carlos Gouveia (1930-2006) os poemas "Rua Torta" e "Canção «dos Lavra»". E finalmente do poeta David Mestre (1948-1997) o poema "Mukonda Dia Kalumba".
Eu confesso que de entre estes grandes poetas angolanos, eu tenho dois ídolos: Tomás Vieira da Cruz e Alda Lara. De facto, eu gostava tanto dessas obras, quando eu deixei Luanda em Novembro de 1975, com medo de os não perder, eu trouxe comigo no avião, os meus livros mais preciosos "Quissange" e "Poemas de Alda Lara".
Tomás Vieira da Cruz
Tomás Vieira da Cruz nasceu em Constância, entre o Entroncamento e Abrantes, em Portugal, no ano de 1900. Aos 24 anos, ele emigrou para Angola, onde residiu em Luanda, na Cidade Alta, durante alguns anos, antes de se mudar para Novo Redondo, onde viveu até ao resto dos seus dias. Além de poeta, Tomás Vieira da Cruz foi ajudante de farmácia durante toda a sua vida profissional. Ele também tinha um gosto especial pela música e pelo jornalismo, tendo sido um dos fundadores do Jornal Mocidade, de Novo Redondo (Sumbe).
Embora um homem do seu tempo, cantando bem alto a vocação colonial do homem português, Tomás Vieira da Cruz foi um percursor da poesia angolana. Com efeito, ele foi o primeiro poeta angolano a usar língua nativa (quimbundo), a referir-se à dureza da escravatura, e a denunciar as injustiças da situação colonial nos seus poemas, ajudando assim a abrir alguns caminhos ao nacionalismo angolano. Ele também escreveu muito sobre a beleza e sensualidade da mulher angolana, e do inevitável cruzamento de raças e culturas.
Ele apaixonou-se por uma mulher mestiça angolana, de quem nunca mencionou o seu nome nos seus poemas (apenas a sua "flor de bronze" - Amor, grande amor/formusura linda e calma/tu não és da minha côr/mas és muito da minha alma), de quem veio a ter um filho, o poeta Tomás Jorge (1928-2009). Tomaz Jorge veio a ser um membro destacado do movimento "Vamos Descobrir Angola", tendo sido preso pela PIDE durante a década de Sessenta.
A obra poética de Tomás Vieira da Cruz inclui "Quissange, Saudade Negra", publicado em 1932, "Tatuagem", 1941, e "Cinco Poesias de África", em 1950, e "Cazumbi", ambos publicado em 1950. Ele também publicou um livro de poemas em louvor da guerra civil de Espanha "Vitória de Espanha", onde expressou a sua simpatia pela ala falangista espanhola, pois até foi um membro da "Ala dos Viriatos" na Guerra Civil de Espanha.
Ele foi galardoado com o título de "Príncipe dos Poetas Portugueses" nos jogos florais da Emissora Nacional de Lisboa, em 1938. Em 1950, ele foi recebido pela Academia Brasileira de Letras.
Tomás Vieira da Cruz faleceu em Lisboa, após breve doença em Junho de1960, tendo o seu corpo sido transladao para Luanda, conforme seu expresso desejo. A sua morte foi muito sentida em Angola. De facto, eu ainda me lembro da notícia de primeira página no antigo "Jornal do Congo" a ele dedicada em que pela primeira vez li o seu famoso poema "Romagem a Quicombo". Em 1965, a Câmara Municipal de Luanda erejeu o seu busto no jardim na rampa em frente ao Liceu Salvador Correia (antigo Largo Monsenhor Alves da Cunha).
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Tomás Vieira da Cruz (1900-60), poeta português de nascimento, mas "angolano de poesia e de coração". |
O seu poema mais conhecido é "Romagem a Quicombo", que passo a transcrever:
Vinham de toda a parte esses romeiros,
em procissão de imagens quase santas;
e os de mais longe foram os primeiros
que chegaram à grande romaria...
As léguas caminhadas eram tantas
que a distância é um pranto de alegria!
Vinham de Seles e do Amboim do norte
os homens brancos e de negra cor
que servem Portugal até à morte.
Vinham do Longa e da Quissama
todos que têm por lá o seu grande amor
a santa Muxima que os inflama.
Em fé ardente, e crente, e milagrosa
Vinham os Sobas de passadas guerras
com a sua corte altiva e caprichosa;
E moças lindas, cor da noite escura,
— negras flores do exílio em que te encerras,
ó minha Angola imensa, ó formosura!
E bandeiras daquelas mais festivas,
certo dia tornadas prisioneiras,
ali regressam, livres e altivas.
Quando Elas passam, com o seu ar contente,
batem palmas as palmas das palmeiras,
e o Sol, subindo alto, é mais ardente!
.............................................................................
Diz a missa o mais velho missionário,
sobre um altar de pedras carcomidas,
que são da fortaleza o breviário.
Numa aliança de sangue, as lindas flores,
de duas raças por amor unidas
olvidam os passados dissabores
nesta Terra Africana, - a bem amada -
que Salvador Correia restaurou
em luta ardente, forte, ilimitada!
...........................................................................
Paira no ar uma oração fremente,
e um poeta que nunca mais voltou,
erguendo a voz, cantou humildemente:
Por obra e graça da divina glória,
que mais além da vida aconteceu,
Quicombo é um padrão da nossa história
que a nossa gente em devoção ergueu!
Gritai, clarins da fama e da vitória,
rezai preces de amor por quem morreu
dando valor a quantos, de memória,
dizem os seus nomes altos como um céu!
E Tu, ó grande mar das caravelas
e dos naufrágios, conduzindo as velas
te aportaram, gloriosas, no teu fundo,
Ergue-te ao alto em torre de menagem
e ensina à voz do vento esta romagem
para que o vento a leve a todo o mundo
Novo Redondo, 1938
Alda Lara
Alda Ferreira de Pires Barreto de Lara e Albuquerque ("Aldinha" para a sua família) nasceu em Benguela a 9 de Junho de 1930, onde passou os seus anos de meninice. Ela era irmã do escritor Ernesto Lara Filho e prima do nacionalista Lúcio Lara. Ela casou com Dr. Orlando de Albuquerque (médico moçambicano de nascimento mas radicado desde há muito em Angola, 1925-1997), de quem teve quatro filhos. Ela formou-se em medicina (psiquiatria infantil) pela Universidade de Coimbra em 1960.
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A poetisa angolana Alda Lara (1930-1962) - pessoa que como ela própria se definiu - "Passei
como a luz sobre os caminhos mais escuros. E se alguém se lembra de mim
é como uma pessoa de boa vontade e de coração puro, desejando um mundo
impossível de existir" |
Filha de uma família abastada de Benguela, ela foi uma estudante excelente, de educação profundamente católica, membra activa da JUC (Juventude Universitária Católica) e das Vicentinas de São Vicente de Paulo, e dedicada a trabalho social nos bairros de lata de Lisboa. Ela fez o ensino primário em Benguela, tendo ido estudar para o Colégio Paula Frassinetti, operado pelas madres Doroteias católicas, em Sá da Bandeira (Lubango), até ao 6º ano, ao fim do qual ela foi depois continuar os seus estudos em Lisboa.
Alda Lara era de corpo franzino e saúde frágil, sujeita a dôr e doenças ao
longo da sua vida, mas sempre de uma energia abundante e ardente para
querer resolver os problemas mais prementes do mundo que a rodeava.
Como estudante angolana nas universidades em Portugal na década de Cinquenta, Alda Lara viveu de perto e intensamente os sonhos dos estudantes ultramarinos da Casa de Estudantes do Imério em Lisboa, e como tal, ela foi um membro destacado da Geração Mensagem. Ela tinha um grande talento para declamar poemas de poetas ultramarinos, tendo apresentado alguns recitais memoráveis em Lisboa e Coimbra.
Cheia de planos e sonhos, ela voltou para Angola em Agosto de 1961 para se juntar ao seu marido que
exercia medicina em Cambambe. Contudo, a sua vida em Angola havia de ser muito breve, pois ela veio a falecer cinco meses mais tarde, ainda muito nova aos 32 anos,
em Cambambe, a 30 de Janeiro de 1962. Os seus restos mortais
encontram-se sepultados no Cemitério de Benguela.
A morte de Alda Lara foi muito sentida em toda a Angola. A sua partida precoce deste mundo foi muito comentada na imprensa e na rádio na Angola desse tempo. Para a minha Mãe, Alda Lara era um ícone de angolanidade. Eu lembro-me que o nosso reitor do Liceu Paulo Dias de Novais, o Dr. Saraiva de Carvalho, deu uma "borla" aos alunos que como eu quizessem ir assistir a uma missa de Sétimo Dia na Igreja da Conceição, em memória de Alda Lara.
Conforme o que o seu marido Orlando de Albuquerque havia de escrever mais tarde, se há três características que definam Alda Lara, elas eram o amor ao próximo, a generosidade, e a sua saudade de Angola, em especial da sua terra natal (Benguela).
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Alda Lara no dia da sua formatura em Medicina, na Universidade de Coimbra, 1960. |
Devido ao seu relevo na poesia angolana (e o meu gosto pessoal), eu passo a transcrever três (sim, três!) poemas de Alda Lara, com um poema representativo de cada uma das três características apontadas por seu marido Orlando de Albuquerque - 1 - Amor ao próximo; 2 - Generosidade; e 3 - Saudade de Angola.
Poema "Regresso" (sobre o tema angolanidade, saudade, regresso a Angola)
Quando eu voltar,
que se alongue, sobre o mar,
o meu canto al creador!
Porque me deu, vida e amor,
para voltar...
Voltar...
Ver de novo baloiçar
a fronde magestosa das palmeiras
que as derradeiras horas do dia,
circundam de magia...
Regressar...
Poder de novo respirar
(oh! ... minha terra)
aquele odor escalante
que o húmus vivificante
do teu solo encerra!
Embriagar
uma vez mais o olhar,
numa alegria selvagem,
com o tom da tua paisagem,
que o sol,
a dardejar calor,
transforma num inferno de cor...
Não mais o pregão das varinas,
nem o ar monótono, igual,
do casario plano...
Hei-de ver outra vez as casuarinas
a debruar o oceano...
Não mais o agitar fremente
de uma cidade em convulsão...
não mais esta visão,
nem o crepitar ardente
destes ruídos...
os meus sentidos
anseiam pela paz das noites tropicais
em que o ar parece mudo,
e o silêncio envolve tudo
Sêde... Tenho sêde dos crespúsculos africanos,
todos os dias iguais, e sempre belos
de tons quási irreais...
Saudade... Tenho saudade
do horizonte sem barreiras...,
das calemas traiçoeiras,
das cheias alucinadas
Saudade das batucadas
que eu nunca via
mas pressentia
em cada hora
soando pelos longes, noite fora!...
. . . . .
Sim, eu hei-de voltar,
tenho de voltar
não há nada que mo impeça.
Com que prazer
hei-de esquecer
toda esta luta insana...
que em frente está a terra angolana,
a prometer o mundo
a quem regressa...
Ah! Quando eu voltar...
Hão-de as acácias rubras,
a sangrar
numa verbena sem fim,
florir só para mim!...
E o sol esplendoroso e quente,
há-de gritar na apoteose do poente,
o sol ardente,
o meu prazer sem lei...
A minha alegria anorme de poder
enfim dizer:
Voltei!...
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Alda Lara e seus quatro filhos, fotografia tirada em 1961. |
Poema "Presença Africana"
(sobre o tema amor ao próximo)
E apesar de tudo,
ainda sou a mesma!
Livre e esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou,
Mãe-África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou a Irmã-Mulher
que tudo em ti vibra
puro e incerto....
A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul...
A do dendém
nascendo dos abraços das palmeiras...
A do sol bom, mordendo
O chão das Ingombotas...
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...
Sim! ainda sou a mesma.
A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11!.... Rua 11!...)
pelos meninos
de barriga inchada e olhos fundos...
Sem dores nem alegrias,
de tronco nu
e corpo musculosos,
a raça escreve a prumo,
a força destes dias...
E eu revendo ainda, e sempre, nela,
aquela
longa história inconsequente...
Minha terra...
Minha, eternamente...
Terra das acácias, dos dongos,
dos cólios baloiçando, mansamente..
Terra!
Ainda sou a mesma.
Ainda sou a que num canto novo
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu povo!
Benguela, 1953
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Uma das últimas fotografias de Alda Lara (à esquerda), ajudando o seu marido Orlando de Albuquerque, no bloco operatório do Hospital de Cambambe, em 1961. |
Poema "Testamento" (sobre o tema generosidade)
À prostituta mais nova,
do bairro mais velho e escuro,
deixo os meus brincos, lavrados
em cristal, límpido e puro...
E àquela virgem esquecida
rapariga sem ternura,
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido branco,
o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda...
Este meu rosário antigo,
Ofereço àquele amigo
Que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus
das contas de outr sofrer,
são para os homens humildes,
que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
esses que são de dôr
sincera e desordenada...
esses, que são de esperança
desesperada mas firme
deixo-os a ti, meu Amor...
Para que, na paz da hora
em que a minh alma venha
beijar de longe os teus olhos,
vás, por essa noite fora...
com passos feitos de lua
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua...
Lisboa, 1950
Ainda
no campo da cultura, devo mencionar que eu tinha também um interesse
muito especial pela pintura angolana pois admirava muito a pintura de Albano Neves e Sousa e de Mário Araújo
(que foi um amigo muito chegado do meu pai) e de quem tenho a aguarela
grande que sempre mais gostei em toda a minha vida - Casa de Ciganos no Bairro
Operário - que é uma cena do quotidiano à noite no Bairro Operário em
Luanda, e um quadro sobre a antiga Ilha da Chicala, que ainda hoje temos em casa.
Pintor Albano Neves e Sousa (a desenvolver)
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Autoretrato do pintor angolano Albano Neves e Sousa (1921-1995)
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Abano Silvino Gama de Carvalho das Neves e Sousa nasceu em Matosinhos, em Portugal, durante uma visita a Portugal pelos seus pais. Ele cresceu no Andulo (Bié)
Em termos de música, como posso esquecer as músicas do Duo Ouro Negro, do N'Gola Ritmos, da Lily Tchiumba, de Conchita de Mascarenhas, de Sara Chaves, da Dinah Jardim, Bana e Voz de Cabo Verde e de tantos outros?...Por outro lado, a influência da música de protesto contra a guerra colonial era o centro dos nossos interesses na UL, em especial as belas baladas de José Afonso (entre as quais "Traz um Amigo Também") e de Adriano Correia de Oliveira (entre as quais "Menina dos Olhos Tristes") que captavam o sentimento de protesto contra a guerra colonial que se vivia no momento.
Durante
o terceiro ano (1973/74) eu estive doente a maior parte do ano. Depois de
um longo período de incubação e de inúmeros muitos testes para encontrar a doença, os médicos finalmente apuraram que tinha
sido causada por ter bebido leite que não tinha sido propriamente
pasteurizado, e que tinha sido infectado com a bactéria que causa a
brucelose nos animais.
Entretanto, estive internado durante dez dias no
pavilhão de doenças infecto-contagiosas (perto do Teatro Anatómico da
UL, da Delegacia de Saúde, do chamado Hospital dos Malucos (de doenças mentais, oficialmente), e da Casa Mortuária -
que bela companhia!...), por ter sido diagnosticado erradamente com
hepatite; dez dias que foram decerto os mais escuros da minha vida, pois
vi todos os dias doentes (companheiros de infortúnio como eu) a
morrerem no maior sofrimento, e em que eu perguntava diariamente a mim
próprio quando é que era a minha vez...
Rectificado o engano, mandaram-me para o Hospital Universitário, onde
estive internado por pouco mais de um mês.
Ainda
no hospital, fiz amizades breves com outros doentes que lá estavam
internados, dos quais destaco um homem de idade avançada (de quem não me
consigo lembrar do nome e a quem assisti à sua morte na presença da sua
esposa e duas filhas), que tinha sido do quadro administrativo superior
em várias províncias ultramarinas e que tinha passado muitos anos em
Timor, como Intendente de Administração Civil, que pelas estórias que me
contava todos os dias à tarde, fiquei encantado com a longínqua e
exótica província ultramarina portuguesa. Encontrei ainda um outro
velhote, de nome Belchior, que me disse sem grandes problemas que num
momento de maldade tinha trincado e arrancado o nariz à esposa, e o
guardou durante três dias no bolso..., pelo qual merecidamente passou
algum tempo na cadeia.
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O mestre da literatura luandense, José Luandino Vieira (1935-) |
Este
encontro com a doença fez-me apreciar mais a vida e até encarar a morte
com certa resignação. Contudo, foi a batalha pela vida dos doentes que
ao meu lado todos os dias via morrer, que me levou a compreender quanto
insignificante, aleatória, e efémera a nossa vida é; e, ao mesmo tempo, quanto
universal e cheia é a nossa passagem por este mundo.
Foi durante a minha estadia no Hospital Universitário que eu aprofundei a escassa (e cinzenta) compreensão que tinha da obra de Friedrich Nietzsche, o filósofo do Super Homem e da Vontade de Poder. É difícil enquadrar Nietzsche numa escola filosófica demarcada, mas as suas ideias únicas e o seu espírito crítico tiveram uma influência extraordinária na minha formação como pessoa, na medida em que me ensinou a questionar sistematicamente todos os dogmas e desafiar o meu papel no mundo.
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O grande filósofo da cultura, Friedrich Nietzsche (1844-1900)
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Li avidamente a sua biografia, escrita por Daniel Halevy, que muito me sensibilizou, não só pelos seus conhecimentos profundos de filologia clássica e a sua admiração pelo compositor alemão Robert Wagner, a influência da sua irmã Lisbeth, mas especialmente pela descrição dramática dos últimos anos de vida de Nietzsche. Como não podia deixar de ser, li então a maior parte da sua obra que estava traduzida (pobremente) em português, incluindo, "O Anti-Cristo", "O Crepúsculo dos Deuses", "Para Além do Bem e do Mal", "Humano, Demasiado Humano", "Civilização e Decadência", e a sua obra fundamental "Assim Falava Zaratustra".
Em Janeiro de 1974, numa viagem à Praia das Palmeirinhas, na estrada de
Belas, a sul de Luanda, e na companhia de colegas de curso com quem
íamos fazer um pic-nic, nós tivémos um acidente de carro (um Toyota Corolla 1000
conduzido pelo nosso colega Tiago, de Carmona, Uíge), em que eu estando
sentado no banco de trás ao lado do Carlos Gomes fui cuspido pela janela de vidro
de trás, e fui bater de costas na estrada, que entretanto estava coberta
de cristais de vidro estilhaçado do carro. De todos os ocupantes, eu é
que tinha ferimentos mais graves, pelo que me tiveram que levar ao banco
de urgência do Hospital Universitário em Luanda, onde os médicos, durante
várias horas, pacientemente removeram um por um os muitos pedaços de vidros encrustados nas
minhas costas e nos braços. Cabe qui referir que o acidente deu-se por
volta das nove horas da manhã, depois de uma noite inteira de farra...
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O trovador português José Afonso (1929-1987)
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Nas décadas da minha juventude a leitura de livros e revistas eram em Luanda a principal forma informação e educação, já que não tínhamos televisão ou internet, e a rádio era um pouco comercial demais, pois era nos livros e nas discussões que estes provocavam com os nossos amigos e colegas que nós formavamos as nossas opiniões e abraçavamos (ou não) as ideologias que estes apregoavam. O cinema era fundamentalmente uma forma de entertenimento, e as palestras idóneas rareavam numa sociedade que era controlada pela polícia política.
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O trovador português Adriano Correia de Oliveira (1942-1982)
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Assim, desde cedo li sempre muito, incluindo as diversas opiniões contraditórias, teorias, e ideologias sobre as questões fundamentais pelos quais queríamos aprender. Desde cedo aprendi que havia sempre mais do que uma opinião sobre qualquer tópico, e que para termos uma opinião abalizada sobre qualquer assunto temos que aprender todas as opiniões (a favor e contra) relevantes sobre ele.
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Hospital Universitário da Universidade de Luanda, onde eu estive internado durante um mês em 1972
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28. No Mundo das Ideias
Durante a estadia no Hospital Universitário (antigo Hospital de São Paulo) em Luanda eu li uma boa parte das obras de Karl Marx e de Lenin disponível em português, e a quase toda a obra de Friederich Nietzsche (o filósofo da cultura) traduzida em português, e "O Estrangeiro" e "O Mito de Sísifo" de Albert Camus,
que me "transformaram" marcadamente, e que me ensinaram que afinal a
humanidade não era uma criação divina; mas, com efeito, a
divindade era uma criação humana.
Não posso deixar de mencionar aqui quanto me tocou a leitura de três livros nessa altura do enigmático, absurdo, escuro, e surrealista e ao mesmo tempo existencialista, autor checo de ascendência judia, Franz Kafka (Metamorfose, O Processo, e O Castelo). Não sei como descrever os seus textos que são um enigma para além do fantástico, em que o absurdo, a alienação, e o sem-sentido permeiam os labirintos fechados de uma mente (às vezes macabra) e fantástica.
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O escritor Franz Kafka (1883-1924), mestre do absurdo e do fantástico sem sentido.
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Como aluno de economia, eu senti que não sabia o suficiente sobre hsitória económica mundial e sobre a história das principais escolas de pensamento económico, já que no programa de curso não tínhamos essas disciplinas, assim deliciei-me com a leitura da obra fundamental do Prof. Robert Heilbroner, Introdução à História das Ideias Económicas - Grandes Economistas, que é uma magnífica compilação biográfica dos grandes economistas (Adam Smith, Robert Malthus, David Ricardo, Karl Marx, John Stuart Mill, Leon Walras, Alfred Marshall, Thorstein Veblen, John Maynard Keynes, e Joseph Schumpeter), e o impacto das suas ideias no mundo contemporâneo.
Como não podia deixar de ser, os alunos de economia (e talvez menos os de gestão de empresas) estudavam e discutiam muito não só a história das ideias económicas mas também como é que as mesmas se aplicavam ao mundo actual, especialmente a Angola de então. Assim, eu li a maioria das obras de Karl Marx e do seu companheiro de luta Friederich Engels na sua crítica à economia capitalista do século XIX, que me ajudaram a compreender quanto limitado era o escopo das escolas económicas clássica e neoclássica.
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Karl
Marx (1818-1883) foi um pensador e activista incontornável no campo
das ciências sociais, nomeadamente na História, na Sociologia, e na
Economia Política.
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Para mim Marx não foi só economista de relevo, ele foi também um sociólogo e um historiador da maior importância, e as suas ideias têm ainda hoje muito mérito no que respeita à interpretação do passado, se bem que talvez menos as suas conjecções sobre o futuro.
Quando se estuda a teoria do materialismo histórico (dialéctico) de Karl Marx, nós temos necessariamente que estudar Friedrich Engels ao mesmo tempo, pois um sem o outro ficamos apenas com uma compreensão parcial da teoria geral. Das obras de Engels, aquela que penso que mais me ajudou foi "A Origem da Família, da Propriedade, e do Estado".
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O pensador e activista Friedrich Engels (1820-1895), leal companheiro de luta de Karl Marx
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Apesar de concordar com uma grande parte da análise marxista da economia e da história (o materialismo histórico), eu já na Universidade me apercebi que ela tinha algumas limitações sérias, pois as predições sobre o futuro das sociedades humanas de Marx e Engels acabaram por não se realizar.
Como sabemos, os regimes comunistas da Europa Oriental e a União Soviética deixaram de existir em 1989 e a China e o Vietname são hoje economias capitalistas controladas por administrações comunistas. Resta hoje apenas a Coreia do Norte o baluarte cubano, que não é senão um caso desastroso que prova a ineviabilidade da experiência comunista, e é uma questão de tempo até o regime comunista cubano se afundar na sua ineficácia.
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O historiador belga Henri Pirenne (1862-1935) cujas ideias muito influenciaram a historiografia da Escola Francesa dos Annales
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À procura de uma solução que achasse mais adequada à situação de Angola Colonial eu li e estudou muitos outro autores não marxistas, impressionou-me sobremodo a Escola Histórica dos Annales, através das obras de Henri Pirenne "As Cidades na Idade Média", de Marc Bloch "O Ofício do Historiador", de Lucien Goldman "Da Dialética às Ciências Humanas" e "A Criação Cultural na Sociedade Moderna". Não esqueço nunca que Marc Bloch foi fuzilado pelos nazis em França, poucos meses antes da libertação da França da ocupação nazi pelas forças aliadas.
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O historiador francês Marc Bloch (1886-1944), um dos fundadores dos Annales d'Histoire Économique et Sociale
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Em termos de análise e interpretação do sistema capitalista nos meados do século XX não posso esquecer os livros magníficos de Paul Sweezy "Teoria do Desenvolvimento Capitalista" e "Capitalismo Monopolista", de Leo Huberman "História da Riqueza do Homem", de Paul Baran "Teoria e Política do Crescimento Económico", e as obras de Charles Bettelheim "Planificação e Crescimento Acelerado" e "Transição para a Economia Socialista".
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Os
economistas marxistas americanos Paul Sweezy (1910-2004) (à esquerda) e
Paul Baran (1909-1964) (à direita), grandes críticos da economia
capitalista americana e mundial nos meados do século XX
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Mais relacionado com a situação histórica de Angola (e até Portugal) no que toca à teoria do centro e da periferia, as obras de Raúl Prebisch "Dinâmica do Desenvolvimento Latino Americano", de Celso Furtado, e de Walter Rodney "Como a Europa Subdesenvolveu a África" ajudaram-me a compreender melhor a posição de Angola colonial na economia mundial.
Li ainda nessa altura a preciosa obra "O Processo Histórico", originalmente publicado em 1938, da autoria do prof. Juan Clemente Zamora,
professor de Direito e Jurisprudência, e de Ciências Políticas das universidades de Havana e Miami, nomeado para o Prémio Nobel da Paz em 1933.
Esta obra, se bem que manifestamente antiquada, foi talvez uma das obras mais
marcantes na minha formação em termos de melhor compreender as relações entre a história, a
economia política, a religião e a ideologia, e a ciência política, no
contexto do quadro geral do desenvolvimento da humanidade.
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O historiador francês Lucien Febvre (1878-1956), o outro co-fundador da Escola Histórica dos Annales
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Li ainda
nessa altura o livro "1984" de George Orwell, da colecção
Biblioteca Universitária Unibolso, cujo espírito crítico muito afincado
que me impressionou muito profundamente, em especial a sua referência à
história, em que ele afirma que "quem controla o passado controla também o futuro, e quem controla o presente controla também o passado", que me abriu mais os olhos em relação aos usos e abusos da história por ditaduras e regimes totalitários.
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O crítico genial e tenaz de regimes totalitários George Orwell (1903-1950)
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Já que estamos a falar sobre o controle das ideias e regimes totalitários, nós não nos podemos esquecer que vivíamos em Angola na década de Sessenta numa ditadura que defendia um regime colonial em tempo de guerra. Como tal, a censura era controlada pela Comissão de Censura, que por sua vez era controlada pela polícia política PIDE, que filtrava a pente fino tudo o que se podia ler em Angola, incluindo o mercado de livros. Não obstante esse controle apertado, alguns livros passavam o pente fino da censura, especialmente os que vinham através do Centro do Livro Brasileiro em Luanda, onde encontrei um bom número de obras que de antemão esperava terem sido retiradas de circulação pela censura, mas que continuavam disponíveis à venda. Depois de muito pensar, eu só pude concluir que os funcionários da censura por vezes não tinham conhecimentos suficientes para exercer com zelo o trabalho para que eram pagos...
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O grande
historiador francês Fernand Braudel (1902-1985) que revolucionou a
história social e o método de estudar história (historiografia) nos meados do século XX
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Da mesma forma, foi nesta altura que comecei a aprofundar os meus conhecimentos sobre Angola e a sua História, ou melhor dizendo, da história dos Portugueses em Angola. Com efeito, li com grande atenção os quatro volumes da "História de Angola" de Ralph Delgado editados pelo Banco de Angola (o quarto foi somente publicado já em 1976 em Lisboa), "Angola - Apontamentos Sobre a Ocupação e Início do Estabelecimento dos Portugueses no Congo, Angola, e Benguela" de Alfredo de Albuquerque Felner, reli "Qual Será o Mais Excelente..." de Gastão de Sousa Dias, e os livros de Basil Davidson "Mãe Preta" e "Revelando a Velha África", "As Cidades Perdidas de África", e "O Fardo do Homem Negro".
Cabe-me mencionar aqui que apesar do foco na ocupação colonial de Angola (Ralph Delgado foi um português do seu tempo em Angola), a obra de Ralph Delgado impressionou-me muito pela sua amplitude e detalhe baseado numa extensa e minuciosa pesquisa de fontes documentais coevas. Mais tarde, já em Portugal, eu comprei as suas duas outras obras fundamentais "O Reino de Benguela" e "A Sul do Cuanza", que vieram a reforçar ainda mais a admiração que tenho pelo seu trabalho. Hoje, passados que são mais de cinquenta anos, ainda ando à procura da sua excelente obra "A Famosa e Histórica Benguela".
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O filósofo e sociólogo Lucien Goldmann (1913-1970) que questionou o marxismo convencional e refutou a inexorabilidade das leis de progresso histórico da humanidade
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Quando ainda andava no Liceu Salvador Correia, nos 6º e 7º anos, nós tínhamos aulas comuns em certas disciplinas com os alunos de românicas, história, direito, e germânicas, com focus na história da literatura e cultura portuguesas. Isto levou-nos a uma certa exposição (seguida de discussão) de tópicos de literatura portuguesa que eu tanto tinha gostado desde os tempos da "Selecta Literária" do 4º e 5º anos no Liceu Paulo Dias de Novais, e ainda da história da cultura em Portugal e em Angola.
Já na Universidade de Luanda (UL), eu contínuei este caminho com a leitura e discussão de algumas obras do grande historiador e estudioso da cultura portuguesa António José Saraiva, em particular as suas obras (com Óscar Lopes), "História da Literatura Portuguesa", "Para a História da Cultura em Portugal", "Inquisição e Cristãos Novos", e "Maio e a Crise da Civilização Burguesa", que então estavam a ser lidas e discutidas nos subterrâneos da UL.
Ele era irmão do conhecido historiador José Hermano Saraiva que foi ministro da educação antes do 25 de Abril em Portugal, e teve durante muitos anos um programa muito popular na Rádio Televisão Portuguesa (RTP) sobre a história de Portugal.
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O grande historiador e pensador da cultura portuguesa António José Saraiva (1917-93) |
António José Saraiva era para mim um dos grandes mestres da história da literatura portuguesa, que eu sentia como leitura obrigatória para poder compreender melhor a história da literatura angolana, e até a emergente cultura nacionalista que então fervilhava em Angola. A sua mestria em sintetizar os momentos históricos e o jogo de forças sociais e económicas na sociedade e cultura portuguesas, e o impacto destes na evolução das ideias eram na verdade fora do vulgar e adaptavam-se perfeitamente ao momento histórico que então vivíamos em Angola.
Lia também com muita atenção todos os números da revista "Turismo" onde encontrava sempre artigos muito bons sobre temas históricos e etnográficos escritos pelo etnógrafo José Redinha. Ainda na Universidade de Luanda li (e reli com muita atenção) a História de Angola, em forma de texto policopiado, publicada pelo Centro de Estudos Angolanos (coordenada por Henrique Abranches e Artur Pestana (Pepetela), e Adolfo Maria), sob a égide do MPLA.
Basil
Davidson (1914-2010), foi um homem invulgar no seu tempo. Nascido em Bristol, na Inglaterra, ele foi soldado, agente secreto, jornalista, escritor, e editor, mas
acima de tudo, ele foi o mais distinto historiador europeu a revelar a história de África entre 1955 e 1985, e quem mais contribuiu para a difusão da genuína história
dos povos africanos, com uma obra extensa de mais
de 30 livros muito acessíveis e bem escritos, sendo a maioria deles sobre aspectos da história de África. O seu estilo de escrever era simples e um tanto polémico,
mas factual e persuasivo, o que captava a atenção do leitor por ler mais e mais
até acabar o livro, e a aceitar as suas conclusões.
Basil
Davidson abriu o caminho para a divulgação da história da África pré-colonial e
a atenção mundial à luta anti-colonialista que se travava em África. Após a
descolonização de África entre 1957 e 1964, ele dedicou a sua atenção à luta de libertação nacional que se travava
nas colónias portuguesas (Angola, Guiné-Bissau, e Moçambique), antiga Rodésia,
e República da África do Sul. Ele visitou as zonas libertadas no leste de Angola, da
Guiné-Bissau, e do norte de Moçambique. Apesar de ter uma perspectiva política manifestamente de esquerda e até marxista, ele era um pensador livre e independente que não deixou
de desmascarar o pacto da UNITA com o regime do Apartheid a República da África
do Sul, e o envolvimento de Cuba na guerra entre a Etiópia e a Somália.
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Basil Davidson e Agostinho Neto, nas chanas do Leste de Angola, 1968 | | |
O meu
encontro com a obra de Basil Davidson começou com a leitura das suas obras “Revelando
a Velha África”, “Mãe-Negra”, e “O Fardo do Homem Negro”, já nos "subterrâneos de liberdade" da Universidade de Luanda, obras que estavam estritamente proibidas pela censura em Angola. Devido à
sua importância e claridade, acabei por ler toda a sua obra ao longo de muitos
anos, e ele continua a ser para mim uma das fontes mais sérias e originais para o estudo da
história dos povos de África.
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O antropólogo francês Claude Lévi-Strauss (1908-2009), que firmou as bases do estruturalismo à antropologia, antropologia económica, economia, e do conhecimento nas sociedades ancestrais.
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Posso dizer
que se Ralph Delgado despertou em mim o interesse pela história dos portugueses em Angola através da sua obra monumental “História de Angola”, e os muitos livros
de Basil Davidson, despertaram em mim o interesse pela história de África como
um continente diverso de povos independentes que sempre tiveram a sua própria
história, embora não ainda revelada. Esta história começa muito antes (desde a civilização Núbia e as pirâmides na cidade de Meroé,
antes da civilização egípcia, e dos impérios africanos pré-coloniais) até mesmo
depois do colonialismo europeu tomar raízes em África na sua tentativa de
apagar a identidade e história dos povos africanos.
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Frantz Fanon (1925-1961), teórico e activista da luta anti-colonial através da luta armada
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Dos muitos livros de pensadores importantes que li na universidade, cabe-me destacar aqui a figura de Frantz Fanon. Ele era natural da Ilha de Martinica (nas Caraíbas), nascido em 1925 e falecido em 1961, ele foi psiquiatra de formação e o teórico radical sobre da derrubada do colonialismo pela força (luta armada), e militante activo na luta de libertação argelina do jugo colonial francês. Os seus livros "Peles Negras, Máscaras Brancas" e "Os Condenados da Terra" abriram-me os olhos para a violência do sistema colonial e para o seu impacto na vida e mente dos colonizados. A sua frase "Há um tempo que chega quando o silêncio se torna uma desonestidade" ficou comigo para sempre.
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O historiador, activista e académico guianense Walter Rodney (1942-1980) que mostrou que o fenómeno histórico do colonialismo é baseado no roubo.
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Tenho também que destacar o livro de Fidel Castro "A História me Absolverá" que me impressionou sobremaneira. A essência desta obra é o depoimento que Fidel Castro fez em defesa própria quando foi acusado de insurrecção pelo regime do ditador Fulgêncio Baptista, pelo ataque dos Barbudos ao Quartel Moncada em Santiago de Cuba a 26 de Julho de 1953. Na sua defesa no julgamento, Fidel trocou com eloquência os papeis de cada um, e em vez de arguido, Fidel passou a procurador do povo cubano, e o regime de Baptista passou de procurador passou a arguido. Na verdade e com muita eloquência no seu discurso de cinco horas, Fidel pôs a preto e branco o que o regime de Fulgêncio Baptista estava a infligir ao povo cubano, com o suporte da Mafia e da opressão americana.
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Fidel Castro e Ché Guevara, arautos do anti-imperialismo na segunda metade do século XX, 1965
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É difícil descontar os argumentos de Fidel Castro, e até é fácil aceitar a sua tese socialista como solução para Cuba, contudo, passados que foram muitos anos, é com muita dôr que vemos que o socialismo cubano não resolveu os desafios que afligiam o progresso do povo cubano. Não só a economia cubana cedo se petrificou em pobreza e dependência extrema, como a liberdade individual foi abafada e substituída com um estado policial que não admitia qualquer desvio à linha oficial da ditadura comunista. Com efeito, uma vez assumindo ao poder em Cuba, Fidel Castro tornou-se um ditador cuja prática não era diferente do que ele antes acusara Fulgêncio Baptista em "A História me Absolverá".
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A História nos Absolverá? |
Não posso esquecer aqui que li anos mais tarde numa entrevista com a irmã de Ché Guevara (o "herói" da libertação dos povos oprimidos do terceiro mundo), que ele assinava resmas de dezenas de ordens de fuzilamento de cidadãos cubanos acusados de resistir e trair a revolução cubana, sem sequer ler a forma de uma única vítima sequr. Uma vez a ordem de fuzilamento era assinada por Ché Guevara, depressa as vítimas eram sumariamente assassinadas, sem qualquer oportunidade para recurso. Na verdade, temos que reconhecer que a solução comunista de Castro não melhorou as condições do povo cubano, e que não há humanismo nas soluções socialistas de Castro, Stalin, Mao Tse Tung, Pol Pot, ou de qualquer outro ditador comunista.
29. Vida na Universidade
De
volta à Universidade, perto que estava dos centros de decisão, comecei a
compreender melhor como o aparelho político colonial funcionava. Ao
mesmo tempo, comecei a reconhecer com mais facilidade as diferentes
correntes de pensamento e de acção que então actuavam nos "subterrâneos"
da nossa universidade. Não demorou muito até que me havia de meter "até
às orelhas" numa luta aberta e vigorosa de debate de ideias políticas
com outras correntes e grupos, e muito menos tempo em fundarmos a nossa própria associação - a GEFA (Grupo de Estudos para a Futura Associação),
da qual eu era um dos líderes principais. Contrariamente, ao que a
oposição apregoava nos corredores da Universidade e nas grandes Reuniões Gerais de Alunos (RGAs),
a nossa GEFA era completamente genuína e independente, e não tinha
qualquer ligação partidária com quaisquer dos três movimentos de
libertação (MPLA, FNLA e UNITA), com a facção Chipenda, ou com a Revolta Activa, e menos ainda com a FUA (Frente de Unidade de Angolana), do Engenheiro Fernando Falcão, de Benguela. Nós éramos de facto independentes.
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O geógrafo e sociólogo brasileiro Josué de Castro (1908-73) |
Foi na Universidade de Luanda que eu compreendi na sua extensão completa a exploração colonial e o aparelho de repressão que
era preciso para manter esse estado de coisas, e desde cedo me apercebi
que ainda tinha muito que aprender em separar "o trigo do joio", em
chegar à raiz das razões fundamentais de certas decisões do governo
colonial. Depois de ler os dois volumes da "Geografia da Fome" de Josué de Castro
(1908-73). Nesta altura, aprendi também as raízes e a mecânica da tragédia da
pobreza e do subdesenvolvimento que assolava quatro quintos da população
do planeta. De igual modo, li o livro do grande educador brasileiro Paulo Freire (1921-97) "Pedagogia do Oprimido" que ainda reforçou mais o ideário que eu então ia construindo.
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O educador e pensador brasileiro Paulo Freire (1921-97) |
É
certo que a política associativa universitária em breve substituiu os
estudos como razão principal para eu estar na universidade(?), mas ela
também me proporcionou a oportunidade de ler, escrever e debater muito,
muitas vezes contra forças muito maiores que as nossas.
Dos
muitos colegas amigos que tive na UL, lembro a Manuela Moura (falecida
precocemente há poucos anos), o Carlos
Ferreira Gomes, a Graça Koch-Fritz, a Celeste Vilarinho, a Maria José Trancoso, a
Ita Delgado e o
Peter, a Gracinha Coelho, o Seara de Morais, o João Chabert Ferreira
(meu colega desde o primeiro ano do Liceu Paulo Dias de Novais...), o
Jorge Pestana (tambem colega e amigo de longa data desde os anos do
mesmo liceu, e já falecido), Lares dos Santos, também colega de longa
data, Vasco Jardim, a Rosário Penha Gonçalves, o Carlos Manso Gigante, o Carlos
Moura, Helder (do
Lobito), o Octávio, o Cristo Alves, o Madeira, o Fernando Quelhas, o Xico (Manuel Gonçalves Francisco) e a Lena Jorge, o Zé Pedro, e de
muitos outros dos quais não me lebro agora dos nomes. Lembro aqui em especial os meus amigos António Carranca, Lima Lobo, Alfredo Salles Esteves, e António Costa e Silva (Xíbias), com quem eu adorava discutir a resolução dos problemas que mais afligiam a humanidade. Esta última tertúlia era de esquerda, mas não era decerto radical.
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Excursão dos Alunos da Faculdade de Economia ao distrito do Uíge, no aeroporto de Carmona, 1972 |
Com o risco de me esquecer algum nome merecedor, lembro (para o que desde já peço desculpa) que a lista dos melhores alunos do curso do nosso ano (o primeiro na UL) incluía a Celeste Vilarinho (Manso Gigante), a Laurinda de Jesus Fernandes (Hoygaard), a Fátima Moura (Roque), o José Luis Seara de Morais, e o Alberto de Almeida. Como disse atrás, os alunos que vinham do Instituto Comercial eram em geral acima da média nas disciplinas de contabilidade.
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Excursão de alunos de Economia à Missão de Extensão Rural, no Bailundo, Bié, em 1973 (á frente e da esquerda para a direita: Carlos Manso Gigante, José Luis Seara de Morais, Fernanda Veloso, Rosy Penha Gonçalves, Eu (Helder Ponte), Manuel Ribeiro, Conceição e Laurinda Fernandes (ambas de costas), e Zé Pedro)
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De todos os amigos, agora vivendo em terras distantes, o Toninho e a Ema Delgado
tornaram-se os mais chegados a nós. Lembro-me que uma vez decidimos todos ir à praia na contracosta da Ilha do Mussulo, e que a Ema, inadvertidamente, perdeu a sua dentadura. Passámos as próximas horas à procura dos valiosos dentes, mas nada; Neptuno, já com dentes, foi mais forte do que nós, pois escondeu-os nas profundezas do Atlântico...
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Os grandes amigos Toninho e a Ema Delgado, em Pojuca, Baía, Brasil, ainda jovens em 1981. |
Eles casaram em Luanda em Dezembro de 1974. Depois de sairem de Angola, o Toninho e a Ema viveram no interior do estado da Baía, Brasil, durante uns anos e depois regressaram a Portugal, para
viver em Castro Verde (Baixo Alentejo), onde ainda vivem. Eles tiveram
duas filhas, nascidas no Brasil (a Mayumi e a Tatiana). Hoje estão ambos
reformados. O Toninho exerceu a profissão de engenheiro de minas na
mina da Somincor em Castro Verde, e a Ema, de professora de biologia,
também em Castro Verde, ambos durante muitos anos.
O Toninho e a Ema
vieram várias vezes ao Canadá visitar-nos, com quem percorremos em
detalhe as províncias de Alberta e Colombia Britânica (do lado do Oceano
Pacífico). Durante estes anos todos nós viajamos muito com eles através
do mundo, pois eles são os nossos amigos preferidos para viajar. Assim
fomos a muitas partes do mundo, incluindo o estado da Bahia no Brasil, o
oeste dos Estados Unidos (incluindo os estados do Alaska, Utah, Arizona,
Nevada, Montana, Idaho, Washington, e Wyoming), Portugal (em detalhe) e
norte de Espanha, Budapeste, Costa Rica, Panamá, Japão, Hawaii, México, e mais
recentemente, o Uruguai, a Argentina, e o Chile.
Não
posso, porém, deixar de referir aqui e agora a amizade especial e
profunda (mais do que "amizade", reconheci tardiamente...) que nutria
pela Lena Vitória Pereira, então já médica estagiária no Hospital
Universitário em Luanda, e da amizade que ao longo desses anos mantive com o
Manuel Ribeiro (um irmão mais velho para mim) e a nossa Ventoínha
(Manuela Pestana, hoje médica aposentada que trabalhou em Moscavide em Portugal durante muitos anos, que
tanto me ajudaram como amigos tão chegados.
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O antigo Palácio de Dona Ana Joaquina, Luanda, 1965
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Recordo
ainda as "noitadas directas" de 24 e mesmo 36 horas seguidas (sem
descanso!) a jogar King na Residência Universitária na Rua Oliveira
Barbosa com o Tónio Delgado, o Xíbias, o Guerrita, o China, o Bolacha, o
Vascão, o Óscar (... Ligório da Piedade Álvares Furtado - que nome tão
nobre, nunca hei-de esquecer!), o Peidinhas (Fonseca Santos), e outras
"aves raras" que por lá aterravam regularmente.
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Eu, já sábio, depois de sair da UL, mas ainda acorrentado ao passado... |
Li assim quase todos os livros proibidos pela PIDE que corriam nos "subterrâneos da liberdade" da nossa UL. Não posso esquecer as discussões acesas que tínhamos durante noites e noites inteiras
com colegas como o Freddy Salles Esteves, Mickey, António Carranca,
Rui Lima Lobo, Freitas Basílio, Manuel Ribeiro, Zé (Agostinho) Neves, Lena
Robalo, Sá Carneiro, Pena Pires, Carlos Moura, Celeste Vilarinho, Xíbias, Alfredo Franco, e muitos outros dos quais agora não me lembra os seus nomes.
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Sede da FNLA na Avenida Brasil em Luanda, incendiada nos combates de Julho de 1975. |
Contudo, naquele tempo de ebulição na Faculdade de Economia, boas coisas também aconteceram. Um curso semestrais sobre Cooperativismo e Sindicalismo foi adicionado ao curriculum dirigido em conjunto pelo Dr. Luis Nunes e Dr. João Amorim (respectivamente), e um curso anual sobre a Economia de Angola foi também adicionado. Este curso foi dirigido pelo Dr. José Manuel Zenha Rela (falecido há poucos anos), que era técnico superior dos Serviços de Planeamento e Integração Económica e um dos líderes de muitos dos grupos de trabalho da revisão do 3º Plano de Fomento e do desenvolvimento do IV (4º) Plano de Fomento. Como disse atrás, o Dr. Zenha Rela era uma das pessoas que mais sabia sobre a realidade económica e social de Angola, especialmento no que respeitava ao mundo rural.
Um outro curso especial focando na realidade social e histórica do momento em Angola foi organizado e dirigido pelo Dr. Gentil Viana, destacado anticolonialista angolano e membro da facção Revolta Activa do MPLA. Este curso foi muito concorrido, pois o Dr. Gentil Viana era um homem de grande saber e uma referência da resistência anticolonialista. Ainda neste contexto a Faculdade de Economia organizou e ofereceu dois seminários de grande utilidade - um sobre Investigação Operacional, leccionado pelo Dr. António Rodrigues da Silva, e outro sobre Análise de Projectos, leccionado pelo Dr. Leonardo Santos.
Como
resultado dessa experiência, e apesar da insistência dos convites
recebidos de todos os quadrantes políticos, decidi não me associar a
nenhum movimento de libertação ou partido político,
que nessa altura andavam a recrutar alunos para seus membros, pois o
que aprendi acerca deles me desencantou um pouco logo desde o princípio;
decisão essa que havia de ter peso mais tarde na minha decisão final de
deixar Angola antes da independência. Nós (eu, o Alfredo Franco, Carlos Moura, Manuela Moura, e mais outros) formámos o nosso grupo independente de qualquer influência de partidos políticos ou movimentos de libertação, o GEFA (Grupo de Estudos para a Futura Associação), que apresentou a nossa posição e pugnou pela adopção dos principios em acreditávamos na formação da proposta Associação dos Estudantes da Universidade de Luanda, que por causa do momento político que se vivia, nunca veio a se concretizar.
Apesar
do papel secundário que a Universidade de Luanda teve na luta ao poder
em Angola após o golpe militar português de 25 de Abril de 1974, não
podemos deixar de reconhecer que ela serviu de campo de treino para
muitos estudantes que mais tarde se associaram a cada um dos três movimentos
de libertação nacional (o MPLA, a UNITA e a FNLA) e nos quais desenvolveram um papel de relevo.
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A Welwitchia Mirabilis, o ex-libris de Angola, pintura de Neves e Sousa |
Com a Revolução do 25 de Abril em a desenrolar-se em pleno em Portugual e
nas colónias, não tardou que a mesma se reflectisse na vida da
Universidade de Luanda. Sem demora, protestos por tudo e por nada
mudaram a Universidade - reuniões gerais de alunos, saneamento de
professores, mudança no plano do curso, instabilidade governativa, luta
fraticida entre os movimentos de libertação, instabilidade e
insegurança, e inflação, e fuga de quadros, entre outras preocupações
passaram a dominar o dia-a-dia na UL.
Em breve o caos suplantou tudo, e a
Faculdade de Economia viu-se na situação dramática de ter que suspender
todas as actividades em Setembro de 1975, e só vir a reabrir depois da
Independência sob o novo nome de Universidade Agostinho Neto.
Na verdade, com tanta ventania... E Tudo o Vento Levou...
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