1 - Viagem Pela História de Angola

Uma viagem através dos tempos, povos, personagens e acontecimentos que moldaram a História de Angola.

Nome:
Localização: Cranbrook, Colômbia Britânica, Canada

Helder Fernando de Pinto Correia Ponte, também conhecido por Xinguila nos seus anos de juventude em Luanda, Angola, nasceu em Maquela do Zombo, Uíge, Angola, em 1950. Viveu a sua meninice na Roça Novo Fratel (Serra da Canda) e na Vila da Damba (Uíge), e a sua juventude em Luanda e Cabinda. Frequentou os liceus Paulo Dias de Novais e Salvador Correia, e o Curso Superior de Economia da Universidade de Luanda. Cumpriu serviço militar como oficial miliciano do Serviço de Intendência (logística) do Exército Português em Luanda e Cabinda. Deixou Angola em Novembro de 1975 e emigrou para o Canadá em 1977, onde vive com a sua esposa Estela (Princesa do Huambo) e filho Marco Alexandre. É gestor de um grupo de empresas de propriedade dos Índios Kootenay, na Colômbia Britânica, no sopé oeste das Montanhas Rochosas Canadianas. Gosta da leitura e do estudo, e adora escrever sobre a História de Angola, de África e do Atlântico Sul, com ênfase na Escravatura, sobre os quais tem uma biblioteca pessoal extensa.

sábado, Junho 09, 2007

1.3 O Meu Encontro com a História de Angola




1. A Nossa História Pessoal

Nos meus tempos de juventude havia na antiga Avenida Marginal em Luanda, entre o Largo do Baleizão e o Morro da Fortaleza, os restos de uma Casa Grande (um sobrado) muito antiga, talvez construída no Século XVIII (ou mesmo antes), em parte já em ruínas, que cada vez que passava por ela me indagava a curiosidade - perguntava a mim próprio quando é que foi construída? Quem a construiu? Quantas gerações da mesma família (ou de familias diferentes) viveram nela? Quantas pessoas lá nasceram e morreram? Viveu nela alguém de relevo na História de Angola? Como teria sido a vida dessas famílias nesses tempos idos? Quando e porquê que a casa passou a ser desabitada? - Por momentos a minha mente tentava ir atrás na bruma do tempo, procurando no nevoeiro da história o saciar da minha curiosidade, o que, por associação, invariavelmente me levava a pensar na minha história pessoal e na história da minha família.

Todos nós temos a nossa história pessoal e todos nós temos um sentido nato de história.
Às vezes encontramo-nos a pensar no que tem sido a história da nossa vida, nos acontecimentos que testemunhámos, ou pelo que passámos no percurso individual da nossa vida.

Nesse esforço indagamos ainda como é que a história da nossa vida se relaciona com a história da nossa família e amigos, da nossa vizinhança ou comunidade, da nossa cidade ou nação, ou mesmo até como ela se relaciona com o esquema geral de história da humanidade.

Mercê da nossa vivência real e directa de acontecimentos históricos, quando olhamos para trás apercebemo-nos de que fomos testemunha, participante, ou mesmo até agente de mudança na evolução geral da história do sociedade em que vivemos.

Neste processo de análise da nossa história pessoal apercebemo-nos também como os acontecimentos históricos que testemunhámos moldaram não só a nossa vida como também a nossa personalidade, e mesmo até a maneira como vemos o nosso lugar no universo.

Alguns de nós, talvez por razões completamente aleatórias, tivemos a sorte (ou o azar, dependendo da perspectiva) de ser testemunha em certos acontecimentos que são tão marcantes para a sociedade em que vivemos, que eles servem de marcos para a história recente dessas sociedades, e que nos deixaram uma marca profunda para o resto das nossas vidas.

E alguns, embora em muito menor número, temos a experiência de ter participado directa e activamente nesses acontecimentos, como agentes ou mesmo dirigentes de uma vivência social e histórica em permanente mutação.

Contrariamente a qualquer outro valor material, a nossa natureza humana compele-nos a partilhar com outros a nossa história pessoal, pois sabemos que quando a morte nos chamar, o livro da nossa vida se fecha e apaga para sempre, e com ele se dissipa o tesouro do nosso conhecimento e da nossa experiência pessoal e íntima.

No meu caso pessoal, tenho consciência clara de que vivi momentos históricos extraordinários, que ficarão na história do mundo como marcos de mudança fundamentais para as sociedades em que vivi. Como exemplo, relembro o desmoronar do império colonial português e a independência de Angola. Estes acontecimentos foram únicos e de impacto profundo para a maioria dos Portugueses e dos Angolanos. Com eles se escreveu o último capítulo de uma sociedade em extinção, e com eles se abriu num outro livro, o primeiro capítulo para uma nova sociedade e nação.

No caso concreto de Angola, quem viveu na Angola Colonial, sabe bem apreciar as mudanças radicais que tiveram lugar desde a década de cinquenta do século passado até hoje, e como elas afectaram a vida de todos nós. Assim, em pouco mais que uma geração, fomos testemunhas de mudanças profundas nas vivências do passado, algumas das quais nós (a nossa geração) fomos os últimos a viver um modo de vida que desapareceu para sempre, deixando apenas em alguns de nós a saudade, e noutros o alívio de saber que esses tempos passados jamais voltarão.

Assim, sinto que tenho de partilhar com o mundo o que sei e senti numa Angola que já há muito não existe, pois sei que sou um membro da última geração que o pode fazer, baseado na minha experiência pessoal e directa. Sei que quem vier depois de nós e quiser contar a nossa história, se terá que basear no nosso testemunho directo. Eis assim uma razão fundamental desta minha Viagem Pela História de Angola.

No longo caminho de aprender história que começou para mim talvez em 1964 nas aulas de História do Quarto Ano dadas pela Dra. Judite Morais, no antigo Liceu Paulo Dias de Novais em Luanda, até aos dias de hoje, vieram-me muitas vezes à mente as seguintes perguntas: Porquê História? O que é que despertou em mim o interesse (quase paixão!) pela história? Perguntas postas não só por outros a mim, como também por mim próprio.

Desde que me lembro, tive sempre uma curiosidade imensa em indagar as raízes da nossa vida quotidiana. Porque é que vivemos a vida que vivemos, e quais foram os factores determinantes em vivermos num mundo de duas culturas (a africana e a ocidental), culturas que não estavam em completa sintonia uma com a outra?

Para melhor compreender estas perguntas penso que é necessário partilhar contigo um pouco da minha vivência pessoal de acontecimentos que vivi e que penso me vão ajudar nesta Viajem Pela História de Angola a demarcar mais claramente o contexto de momentos históricos que testemunhei. Peço assim, que me acompanhes por alguns minutos nesta viagem fantástica e pessoal desde há mais de 50 anos atrás.

Devo dizer-te de antemão que este troço da Viagem Pela História de Angola é mais Memória do que é História. É de facto o troço mais pessoal e íntimo desta Viagem, em que faço referência a pessoas e acontecimentos que foram importantes para mim. Não pretendendo narrar aqui a minha biografia em grande detalhe, mas entretanto e em poucas palavras tenho que dizer-te que ...


Tive sorte...

Sorte de ter nascido onde nasci
de ter tido a família que tive
de ter crescido onde cresci
Sorte de ter os amigos que tive

Sorte de ter vivido onde vivi
de ter acreditado no que acreditei
de ter vivido na época em que vivi
Sorte de ter pensado o que pensei

Sorte de ter vivido o que vivi
de ter chorado o que chorei
de ter vivido com quem vivi
Sorte de ter amado quem tanto amei

Sorte que assim guardo para sempre
valendo mais que todo o ouro
Lembra; tudo o que acima disse,
como o meu mais valioso tesouro.



Assim, descrevo a seguir alguns acontecimentos de que fui testemunha ou períodos que vivi, que não só me marcaram como pessoa, mas que também acredito foram marcos importantes no percurso da História de Angola nos últimos cinquenta anos.


2. Anos de Meninice

Lembro-me que, ainda na Vila da Damba (Uíge) em 1958 ou 59, não conseguia compreender porque é que o nosso criado africano de quem já me não lembro o seu nome, talvez da minha idade e ainda menino como eu, meu amigo e companheiro de diabruras sem fim, era "diferente" do meu amigo e vizinho João Nicolau (branco), também da minha idade e companheiro inseparável de aventuras?

Lembro-me ainda de uma viagem que fizemos a São Salvador do Congo (hoje Mbanza Kongo), onde me foi indicado a casa onde vivia o Rei do Congo, o que me deixou um pouco perplexo, pois apesar de a minha mãe já me ter falado dele e da sua corte no tempo da chegada dos Portugueses ao Antigo Reino do Congo, admirei-me que o Rei do Congo vivia numa casa "normal" (casa construída pelo Estado, em que o estilo era o mesmo do posto de saúde da Damba), e não num palácio ou uma cubata, e reparei que nunca tinha visto qualquer referência a ele nos livros de escola. Ao mesmo tempo, essa experiência original abriu-me a mente à história dos povos africanos em Angola, que decerto tinham a sua história, mas que por muito tempo se havia de mostrar como um mistério para mim.

Pensava às vezes que, talvez devido à minha incapacidade de encontrar resposta a essas perguntas, aceitava a vida como me era oferecida, sem ter que aprofundar mais o assunto. Contudo, a falta de resposta a perguntas como essas continuava a "roer-me" até encontrar resposta.


3. Refugiados do Congo Belga

Já em 1959 e 60, assisti à debandada dos europeus do então Congo Belga, onde tinhamos alguns tios e muitos primos com quem íamos passar férias de vez em quando, que diariamente passavam com os seus Mercedes abarrotados de carga pela nossa pacata Vila da Damba em direcção a Luanda. Para mim não fazia sentido a suspensão do Rally Automóvel Leopoldville - Luanda - Leopoldville (hoje Kinshasa), o maior acontecimento do ano naquelas pacatas paragens, e muito menos este êxodo de carros e famílias que dia-a-dia aumentava de volume e intensidade.

Perguntei à minha mãe o que é que estava a acontecer, e ela disse-me então que era por causa da independência do Congo Belga, e que era uma questão de tempo até nos acontecer o mesmo aos Portugueses em Angola.

A minha mãe (Maria Helena) nasceu em Leopoldville (hoje Kinshasa, no antigo Congo Belga, hoje República Democrática do Congo), passou a sua meninice em Lisboa, e veio para Angola ainda na sua juventude, onde viveu toda a sua vida, até ir para o Brasil em 1975, onde faleceu em Abril de 2010. Aminha Mãe foi sempre a pessoa que mais admirei durante toda a minha vida. Apesar das grandes e muitas vicissitudes que Ela enfrentou na sua vida, Ela nunca deixou de lutar contra a adversidade e injustiça, e manter sempre o ânimo no momento presente e a esperança de tempos melhores. Foi dela que herdei o gosto muito grande que tenho em aprender, em ver a vida como a vejo, e em ser a pessoa que me esforço ser. Ela falava bem kikongo e tinha uma boa compreensão da História de Angola em geral e do Antigo Reino do Congo em particular. O seu Pai (meu Avô, Júlio Pinto Correia) veio de Fratel, Castelo Branco, Beira-Baixa, Portugal, para África muito novo em 1887 para Boma, Matadi, e Leopoldville no Antigo Congo Belga, e Maquela do Zombo, Damba e região da Serra da Canda em Angola, e fez fortuna com a borracha e mais tarde com o café, mas não sem ter perdido quase toda a sua fortuna devido às graves crises económicas mundiais de 1918-22 e de 1929-33. O meu avô morreu em Luanda em 1955, depois de viver quase 70 anos em Angola. A minha avó (Ana Carneiro, que nunca conheci pois faleceu antes de eu nascer) era mestiça de descendência africana e era oriunda da região de Cabinda. O meu pai era natural de Trás-os-Montes (Vinhais, Bragança, Portugal) e foi para Angola em 1941 depois de terminar o Sétimo Ano no Liceu de Bragança. Como topógrafo, e enquanto vivemos em Luanda, o meu Pai, passava períodos extensos ausente de casa e trabalhando no mato (Bom Jesus, Cambambe, Munhango, Saurimo, Cazombo, Luimbala, Lungué-Bungo, Jamba, e Serra da Leba), durante os quais a minha Mãe tinha de assumir em casa o duplo papel de Mãe e Pai ao mesmo tempo.


4. Dissidentes Políticos

Mais tarde em 1960, fomos todos para Luanda porque a minha mãe estava de bebé da minha irmã Ana Paula, que havia de nascer na Maternidade de Luanda a 14 de Janeiro de 1961, portanto cerca de onze anos mais nova que eu. A minha irmã Maria Dilar, dois anos mais nova do que eu foi desde sempre a minha companheira de brincadeiras e diabruras. A minha irmã Maria Ema (dois anos mais velha que eu) estava nessa altura a estudar num colégio de madres em Portugal, e o meu irmão Rui Manuel (três anos mais velho que eu) estava internado no Colégio Brotero no Bairro do Cruzeiro em Luanda. Durante a nossa estadia em Luanda ficámos em casa de uma amiga de infância da minha Mãe dos tempos em que ela tinha vivido em Maquela do Zombo, a D. Lena Marreiros Morais, que morava na Travessa Conde Ficalho, perto da Padaria Lafões e da famosa Pastelaria Détinha (que bons Pasteis de Nata e Bolas de Berlim!!!.), entre a antiga Rua Coronel Artur de Paiva e a antiga Avenida dos Combatentes.

Numa conversa depois de jantar foi aí que tive conhecimento da Revolta da Baixa do Cassange e do uso de bombas Napalm pela Força Aérea Portuguesa para suprimir a revolta dos trabalhadores da Cotonang, então a maior companhia envolvida no negócio do algodão em Angola. Soube também nessa noite muito vagamente da prisão do Cónego Manuel das Neves e mais alguns membros da resistência angolana, que ao que parece estavam a conspirar uma revolta.

Ainda quando estávamos em casa da família Morais (o Sr. Alfredo, a D. Lena e Tommy (António Emídio, filho, da minha idade, e meu grande amigo de infância e falecido há uns anos), lembro-me que todos em casa acompanhámos de muito perto através da BBC Radio em ondas curtas todos os dias à noite o assalto e desvio do paquete "Santa Maria" das Caraíbas para o Brasil levado a efeito pelo Capitão Henrique Galvão e um grupo revolucionário que se opunha à ditadura de Salazar.

A família Morais eram amigos da nossa família muito chegados e de longa data. O Sr. Alfredo e a D. Lena eram conhecidos pela sua oposição ao regime de Salazar, e a vida em casa em certa medida reflectia a independência, mesmo até militância que os caracterizava. Na mesma casa residiam também temporariamente um casal novo com um bébé, o Adolfo Maria e a Lena (as três esposas eram Helenas: a minha mãe: Lena Ponte, a Lena Morais, e a Lena Adolfo, e os três maridos eram topógrafos). Não me posso esquecer o que as nossas mães (a minha e a do Tommy Morais) nos disseram para não responder a ninguém nunca qualquer pergunta sobre o Adolfo ou a Lena - as palavras da minha Mãe foram: "Não sei, não vi, não ouvi!" Isso fez-me "macacos na cabeça" pois não podia perceber porque é que tanto segredo era preciso para cobrir o Adolfo Maria e a Lena, mas, contudo, sem questionar, segui as prescrições à risca. Dias mais tarde, quando o Adolfo e a Lena tiveram que "mudar" para outra casa é que aprendi que a PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado, polícia política portuguesa, que eu ainda não sabia o que era) andava atrás deles.


5. O Ataque de 4 de Fevereiro de 1961

A família Morais tinha um criado (empregado doméstico) de nome Filipe, jovem africano ainda dos seus dezanove ou vinte anos, que tinha como aposentos um quarto ao fundo do quintal, e que na noite de 4 de Fevereiro não dormiu em casa. Aprendi no dia seguinte pelo Filipe, que com muito medo e em segredo me disse que tinha havido um assalto na noite anterior à cadeia de S. Paulo nos arredores de Luanda, nos quais tinham sido mortos sete polícias e muitos assaltantes africanos, membros do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), de quem tinha ouvido falar pela primeira vez.

Dias depois fomos ao funeral dos sete polícias no Cemitério da Estrada de Catete (antigo Cemitério Novo), onde para meu terror assisti a uma terrível confusão, com muitos tiros, muitos gritos, pessoas a fugirem para todo o lado, uns a caírem feridos, outros a tentarem abrigar-se do intenso tiroteio. Entretanto, tinha-me perdido da D. Lena e do Tommy, ficando paralisado (mais estarrecido, talvez) durante horas deitado ao lado da campa do meu avô que tinha ido visitar por uns momentos, até já à tardinha, quando já tudo tinha acalmado, mas com o cemitério ainda cheio de pessoas aterrorizadas, feridas e talvez algumas mortas, e um polícia me veio buscar e levou-me para a esquadra central da Polícia de Segurança Pública (PSP) ao lado da Livraria Lello, no Largo Pedro Alexandrino da Cunha (Largo dos Correios), na baixa de Luanda. Mais tarde, por cerca das oito horas da noite a minha mãe e a D. Lena Morais ansiosas me vieram buscar e levaram para casa. Ainda hoje, quando relembro esse acontecimento, vem-me à memória o sentimento de terror que senti nesse fatídico funeral dos sete polícias, e o sentido que esse acontecimento histórico teve para mim.


6. Os Ataques de 15 de Março de 1961

Mais ou menos duas semanas mais tarde regressámos à Damba, e talvez um mês mais tarde no dia 15 de Março de 1961 tiveram lugar os assaltos da UPA (União dos Povos de Angola) à povoação do Quitexe, a outras povoações, e a muitas fazendas de café no Distrito do Uíge, em que um número elevado de brancos e trabalhadores (contratados) do Bailundo (Huambo e Bié) foram mortos pelos revoltosos. Soubemos acerca desses acontecimento ao princípio da tarde dia desse mesmo dia, e com o meu Pai ainda em Luanda, lembro-me bem que a minha Mãe resolutamente decidiu em menos de uma hora e contra a opinião de todos os presentes, desfazer tudo o que tinha em casa, carregar algumas mobílias em duas camionetes, e partir nessa mesma noite nas mesmas com destino à Vila do Bungo.

Durante a viagem, já depois da povoação de 31 de Janeiro, um grupo de guerrilheiros ("terroristas" para uns, "heróis" para outros) de catana na mão bloquearam a estrada e tentaram parar os camiões em que seguíamos. O condutor do camião em que eu ia (a minha Mãe, e a minha irmã Dilar, e a minha irmã Paula de dois meses, iam no outro camião atrás do nosso) disse-me para me abaixar e abrigar, e decidiu não parar, pôs o pé no acelerador ao fundo e em velocidade crescente passou pelo grupo que acenavam suas catanas ao verem-nos passar. Foi tudo muito rápido, e no escuro, que salvo a luz dos faróis do camião, pouco mais se podia ver senão alguns vultos; mas lembro-me bem o terror que senti nesse momento.

Talvez uma hora e meia mais tarde chegámos à Vila do Bungo onde não nos deixaram prosseguir a viagem. Passámos o resto da noite na igreja da vila com o resto das mulheres e crianças num ambiente caótico e de angústia, guardados pelos homens da vila, armados e fazendo vigia à volta da igreja, onde se tinham reunido todos. De manhã, já a 16 de Março, e contra o conselho de todos, a minha Mãe insistiu em prosseguir a viagem para a Vila do Negage, onde nos tinha sido dito que uma ponte aérea estava a evacuar mulheres e crianças para Luanda.

Chegámos ao Negage ao meio-dia, sob uma chuva torrencial, de onde fomos dirigidos para a Base Aérea No.9 que ainda estava em construção nessa altura. Sob a chuva torrencial o barro vermelho não nos deixava sequer andar, contudo, com alguma dificuldade chegámos finalmente à Base Aérea do Negage, onde fomos encontrar centenas de mulheres e crianças refugiadas como nós à espera da sua vez para serem evacuados para Luanda. Horas mais tarde, nesse mesmo dia, fomos evacuados num avião NordAtlas ("Barriga de Ginguba" da Força Aérea Portuguesa) para Luanda, onde já chegámos à noitinha e o meu Pai nos esperava.


7. Luanda em 1961

Os primeiros dias em Luanda foram de grande apreensão para mim. Ainda muito novo para compreender a guerra iniciada pela UPA (União dos Povos de Angola) com os ataques de 15 de Março, incluindo os ataques ao Lucunga a 17 de Abril e à Damba a 17 e outra vez a 19 de Abril, em que amigos nossos muito chegados a nós foram torturados e depois barbaramente mortos à catanada, e em especial o ataque à nossa Roça de Novo Fratel em que os trabalhadores ou foram mortos ou fugiram para o mato, e os edifícios, máquinas, viaturas, mobílias, stock de café, e recheio, etc. foram completamente destruídos, e em que soube que os assaltantes fizeram uma fogueira muito grande com os livros da biblioteca valiosa do meu avô, foi muito difícil para mim fazer qualquer senso desta mortandade e destruição. Contudo, no meio de tanta aflição e tragédia, senti que tivémos sorte, porque fugimos a tempo e não tínhamos perdido nenhum membro da família.

A maioria dos "deslocados" do Norte, que nessa altura se contavam já por muitos milhares, tinham sido acomodados em centros de alojamento temporários e recebia ajuda alimentar, de vestuário e de medicamentos fornecidos pela Comissão Provincial de Apoio às Populações Deslocadas (CPAPD - o IARN de outros tempos). Quanto à nossa família, nós ficámos primeiro em casa de amigos de família (o Sr. Arlindo Cruz, falecido há muito, irmão ou cunhado (?) dos locutores Alice Cruz ou Carlos Cruz).

Poucos dias mais tarde, os meus pais decidiram alugar um apartamento na Rua António Enes, junto à Pastelaria Suíça, a caminho do Bairro de São Paulo, no segundo andar do prédio da Farmácia Confiança, já perto do Bairro Operário, e dois ou três meses mais tarde uma casa de primeiro andar na mesma Rua António Enes, mas mais a norte, em frente a um prédio de esquina que dava acesso ao Bairro Miramar, que a minha mãe e tias tinham herdado do meu avô que tinha morrido seis anos antes, e de cuja traseira se tinha uma vista geral do Bairro Operário em Luanda.

Uma vez na nova casa, eu e a minha irmã Dilar passámos a frequentar a Escola Primária Nº 8, ao fundo da Rua Mouzinho de Albuquerque, rua que ligava o Mercado de Quinaxixe ao Cemitério do Alto das Cruzes (Cemitério Velho), a caminho da Casa de Saúde de Luanda e à entrada do Bairro Miramar. Entretanto, assistimos quase diariamente a inúmeras rusgas de trabalhadores africanos que viviam no Bairro Operário, ou que simplesmente iam a pé para o seu trabalho ou regressavam para casa depois de um dia de trabalho ao longo da Rua António Enes, quase todos os dias, a qualquer hora do dia ou da noite, levadas a cabo pela polícia ou por grupos armados de vigilantes brancos que à mínima suspeita, ou mesmo sem qualquer razão, davam grandes cargas de pancada aos pobres africanos que por ali passavam.

Os nossos amigos, refugiados das áreas afectadas pela guerra ("terrorismo" para a administração portuguesa, "Luta de Libertação Nacional" para os Angolanos, e"Guerra Colonial" para a oposição ao regime do Estado Novo português) como nós, que encontravamos frequentemente, contavam-nos histórias horripilantes do que estava a acontecer no Norte de Angola, de amigos que foram mortos e do modo como foram mortos ou encontrados, e de todas as atrocidades que os guerrilheiros da UPA (União dos Povos de Angola) vinham perpetrando.

Talvez ainda em fins de Abril ou principios de Maio, já não me lembro exactamente o dia, fomos todos assistir à chegada das primeiras tropas portuguesas que tinham chegado a Luanda no navio Niassa. Lembro-me bem do desfile das tropas ao longo da Avenida Marginal, e da festa de recepção que fizemos a um nosso primo afastado João Graça (que nunca tinha conhecido antes) que era alferes e que tinha vindo no primeiro contingente de tropas portuguesas.


8. Anos de Juventude

Em Agosto de 1961, mudámos outra vez de casa, desta vez para a Rua 28 de Maio, No.9, no Bairro da Maianga, onde haveríamos de viver até 1969, pois eu tinha sido matriculado no Liceu Paulo Dias de Novais, situado na Cidade Alta ao lado do antigo Quartel General da Região Militar de Angola, em frente ao jardim que tinha a estátua de Mouzinho de Albuquerque. O liceu tinha nessa altura sido convertido de liceu feminino em liceu masculino para acomodar o número crescente de alunos vindos das áreas afectadas pela guerra cujas famílias se haviam de estabelecer em Luanda, e não retornar às áreas afectadas pela guerra, já que o novo edifício do Liceu Feminino D. Guiomar de Lencastre se tinha acabado de construir.

Apesar de ter gostado imenso do liceu (ou talvez por isso mesmo...), reprovei no primeiro ano, o que não agradou nada aos meus pais. Nos próximos anos fui crescendo e passando de ano para ano no liceu, e a começar a tomar consciência da realidade colonial em que vivíamos. Tive bons professores que despertaram em mim o gosto em aprender, ao mesmo tempo que com os amigos de Bairro ou de Liceu fazíamos as maiores tropelias, das quais ainda me lembro em especial do pobre Palhinhas (que vivia só (com 23 gatos!) numa casa abandonada perto do Cinema Restauração, na Avenida Álvaro Ferreira - do Hospital), e da Joana Maluca, uma demente muito popular nas ruas de Luanda desse tempo.

Na Maianga cimentei amizades profundas que, apesar de viver muito longe e sem convívio e volvidos que são mais de quarenta anos, ainda hoje muito prezo; como posso esquecer a Fatinha (!) e o Zeca, as manas Manuela e Olga, o Miúdo Vítor, a Manuela (Fininha) o José Luís Bernardino e a Lídia, o Afonso Fininho e irmãos, o Jorge Pinho, o Carlos e a Laura Russo, o Frédito, o Vítor Azevedo, a Emília, os irmãos Dario e Tó Sotto-Maior, a Paula Correia de Oliveira, o Tomané, o Fernando e a Fernanda Caetano, o Edgar e a Rosário, o Pedrocas, o Orlando Maio, os manos Brito, a Isabel, o Carlos e a Ana Maria Costa, o Joca (nosso vizinho), o Morgado, o Anapaz Pereira, o Russo, o Inglês, o Júlio e o Zé Gebo, o Tiago, o Celso e o Jorge, o Fernando Rosa Rodrigues, os irmãos Borralho, o Mário Jorge, o Adelino, o Jajão e a Titocas, os irmãos Paixão, e tantos outros, como os posso esquecer?

No Sporting Clube da Maianga, uma verdadeira escola para todos nós, comecei por jogar basquetebol (juvenis) por dois anos, mas que por não ser alto e ter pouca (quase nenhuma...) habilidade para tal, mudei para hoquei em patins (em júniores, em que a habilidade não era melhor). Como atletas do Clube, podíamos ir ao cinema sem pagar, o que resultou em ter ido ao cinema pelo menos duas ou três vezes por semana durante cinco ou seis anos, e o que me ajudou imenso a melhor perceber o mundo à minha volta. Foi ainda nas matinées dançantes de domingo à tarde no Sporting da Maianga que a minha paixão pela Odete Silva me deu a coragem para lhe pedir namoro.

Foi ainda na Maianga que tomei pela primeira vez contacto directo com a existência de dois mundos que a antiga Avenida António Barroso dividia: o da cidade para os brancos (Maianga e Alvalade) e o dos muceques para os negros (Catambor). Contudo, o Sporting da Maianga era o elemento aglutinador desses dois mundos em que o elemento "raça" não tinha grande significado.

Dos professores que tive no "Paulo Dias", realço o seu primeiro reitor Dr. António Saraiva de Carvalho, a Dra. Judite Morais, professora de História, a Dra. Maria Amélia (Matemática), a Drª. Paulina Bento Ribeiro (Francês), e em especial os Professores Eduardo Zink (de Desenho), Dr. Polidoro de Oliveira (Português) e do Padre Eduardo André Muaca (Religião e Moral) pois que com os seus ensinamentos e exemplo exerceram uma grande influência positiva na minha formação como cidadão e pessoa.

O meu encanto por África cresceu com a leitura ainda cedo da biografia de Albert Schweitzer e a sua obra no hospital de Lambarené, no Gabão, e de dois livros muito interessantes de Fernando Laidley "Roteiro Africano" e "Missão em África" que relataram a primeira viagem de automóvel à volta do continente africano num Volkswagen "Carochinha", e a única viagem de automóvel ligando as províncias portuguesas de África, num carro de marca Borgward, que hoje já não se fabrica. Através dessas obras aprendi que a África era na verdade um continente muito grande e diverso com regiões e povos muito diferentes.

Por outro lado, o meu interesse pela História de Angola começou com a leitura da obra de Gastão Sousa Dias "E Julgareis qual Será o Mais Excelente..." que tínhamos em casa, e dos muitos livros de Elaine Sanceau sobre a expansão portuguesa no mundo, dos quais "Os Portugueses no Brasil" se destacava. Lembro-me que aos poucos, e à medida que as poupanças me permitiam, comprei todos os livros da séria completa (a minha primeira colecção completa!) publicada pela Livraria Civilização, dessa grande mestra em história da expansão portuguesa no mundo.

Mais perto do caso pessoal da nossa família, lembro-me que vi e re-vi o filme "E Tudo o Vento Levou" - uma história pungente de romance passado na Guerra Civil Americana, no fim do regime de escravatura nos Estados Confederados do Sul, que a minha Mãe se referia com certa frequência, que me impressionou sobremaneira, e me ajudou a compreender melhor a razão porquê e aceitar que a nossa família não havia de voltar jamais à nossa Roça Novo Fratel, lugar que tanto amava, nas fraldas da Serra da Canda, entre a Damba e São Salvador, no coração do Antigo Reino do Congo.

Foi ainda no Liceu Paulo Dias de Novais que soube do desaparecimento inexplicado de alguns colegas angolanos de cor, dos quais nunca viemos a apurar se tinham sido presos pela PIDE, ou se tinham deixado Luanda para se juntarem aos movimentos de libertação que activamente recrutavam membros nos liceus de Luanda.

Desde muito cedo os meus pais cultivaram em mim o interesse pela história e pelo negócio (era um bom jogador de Monopólio), o que talvez subconscientemente me levou a seguir a Alínea "G" no Sexto e Sétimo anos (Ciências Económicas e Financeiras), quando mudei para o Liceu Salvador Correia. Os meus três anos no "Salvador Correia" (reprovei a Matemática e a Inglês) foram críticos para a minha formação como cidadão. Relembro ainda que era sagrada para mim a leitura da Revista Notícia todas as semanas, em especial os escritos de João Charulla de Azevedo (cujo lema era "Projecto o melhor, espero o pior, e aceito de ânimo igual o que Deus quiser", palavras que me iriam guiar para o resto da minha vida), e a crónica semanal "A Chuva e o Bom Tempo" de João Fernandes. Da imprensa diária em Luanda lia com frequência os jornais matutinos "A Província de Angola" (de maior circulação em Angola, e que líamos diariamente), e "O Comércio", e os jornais da tarde "Diário de Luanda"(sob certa influência do governo) e "ABC"(talvez o mais independente).

Entre os mundos das humanidades e das ciências no liceu Salvador Correia, os alunos da Alínea "G" tinham certas disciplinas com os cursos de línguas (românicas e germânicas), ciências histórico-filosóficas e direito, e outras com os alunos de ciências e arquitectura, o que me permitiu fazer muitas amizades. No Sexto Ano fui escolhido para fazer parte da turma experimental de Matemática Moderna no Liceu Salvador Correia - havia outra turma mista no Liceu D. Guiomar de Lencastre - que muito me ajudou a aprender a trabalhar melhor com os meus neurónios. Lembro aqui com saudade a figura do Dr. Vinhas Novais, que como professor da turma despertou em nós o interesse pela matemática não convencional. Lembro ainda as professoras Drª. Teresa Velhino (de Inglês) e Drª. Piedade (de alcunha Periquita, de Filosofia). Escrevi nesse ano o meu primeiro artigo sobre os Jogos Olímpicos modernos que foi publicado no nosso saudoso jornal "O Estudante", orgão dos alunos do Liceu Nacional Salvador Correia, que despertou em mim o gosto (mais tarde paixão) por escrever.

Nesse ano ainda, comecei a ajudar em matérias administrativas no conselho técnico do Sporting Clube da Maianga, sob a direcção do meu grande amigo e mentor Sr. Carlos Morais, funcionário dos Caminhos de Ferro de Angola e membro da direcção do clube, e do Sr. Renato dos Santos, pai do membro da SanzalAngola Renato dos Santos - Béná, que contribui frequentemente para aquele fórum. O Sr. Renato Santos, que era funcionário dos CTT (Correios, Telégrafos e Telefones) tinha perdido um braço num acidente ainda cedo na vida, mas mesmo assim e já não jovem, atravessava a Baía de Luanda a nado, só com um braço; a quem muito devo a ambos como aprendiz, o que me permitiu lidar com atletas de todas as categorias sociais, e de me aperceber de mais perto da diferença entre os dois mundos em que se dividia a sociedade angolana de então.

Ainda no Sexto Ano do liceu estive em casa doente cerca de dois meses, o que me deu a oportunidade de ler muitos livros dos meus pais, dos quais destaco "As Vinhas da Ira" de John Steinbeck, uma obra de um realismo social intenso que me marcou sobremaneira, baseada na experiência da Grande Depressão Económica na América nos anos Trinta, e em como uma família de trabalhadores agrícolas (os Oakies), vítimas de uma exploração atroz, tinha perdido todos os seus parcos haveres na pradaria de Oklahoma devido à Crise Económica de 1929, e decidira emigrar para a terra prometida da Califórnia, mas que nessa jornada ia sendo destruída aos bocados, e com heróica dificuldade sobreviveu a pobreza e exploração implacável do estado, dos bancos e dos grandes proprietários da terra na Califórnia de então. Li ainda todas as Selecções do Reader’s Digest desde que tinham começado a serem publicadas em língua portuguesa no Brasil (que os meus pais assinavam), li anos e anos de edições do Almanaque Bertrand que tínhamos em casa, e li e reli muitas vezes quase todos os artigos do gigante e velho "Dicionário Universal Lello" que tínhamos herdado do nosso avô.

Deste período de repouso nasceu "oficialmente" o meu interesse por livros e pela leitura, embora já desde muito jovem gastasse em livros o pouco dinheiro que com dificuldade amealhava, e o meu fascínio pela história como registo da experiência de sociedades e mundos passados.

Durante os meus anos no "Salvador Correia", fiz parte da equipa de remo da Mocidade Portuguesa, da qual era timoneiro, e que me deu a oportunidade de visitar o Lobito e Moçâmedes várias vezes nos campeonatos provinciais de remo, nos quais fomos campeões em alguns. Eu sempre gostei muito da praia e do mar, mas a prática de um desporto náutico nas tardes de fim-de-semana sob a brisa Baía de Luanda, que eu haveria de conhecer tão bem, foi para mim uma das actividades das quais guardo as melhores recordações.


9. Cursos de Vida Apostólica

No ano em repeti o Sétimo Ano do liceu tive a sorte de ter sido escolhido a participar num retiro de cristandade para jovens (os Cursos de Vida Apostólica - CVA), onde de perto me apercebi do papel que a religião e a ideologia tinham na formação e controle das sociedades luandense e angolana de então. Aí fiz grandes amizades que se mantêm até hoje, e aí aprendi o dilema da Igreja Católica em Angola durante toda a época colonial.

Cedo me entreguei a esse ideal nobre, pois, de facto, os CVA foi um bom movimento de juventude que fez uma obra notável em Luanda. Talvez pela minha dedicação ao ideal, dentro de pouco tempo fui escolhido para "responsável" (dirigente); dois anos mais tarde fui escolhido para substituir o meu grande amigo Luís Delgado, que por sua vez tinha sucedido ao carismático Toni Barbosa, no cargo de presidente do movimento. Como tal, tinha encontros frequentes com o corpo de dirigentes leigos e religiosos (Padre Francisco Janeiro e Capelão Padre Jorge), em especial com o (então) Bispo Auxiliar de Luanda D. Eduardo André Muaca, que me ajudou a "abrir mais os olhos" à situação de injustiça social que a população não-branca de Angola tinha que enfrentar no seu dia-a-dia. Natural da área Missãodo Lucula, posto de Tando Zinze, em Cabinda e de raça negra, o Padre André Muaca desde os bancos do Liceu Paulo Dias de Novais, e mais tarde como bispo na Arquidiocese de Luanda, teve uma influência extraordinária na minha formação, e guardo dele as melhores memórias como amigo genuíno, e guardo em especial a memória da cerimónia inesquecível da sua consagração como bispo a 31 de Maio de 1970, na Igreja de São Paulo em Luanda, já que Dom Eduardo era o primeiro bispo de raça negra em Angola, desde os tempos do Antigo Reino do Congo, na primeira metade do Século XVI, em que Dom Henrique, príncipe do Congo, tinha sido consagrado Bispo de Útica.

Os CVA ofereceram-me a oportunidade de conviver com um grupo muito mais amplo de amigos, oriundos de todos os quandrantes sociais de Luanda, e de pensar na melhor maneira de aplicar a minha energia em projectos concretos de relevância social; assim, envolvi-me em projectos de assistência ao Abrigo dos Pequeninos (em cooperação com a Associação das Vicentinas de Luanda (São Vicente de Paula) na antiga Avenida Lisboa - Aeroporto), e do Beiral dos Velhinhos (na Terra Nova), em que pude constatar ao vivo as necessidades reais dos desprotegidos pela sorte e esquecidos pela sociedade. Ainda no domínio social, recordo o bom convívio que a reunião semanal às Quartas-Feiras, a missa semanal às Terças-Feiras (incialmente na Igreja do Carmo, e mais tarde na Igreja da Sagrada Família), e a missa no Domingo à noitinha na Igreja de Jesus, nos ofereciam. Talvez como mais-valia do trabalho social em que nos empenhámos, ainda nos CVA aprendi a diferença entre fé e humanismo cristãos de D. Helder da Câmara, Bispo do Recife, abraçando gradualmente o humanismo cristão já que à medida que mais aprendia e trabalhava no terreno, a minha fé em Deus (e talvez nos homens) se desvanecia gradualmente. Decidi então, com grande dificuldade, deixar os CVA e abraçar o novo mundo que então na universidade se abria para mim. Contudo, apesar deste afastamento gradual da fé cristã, guardo dos CVA e dos amigos que lá encontrei as melhores memórias.


10. Universidade de Luanda

Embora os Estudos Gerais Universitários tenham sido fundados em 1962, a Universidade de Luanda em 1969 oferecia cursos somente em ciências, engenharia, medicina (em Luanda), agronomia e veterinária (em Nova Lisboa), e letras e história (em Sá da Bandeira), e era notória a falta em Angola de uma faculdade de direito e uma de economia. Os alunos que quisessem prosseguir estudos nesses campos tinham de fazer um exame de aptidão à universidade e depois seguir para a Metrópole (Portugal - Lisboa, Coimbra ou Porto) a fim de prosseguir os seus estudos nas universidades portuguesas.

O governo português era naturalmente adverso a esses desejos, e assim resistiu durante anos em autorizar que esses cursos fossem leccionados nas colónias. Contudo, em 1969, um grupo de alunos (que nós chamávamos Comissão Instaladora do Curso de Economia da Universidade de Luanda) finalistas do Liceu Salvador Correia (do qual eu fazia parte), de finalistas do Instituto Comercial de Luanda, e um número de alunos militares, resolveu concentrar energias no sentido de convencer o Governador Geral Coronel Rebocho Vaz e o Reitor da Universidade de Luanda Professor Doutor Ivo Soares da necessidade de se criar imediatamente uma faculdade de economia na Universidade de Luanda.

Para nosso espanto, o nosso pedido foi ouvido, e em Agosto de 1970, o Curso Superior de Economia foi estabelecido em Luanda (e em Lourenço Marques (Maputo), Moçambique), e moldado segundo o modelo do Curso Superior de Economia da Universidade do Porto. Em Agosto fiz o exame de aptidão à universidade do qual dispensei das provas orais (só três alunos em mais de cento e cinquenta fizeram essa proeza), e em Outubro atendia já as primeiras aulas na recém criada Faculdade de Economia, situada num prédio arrendado à firma Mário Cunha, junto à Faculdade de Ciências, na sublime Avenida Marginal (Paulo Dias de Novais, de nome oficial de então, e hoje 4 de Fevereiro), perto da Ermida da Nazaré.

Talvez pelo papel activo que tinha desenvolvido na fundação da Faculdade de Economia, fui eleito delegado de curso (e re-eleito no segundo ano), o que era para mim um cargo de grande responsabilidade. Fiz assim o melhor que pude em compreender, representar, defender e avançar os interesses dos alunos, e nesse processo tive o privilégio de trabalhar muito perto com o Professor Doutor Abílio Lima de Carvalho, fundador e director do Curso Superior de Economia, que aos poucos se ia construindo. O Professor Lima de Carvalho, recentemente falecido, era um homem justo, uma mente brilhante, um cientista social de craveira internacional, e um organizador nato. Com ele aprendi muito e com ele travámos juntos umas poucas batalhas com o Reitor Professor Ivo Soares e Vice-Reitor Professor Fernando Real e a burocracia da Universidade das quais o resultado era normalmente positivo para nós, e com ele aprendi melhor qual o papel que a universidade cabia desenvolver na dinamização económica e social de Angola. Desde então me apercebi da exploração colonial e do aparelho de repressão que era preciso para manter esse estado de coisas, e desde cedo me apercebi que ainda tinha muito que aprender em separar "o trigo do joio", em chegar à raiz das razões fundamentais de certas decisões do poder político.

No Terceiro Ano deixei de ser delegado de curso e dediquei-me à obra de expandir os serviços de alojamento da Universidade, que em três anos do meu trabalho árduo (e de mais alguns) cresceu em termos de lugares em residências universitárias de seis alunos inicialmente para mais de duzentos três anos mais tarde, o que ainda era um número muito aquém das necessidades dos alunos que vinham do interior para Luanda seguir os seus estudos superiores. Ainda durante esses três anos, e talvez porque era estudante de Economia, fui eleito Presidente do Conselho Fiscal do nosso saudoso CDUA (Centro Desportivo Universitário de Angola). Ainda nesse ano completei o meu primeiro estudo da Indústria Extractiva em Angola, que ganhou o primeiro lugar do prémio institucionado pela Secretaria Provincial de Economia e destinado aos alunos da Faculdade de Economia da Universidade de Luanda, e fui mais tarde escolhido para colaborar na prestigiosa revista de actividade económica "Prisma" como assistente de pesquisa. Lembro-me que o prémio de vinte contos ($20.000) da Secretaria Provincial de Economia era relativamente grande (para mim, pelo menos como estudante), o que me levou a comprar uma calculadora científica programável com um display de 12 dígitos, que me custou bom dinheiro.

Durante o terceiro ano (1973/74) estive doente a maior parte do ano. Depois de muitos testes para encontrar a doença, os médicos apuraram que tinha sido causada por ter bebido leite que não tinha sido pasteurizado devidamente, e que tinha sido infectado com a bactéria que causa a brucelose nos animais. Entretanto, estive internado durante dez dias no pavilhão de doenças infecto-contagiosas (perto do Teatro Anatómico da UL, da Delegacia de Saúde, do Hospital dos Malucos, e da Casa Mortuária - que bela companhia...), por ter sido diagnosticado erradamente com hepatite; dez dias que foram decerto os mais escuros da minha vida, pois vi todos os dias doentes (companheiros de infortúnio como eu) a morrerem no maior sofrimento, e em que perguntava diariamente a mim mesmo quando é que era a minha vez...

Rectificado o engano, mandaram-me para o Hospital Universitário, onde estive internado por quase dois meses mais. Durante a estadia no hospital, li grande parte da obra de Karl Marx parte da de Lenin, e a obra completa de Frederic Nietzsche traduzida em português, e "O Estrangeiro" e "O Mito de Sísifo" de Albert Camus, que me "transformaram" marcadamente, e que me ensinaram que afinal a humanidade não tinha sido uma criação divina; mas, com efeito, a divindade era uma criação humana.

Li ainda nessa altura a preciosa obra "O Processo Histórico", originalmente publicado em 1938, e da autoria de Juan Clemente Zamora, professor de ciências políticas das universidades de Havana e Miami, talvez a obra mais marcante na minha formação em termos das relações entre a história, a economia política, a religião e a ideologia, a ciência política, no contexto do quadro geral do desenvolvimento da humanidade.

Ainda no hospital, fiz amizades breves com outros doentes que lá estavam internados, dos quais destaco um homem de idade avançada (de quem não me consigo lembrar do nome e a quem assisti à sua morte na presença da sua esposa e duas filhas), que tinha sido do quadro administrativo superior em várias províncias ultramarinas e que tinha passado muitos anos em Timor, como Intendente de Administração Civil, que pelas estórias que me contava todos os dias à tarde, fiquei encantado com a longínqua e exótica província ultramarina portuguesa. Encontrei ainda um outro velhote, de nome Belchior, que me disse sem grandes problemas, que num momento de maldade tinha trincado e arrancado o nariz à mulher, e o guardou durante três dias no bolso..., pelo qual merecidamente passou algum tempo na cadeia.

Este encontro com a doença fez-me apreciar mais a vida e até encarar a morte com certa resignação. Contudo, foi a batalha pela vida dos doentes que ao meu lado todos os dias via morrer, que me levou a compreender quanto insignificante, breve e efémera a nossa vida é; e ao mesmo tempo quanto universal e cheia é a nossa passagem por este mundo.

De volta à Universidade, perto que estava dos centros de decisão, comecei a compreender melhor como o aparelho político colonial funcionava. Ao mesmo tempo, comecei a reconhecer com mais facilidade as diferentes correntes de pensamento e de acção que então actuavam nos "subterrâneos" da nossa universidade. Não demorou muito até que me havia de meter "até às orelhas" numa luta aberta e vigorosa de debate de ideias políticas com outras correntes e grupos, e muito menos tempo em fundarmos a nossa própria associação - a GEFA (Grupo de Estudos para a Futura Associação), da qual eu era um dos líderes principais. Contrariamente, ao que a oposição apregoava nos corredores da Universidade e nas grandes Reuniões Gerais de Alunos (RGA's), a nossa GEFA era completamente genuína e independente, e não tinha qualquer ligação partidária com quaisquer dos três movimentos de libertação (MPLA, FNLA e UNITA), com a facção Chipenda, ou com a Revolta Activa, e menos ainda com a FUA (Frente de Unidade de Angolana), do Engenheiro Falcão, de Benguela.

Apesar de ter trabalhado nas férias grandes nos anos anteriores (dois anos na Proquímica (produtos farmacêuticos), um ano na firma Rocha Monteiro (equipamento para fotografia, relógios, óptica), e no meu último ano do liceu na Secretaria de Fazenda do 1° Bairro Fiscal (no rés-do-chão do prédio da Fazenda na Mutamba, hoje Ministério das Finanças), nos últimos três anos fui passar as férias grandes (de Junho a Setembro) em Cabinda com os meus Pais.

Cabinda encantou-me desde o primeiro minuto que a vi - a floresta frondosa do Maiombe, as boas praias, o seu povo franco e aberto, e a presença de muitos estrangeiros a trabalhar nos poços de petróleo da Cabinda Gulf Oil. Naturalmente, interessei-me pela sua história, pela sua economia, e pela sua situação especial no quadro político e administrativo de Angola. Contudo, o que mais tenho saudade é dos sons de música congolesa pela noite fora das rebitas situadas nos "povos" (vizinhanças, sanzalas) à volta da cidade. Cabinda à noite oferecia uma "paisagem" especial, pois os poços de petróleo ao largo do mar ardiam permanentemente (para queimar o sobreproduto do gás natural), o que davam uma cor laranja às noites mais claras.

Uma vez em Cabinda, o meu Pai ofereceu-me nessa altura três livros acerca de Cabinda (No Mundo dos Cabindas, e Filosofia Tradicional dos Cabindas (em dois volumes), ambos da autoria do Padre José Martins Vaz, e Cabindas - História, Crença, Usos e Costumes, da autoria do Padre Joaquim Martins, que me ajudaram a melhor compreender a história e a cultura desse povo tão especial. Ainda em Cabinda conheci a minha querida amiga Maria João Gomes, nessa altura estudante finalista do curso de Serviço Social (do Instituto de Educação e Serviço Social Pio XII em Luanda), que, com outras colegas, estava empenhada em preparar um trabalho final de curso (Seminário sobre Planeamento do Desenvolvimento) sobre um esquema de planeamento regional para o Distrito de Cabinda. Planeamento regional e desenvolvimento económico foram para mim na Universidade dos temas que mais me interessaram (eu era um dos melhores alunos nessas cadeiras), de forma que com grande prazer a ajudei a minha querida amiga Maria João no muito pouco que podia, a enquadrar o factor económico na estrutura do Seminário.

Com mais tempo em casa dos meus pais durante as férias, li grande parte da obra de Jorge Amado (o escritor predilecto do meu Pai), que me abriu os olhos à situação de pobreza crónica do povo do Nordeste Brasileiro, e que me ensinou a saborear a sua mestria pela palavra escrita, e a sua sabedoria sobre o universo mágico e tropical da grande mistura que era o Nordeste do Brasil. Da obra de Jorge Amado, gostei em especial das obras "A Seara Vermelha", "Os Subterrâneos da Liberdade" I (Os Ásperos Tempos) e II (Agonia da Noite), e III (A Luz no Túnel), "ABC de Castro Alves", "São Jorge dos Ilhéus" e "Capitães da Areia". Através de Jorge Amado aprendi a gostar do Brasil e aprendi a influência que os escravos de Angola tiveram na formação do Brasil, e como os seus descendentes continuavam a ser explorados pelas classes dominantes. Li ainda a obra completa de Soeiro Pereira Gomes, que simplesmente adorei, da qual destaco "Esteiros", escrito "para os filhos dos homens que nunca foram meninos", um grande mestre do realismo social português da década de Quarenta (1940's).

É certo que a política associativa universitária em breve substituiu os estudos como razão principal para eu estar na universidade(?), mas ela também me proporcionou a oportunidade de ler, escrever e debater muito, muitas vezes contra forças muito maiores que as nossas. Li assim todos os livros proibidos pela PIDE que corriam nos "subterrâneos da liberdade" da nossa UL. Não posso esquecer as discussões acesas que tínhamos durante noites e noites inteiras com colegas como o Freddie Salles Esteves, Mickey, António Carranca, Lima Lobo, Freitas Basílio, Manuel Ribeiro, Zé (Agostinho) Neves, Lena Robalo, Sá Carneiro, Pena Pires, Carlos Moura, Celeste Vilarinho, Xíbias e Alfredo Franco, e muitos outros dos quais não me lembro mais dos nomes. Dos muitos colegas amigos que tive na UL, lembro a Manuela Moura, o Carlos Gomes, a Graça Koch-Fritz, a Maria José Trancoso, a Ita Delgado e o Peter, a Gracinha Coelho, o Seara de Morais, o João Chabert Ferreira (meu colega desde o primeiro ano do Liceu Paulo Dias de Novais...), o Jorge Pestana (tambem amigo de longa data), a Rosário Penha Gonçalves, o Manso Gigante, o Helder (do Lobito), o Octávio, o Cristo Alves, o Madeira, o Manso Gigante, o Fernando Quelhas, o (Manuel Gonçalves Francisco) Xico e a Lena Jorge, o Zé Pedro, e de muitos outros dos quais não me lebro agora dos nomes. Não posso, porém, deixar de referir aqui e agora a amizade especial e profunda (mais do que "amizade", reconheci tardiamente...) que nutria pela Lena Vitória Pereira, então já médica estagiária no Hospital Universitário, e da amizade que ao longo desses anos mantive com o Manuel Ribeiro (um irmão mais velho para mim) e a nossa Ventoínha (Manuela Pestana, hoje médica na Portela de Sacavém em Portugal) que tanto me ajudaram; e do Tónio e Ema Delgado, amigos tão chegados de tantos anos. Recordo ainda as "noitadas directas" de 24 e mesmo 36 horas seguidas (sem descanso!) a jogar King na Residência Universitária na Rua Oliveira Barbosa com o Tónio Delgado, o Xíbias, o Guerrita, o China, o Bolacha, o Vascão, o Óscar (... Ligório da Piedade Álvares Furtado - que nome tão nobre, nunca hei-de esquecer!), o Peidinhas (Fonseca Santos), e outras "aves raras" que por lá aterravam regularmente.

Como resultado dessa experiência, e apesar da insistência dos convites recebidos de todos os quadrantes políticos, decidi não me associar a nenhum movimento de libertação ou partido político, que nessa altura andavam a recrutar alunos para seus membros, pois o que aprendi acerca deles me desencantou um pouco logo desde o princípio; decisão essa que havia de ter peso mais tarde na minha decisão final de deixar Angola antes da Independência.

Apesar do papel secundário que a Universidade de Luanda teve na luta ao poder em Angola após o golpe militar português de 25 de Abril de 1974, não podemos deixar de reconhecer que ela serviu de campo de treino para muitos estudantes que mais tarde se associaram a um dos três movimentos de libertação nacional (o MPLA, a UNITA e a FNLA) e nos quais desenvolveram um papel de relevo.


11. O Golpe de 25 de Abril de 1974 em Portugal

O golpe militar do 25 de Abril levado a cabo pelo MFA (Movimento das Forças Armadas) foi uma surpresa para todos em Angola; contudo, não era completamente inesperado. Era do conhecimento geral as dificuldades que o governo português enfrentava em continuar uma guerra muito cara em três frentes distantes e sem apoio popular; sendo assim mais uma questão de "quando" em vez de "se" havia de acontecer. Embora numa boa posição militar em Angola, Portugal enfrentava uma derrota eminente na Guiné, e uma guerra cada mais difícil na forma de uma derrota possível em Moçambique, o que rendia a presença portuguesa em África como não sustentável no longo curso.

Assim, quando a Revolução dos Cravos desabrochou, obteve imediatamente o suporte da grande maioria do Povo Português, apesar de ter sido recebida com certa apreensão nas colónias. Como sabemos, a Revolução de Abril foi uma revolução genuína, pois substituiu em Portugal a ditadura fascista do Estado Novo pela democracia parlamentar multi-partidária. Em pouco mais de um ano, Portugal desfez-se do seu dispositivo militar extenso, de instituições políticas antiquadas, e desfez-se do seu imenso império ultramarino, voltando-se, pequeno e pobre, para a Europa, depois de mais de cinco séculos de vocação ultramarina.

No que respeita a Angola, a Revolução de Abril abriu o caminho para a sua independência. Não preparada que estava para assumir a independência política imediatamente, o povo angolano acabou por pagar um preço alto pelo "presente" que se lhe tinha sido oferecido pelo Movimento das Forças Armadas (MFA). A sua posição estratégica e as suas riquezas minerais levaram Angola a transformar-se num peão no xadrez global da Guerra Fria, e como tal, num gigante teatro de uma guerra fraticida que havia de durar quase trinta anos, e destruir toda a sua infra-estrutura económica e social deixada pelos Portugueses, deixando cicatrizes profundas na sua memória nacional.


12. Exército Português

Já com 24 anos, fui chamado a prestar serviço militar obrigatório no Exército Português, e fiz a minha recruta de oficial miliciano na Escola de Aplicação Militar em Nova Lisboa (EAMA), de Junho a Setembro de 1974. Entretanto o meu Pai tinha falecido inesperadamente em Cabinda a 23 de Maio do mesmo ano. Terminei a minha especialidade de intendência em Luanda, e fui colocado como Aspirante na divisão de abastecimento de combustíveis da Chefia dos Serviços de Intendência em Luanda (em frente ao Palácio do Comércio, hoje Ministério das Relações Exteriores). Em Abril de 1975 fui graduado em Alferes e transferido para o Comando de Sector de Cabinda para ajudar o Capitão Luz na substituição do Capitão Júlio Maneta, amigo do meu Pai, que tinha desertado pouco antes para o Brasil.

A minha experiência militar foi mínima, mas em Cabinda (a cidade onde os meus pais viveram durante alguns anos, e onde o meu irmão Rui ainda vivia) tive o privilégio de trabalhar no esforço de construir um exército nacional angolano unificado a partir dos três exércitos dos movimentos de libertação. Tarefa impossível, como se pode imaginar. Contudo, lembro-me do afinco com que me dediquei a esta importante tarefa, e lembro-me também do que aprendi no lidar do dia-a-dia com um número grande de unidades militares portuguesas e dos movimentos de libertação então espalhadas pelo distrito.

Saído ainda fresco da universidade, o meu destacamento em Cabinda foi um embate de choque para mim, pois ter que responder à responsabilidade de garantir alimentos, medicamentos, tabaco, cerveja e outras bebidas alcoólicas, caixões e munições a um exército de alguns milhares de homens em retirada não foi tarefa fácil. Contudo, não tive outra alternativa senão aprender bem, e aprender depressa.

Como no resto de Angola, os movimentos de libertação estavam em guerra aberta entre si, e Cabinda não foi excepção. Assim, o papel do Exército Português em Cabinda entre Julho e Outubro de 1975, resumiu-se a tentar trazer os movimentos de libertação à mesa de negociações, tentar construir consenso, tentar evitar conflitos, e recolher corpos de vítimas espalhados pela cidade e arredores na manhã seguinte a conflitos entre os movimentos na noite anterior. Não posso esquecer que numa noite em que sabíamos que iam haver combates nos arredores da cidade, convocamos os representantes dos três movimentos de libertação para uma maratona de negociações que durou a noite inteira e quase esvaziou os ricos stocks de whisky e conhaque da mansão (tinha 14 quartos de dormir!) de convidados da Companhia de Cabinda, mas que salvou a cidade de mais combates e mortes, contudo não salvando os dirigentes dos exércitos dos movimentos dos efeitos nefastos de uma memorável "torcida".


13. O Adeus a Angola

Nos primeiros dias de Setembro de 1975 regressei a Luanda para casar com a minha Princesa do Huambo (Estela Monteiro), de Nova Lisboa (Huambo), só tendo que voltar a Cabinda por uns dias, e então regressar definitivamente a Luanda em meados de Outubro. O nosso casamento foi simples pois a maioria dos nossos familiares e amigos já não estavam em Luanda, e não havia muito que comprar em termos de iguarias de festa de casamento. Contudo, a Ivone e o Ilídio, irmã e cunhado da Estela, tudo fizeram para que tivessemos uma festa farta e memorável. Entretanto, a minha Mãe e as minhas irmãs Paula e Ema tinham já partido para Portugal e a minha irmã Dilar e família tinham também já partido para o Brasil; só o meu irmão Rui teimava em continuar em Cabinda. Os meus sogros tinham ido também para Portugal, directamente de Nova Lisboa, e os meus cunhados tinham entretanto ido para o Canadá, pelo que em Angola, só ficámos eu, o meu cunhado Ilídio, e o meu irmão Rui; eu e o Ilídio em Luanda e ele em Cabinda.

Desde os grandes combates de Julho de 1975 entre os movimentos de libertação, Luanda depressa se transformou numa cidade de caixotes. Era desolador ver uma cidade maravilhosa a esvaziar-se dos seus habitantes, pois cada dia que passava havia menos gente nas ruas, menos coisas para comprar (as prateleiras das casas comerciais estavam vazias, os restaurantes estavam fechados por falta de alimentos), a inflação cada vez mais incontrolável, e mais caixotes nas ruas ou nos cais à espera de embarque. A ponte aérea esvaziou Luanda ainda mais depressa. Por fim, em Setembro a Universidade de Luanda fechou, e em Outubro Luanda parecia já uma cidade deserta e sem vida.

Entretanto, os combates entre as FAPLA e o ELNA a norte de Luanda (Caxito e Quifangondo), e entre as forças cubanas e sul-africanas no centro do país, atingiram uma intensidade nunca vista, o que aumentou a angústia de muitos que viram na saída do país a sua única solução; assim, muitos angolanos que não tinham ideias de partir, deram conta de si como parte da multidão que diariamente deixava Angola com destino a lugar desconhecido e a vida incerta.

E assim amigos,
como muitos,
deixei Angola,
a minha querida pátria,
sem dizer sequer adeus,
na noite escura de 7 de Novembro de 1975.

terça-feira, Maio 30, 2006

1.1 Dedicatória

Dedico esta Viagem Pela História de Angola à memória de minha Mãe, Maria Helena, que desde tenra idade despertou em mim a curiosidade pela leitura e o gosto pelo estudo da História de Angola.

Dedico-a também à saudosa memória do meu irmão Rui Manuel pela lição de amor a Angola que me deu.

Cumpre-me ainda registar aqui a minha gratidão a minha esposa Estela (Princesa do Huambo) e ao nosso filho Marco Alexandre por todo o suporte, paciência e resignação que ao longo dos anos sempre mostraram por esta obra solitária.