Helder Fernando de Pinto Correia Ponte, também conhecido por Chinguila nos seus anos de juventude em Luanda, Angola. Nasceu em Maquela do Zombo, Uíge, Angola, em 1950. Viveu a sua meninice na Roça Novo Fratel (Serra do Cusso) e na Vila da Damba (Uíge), e a sua juventude em Luanda e Cabinda. Frequentou os liceus Paulo Dias de Novais e Salvador Correia, e o Curso Superior de Economia da antiga Universidade de Luanda. Cumpriu serviço militar como oficial miliciano do Serviço de Intendência (logística) no Exército Português em Luanda e Cabinda. Deixou Angola em Novembro de 1975 e emigrou para o Canadá em 1979, onde vive com a sua esposa Estela (Princesa do Huambo) e filho Marco Alexandre. Foi gestor de um grupo de empresas de propriedade dos Índios Kootenay, na Colômbia Britânica, no sopé oeste das Montanhas Rochosas Canadianas.Gosta da leitura e do estudo, e adora escrever sobre a História de Angola, de África e do Atlântico Sul, com ênfase na Escravatura, sobre os quais tem uma biblioteca pessoal extensa.
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Esta
é uma tarefa contínua sem fim imediato em vista, pois continuo a melhorar este blogue
continuamente. Assim, volta em breve, pois vais encontrar algo de novo!
Obrigado pela tua companhia, e também pelos teus comentários.
Nota Prévia
Este blogue é um pouco diferenete de todos os meus outros blogues sobre esta fascinante Viagem Pela História de Angola. Em vez de se debruçar sobre factos e factores específicos das minhas memórias ou da História de Angola, ele cobre os grandes temas da história da humanidade desde os tempos mais remotos até à actualidade (a chamada macro-história), e como a História de Angola se enquadra neles.
Assim, apesar de o tema África ainda ser predominante, nós vamos cobrir aqui a "Grande História", os grandes movimentos de povos (migrações), o encontro e interacção de culturas materiais entre o Velho e Novo Mundo, o desenvolvimento do comércio global à escala planetária e os sistemas económicos que daí resultaram, a grande troca de plantas, animais, alimentos, e doenças através do mundo, e o movimento milenar do conhecimento e das ideias ao longo da escala histórica, desde os tempos mais antigos até aos dias de hoje.
Uma vez completada esta excursão sobre estes temas macro, passamos a focar a nossa atenção a um campo de conhecimento muito mais específico - a etno-história do povo Bakongo, em especial da Damba, no norte de Angola, vila que me viu crescer até 1961.
3. Uma História Breve sobre Quase Tudo o que Existe
Este é o título do livro popular de Bill Bryson e adapta-se bem ao que vamos cobrir neste blogue. A amplitude da história que nós aprendemos no liceu, apesar de ser designada como disciplina de "História Universal", ela era na verdade muito circunscrita e limitada. Ela era uma história euro-cêntrica e limitava-se a estudar e interpretar o que aconteceu depois da adopção da escita por alguns povos e focava na cultura cristã ocidental. Aprendíamos muito pouco sobre a pré-história, e ainda menos sobre as outras civilizações, principalmente as da Ásia Antiga e das Américas antes de Colombo. De facto, essa "História Universal" antiga ia ao ponto de negar a história de muitos povos habitando grandes regiões do mundo, como foi o caso dos povos africanos a sul do Sahara.
Quem quizesse debruçar-se sobre o estudo destas áreas de estudo da história tinha de "sair" do currículo tradicional e explorar uma história universal que ainda não estava organizada numa disciplina geral de estudo.
A perspectiva da "Grande História" (Big History), que passamos a descrever neste capítulo, é um enfoque em História que amplia o estudo do passado desde o inicio do universo até ao final do mesmo. Este enfoque histórico foi desenvolvida há cerca de duas décadas
pelo estudioso australiano Prof. David Christian, do Departamento de
História da Universidade de Macquire, em Sidney, na Austrália.
A "Grande História" pode ser entendida como uma História verdadeiramente universal ampliada a tudo no universo, que inclui não só sociedades humans desde a adopção da escrita, mas tudo o que existe (não só humanos) e o que existiu desde a criação do universo até ao futuro. Assim, ela amplia o escopo da história de cerca de 5.000 anos para cerca de 13,8 bilhões de anos. Ela é multi-disciplinar, pois include química, física, cosmografia, microbiologia, biologia, zoologia, botânica, paleontologia, pré-história, arqueologia, e história convencional numa história verdadeiramente universal que inclui tudo e todos os povos.
Dabvid Christian lembra-nos que numa perspectiva universal e eterna tudo é efémero - tudo o que nasce, há-de se transformar e eventualmente morrer, e dar lugar a novas formas mais complexas. Ele tece ainda alguns prognósticos possíveis sobre o que o futuro nos guarda.
Ele divide a história completa do universo em oito grandes fases (patamares) de complexidade crescente, que descrevo em maior detalhe no resto deste capítulo,
1 - O nascimento do universo - A Grande Explosão
2- A formação das estrelas (de entre as quais o Sol), e galáxias
3 - A formação dos elementos químicos fundamentais (da Tabela Periódica)
4 - A transformação e morte das estrelas e a formação de cometas e planetas, entre os quais a Terra
5 - A emergência de vida na Terra - incluindo as diversas formas de vida
6 - O aparecimento de homnídeos e da espécie humana (pré-história)
7 - O desenvolvimento de bandos, tribos, chefados, estados, impérios, e civilizações, e,
8 - A civilização industrial
A sequência e transição destas fases é o resultado daquilo a que David Christian chama "Goldilocks conditions", ou em português, condições aleatórias ideais para mudança - uma condição necessária e suficiente - nem tão quente, nem tão frio, mesmo perfeito, um patamar perfeito para a criação de novas formas mais complexas.
Nós sabemos hoje que o homem, como espécie animal (Sapiens sapiens), nasceu em África. Contudo, a humanidade é resultado de um processo de evolução que começou há cerca de 13,8 bilhões de anos atrás quando o Big Bang (a Grande Explosão) teve lugar e de um ínfimo atómo, tudo passou a existir - o Universo - constituído por espaço, tempo, matéria, e energia.
O desenvolvimento do universo é um processo quase perpétuo que ainda hoje está em evolução (o universo ainda está em expansão), se bem que se estime que num futuro muito distante, há medida que a energia se comece a esgotar, tudo morra e desintegre; os planetas e as estrelas hão-de morrer, bem com as galáxias, e finalmente o próprio universo, como o conhecemos, há de implodir.
Nós não sabemos ainda o que existia antes da Grande Explosão, se bem que podemos inferir que não existia nem espaço nem tempo. Mas sabe-se que a energia libertada na explosão em cadeia dos átomos resultantes do Big Bang deram origem à matéria, e esta a sistemas de estrelas com os seus planetas, formando assim galáxias e o próprio universo. Assim estrelas são rodeadas de planetas, cometas, e asteroides. Por sua vez, os planetas são rodeados por planetas-anões, luas, e asteroides.
Muitas das galáxias, compostas por mais de 400 bilhões de estrelas, que existem hoje começaram a formar-se entre 13 e 10 bilhões de anos atrás. A nossa galáxia, a Via Láctea, constituída por entre 200 a 400 bilhões de estrelas, a galáxia em que o Sol e o planeta Terra se encontram, começou a formar-se há cerca de 10 bilhões de anos. O Sol formou-se há cerca de 4,567 bilhões de anos, dando origem quase imediata aos planetas que o orbitam há pouco mais de 4,54 bilhões de anos atrás.
Segundo a interpretação histórica da Grande História, tudo se desenvolve a partir de unidades simples para entidades mais complexas, que por sua vez se tornam cada vez mais complexas ao longo do processo de evolução.
Este processo de evolução do Universo, baseado no principio da complexidade, derenrola-se ao longo de bilhões de anos. Esta primeira fase (Big Bang, estrelas, galáxias, planetas, e a Terra) é chamada a fase inanimada (sem vida).
Acredita-se que os planetas se formaram a partir da agregação de matérias rochosas que tinham sido desprendidas das estrelas que morriam em forma de erupções de gases, mas que viajando grandes distâncias nas suas órbitas ligeiramente elípticas, arrefeceram e solidificaram dando origem a meteoros, e que atraídos pela acção da gravidade da Terra e de outros planetas acabaram por chocar e se consolidar com eles, aumentando assim o tamanho desses planetas.
No caso especial do nosso planeta Terra, acredita-se que ele é de facto o resultado de uma colisão que teve lugar há cerca de 4,5 bilhões de anos atrás, e da consequente consolidação de dois pequenos planetas Terra e Teia que eram aproximadamente do mesmo tamanho que Marte) num só planeta maior. Nesta colisão cósmica, uma pequena porção de matéria não foi absorvida pelo planeta, tendo sido libertada e passando a circular na sua órbita, o que se veio a tornar o núcleo da criação da Lua.
Assim se formaram os planetas do sistema solar, como o planeta Terra que orbita a cerca de 8 minutos-luz à volta do Sol. A Terra só tem uma lua. Mercúrio é o planeta mais próximo do Sol (a 3 minutos-luz), Vénus (6 minutos-luz) é o segundo mais próximo e muito parecido em tamanho com a Terra. Marte, a 12,5 minutos-luz do Sol é um planeta pequeno de cerca de um décimo do tamanho da Terra e coberto de gelo. Em termos de consistência material, os planetas Mercúrio, Vénus, Terra, e Marte são formados por rochas, ao passo que Júpiter, Saturno, Urano, e Neptuno são constituídos por matérias gasosas. Júpiter, o maior planeta de todos (320 vezes maior que a Terra, é constituído na sua maioria por hidrogéneo e hélio, e está a 43 minutos-luz do Sol). Júpiter é sujeito a grandes tempestades. Saturno é um paneta grande (cerca de nove vezes o tamanho da Terra e 95 vezes a sua massa) orbitando a cerca de 78 minutos-luz do Sol. Saturno é conhecido pelos muitos aneis (das quais 62 luas) que orbitam à sua volta. Urano está a 2,5 horas-luz do Sol e é o planeta mais frio do sisyema solar. O planeta mais distante é Neptuno, que está a 4 horas-luz do Sol, também muito frio. Para termos uma ideia da distância de Neptuno ao Sol, a sua órbita à volta do Sol demora 165 anos a completar.
Até 2005, Plutão (descoberto só em 1930), situado a 5,5 horas-luz do Sol, é rodeado por oito panetas anões, um dos quais maior do que ele próprio. Plutão costumava ser considerado um planeta, mas essa classificação deixou de ser universalmente aceite, devido à relevância dos seus planetas anões, e Plutão foi assim "despromovido" da categoria de planeta.
Desde a sua formação, o planeta Terra era extremamente quente, o que ajudou na formação do seu núcleo ferroso ao centro de cerca de 3.400 km de espessura, o que deu ao planeta o seu campo magnético.
Há cerca de 4 bilhões de anos a temperatura da superfície da Terra
arrefeceu abaixo do ponto de ebulição, o que resultou em milhões de anos
de chuvas constantes, que acabaram por cobrir quase todo o planeta de água e formar os primeiros oceanos.
A segunda grande fase de evolução do universo, a chamada fase animada (com vida), foca mais no aconteceu no planeta Terra (e menos nos outros planetas), e desenrolou-se ao longo de um período muito longo, de cerca de 3,8 bilhões de anos atrás até cerca de 315,000 anos atrás.
Há cerca de 3,5 billhões de anos atrás apareceram nos oceanos as primeiras formas de vida, em forma de micróbios, que se multiplicaram com relativa rapidez. A constituição destes micróbios evoluiu para formas mais complexas, através da interacção de átomos de carbono, hidrogénio, oxigénio, nitrogéneo, e fósforo, dando origem a aminoácidos, que por sua vez deram origem a proteínas e nucleobases, que são aneis longos de blocos de construção (building blocks) de células e moléculas.
As nucleobases tornaram-se mais complexas e organizaram-se em forma de ADN (Ácido DexoxirriboNucleico) e ARN (Ácido RiboNucleico).
O DNA é a molécula biológica que contém as instruções genéticas para o desenvolvimento e funcionamento de todos os seres vivos. O ADN armazena informações essenciais para a síntese de proteínas, e é fundamental para a herança genética. O ADN replica-se a fim de dar instruções para o resto de uma célula. Este processo de cópiar nem sempre é perfeito; às vezes há erros na cópia do ADN (uma mutação), o que resulta numa ligeira alteração das instruções do ADN. Quando o ADN muda, ele dá instruções para a formação de um organismo um pouco (muito pouco) diferente, e é este processo de mutação do ADN que cria mudanças na biologia de organismos ao longo to tempo. Algumas mutações do ADN são fatais, acabando por destruir a sobrevivência dos organismos ao fim de algumas gerações, mas às vezes algumas mutações são úteis para a sua sobrevivência no longo termo, e é através do processo de replicação dessas mudanças úteis que o ciclo da vida continua e evolve.
Por outro lado, o ARN é um ácido nucleico de cadeia simples, necessário para a síntese de proteínas e para a regulação genética das células, actuando nas instruções do ADN. O ARN, composto por nucleotídeos (ribose, fosfato, e bases nitrogenadas) é essencial para a vida.
As proteínas são usadas para efectivar vários comandos numa célula viva: queimar energia necessária para suster o processo de complexidade, reproduzir, crescer, reagir ao ambiente à sua volta, e levar elementos de um lugar da célula para outro.
Assim, há cerca de 3,4 bilhões de anos apareceram os primeiros organismos que podiam fazer fotosíntese (os chamados Prokariotes), e um bilhão de anos mais tarde teve lugar a grande oxigenação. O processo de fotosíntese libertou grandes quantidades de oxigénio, o que resultou num aumento muito grande de oxigénio à superfície e nos oceanos e acabou por ajudar na formação da atmosfera à volta da Terra.
As primeiras formas de vida (micróbios) nasceram no fundo dos oceanos e só mais tarde é que elas subiram à superfície dos oceanos para se alimentar de água, luz solar, e anidrido carbónico. Este ciclo durou cerca de 400 milhões de anos (cinco milhões de vezes da duração de vida média de uma pessoa!). Neste processo, e apesar do seu tamanho microscópico, eles formaram colónias muito grandes chamadas estromatolitos.
Há medida que a atmosfera se ia formando com a libertação de oxigénio resultante da fotosíntese, a acção radiante do sol transformou oxigénio em Ozónio através de um processo a que se deu o nome de fotólise. O anel de ozónio criado subiu para a camada exterior da atmosfera e passou a cobrir o planeta defendendo-o da acção directa dos raios solares.
O planeta começou assim a rrefecer e ao fim de muitos milhares de anos, os oceanos gelaram e a Terra transformou-se numa gigante bola de gelo. Entretanto, algumas formas de vida, em vez de converterem água e anidrido carbónico em energia e libertarem oxigénio, algumas células passaram a absorver oxigénio e libertar água e anidrido carbónico, evoluindo em eukariotes, que são micróbios muito mais complexos do que prokariotes.
Com a libertação de quantidades cada vez maiores de anidrido carbónico libertado pelos eukariotes, a superfície da terra começou outra vez a aquecer, dando origem a um degelo geral, e as duas formas de vida procariotes e eucariotes continuaram a multiplicar-se.
e que ainda guarda muitas surpresas no futuro.
4.1 Factores Macro-Históricos na Evolução da África a Sul do Sahara
Antesde cobrir a etno-história da região da Damba é útil cobrir de uma
forma macro-histórica muito geral as seis transformações que mais
influenciaram a história de África a sul do Sahara nos últimos sessenta mil
anos:
a) O impacto milenar da malária, doença-do-sono, e outras doenças
b) a génese dos povos San e Mbuti, os primeiros grupos humanos a habitar a região;
c) a expansão Bantu nas suas três vertentes - ao longo do Atlântico, através da África Oriental, e vindos do sul (Kahari e Namibe);
d) o tráfico de escravos (local e transatântico) nos contextos africano, da África central, e de Congo e Angola;
e) o grande intercâmbio colombiano de alimentos e produtos coloniais;
f) a partilha de África, e o colonialismo europeu;
g) e mais recentemente, a descolonização
O Impact Milenar da Malária e da Doença-do-Sono na África a Sul do Sahara
Como disse noutra parte deste blogue, a geografia é o livro em que se escreve a história. A geografia, o clima, a ecologia, e o tempo, são os factores mais determinantes na evolução de grupos humanos. Particularmente em África, a sua grande diversidade geográfica, climática, e ecológica, tiveram uma influência fundamental na evolução das suas populações ao longo dos milénios.
A extensão do deserto do Sahara que se estende horizontalmente da costa do Atlântico até à costa do Mar Vermelho, efectivamente cortou as oportunidades de linhas de expansão Norte-Sul, separando durante milénios as duas Áfricas (a norte e a sul do Sahara). Por outro lado, a extensão da floresta equatorial tornou-se um entrave à expansão rápida de civilizações, e a barreira criada pelo deserto do Kalahari no hemisfério sul teve, numa escala mais pequena, o mesmo efeito que o Sahara, no isolamento dos grupos humanos na África meridional. Assim nasceram as várias Áfricas que hoje conhecemos.
No caso específico da África austral, e a somar as estes factores, temos ainda que considerar o impacto negativo de doenças endémicas como a malária (paludismo) e a doença-do-sono, de elevados indices de mortalidade humana, que impediram o uso de muitos animais domésticos usados noutras partes do mundo, e a não-adopção de certas tecnologias como a roda e a escrita. Assim, apesar de ter nascido em África, a espécie humana, encontrou nela muitas barreiras que acabaram por dificultar o seu progresso, e escolher outras regiões no mundo mais amenas ao povoamento humano.
A malária é uma doença infecciosa causada por um parasita protozoário que, transmitida pelo mosquito anopheles, afecta pessoas e animais. Em geral, o parasita é transmitido ao homem através da picada do mosquito, que se espalha no corpo através da corrente sanguínea. Assim , o parasita chega ao fígado onde se aloja e reproduz. O mosquito anopheles é o principal vector de transmissão de malária, que se apresenta na forma de três vectores principais: anophelles arabienses, funestus, e gambiae, sendo os dois últimos de elevada prevalência em Angola. A malária apresenta um quadro típico de sintomas que include febre, dores de cabeça, fraqueza geral, e nos casos mais agudos, progride para coma e morte.
Mapa de distribuição e prevalência endémica dos três principais vectores Anophelles de transmissão de malária (paludismo) em África - Anophelles arabiens, funestus, e gambieae.
Por sua vez, a Tripanossomíase Humana Africana (THA, ou doença-do-sono,), é uma infecção parasitária, transmitida para humanos e certos animais pela picada da mosca Tsé-tsé na África Subsahariana, causada por protozoários do gêneroTrypanosoma, que afecta o sistema nervoso central, causando extrema sonolência, fraqueza geral, febres, e quando não devidamente tratada, acaba por resultar em morte.
Extensão do habitat da mosca Tsé-tsé em África. A mosca Tsé-tsé, que é o vector da Tripanossomíase (doença-do-sono), é endémica nas províncias do terço Norte de Angola.
Estas infecções são endémicas na África equatorial, e tiveram uma influência muito negativa na evolução dos povos que lá residem ao longo de milénios. Ainda hoje, elas causam a morte a milhões de pessoas todos os anos.
4.2 Indicadores de Evolução
Se
bem que com certo risco de demasiada generalização, nós podemos
classificar a antiguidade dos povos que habitaram o actual território de
Angola de acordo com quatro indicadores de evolução histórica:
a)
pelo o seu modo de produção - colectores primeiro, agricultores depois,
criadores de gado mais tarde, e por último comerciantes;
b) pela evolução cronológica das suas línguas - grandes famílias de línguas antigas e modernas; como as palavras e as gramáticas evoluiram ao longo do tempo;
Mapa da distribuição de familias de línguas Nilo-Saharianas
c) pelo perfil genético dos povos - quais as mutações genéticas mais notórias, e há quantas gerações atrás os povos se dispersaram e para onde;
Distribuição
do perfil genético dos descendentes da mesma mãe (Eva Mitocondrial (L) e
Haplogrupos Mitocondriais - LO) na África Sub-Sahariana
d) e finalmente, pela escassa evidência arqueológica, dificil de obter devido ao calor e acidez dos solos da África Central.
Apanha do Touro da Chuva - Pintura rupestre San encontrada numa gruta em Drakensberg KwaZulo Natal, África do Sul. Sem data, mas estima-se entre 2.000 e 500 anos atrás.
4.3 Estágios de Desenvolvimento da Organização Política e Social
Para
uma melhor compreensão da dinâmica macro-histórica que este blogue
cobre, eu penso que é útil rever algumas interpretações fundamentais
sobre a evolução da humanidade. Eu tenho aqui que confessar que o que
vais ler nas próximos parágrafos
não é de muito facil assimilação, pois a sua terminologia própria por
vezes pode parecer confusa ao leitor. Assim, espero que sobrevivas
os próximos parágrafos.😨!!! Aqui vão algumas ideias chaves:
Embora
todas as sociedades tenham o seu pecurso de evolução específico na
história da humanidade (relativismo histórico e cultural), todas elas
parecem passar por um pecurso geral (fases comuns) como resultado dos
processos de invenção e difusão de práticas e ideias, ou de migração de
pessoas e grupos que ocorrem nas mesmas.
Assim, em geral, um membro de uma família
separa-se da mesma e forma o seu mesmo novo grupo social (a sua
família), seguindo por norma um percurso de parentesco clânico. Nas
gerações seguintes, esses grupos familiares, que partilham da mesma
linhagem, cultura, línguagem, crenças, e organização económica
organizam-se em bandos agrupando entre 25 a 60 membros, começando
como pequenos grupos mais ou menos distintos (bandos), e através de um
processo de evolução específico, aumentam em número e complexidade e ao
longo de algumas gerações agregam-se em grupos mais complexos e
organizados (tribos).
Por
sua vez, ao longo de mais algumas gerações, as tribos multiplicam-se em
unidades sociais mais extensas em número de membros e território, mais
separadas e independentes, que mercê da divisão do trabalho social, se
tornam mais estratificadas em classes e passam a reconhecer o comando de
uma linha hierárquica de chefes (chefados) cuja função principal é a distribuição do produto social entre as classes.
Estes quatro primeiros estágios de organização social, económica, e política (família, bando, tribo, e chefado) são
dominantes nas sociedades de colectores / caçadores / pescadores, em que a
agricultura não se estabeleceu ainda como actividade económica
predominante.
Com
o advento da agricultura, a organização social e económica dessas
sociedades tornou-se muito mais complexa, centralizada, e estratificada
em classes, que passaram a ser dirigidas por uma elite politica,
que determinava a divisão do trabalho e repartição do produto social em
forma desigual. Essas elites tinham o monopólio sobre os recursos
naturais e o poder militar e a força para criar instituições e exercer a
sua autoridade (através da violência) sobre os demais. Na maioria dos
casos, essas elites passaram a fazer uso de uma nova classe de cléricos /
burocratas para gerir o sistema religioso e administrar a economia, e
uma classe militar e policial para manter à força o seu poder. Por sua
vez, a organização dessas estruturas e instituições tornou-se permanente
sob a autoridade de um rei e na forma de um estado.
Numa
perspectiva económica, com a advento da agricultura, a divisão do
trabalho tornou-se mais estruturada e socialmente repartida com a domesticação de animais e cultivo de plantas. Algumas aldeias deram lugar a cidades, e estas a impérios e civilizações.
Podemos definir uma civilização como um estágio histórico avançado e complexo de organização social, económica, política, e cultural de um grupo humano. Uma civilização é em regra caracterizada por um certo nível de tecnologia, pela produção de um excedente económico, pela existência de cidades, com uma língua (ou família de línguas) comum, por uma escrita, e por um governo centralizado, baseado em classes, suportado por um aparelho mitológico, religioso, e cultural homogéneo. Todas as civilizações têm a sua cultura ou família de culturas.
O termo "civilização" é normalmente usado para diferenciar sociedades urbanas desenvolvidas de outras formas de organização social mais primitivas, como dandos, tribos, e chefados.
Por sua vez, podemos definir um "império" como uma entidade política, governada por uma autoridade central (o imperador) através do aparelho de estado, que exerce soberania sobre diversos povos espalhados por um território vasto.
A
mitologia é um dos elementos fundamentais que ajuda a definir um povo,
pois ela reflecte as suas origens, valores, medos, esperanças, e
tabús. Os mitos servem também para dar uma explicação a perguntas
fundamentais sobre o homem, a natureza, e o sobrenatural.
No campo do natural
os mitos dão resposta a perguntas fundamentais, como por exemplo como
nasceu o universo (o firmamento, o sol, as estrelas, o planeta, a lua, e
a terra, as montanhas, a água, os rios, a chuva, os animais, e a selva), quais
as forças que o guiam (o sol, e o bem e o mal), como nasceu o homem e a
mulher, e a história da criação de cada povo.
No campo do
sobrenatural, as respostas cingem-se à existência e função de
divindades, heróis, antepassados, mediums, sereias, e outras entidades
mitológicas que nos ajudam a delimitar o nosso universo mental.
Todos
os povos que se vêm como tal têm uma mitologia própria. A África, como
berço da humanidade, é particularmente rica pela diversidade dos seus
povos e respectivas mitologias. Em Angola, os mitos mais antigos são os
dos povo San, que habitaram a metade sul de Angola durante milhares de
anos. Na metade norte do território (que mais tarde se espalhou à
metade sul), nós encontramos resquícios da mitologia Mbuti e da forte
presença da herança cultural banto, também com uma mitologia muito
rica.
A Cosmologia Banto
Os povos Bantu têm a sua cosmologia própria ligeiramente específica para cada povo, e partilharam em geral de muitas das mesmas bases mitológicas e religiosas.
Como exemplo, devemos mencionar aKalunga
- fronteira no mar entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos;
temível travessia do Atlântico, "Passagem do Meio"; viagem sem retorno;
os escravos que eram levados para as Américas acreditavam que no kalunga
eles eram transferidos para o reino dos mortos, do qual jamais
regressariam; Kalunga como lugar de opostos, onde os homens andam de pé e
os espíritos andam com as suas mãos; onde os homens são pretos e os
espíritos são brancos.
De
acordo com a mitologia Banto, as Kiandas eram sereias que acompanhavam
os tumbeiros na travessia do Atlântico; conceito de certo modo
semelhante a Cassandra na mitologia grega.
As Kiandas (sereias/divindades) eram figuras míticas que viviam nas águas dos mares
(Kalunga) para os povos da África Central, nos tempos do tráfico de
escravos, especialmente no que se refere à Passagem do Meio.
Banzo era a dôr e tristeza profunda e perpétua (depressão, desejo de morrer, morte
voluntária/suicídio) que os escravos africanos sentiam ao deixar as suas
comunidades em África ou já nas Américas, sabendo que jamais poderiam
voltar às suas aldeias ancestrais em África.
Ngolo era a arte marcial praticada pelo povos pastoris a sul de Benguela que se expandiu no Brasil na forma de Capoeira.
Através do tráfico de milhões de escravos para as Américas, muitos povos Bantu exerceram uma grande influência no universo cultural das novas colónias. Esse é o caso doCandomblé
- Religião sincrética (sacra e secreta) como forma de resistência à
escravatura e retenção cultural das raízes africanas no Brasil, da Santeria em Cuba, e do Voodoo
no Haiti.
Materialismo Histórico
Como
tudo no mundo das ideias, há várias teorias que procuram explicar a
evolução histórica da humanidade; umas mais completas e convincentes e
outras com bases mais ténues. A teoria do materialismo histórico,
desenvolvida por Karl Marx (1818-1883) nos meados do século XIX é tida como uma das mais aceites.
Com base no conceito de dialéctica explicado pelo filósofo alemão Georg Wilhelm Friederich Hegel,
(1770-1831) em que uma ideia, ao apresentar-se como uma tese, suscita
inerentemente a sua antítese, e a contradição que daqui resulta é
superada por uma síntese, não havendo assim verdades imutáveis. Para
Hegel, no mundo tudo o que se pensa e existe não é imutável; tudo está
sempre em contínua transformação e evolução. Marx adaptou este conceito
de dialética de Hegel às condições materias de vida humana e destas à
história da humanidade, chegando assim ao conceito chave de materialismo
histórico.
De acordo com ele, o materialismo histórico
explica a história da humanidade através das contradições criadas pelas
condições materiais e económicas da vida, e não pelas ideias. De acordo
com Marx, a contradição principal reside no facto de que só uma porção
do valor do trabalho fica com o trabalhador; ficando o resto (a
mais-valia ou excedente) com a classe que controla a sociedade. A base
económica das sociedades (que inclui o modo de produção e as relações de
produção) determinam a superestrutura social (instituições políticas, legais, religiosas, filosóficas, e culturais), e o principal agente de mudança é a luta de classes,que
é o conflito inerente entre as classes sociais (opressoras e oprimidas)
pelo controle dos meios de produção que gera revoluções e mudança
social entre as forças produtivas (trabalho e tecnologia) e as relações
de produção (propriedade e classes sociais).
Modo de Produção
Assim, a luta de classes é o motor da história, e o conceito de Modo de Produção refere-se à maneira pela qual as sociedades produzem os seus meuos de subsistência e se associam como sociedades.
O estágio dessas contradições e inerente luta de classes em cada sociedade manifestam-se através do conceito de modo de produção,
que é a forma como uma sociedade organiza a produção e repartição do
produto social. Para Marx, o sistema económico e o sistema político são
ambos lados da mesma moeda; e as condições materiais de vida moldeiam a
maneira de pensar, e não o contrário; isto é, a economia moldeia as
ideias políticas, e não o reverso. De acordo com Marx, a história não é
senão a progressão dos modos de produção ao longo da história humana e
manifesta-se em vários estágios (modos de produção) distintos, incluindo
o comunismo primitivo, e o modo de produção asiático, esclavagista,
feudal, capitalista, e socialista, culminando num estágio final de
comunismo sem classes nem exploração. A história humana é assim o processo histórico de evolução das sociedades que resulta das contradições internas e luta de classes que geram a superação de um modo de produção pelo próximo.
Em
termos económicos, o modo de produção é o sistem socio-económico
predominante numa sociedade, e é constituído por quatro processos
(circuitos) principais:
- Produção -
que é a forma como a sociedade se organiza para sobreviver através de
recursos materiais (recursos naturais, bens de consumo, e serviços)
- Circulação - a forma como a sociedade processa circulação (intercâmbio e troca) de bens e serviços (mercadorias);
- Consumo - que é a forma comos as diferentes classes sociais consomem as mercadorias produzidas.
- Investimento
- que é o processo pela qual o capital é aplicado em novos bens de
investimento (capital mercantil, investimento em empresas, equipamentos,
ferramentas, fábricas, explorações agrícolas, minas, barragens,
estradas, etc.)
As forças produtivas
incluem todos os elementos necessários à produção - terra, alimentos,
matérias-primas, minérios, energia e combustíveis, capital (máquinas, ferramentas,
e fábricas) e a habilidade da mão-de-obra (tecnologia). Por seu lado,
as relações sociais de produção incluem os relacionamentos ente
as pessoas e classes, e os processos de interacção entre as pessoas e as
força produtivas através das quais se tomam decisões sobre o que fazer
com o produto social. Assim, o conceito de modo de produção não é mais
do que a união das forças produtivas e as relações sociais de
produção.
O primeiro e mais antigo modo de produção, mais duradouro e mais espalhado por todo o mundo pré-histórico, o comunismo primitivo,
aplica-se às sociedades de caçadores/colectores. A organização social e
económica é caracterizada pela propriedade colectiva dos meios de
produção, sem classes ou estado, baseado na cooperação e distribuição
equalitária do produto social. No modo de produção primitivo, todos na
comunidade trabalhavam juntos e eram recompensados egualitariamente pelo
seu esforço de trabalho. As sociedades não eram divididas em classes, e
as trocas de bens eram de caracter celebrativo, não havendo mercadorias
e dinheiro.
O Modo de Produção Asiático (ou Tributário)
aplica-se às sociedades antigas (Egipto, Índia e China, África a sul do Sara, e
Américas - Aztecas, Maia, e Incas) com grande controle estatal sobre a
produção, propriedade comum, e excedente de produção. O Estado ficava
com uma fatia grande da produção, e as populações eram obrigadas a dar o
seu esforço de trabalho para a construção de grandes projectos como
muralhas, templos, estradas, e sistemas de irrigação. É no modo de
produção asiático (ou tributário) que começam a surgir a divisão da
sociedade em classes, onde um pequeno grupo detinha o poder económico e
político. É ainda neste modo de produção asiático que o dinheiro começa a
ser usado como meio de troca e a escrita começa a ser usada na
contabilidade social.
O Modo de Produção Esclavagista
é característico de sociedades como a Grécia antiga e Império Romano,
em que cidadãos livres usavam o trabalho do escravo para tudo. A
característica principal do modo de produção esclavagista era a
diferença clara entre as classes sociais. Haviam três classes
principais:
- Escravos - que eram propriedade dos senhores e trabalhavam em todos os campos, e que produziam quase tudo o que se consumia;
- Senhores
- que eram os donos dos escravos e constituiam uma minoria que
organizava a exploração do trabalho escravo. A classe dos senhores
ficava com a maior fatia da produção social;
- Plebeus
- Era a classe dos trabalhadores e artesãos livres e independentes que
produziam para auto-consumo e troca do excedente produzido.
Marx
não estudou as sociedades tradicionais africanas a sul do Sahara.
Contudo, no geral elas apresentam formas de organização económica e
social comum que se podem agrupar num modo de produção característico a
que o historiador e especialista em escravatura em África Paul Lovejoy chama de Modo de Produção de Linhagem ou Doméstico.
Este
modo de produção tipico principalmente das sociedades tradicionais
africanas Bantu a sul do Sahara caracteriza-se por sociedades divididas
em classes baseadas em género e idade. Embora a terra fosse propriedade do clã, os mais velhos controlavam os
meios de produção e o acesso a mulheres, garantindo assim o poder
político a uma gerontocracia fechada. O produto do trabalho da terra era privado. O marido preparava a terra,
construia a casa, e caçava, e a mulher tabalhava a terra e gerava
filhos. Esta era por norma casada com um homem muito mais velho do que
ela, podendo o mesmo homem ter várias mulheres, e ser pai de uma prole
relativamente grande de filhos e filhas (família poligínica). Para casar, o homem tinha de
pagar o alambamento à família da mulher, o que requeria uma certa
independência económica não disponível aos mais jovens. Nestas
sociedades haviam escravos, mas eles não eram usados como trabalhadores rurais nem eram mercadoria que se podia
trocar.
O Modo de Produção Feudal
é característico dos países europeus durante a Idade Média depois da
decadência do esclavagismo, em que os senhores (nobres) controlavam a
vida e o trabalho dos servos (camponeses e trabalhadores rurais)
ligados à terra, através de obrigações e tributos. A comercialização do
excedente da produção era realizado em feiras que tinham lugar em cidades num calendário regular. A terra era propriedade dos senhores feudais (donos da terra e aparato militar) e trabalhada pelos camponeses em troca da protecção militar dos senhores (nobres). Os artesãos, que viviam em cidades e organizavam-se em guildas usufruiam de uma certa autonomia, e os comerciantes detinham um poder económico considerável, que acabou por lhes conferir o control e poder político para dominar a economia. A nobreza era constituída pela família real e pelos senhores feudais, todos auxiliados pelo clero no controle do aparelho do estado.
No Modo de Produção Capitalista, que sucedeu ao modo de produção feudal, os donos dos meios de produção (a burguesia) apropriam-se de uma parte do valor social do trabalho dos trabalhadores, em busca da apropriação da mais-valia gerada pelo proletariado e lucro. O trabalho é transformado em mercadoria através assalariamento da força de trabalho. A propriedade privada
dos meios de produção (mão-de-obra, terra, tecnologia, quintas,
plantações, fábricas, minas, lojas, escritórios, navios, etc.) permite
aos seus donos acumular valores cada vez mais altos e mais concentrados
de capital, e a riqueza extraída das colónias (através do imperialismo) ajudou a ampliar esta concentração de poder económico e político num número cada vez mais restrito de agentes. O Estado passou a ser um instrumento da classe dominante (a burguesia). O salário é a remuneração do trabalho, que é pago aos trabalhadores em forma de dinheiro, num montante suficiente para manter a subsistência destes, e o capital é usado em mais investimentos que visam a extracção ainda maior e mais acelerada da mais-malia ao trabalho da classe operária.
O
sistema e o estado capitalista foram alvos das críticas de muitos
filósofos e cientistas sociais desde os fins do século XVIII, e durante
os séculos XIX e XX. Por exemplo, o filósofo anarquista Pierre-Joseph Proudhon (1809-65) considerava que a "a propriedade é um roubo", que "os grandes só são grandes porque estamos de joelhos; Levantêmo-nos!", e que "Ser
governado é ser vigiado, inspecionado, espionado, regido por leis,
numerado, regulamentado, dirigido, inscrito, doutrinado, alvo de
sermões, controlado, fiscalizado, avaliado, valorizado, censurado,
comandado por criaturas que não têm direito, a sabedoria, ou a virtude
para fazê-lo. Ser governado é ter cada operação, cada transacção
anotada, registada, contada, tributada, selada, medida, numerada,
avaliada licenciada, autorizada, admoestada, impedida, proibida,
reformada, corrigida, punida. É sob o pretexto de utilidade pública e em
nome do interesse geral, ser submitido à controbuição, instruído,
explorado, monopolizado, extorquido, espremido, enganado, roubado; e
então, à menor resistência de queixa, ser reprimido, multado,
vilipendiado, assediado, caçado, abusado, espancado, desarmado,
amarrado, estrangulado, preso. Julgados, condenados, fuzilados,
deportados, sacrificados, vendidos, traídos ; e, para coroar tudo,
zombados, ridicularizados, escarnecidos, ultrajados, desonrados. Isso é
governo; essa é a justiça; essa é a sua moralidade."
O
povoamento humano e os modos tradicionais de produção na África
pré-colonial foram ambos moldados pela diversidade ecológica do
continente. O continente africano é normalmente dividido em seis grandes regiões ecológicas principais:
Mapa das seis principais regiões de África
1 - África do Norte - Composta por zonas áridas e semi-áridas do Sahel e Norte de África, e de clima mediterrânico na orla costeira, em que a pastorícia de caprinos e ovelhas predominava. A agricultura concentra-se na produção de alimentos mediterrânicos.
2 - Deserto do Sahara - imenso e desabitado, atravessando a África em toda a sua extensão horizontal, foi uma barreira à interacção entre os povos do norte e do resto de África. Os oásis do Sahara sustentavam uma agricultura em pequena escala e
serviam como centros para as redes de comércio trans-sahariano.
3 - África Ocidental - Regiões de estepe (Sahel) e savana (planaltos ocidental, oriental e sul), com uma agricultura mista de cereais (milho-miúdo, sorgo, milho, e criação de gado), e com uma franja folrestal mais junto à costa atlântica. Produtos típicos incluem a noz de cola e o óleo de palma, e a produção de sal e mineração de ouro.
4 - África Central - Zona de floresta tropical das regiões ribeirinhas dos rios Nilo, Niger, e Senegal, e equatorial junto ao rio Zaire com agricultura intensiva que exige pouca mão-de-obra, como a palmeira, o inhame, e a banana. O grande planalto de Angola, onde predomina a floresta de Miombo, é umas das sub-regiões principais. A prevalência endémica de doença-do-sono restringiu a criação de gado em larga escala nesta região. A mineração de ouro foi sempre uma actividade importante.
5 - África Oriental, com regiões muito secas a norte (Somália), montanhas no interior (Etiópia), e pladarias a sul (Serengeti, caracterizada por uma variedade de climas e solos. A produção de copra, apastorícia, o marfim, e a exploração de sal e cobre eram as principais actividades produtivas ancestrais. O comércio de longa distância com a Arábia, a Índia, e a Insulíndia era muito activo
6 - África Austral - uma região diversa de floresta trpopical a norte, povos vivendo da caça e da pesca na savana e estepe ao centro, e deserto (Namibe e Kalahari), a sul, e um bioma mediterrânico na faixa costeira a sul.
A estas grandes regiões principais devemos adicionar a Ilha de Madagáscar, na costa do Índico, caracterizada por um bioma muito único com florestas costeiras e matas xerófilas no interior.
Ideologia
A economia e filosofia política de Marx não são apenas uma teoria filosófica; elas constituem uma ideologia
que pode guiar o progresso das sociedades humanas. Assim, com base na
progressão histórica dos modos de produção, Marx previu a existência de
dois novos modos de produção no futuro: o Modo de Produção Socialista, e
o Modo de Produção Comunista, que passo a cobrir a seguir.
Para ele,
tinha que se passar das palavras à acão, quando escrveu que "os filósofos não têm feito mais do que interpretar o mundo de diferentes maneiras, mas o que importa é transformá-lo", na sua XI tese sobre Feuerbach.
Segundo Marx, o Modo de Produção Socialista
é o modo de produção que sucede imediatamente ao Modo de Produção
Capitalista. O elemento fundamental do modo de produção socialista é a economia planificada controlada pelo Estado
que substitui o sistema de mercados (encontro de oferta e procura de
bens e serviços) no capitalismo. O foco do modo de produção socialista é
promover a ditadura do proletariado, através da extinção da burguesia. A propriedade privada dos meios de produção é abolida, e passa a ser controlada pelo Estado.
Em certa medida, o Modo de Produção Socialista é um passo intermédio para o Modo de Produção Comunista.
Com a extinção da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) em
1991, só dois países no mundo se podem classificar como usando o modo
de produção socialista: Cuba e Coreia do Norte. A China e o Vietname são
republicas socialistas só de nome, pois de facto praticam um modo de
produção capitalista, em que a propriedade privada dos meios de produção ainda é muito significante.
Na última fase da história humana (o fim da história), Marx previu que o modo de produção socialista se transforme eventualmente em Modo de Produção Comunista,
caracterizado fundamentalmente pela abolição completa da propriedade privada e
das classes sociais, pois não haveria jamais a exploração do homem pelo
homem.
Cabe
mencionar aqui que a análise e critica do sistema capitalista feitas
por Marx tiveram lugar num certo período concreto da história humana -
meados do século XIX - e que necessariamente reflectem (e se limitam) a
esse período concreto. Desde então, e como resposta às críticas
avançadas por Marx, o sistema capitalista superou a fase de exploração
sagaz dos trabalhadores típicos da Revolução Industrial, tornam-se mais
"ameno", permitindo melhores condições de vida às classes oprimidas -
não ao trabalho infantil, sindicalização dos trabalhadores, crédito à
habitação, melhor escolaridade, previdência social, e melhoramentos na
acção do Estado.
Com efeito entre 1883 e 1889, o Chanceler Otto von Bismark, do então recentemente formado estado alemão, desenvolveu uma política social especialmente desenhada para combater as soluções socialistas advogadas por Marx que então dominavam na Europa. Ele criou um seguro de saúde, outro contra acidentes de trabalho, e um novo sistema de seguro de velhice e invalidez que acabaram por ser adoptados pela maioria dos países europeus na geração seguinte. Com este novo modelo social, o socialismo foi adiado, e o capitalismo sobreviveu à custa de uma mudança fundamental no papel do estado para uma nova política de bem-estar social.
Entretanto,
esse atenuamento das condições de exploração na Europa e na América do
Norte só foi possível com a transferência da "carga exploratória" paras
as colónias e povos periféricos, o que teve lugar na fase imperialista (mundial), para manter os níveis de exploração e lucros para manter o sistema, como explicou Vladimir Ilyich Ulianov (Lenin) (1870-1924) no seu famoso estudo "Imperialismo Estádio Supremo do Capitalismo"
(Petrogrado, 1917). Alguns estudiosos dividem o capitalismo em várias
fases intermédias, incluindo, o capitalismo mercantilista,o capitalismo
monopolista, o imperialismo, a globalização, e o neoliberalismo.
Como
nota à descrição dos diferentes modos de produção, cabe-me dizer aqui
que eu penso que a experiência do modo de produção socialista é um tanto
utópica. Sem dúvida que houveram grandes avanços na economia da URSS,
China, e países satélites; mas tal só se conseguiu a custos sociais e
económicos proibitivos (maiores do que no sistema capitalista, como as
fomes e purgas de Joseph Stalin (1878-1953) e a Revolução Cultural de Mao Tsé Tung
(1893-1976) em que pereceram muitos milhões de cidadãos), e as suas
economias acabaram por "perder o fôlego" e implodir sob o seu próprio
peso. Em geral, e em comparação com os países capitalistas do centro, as
economias comunistas eram pobres e o nível de vida muito mais baixo e
precário. A economia cubana é um bom exemplo dessa pobreza.
A Experiência Socialista em Angola
No
caso concreto de Angola, logo após a sua Independência em 1975, o MPLA
tentou a implantação de um regime
socialista em Angola, contudo, esta tentativa foi incipiente e efémera, e não sucedeu.
Alguns dos factores que determinaram este resultado incluem os resquícios históricos da escravatura, a recente
herança de exploração colonial, a purga de 27 de Maio de 1977 em que uma grande número
de quadros foi eliminado, a desgastante guerra civil contra a UNITA, o
desmoronamento
da URSS em 1992, e a incapacidade e convicção dos quadros do MPLA em
prosseguir a via
socialista.
Durante
o seu I Congresso realizado em Dezembro de 1977 em Luanda, o MPLA
tornou-se um partido - o MPLA - Partido do Trabalho, de orientação
ideológica marxista-leninista. Em 1991, o MPLA renunciou essa linha ideológica, aceitou um sistema político
multi-partidário, e embarcou na via capitalista liderado por uma cleptocracia atroz.
De facto, após os acordos de Nova Iorque em 1988, o incipiente aparelho
de estado socialista em Angola foi em breve substituído por um regime pseudo-democrático
caracterizado pelo roubo indiscriminado de recursos naturais levado a
cabo pelo regime de cleptocracia do presidente Eduardo dos Santos e os
seus familiares e amigos mais chegados que durante as duas últimas gerações roubaram ao povo angolano a oportunidade
de progredir económica- e socialmente.
Sistemas Mistos
Eu
acredito que a solução não está na adopção de um sistema único
(capitalista ou socialista), mas sim num sistema de economia mista em
que a liberdade individual do cidadão é respeitada, a iniciativa privada
empresarial tem um papel a desempenhar, ao mesmo tempo que o Estado se
engaja a distribuir a oportunidade e riqueza numa forma equalitária.
4. 4 A Génese dos Povos San e Mbuti no Território de Angola
Os
povos colectores pré-Bantu (San e M'Buti) foram os primeiros grupos humanos a
habitar a região a que hoje chamamos Angola. Estima-se que os San
(Bosquímano) foram os primeiros grupos humanos a habitar todo o
território actual de Angola, vindos do Sul e do Leste (do Kalahari e da Bacia do Etosha) há cerca de 50.000-60.000 anos atrás.
O povo San foi o primeiro grupo humano a habitar o que é hoje a metade sul do território que é hoje Angola. Os San migraram do Sul da África em direcção à bacia do Etosha (Kavango / Cubango), e depois (há cerca de vinte mil anos atrás) em direcção mais a norte, atingindo a metade sul de Angola (a sul e ao longo da linha quase diagonal linha divisória de águas do plateau angolano - Alto Cuanza).
A falta de evidência de documentos históricos, tradição oral, e estudos genéticos é numa medida reduzida compensada pela escassa evidência arqueológica de povos muito antigos que habitaram o território a que hoje chamamos Angola. Tal é o caso de pinturas rupestres que eles deixaram em algumas grutas, como as de Tchitundo Hulo na região do Namibe no canto sudoeste de Angola.
Pinturas rupestres ancestrais nas grutas de Tchitundo Hulo, no Namibe
A confirmar esta hipótese, devemos lembrar-nos que a tradição oral do povo Bakongo do norte de Angola faz referência aos Mbaka (povos de anões / Mbuti / Pigmeus)
que habitavam a região antes da chegada dos povos Ambundu e Bakongo à
região. Não devemos confundir esta referência com o povo Mbaka, cujo território
tradicional inclui porções do nordeste da República Democrática do Congo
e República Centro Africana, que fala a língua mbaka.
A metade a norte da linha divisória de àguas na direcção SW-NE ao longo do centro de Angola foi povoada inicialmente (cerca de 10.000
anos atrás?) pelos povos Mbuti (pigmeus), que mais tarde foram afastados
pelos povos Banto para norte e noroeste (selva equatorial da bacia do Rio Zaire).
Depois, com origem e tempo ainda não confirmados com
precisão, chegaram os povos M'Buti e M'Benga (Pigmeus) que vieram da floresta do Alto Congo e que removeram os San e
que vieram a habitar todo o território a norte da linha de divisão de águas ao longo do
planalto angolano até à bacia do Rio Zaire na África Central,
continuando os San a habitar o território a sul da linha de divisão
de águas (Bacias do Cuanza e Cassai correndo para norte, e do Zambeze, Cunene e Cubango correndo para sul) e a área costeira (Rio Cunene e deserto do
Namibe).
Mapa da distribuição actual de povos Pigmeus na África Central, segundo o prof. Luigi Luca Cavalli-Sforza, da Universidade de Stanford, EUA, 1971; extraído da Wikimedia Commons.
Ambos os povos San e M'Buti foram eventualmente
absorvidos, conquistados, removidos ou aniquilados pelos povos agricultores e ferreiros Bantu, que passaram a
ocupar a quase totalidade do território actual de Angola.
Mapa da distribuição actual de povos San na África Austral, segundo o prof. Robert Hitchcock, da Universidade do Novo México, EUA, 2019. A maior concentração é no Botswana.
É interessante notar que no processo de interacção com os povos Bantu, os Mbuti acabaram por perder a sua língua original e absorver línguas Bantu, ao passo que os San conseguieram manter as suas línguas originais. A sobrevivência dos povos San e Mbuti e das suas culturas no longo curso é matéria de grande preocupação em todo o mundo.
As grutas de Nzau Évua, situadas na estrada entre Mbanza-Kongo (São Salvador - 68 km) e Nzeto (Ambrizete - 150 km), na província do Zaire são umas grutas muito grandes que contêm algumas pinturas rupestres. Estas ainda não foram estudadas devidamente pelo que não se sabe a sua origem, se anterior ou posterior à formação do antigo Reino do Congo. Segunda a tradição oral, durante o tráfico de escravos elas serviram refúgio a muitos que fugiam do mesmo.
Um aspecto das grutas do Nzau Évua, no Zaire. Estas grutas têm algumas pinturas rupestres, mas ainda precisam de ser estudadas para aferir a sua origem e história.
4.5 A Civilização Banto
A civilização Bantu refere-se a um vasto grupo etnolinguístico de mais de 400 sub-grupos na África a sul do Sahara. O termo "Bantu" vem do plural de "muntu", que significa "gente / pessoa". Os Bantu tiveram origem na região dos Camarões / Nigéria há cerca de dois a três mil anos atrás. As comunidades Bantu estavam organizadas em aldeias governadas por um chefe ou rei.
Os povos Bantu eram agricultores que cultivavam o inhame e a banana e eram também pastores de gado. Em termos de tecnologia, eles manobravam a olaria do barro e da cerâmica, a mineração de ferro, cobre, e ouro, mas dominavam especialmente o manuseamento do ferro, o que lhes permitiu a criação de ferramentas e utensílios agrícolas mais avançadas e eficientes para a agricultura e arte de guerrear.
Provavelmente devido a pressões de ordem demográfica, os Bantu começaram a espalhar-se para sul e leste, disseminando a sua língua, as suas técnicas agrícolas, o dominio do ferro, e a sua organização social entre os seus povos vizinhos, que eram caçadores colectores.
Entre 1.500 AC e 1.000 DC, os povos Bantu levaram a efeito um dos mais significativos movimentos populacionais da história humana, expandindo-se primeiro para leste (para a África Oriental) de pois para sul (África Austral), e mesmo descendo a costa de África até ao planalto angolano na África Central Ocidental. Nestes movimentos migratórios seculares, eles conquistaram, asssimilaram, destruiram, ou afastaram os povos locais caçadores / colectores para regiões mais pobres e remotas, acabando por impôr a sua cultura, tecnologia, economia, sistema político, e língua, e acabando por os substituir nessas terras esses povos ancestrais, como foi o caso do povo Mbuti (Pigmeus) e San em toda a África a sul do Sahara.
Em termos de modo de produção e tecnologia,
os Bantu eram agricultores e dominavam a metalurgia do ferro, duas vantagens chave que
resultaram na sua dispersão não obstruída e conquista de todo o território anteriormente
ocupado pelos M'Buti e Khoisan que viviam no que veio a ser o actual território de Angola.
A Expansão Bantu - O Manuseamento do Ferro e as Grandes Migrações na África a Sul do Sahara
A Metalurgia Bantu
Manuseamento de ferro pelos povos Bantu
metalurgia e agricultura - pilares fundamentais da expansão Bantu, independentemente de influências exógenas. A tecnologia do ferro não foi importada, mas sim desenvolvida, adaptada, e aperfeiçoada pelos povos Bantu.
Técnicas avançadas de extracção, fundição, e moldagem de ferro e cobre
Processo:
1 - Extracção
2 - Construção de fornos
3 - Uso de foles que podiam injectar grande quantidade de oxigénio de forma concentrada no processo de combustão
4 - Uso de carvão vegetal
5 - Fundiçãp e forjamento
A produção era local, não em quantidades industriais
Gravura coeva mostrando trabalho de metalurgia no Antigo Reino do Congo; do Padre Giovanni António Cavazzi de Montecuccolo na sua "Istorica Descrizione de Tre Regni Congo, Matamba et Angola Sitvati
Nell' Etiopia Inferiore Occidentalle, de Antonio Cavazzi, em Bolonha,
1688.
O papel social dos ferreiros
Transformador de pedra em utensílio através do fogo, da natureza em cultura
Criador de ferramentas agrícolas e vantagem militar (armas)
Autoridade ritual e prestígio religioso e político
Formavam grupos grupos profissionais hereditários
A Arte Bantu
A arte tradicional dos povos Bantu inclui todas as formas funcionais e ritualísticas, desde os tempos ancestrais pré-coloniais até à actualidade. Para além da sua função decorativa, os objectos de arte serviam para
acompanhar cerimónias e rituais ou mesmo aspectos da vida quotidiana.
As principais formas de expressão artística Bantu incluem entalhes em madeira de figuras antropomórficas, gado, cobras, e animais selvagens; esculturas em madeira, argila, marfim, ferro ou estanho, ou pedras leves; máscaras evocando espíritos e antepassados; cestos, esteiras, e tecidos de ráfia ou bambú; utensílios de cerâmica; peças de mobiliário em madeira como cadeiras, bancos, e encostas; e objectos de adorno pessoal como pentes, colares de missangas, objectos em couro ou ouro, e insígnias de mando, como plumagens, gorros, coroas e diademas, colares e escudos, pulseiras e manilhas, mantos, romeiras e peles de felinos, cabos-de-cauda, bastões e gládios, sinos, e escudos e lanças.
A riqueza artistica dos povos Bantu em Angola é reconhecida mundialmente, havendo espécimes de arte Bantu nos principais museus do mundo. Se tentarmos classificar a distribuição geográfica das formas de arte Bantu em Angola, podemos seguir a classificação desenvolvida pelo famoso etnólogo José Redinha (1905-83) no seu "Album Etnográfico", Edição do C.I.T.A., Luanda, 1970, e dizer que os povos Bakongo e Lunda-Tchokwe a norte, são conhecidos pelas suas famosas esculturas antropomórficas e tecidos de ráfia. O povo Nganguela pela cerâmica negra polida (vasos Luena, por exemplo). A sul, os povos criadores de gado Herero, Ovambo, Nhaneka, e Humbi são conhecidos pelos adornos de beleza pessoal em couro e missangas. E no centro e costa atlântica, o povo Ovimbundu é conhecido pelas suas imagens animalísticas. No extremo Sul/Sudoeste, Sul/Sudeste e nas Terras do Fim do Mundo encontram-se um número reduzido de gravuras e pinturas rupestres em cavernas e abrigos rochosos desenhados por povos ancestrais San.
Música
Dança
Provérbios e Adivinhas
A Economia Tradicional Bantu
Dois grandes sistemas económicos dominam a economia tradicional de subsistência dos povos Bantu: A agricultura e a pastorícia, onde em ambos a metalurgia e o comércio desenrolam um papel importante. O domínio da metalurgia permitiu aos povos Bantu criar ferramentas e
utensílios de ferro duráveis, que acabaram por revolucionar a
agricultura e aumentar exponencialmente a produtividade da mesma.
A agricultura cingia-se ao cultivo da banana, mandioca, inhame, milho, sorgo, milho-miúdo. Num contexto mais de trocas comerciais, muitas comunidades cultivavam o café ,o milho, e o algodão, culturas trazidas das Américas pelos portugueses após a sua chegada à África Central Ocidental. Nas regiões mais altas e secas e livres da mosca tsé-tsé, a pastorícia de gado bovino, caprino, suino, e ovino, complementava a agricultura.
A propriedade da terra era comunal, mas o produto do seu trabalho era privado. O homem preparava a terra e a mulher trabalhava-a. É de notar que nas sociedades tradicionais Bantu, o gado não era apenas uma fonte de alimento, mas também um indicador de riqueza económica e status social.
A economia era de subsistência, mas produzia um pequeno excedente que era vendido em mercados comunitários e regionais. Estes mercados eram regulares e neles trocavam-se outras mercadorias não produzidas localmente como o sal, alimentos, tecidos, cerâmica, marfim, metais (ferro, cobre, e ouro), e utensílios de ferro.
As Migrações Bantu
A África a Sul do Sahara ca. 2000 AC - Padrões principais das Migrações Bantu (Sul e Leste-Sul), Povos Mbuti da Floresta, e Povos San da Savana
Os primeiros povos Bantu chegaram à
região costeira do Congo e Angola entre quatro mil e dois mil anos atrás. Ainda sem confirmação,
estima-se que os primeiros povos de ascendência Bantu a chegar à costa
de Angola foram os Ambundos, pois é aceite pelos estudiosos de linguística que o Kimbundo é uma língua Bantu mais antiga do que o Kikongo. Ao longo dos próximos séculos, os Ambundos expandiram-se para o interior ao longo da bacia do Rio Quanza e até às margens do Rio Cuando.
Uma possível sequência das migrações Bantu para a África Central
Acredita-se que o
povo Ambundo tenha origem remota nas segundas migrações Bantu que
partiram da região-núcleo que é situada no que é hoje o país dos
Camarões e a Nigéria a norte do Golfo da Guiné. Esta migração seguiu em direcção para sul ao longo da
costa de África. Acredita-se ainda que os
Ambundo e os Bakongo usaram a rota migratória
directamente para sul ao
longo da costa Atlântica, tendo os Ambundo chegado primeiro (estima-se
que no Séc. VI e VII) ao actual território de Angola que os Bakongo, que
chegaram no Séc. XI.
As Grandes Migrações Bantu na África Central e Oriental e Sul, de 500 AC a 600 DC
As próximas migrações Banto para o leste e depois sul seguiram uma rota diferente através do interior circundando a grande floresta equatorial da bacia do rio Zaire, ao longo dos grandes rios Ubangui, Congo, Cuando, e até ao Kassai, até às regiões norte e centro do planalto de Angola actual entre os
primeiros séculos da nossa era e o século XI.
A geografia e o clima foram factores muito importantes nestes movimentos migratórios. Cerca de meio milénio mais tarde após a chegada dos Ambundos à região, os Bakongos estabeleceram-se na Bacia do Zaire, e passaram a ocupar as regiões costeiras
de Loango, Cacongo, e Cabinda, o Baixo-Zaire, e o planalto do Congo (no centro da actual província do Uíge) até para além
do Rio Cuango e para sul até ao Rio Dande.
É importante notar que ainda não se pode confirmar com certeza absoluta que os Bakongo imigraram para a região, ou se a sua formação como cultura distinta dos Ambundos foi resultado de transformações internas culturais, linguísticas, económicas, e políticas que ocorreram na região do Baixo Congo ao longo de alguns séculos.
O continente africano até ao século XV, mostrando o padrão das migrações Bantu na África Central e Oriental (clique no mapa para aumentar o detalhe)
Os outros povos ancestrais da Angola actual (Nganguela e Xindonga (agricultores), Ambó (pastores), Lunda-Tchokwe (comerciantes), que mais
tarde imigraram para o actual território de Angola tomaram originalmente a rota leste,
da região dos Camarões em direcção aos Grandes Lagos, donde depois emigraram para oeste e sul até à bacia
do Rio Zambeze e mais tarde ainda mais para oeste e sul até chegarem
aos seus territórios tradicionais em que hoje se situa Angola.
Identidades políticas (chefados/reinos) pré-coloniais no actual território de Angola, até ao Séc. XVII.
O
mapa a seguir dá uma indicação mais detalhada dos movimentos migratórios
Bantu na África central (Congo, Angola,e Planalto Central) incluindo a bacia do Zaire e os planaltos do
Bié, Huambo, e Huíla:
Movimentos migratórios Bantu no actual território de Angola, com estimativas de datas
Acredita-se que os povos Umbundu e Nhaneka-Humbe são de origem mais recente, formados mais pela miscegenação de povos vizinhos resultantes das profundas transformações sociais e políticas causadas pelo tráfico de escravos (comerciantes) já depois da chegada dos portugueses, do que de migrações ancestrais de longo curso. Cabe ainda mencionar a excepção do Povo Herero (pastores) que emigrou do território actual da Namíbia com direcção a norte, para o canto sudoeste de Angola, províncias de Namibe e Benguela.
Terra do Preste João, mapa de Jacob Ortelius, 1688
4.6 A Escravidão e o Tráfico de Escravos
A escravidão é uma instituição social e económica mais antiga do que as civilizações da Grécia Antiga e do Império Romano. Evidência arqueológica e documentos mostram que a escravidão era a base económica dos impérios assírios há cerca de mais de cinco a seis mil anos atrás, mesmo antes da civilização egípcia.
Escravatura ou escravidão refere à condição social e individual e vida do escravo. Tráfico de escravos refere-se à aquisição e disposição de escravos - através de rapto, rapina, conquista, processo judicial, ou compra e venda de escravos em mercados, por exemplo.
A Condição de Escravo
A condição fundamental da escravidão é a propriedade de um ser humano por outro. O direito de propriedade era baseado na coerção, força, e controle que o dono exercida à sua vontade sobre o escravo.
A condição de escravo estava sempre associada à violência - rapto e rapina, guerra, esturpo, castigos físicos violentos, prisão; deprivação de alimentos (fome), trabalho perigoso e árduo, espectro de ser vendido, e morte.
Como propriedade, o escravo podia ser comprado ou vendido pelo dono. Tipicamente, o escravo não pertencia à comunidade; ele era um "outro de fora". A condição de escravo era herdada dos seus pais, e dependia completamente da livre vontade do dono. Os filhos dos escravos não pertenciam aos seus pais; eles eram também propriedade do senhor. O escravo não tinha possibilidade de escolha sobre nada; tudo dependia da vontade do deu dono.
O escravo estava sempre ligado ao trabalho. O escravo era usado no aparelho militar e em guerras; na administração pública; trabalho doméstico; como objecto sexual; e no processo produtivo (agricultura, minas, comércio, indústria; construção, trabalho artesanal, e em certas ocupações liberais.
O senhor tinha controle sexual sobre a escrava e sobre a capacidade reprodutiva da mesma. O senhor tinha o direito de acesso sexual às suas escravas ou escravos quando quizesse. Em geral, no tráfico árabe de escravos, os eunucos (homens castrados) e as mulheres mais atraentes comandavam um preço mais alto.
O Tráfico Trans-Atlântico de Escravos
A
instituição da escravatura na Àfrica Central já existia antes da
chegada dos portugueses ao Congo. Nas sociedades tradicionais africanas, uma pessoa podia tornar-se um escravo como
prisioneiro de guerra, por sentença de crime grave na comunidade, por não pagamento ou garantia de dívida, e em casos menos comuns por entrega voluntária própria ou de
familiares por razões de pobreza irremediável.
Na
sociedade ancestral Bakongo os escravos eram classificados em duas classes principais: escravos domésticos (Bana a nzo, bana-a-bata, e kijikos) e escravos que podiam ser vendidos (Bantu a mbongo, bantu a nzimbo, e mubikas). O escravo doméstico (mubikas) eram tratado com
indulgência, como uma pessoa da comunidade e não como uma mercadoria, ao passo que o kijicos eram considerados estrangeiros.
Embora o escravo mubica não pudesse ser considerado como membro de uma kanda, nem
tivesse direitos de propriedade, ele/ela não passava o estatuto de
escravo para os seus filhos, e podia em certas situações tornar a ganhar o estatuto de não-escravo, ou mesmo aceder a um papel de relevo social e político na comunidade.
O Mapa de África (colorido), de Fillipo Pigafetta, na sua "Relatione del Reame di Congo et delle Circonvicine Contrade", 1591. "Relação do Reino do Congo e das Terras Circunvizinhas", tradução de Rosa Capeans, Agência Geral do Ultramar, Lisboa, 1951.
O tráfico de escravos africanos ganhou fôlego em Portugal em Agosto de 1444, quando uma expedição comandada por Lançarote, composta de seis caravelas chegou de volta a Portugal trazendo um carregamento de 235 escravos da costa de Arguim em África chegou a Lagos, no Algarve, e ali teve lugar o primeiro leilão de escravos sob a égide do Infante Dom Henrique, o Navegador, e governador da Ordem de Cristo desde 1420. O cronista-mor do reino, Gomes Eanes de Azurara, registou este acontecimento histórico na sua "Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné", em 1453, e estas foram as suas pungentes palavras:
"Uns tinham as caras baixas e os rostos lavados em lágrimas, olhando uns para os outros; outros estavam gemendo muito dolorosamente, esguardando a altura dos céus, firmando os olhos em eles, bradando altamente, como se pedissem socorro ao Pai da natureza; outros feriam o seu rosto com as palmas das mãos, lançando-se estendidos no meio do chão; outros faziam as suas lamentações em maneira de canto, segundo o costume de sua terra, nas quais, posto que as palavras da linguagem não pudessem ser entendidas dos nossos, bem correspondiam ao grau da sua tristeza.
Mas para seu dó ser mais acrescentado, sobrevieram aqueles que tinham cargo de partilha e começaram a apartá-los uns dos outros, a fim de pôr os seus quinhões em igualeza; onde convinha a necessidade de se apartarem os filhos dos pais, e as mulheres dos maridos e os irmãos uns dos outros. A amigos nem a parentes não se guardava nenhuma lei, somente onde a sorte o levava! [...] Quem podia acabar aquela partição sem mui grande trabalho? Que tanto que os tinham postos em uma parte, os filhos, que viam os pais na outra, alevantavam-se rijamente e iam-se para eles; as mães apertavam os outros filhos nos braços e lançavam-se com eles de bruços, recebendo feridas, com pouca piedade das suas carnes, por lhes serem tirados!"
O Mercado de Escravos de Lagos, no Algarve, onde se realizou em Portugal em 1444, o primeiro leilão de escravos Azenegues da Costa de Arguim, sob os auspícios do Infante Dom Henrique.
Em 1455 o Papa Nicolau V concedeu ao rei português o direito de continuar o tráfico de escravos na África Ocidental, sob a condição de que toddos os escravos fossem convertidos ao Cristianismo.
Baseados em dados que compreendiam o período entre 1501 e 1867, as regiões fornecedoras de escravos na costa de África (apresentadas por volume de tráfico) incluiam as seguintes estimativas de volumes e percentagens do total:
- África Central e Ocidental (que incluia Congo e Angola), 5.695.000 escravos, 45,5%
- Golfo de Benin 1.999.000 escravos, 16%
- Golfo de Biafra 1.595.000 escravos, 12,7%
- Costa do Ouro 1.209.000 escravos, 9,7%
- Senegâmbia 756.000 escravos, 6%
- Costa de Moçambique 543.000 escravos, 4,3%
- Serra Leoa 389.000 escravos, 3,1%, e
- Libéria 337.000 escravos, 2,7%.
Para o grande total de 10.703.000 escravos exportados de África para as Américas durante o mesmo período (de 1501 a 1867). Em termos de género, não existem estatísticas detalhadas para este período, mas estima-se que 62% dos escravos transportados para as Américas eram homens e 38% eram mulheres.
Com
a chegada dos portugueses à foz do Rio Zaire em 1483 e o
estabelecimento de relações com o Antigo Reino do Congo, a instituição tradicional da escravatura conguesa mudou radicalmente em poucos anos. Em vez de continuar a a circunscrever-se à comunidade local tradicional, o escravo deixou de ser escravo doméstico e passou a ser uma mercadoria valiosa para ser exportada para mercados estrangeiros.
Esta transformação da pessoa em mercadoria teve também um impacto político e social profundo nas comunidades tradicionais: os chefes aproveitaram-se dos escravos para se enriquecer, acabando por imporem sistemas políticos e de justiça domésticos assentes na violência e terror constantes, e de se passarem a guerrear com outro chefados próximos para conseguir mais escravos. Em pouco tempo, a guerra e consequente captura de escravos passou a ser a norma para um grande número de chefados tradicionais.
Contudo, em termos económicos, a oferta de escravos não se baseou somente no número de escravos domésticos e aqueles obtidos através das guerras de kwata! kwata!. Os portugueses impuseram condições duras de vassalagem aos chefados locais, sempre com base na obrigatoriedade dos chefes africanos fornecerem um número específico de escravos todos os anos às autoridades coloniais. Essa pressão acabou por compelir os chefes a obeter um número muito maior de escravos, o que os levou a adulterar o sistema doméstico de justiça, que passou a condenar à escravidão um número cada vez maior de pessoas por crimes de cada vez menor importância social, estabelecendo um sistema de terror permanente.
O valor de um escravo estava na capacidade de produção ao longo da sua vida. Assim, os jovens adultos comandavam os preços mais altos. Os homens eram geralmente usados para trabalhos mais pesados, e o valor económico das mulheres era, para além da sua capacidade imediata de trabalho, eram apreciadas pela sua capacidade de reproduzir uma nova geração de escravos. Assim, as mulheres ainda ferteis comandavam em geral um preço mais alto. De notar que o filho de uma escrava, quem quer que seja o pai, era considerado escravo.
Geografia do Tráfico de Escravos em África
Inicialmente no século XV, o tráfico português de escravos africanos limitava-se à costa de África Ocidental, primeiro nas Ilhas Canárias, depois na Mauritânia e na na Guiné, e mais tarde no Golfo da Guiné. O âmbito do comércio de escravos era local, trocando-os por ouro vindo do interior. Com a expansão da cultura do açúcar para o Brasil e Caraíbas, e de tabaco e algodão para os estados do sul dos Estados Unidos, o tráfico atingiu um volume muito maior e ganhou uma amplitude trans-Atlântica.
Mapa antigo das Ilhas de Cabo Verde, século XV.
Após a chegada dos portugueses, o destino
inicial da maioria dos escravos do Congo eram os engenhos de açúcar nas Ilhas de São Tomé e Príncipe, estabelecidos
pelos cristãos-novos (antigos judeus convertidos não voluntariamente ao cristianismo) portugueses que para ali se refugiaram depois das perseguições judaicas em Portugal, entre 1481 e 1540. De facto, os primeiros habitantes permanentes das ilhas de São Tomé e Príncipe foram os escravos vindos do Congo e Angola, então chamados Angolares, pois estas ilhas (então ainda desabitadas) tinham sido descobertas em 1470 pelos navegadores portugueses João de Santarém e Pero Escobar.
Ruínas
da antiga Ribeira Grande (Cidade Velha) na ilha de Santiago, perto da Cidade da Praia, Cabo Verde. A Ribeira Grande foi durante séculos um dos depósitos mais importantes de escravos antes de serem levados da costa de África para as
Américas.
A situação geográfica privilegiada das Ilhas de Cabo Verde ao largo da costa de África e a meio caminho para as Américas fez com
que elas tivessem um papel importante no tráfico transatlântico de
escravos. Com efeito, o arquipélago de Cabo Verde foi um entreposto importante para a exportação de escravos da África Ocidental para as Américas. Por esse motivo, as ilhas de Cabo Verde foram vítimas de muitos ataques de corsários e piratas ao longo de três séculos.
O Pelourinho da Ribeira Grande (Cidade Velha), na Ilha de Santiago, Cabo Verde, erigido pelos portugueses em 1520, e hoje classificado pela UNESCO como Património Cultural da Humanidade.
Os escravos eram trocados capturados no interior do Sahel e transportados para a feitoria de Cacheu, na Guiné-Bissau, de onde eram trazidos para a antiga Ribeira Grande (hoje Cidade Velha), na Ilha de Santiago, em Cabo Verde, para esperar embarque para as Américas.
O porto de Cacheu, na foz do Rio XXX, na Guié-Bissau, foi durante séculos um importante entreposto negreiro na costa Ocidental de África.
Em 1471, o rei português D. Afonso V estabeleceu a feitoria de São Jorge da Mina, na região a que mais tarde se viria a designar como Costa do Ouro, hoje Gana. O
Castelo da Mina, a principal feitoria portuguesa no Golfo da Guiné foi estabelecida para o resgate de escravos para serem trocados por
ouro com os potentados locais. O monopólio do comércio local de escravos foi inicialmente arrendado por cinco anos ao comerciantede Lisboa Fernão Gomes da Mina, que assumiu a obrigação de explorar 100 léguas da costa africana por ano.
Com o advento do tráfico transatlântico de escravos, a feitoria foi conquistada pelos holandeses em 1642, onde construiram um forte muito maior, perto da antiga feitoria portuguesa.
Forte da El Mina, construído pelos holandeses em 1642, perto do antigo castelo português de São Jorge da Mina, estabelecido pelos portugueses para funcionar como feitoria comercial e porto negreiro principal no Golfo da Guiné.
O manicongo Mvemba-a-Nzinga (1456-1543), que foi rei do Congo D. Afonso I entre 1506 e 1543, protestou contra o tráfico de Bakongos para São Tomé. Em 1520 ele enviou uma carta ao seu rei-irmão D. Manuel de Portugal em que claramente se posicionou contra as viagens de navios que vinham da Ilha de São Tomé resgatar escravos à costa de Panzelungo (margem direita do Zaire), afirmando "Estou muito escandalizado, não somente por mim, mas pela minha gente, que me lança em rosto que, sendo eu cristão e vassalo d'el rei nosso irmão, como vêm homens brancos à minha porta fazer o trato e resgate com os meus contrários."
Mapa holandês antigo da Ilha de São Tomé, meados do séc. XVII
Depois, com o começo do ciclo do açúcar no Brasil, durante as duas últimas décadas do séc. XVI, a maioria dos
escravos passaram a ser levados para os engenhos de açúcar na costa brasileira da Amazónia,
Grão Pará, Maranhão, Pernambuco, Recife e Bahia a norte, e até às cidades do Rio de
Janeiro, São Vicente (Santos e São Paulo) a sul, e até um pouco mais a sul para a Colónia do Sacramento e até Buenos Aires, de onde eram
levados para as pampas da Argentina e para as minas de prata da Bolívia e do Perú através da bacia dos rio Paraná e Uruguai.
A famosa cidade de Loango na costa da África Central, gravura de Olfert Dapper (ca. 1680)
Entretanto, após este período inicial, grande número de
escravos do Congo foram levados para as Caraíbas (para Cuba e Haiti em
especial), pois os holandeses, ingleses, franceses, espanhois, suecos e dinamarqueses copiaram nas
Antilhas e nas Guianas o modelo de exploração agrícola tropical com base na plantação
de açúcar estabelecida pelos portugueses na Ilha da Madeira, depois
melhorado na Ilha de São Tomé, e mais tarde ainda mais aperfeiçoado no
Brasil.
Durante o ciclo do ouro e diamantes no Brasil (nos princípios do Séc. XVIII), o
fluxo de escravos aumentou para alimentar as minas de ouro e diamantes em Minas
Gerais, para além das minas de prata do Cerro de Potosi no Perú,
onde durante o período de 350 anos de trabalho na minas, se estima que tenham morrido entre 5 a 10 escravos por dia (mais de um milhão no total).
A
região costeira e todo o hinterland africano até cerca de mil quilómetros da
costa de África a sul do Gabão até um pouco a sul de Benguela (Caconda,
Quilengues, e Nano), foi durante todo o período do tráfico
trans-Atlântico a que mais escravos forneceu às Américas (Sul, Norte e
Caraíbas). O número de pessoas vítimas do tráfico transatlântico estima-se em mais de 12 milhões de africanos arrancados das suas terras e vilas durante um
período de mais de 350 anos (entre 1455 e 1880).
Já
no Séc. XIX, e como resultado do esforço da abolição da escravatura na Europa, os
escravos de Angola, continuaram a ser levados para as as plantações de
algodão e tabaco nos estados do sul dos Estados Unidos da América até 1871, para as
plantações de açúcar e de tabaco em Cuba, e para as fazendas de café do
Brasil, até à a promulgação da Lei Áurea no Brasil em 1888, que aboliu de vez a escravatura e o tráfico de escravos no Brasil, e encerrou de vez o capítulo triste do tráfico transatlântico de escravos na história da humanidade.
Caravana de escravos a caminho da costa do Senegal (Séc. XIX)
Tráfico de Escravos Trans-Sahariano
É
de notar aqui que dois outros grandes sistemas de exploração de
escravos africanos existiram em África, talvez com dimensão ainda superior ao do tráfico trans-Atlântico de escravos. Desde os tempos muito
antigos das civilizações núbia e egípcia, do apogeu de Cartago, e mais tarde do Império
Romano, escravos eram trazidos do Sudão (em árabe bilad al-sudan - a terra (país) dos negros) e do Sahel
através do deserto do Sahara (conhecido como o tráfico trans-Sahariano
de escravos) para servir esses mercados. Este sistema durou mais de dez
séculos, estimando-se que cerca de dez milhões de escravos foram
extraídos da África a sul do Sahara.
Traficante de escravos francês, na Ilha de Goreia, em frente a Dakar, Senegal, século XVII.
A principal região fornecedora de escravos para este mercado foram os povos que habitavam a faixa do Sahel e sul até à costa do golfo da Guiné, e através de todo o território a sul do Sahara até ao Sudão e à costa do Mar Vermelho. O comércio trans-sahariano de escravos era controlado por potentados muçulmanos. Estima-se que o número total de escravos extraídos do Sahel tenha atingido mais de 12 milhões, e que só três ou quatro em cada dez escravos sobrevivia a travessia do deserto do Sahara e chegava vivo ao destino (Magreb - Marrocos, Argel, Tripoli, Tunis, e Cairo, Ibéria - Córdova e Granada, Próximo-Oriente Damasco, Arábia Meca, e Império Otomano - Constantinopla), e que destes a maioria ia servir como eunucos (homens castrados) e concubinas residentes em harens para servir sexualmente aristocratas árabes.
Por sua vez, do reduzido número de escravos que sobreviviam a travessia do deserto, a mortalidade da castração (amputação do penis ou remoção dos testículos) de escravos adolescentes masculinos (realizada em norma por judeus) era superior a 90% devido a hemorragias e infecções não tratáveis poucos dias depois. Só para se ter uma ideia da dimensão deste tráfico, a corte do califa de Bagdad em 908 tinha cerca de 11.000 eunucos. Por outro lado, não era raro encontrar haréns controlados por um califa com centenas de concubinas cada.
Um mercado árabe de escravas europeias nos Balcãs
Durante esse mesmo período, o tráfico de escravos europeus na península Ibérica e no mar Mediterrâneo era também muito elevado, pois, como exemplo, o califa de Córdova tinha um exército de 60.000 escravos europeus. Acredita-se ainda que o harém do famoso Rei Salomão fosse constituído por 700 esposas e 300 concubinas.
Rotas do tráfico de escravos trans-Sahariano
Tráfico de Escravos no Oceano Índico
O tráfico de escravos do Oceano Índico é conhecido desde a Antiguidade, mas com
a expansão do domínio religioso muçulmano à antiga Pérsia, Índia, Ásia Central, e
litoral africano no Índico, desde Axum até Sofala, o tráfico de escravos
africanos aumentou muito, pois o mercado consumidor de escravos
africanos aumentou exponencialmente com a exportação de escravos para a
Turquia (Império Otomano) Índia (Império Mogul), Bengal, Ceilão, e
mercadores da Insulíndia (Java, Sumatra, Sião, Camboja, Vietname, e China).
Estima-se, sem números exactos, que o volume do sistema
ìndico de tráfico de escravos foi talvez maior e durou muito mais tempo (dos Séculos X aos fins do Século XIX) do que o
trans-sahariano e que o trans-Atlântico. Este comércio era controlado
por potentados muçulmanos da região e comerciantes indianos que também
controlavam o comércio no Oceano Índico.
Com a chegada dos europeus à região no século XVI, portugueses, ingleses, franceses, e holandeses também se envolveram na compra e venda de escravos, não só para a região, mas também para a África do Sul, Brasil e Antilhas.
Os escravos eram usados como
soldados (mamelucos), eunucos e concubinas, empregados domésticos e
trabalhadores agrícolas nas plantações europeias. O tráfico de escravos
no Oceano Índico foi abolido pela Inglaterra em 1843, mas algumas formas
residuais de servidão persistiram até hoje, como é o caso no Sudão e em
certas regiões da Índia.
As regiões fornecedoras de escravos no mercado índico foram principalmente a África Oriental (actual Quénia, Uganda, Tanzânia (Zanzibar), Moçambique, Zimbabue, Malawai, e Zâmbia) e os principais mercados de escravos no Oceano Índico eram os portos
da costa Swahili de Melinde e Quíloa, as ilhas de Zanzibar e de
Moçambique, e a costa de Sofala (já no actual território de Moçambique), bem como as ilhas Comores, Madagáscar, Mauricius, e Reunião, e ilhas da Insulíndia.
Mapa do tráfico de escravos árabe na África Oriental
Angola Perante a Escravatura
O
tráfico de escravos do Atlântico começou com a chegada de escravos da
costa ocidental de África ao porto de Lagos, no Algarve, em Portugal em
1455, tão bem descrito por Gomes Eanes de Azurara na sua Crónica dos Feitos na Guiné,
continuando latente até cerca de 1580, começando a intensificar durante
todo o século XVII, e atingindo volume muito maior e nunca visto
durante as últimas décadas do século XVIII.
O
Brasil foi destino para o maior número de escravos arrancados de África
com mais de 4,5 milhões, entre 1550 e 1888. Basta lembrar que em média e
para o mesmo período, em cada cem pessoas chegadas ao Brasil, 86 eram
escravos.
As
populações que viviam ao longo da costa e no interior da bacia do rio
Zaire, e territórios para além do interior da Lunda e da bacia do rio Zambeze a
leste, e para sul até para além dos planaltos do Huambo, Bié e Huíla a
sul, foram as que sofreram os horrores da escravatura por mais tempo.
Existiam três métodos principais no resgate de escravos:
- por via de guerra - Apanhados nas guerras kwata!-kuata! (razias de escravos) no
interior, com ou sem a conivência dos sobas locais, as populações eram
arrancadas das suas aldeias e eram organizadas em caravanas de escravos
que tinham que fazer longas caminhadas acorrentados e a pé regiões (alguns por mais de mil quilómetros) desde o local de
aprisionamento até aos barracões em Luanda, Benguela, ou Malembo na costa atlântica. Essa caminhada durava às vezes, entre seis a nove meses.
- por comércio - Por outro lado, a compra local de escravos era feita por pumbeiros, que eram aviados (agentes comerciais) dos comerciantes de escravos de Luanda e Benguela, e financiados por estes, que se metiam pelo sertão a dentro e compravam escravos aos chefes locais, a troca de dinheiro, tecidos, sal, bugigangas, geribita, e armas.
- por tratados de vassalagem, que eram arranjos diplomáticos e militares impostos pelos portugueses aos chefes locais, pelas quais eles eram obrigados a pagar um tributo em forma de escravos, sob severas consequências, a fornecer um número mínimo de escravos por ano às autoriadades portuguesas do presídio mais próximo, ou mesmo Luanda ou Benguela.
Com base em estatísticas frágeis das comunidades de origem, estima-se que 40% dos escravos eram raptados; 25% eram obtidos através de incursões militares (incluindo guerras kwata! kwata!); 20% eram dispostos pela própria família; e 15% como resultado de decisão judicial do chefe.
É de notar que até à chegada dos portugueses ao Congo, a escravatura era uma instituição de longa tradição nestes chefados, mas tinha uma amplitude local - os escravos não eram comprados ou vendidos, pois não eram trocados nas feiras. Alguns eram usados como escravos domésticos e outros nas hordas militares.
Mercados de Escravos na África Central Ocidental
As rotas locais do tráfico de escravos na África Central e actual
território de Angola, seguiam em geral o curso e a orientação dos maiores rios
no fim dos quais se situavam os principais portos negreiros. Nos
primeiros tempos após a chegada dos portugueses, os escravos eram
capturados nas regiões vizinhas aos rios no território Bakongo (Loango, Malembo, Cabinda, Pinda, e margem esquerda do rio Zaire), mas à
medida que as populações rareavam nestas regiões devido ao volume anual de escravos
capturados, as fontes fornecedoras de escravos passaram mais para o interior,
chegando a atingir regiões situadas a mais de mil e quinhentos quilómetros da costa (para
além dos rios Cassai, Zambeze, Lungué-Bungo, Cuando, e Cubango.
Uma caravana de escravos africanos a serem levados para a costa (figura do Séc. XVIII)
Assim, o mercado do Congo abrangia o hinterland do Loango e Congo
(povo Bakongo) que ia confluir nos portos negreiros de Loango (Ponta Negra), Malembo e Cabinda, e de Pinda (Sonho). O nome ancestral da cidade de
Cabinda é "Tchioa", o que significa empório de grande comércio de
pescados. A área de captação de escravos para este mercado era muita
vasta abrangendo Cacongo (Lândana) e o Loango (a norte da floresta do
Maiombe), Mpumbu, Nsundi (Lago Malebo, Kinshasa) e Tio (Bateke / Anzico) e as
áreas de Kuilo, Nkusu, Sosso, Zombo, Yaka, Wando, e Sonho. Inicialmente,
os escravos eram levados de Tchioa e Cacongo para a Ilha de São Tomé,
mas depois a principal zona de destino passaram a ser as costas brasileiras de
Maranhão, Pará, Pernanbuco, e Bahia.
O porto de Loango foi durante muitas décadas um dos principais portos negreiros franceses na região para suprir
as necessidades de força de trabalho escrava para as plantações e
engenhos de açúcar da colónia francesa do Haiti.
Principais chefados da África Central fornecedores de escravos para o tráfico trans-atlântico de escravos (Sécs. XVI - XIX)
O
mercado do Ambriz captava escravos ao longo dos rios Loge e Mbridge nas
áreas vizinhas dos Dembos, Encoge, Caipemba, Nabuangongo, Quibaxe, Ambuíla,
Ambuela, Ambrizete, e Tomboco, povoadas pelo povo Bakongo. O mercado do
Ambriz foi dominado durante muito tempo por negreiros ingleses, que
exportavam escravos principalmente para as plantações de açúcar nas
Antilhas e para os Estados Unidos da América.
Escravo Africano acorrentado e coberto por malha de rede para não fugir. Golfo da Guiné Séc. XIX.
O
mercado de escravos da bacia do Cuanza, um monopólio português com base
em Luanda, abrangia as áreas de captação dos antigos potentados
ambundos de Angola, Kissama, Dondo, Muxima, Massangano, Pungo Andongo,
Ambaca, Ndongo, Matamba, Jinga, Cassange, Holo, Songo e Lunda, portanto a
maior parte das actuais províncias de Luanda, Malange, Cuanza-Norte,
Cuanza-Sul, e Lunda-Norte. Os principais mercados de destino de escravos
que saíam de Luanda era o Brasil (Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro,
Paraná, Rio Grande do Sul, e a Colónia do Sacramento, actual Uruguai),
Buenos Aires, e a as minas no Perú e na Bolívia. Luanda foi durante todo o período do
tráfico trans-Atlântico de escravos (três séculoes e meio) o maior
porto exportador de escravos do Atlântico e do mundo.
O
mercado de escravos do Sumbe (Novo Redondo/Porto Amboim), abrangia as regiões ao longo do rio Ngunza e vizinhas do Seles,
Quibala, Amboím, e as áreas ribeirinhas ao rio Queve (Cuvo), povoadas
pelo povo ovimbundo. Antes da fundação de São Filipe de Benguela, o principal porto
negreiro da região era Benguela-a-Velha (Porto Amboím/Kissonde). Com a criação da vila de Novo Redondo em 1769, no tempo do Governador Sousa Coutinho, o porto negreiro
principal entre Luanda e Benguela passou a ser o de Novo Redondo (Sumbe/Ngunza).
O
mercado de escravos de Benguela, abrangia o hinterland dos planaltos
populosos do interior do povos ovimbundo, ao longo dos rios Catumbela e
Caporolo, bem como as terras mais para o interior, como Caconda,
Quilenges, Bibala, Nano, Lubango, Huambo, Bié, Andulo, Ganguelas,
chanas do Moxico até além-Zambeze, e Cuando Cubango. A maioria dos
escravos embarcados em Benguela e Novo Redondo eram levados para o Rio
de Janeiro, São Paulo, e sul do Brasil. O número de escravos exportados por Benguela foi também muito alto, apesar de inferior a Luanda e Cabinda.
Carta dos Reinos de Angola e Benguela, Séc. XVII
A Caminhada do Local de Captura até ao Porto de Embarque
A
caminhada do ponto de captura até ao porto negreiro, que durava de três
a nove meses e em certas áreas ainda mais tempo, era feita sob
condições muito duras, a pé, sujeita a todas as formas de violência,
fome, doenças, ataques de animais selvagens, abuso sexual, e de terror de assaltos de
outros ladrões de escravos. As caravanas andavam em filas de dois escravos acorrentados por libambas nos tornozelos e por uma corrente que prendia um grupo maior de escravos.
Caravana de escravos acorrentados em caminhada na África Oriental a serem levados por árabes para a costa do Índico (meados do Séc. XIX). Note-se à esquerda o escravo doente implorando clemência, mas prestes a ser morto.
A Espera nos Barracões
Quando chegavam já exaustos à costa os
escravos eram guardados em barracões nauseabundos durante alguns meses
mais até que o próximo navio negreiro os levassem para o além-Kalunga. A vida nos barracões era árdua. Uma vez ao dia, os escravos eram trazidos para fora do barracão para uma pequena caminhada e um banho na água do mar.
Barracão de armazenamento de escravos algures na costa de África, à espera de embarque para as Américas. Séc.XIX
Em Luanda, os barracões estavam situados na Ilha de Luanda e no Morro da Cruz, na Barra da Corimba. Os escravos eram aí marcados com um ferrete a ferro e fogo no barracão, e baptizados por um padre antes de embarcar. No embarque, o navio negreiro ficava ao largo, e os escravos eram levados em pequenos bateis em grupos de dois ou três, devidamente amarrados, para não resistir, e levado para o navio negreiro.
Dois ferretes com as marcas dos donos de escravos usados para os marcar a ferro em brasa no peito, no braço, ou ao cimo das costas. Antilhas, Século XIX.
Em Benguela, o barracão de escravos principal era o Armazém de escravos de Benguela, que serviu mais tarde como armazém da Alfândega, e mais recentemente foi adaptado Como Museu Nacional de Arqueologia de Benguela. Durante cerca de 250 anos, pelo porto de Benguela foram exportados cerca de 750.000 escravos.
O edifício do antigo Armazém de Escravos de Benguela, mais tarde usado como armazém da Alfândega, e mais recentemente readaptado a abrigar o Museu Nacional de Arqueologia em Bengeuela, Angola.
Kalunga - A Passagem do Meio
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Passagem do Meio - Escravos no porão do tumbeiro brasileiro "Albanez", apreendido pela Royal Navy na foz do rio Quanza em 1845
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Escravos a serem atirados ao mar, algures no Atlântico, Século XIX
A Chegada ao Porto de Destino
Todos os portos no Brasil tinham o seu cais dedicado ao desembarque de escravos de África. Depois de comprados, os escravos
eram levados para o engenho, plantação, mina, ou residência doméstica e
outra vez marcados a ferro em braza com a marca do novo dono. No Rio de Janeiro, o Cais do Valongo, e o Cais da Cidade Baixa em Salvador, Bahia foram a entrada sem retorno para milhões de escravos africanos no Brasil.
Gravura do Cais do Valongo no Rio de Janeiro, principal porto de desembarque e mercado de escravos do Brasil nos séculos XVIII e XIX. Pintura de Johann Moritz Rugendas, 1835.
Ao
chegarem ao porto de destino e antes de irem para os leilões de
escravos para serem vendidos, os escravos recebiam uma ou duas refeições
melhores, e eram depois inspeccionados, lavados, e besuntados com óleo
de palmeira para parecerem mais saudáveis e luzidios e assim poderem
atrair um preço mais alto no leilão.
Cliometria do Tráfico Transatlântico de de Escravos
Desde a sua captura inicial à compra pelo senhor no destino, o escravo passava por um percurso cheio de perigos, privações e violência: Captura na sua comunidade original, transporte para a costa, espera do embarque em barracões na costa, travessia da temível Passagem do Meio, chegada ao porto de destino, leilão e compra pelo seu novo senhor, transporte para o seu destino final, e finalmente trabalho árduo para o resto da sua vida.
Assim, com base nos números globais geralmente aceites por estudiosos do tráfico de escravos africanos, vou tentar dar uma explicação estatística de cada uma dessas fases do tráfico.
No primeiro passo, o escravo era comprado ou raptado na sua comunidade de origem. Se era comprado, não existem fontes documentais que atestem quaisquer números. Se eram capturados através das guerras de kwata! Kwata!, não era possível estimar quantos membros da comunidade morriam nesses ataques. Assim estamos diante uma lacuna estatística importante, pois sabemos que em certas guerras no interior dos reinos do Congo e do Ndongo o número de vítimas mortais foi muito elevado, e sabemos também que todos os sobreviventes foram capturados para serem vendidos em Luanda.
Estima-se
que cerca de 20% a 30% das vítimas não sobrevivia a viagem do interior à
costa e o período de espera de embarque, que podia chegar a muitos
meses, o que se traduziu em mais de dois milhões de homens, mulheres, e
crianças perecidas nestas caminhadas de morte. Na caravana, os escravos adultos eram presos por libambos que se punham no pulso da mão direita ou no pescoço, ligados em cadeia para nenhum fugir. As crianças apriosionadas caminhavam junto aos seus pais. Os que morriam no caminho, eram simplesmente desligados do libambos e eram deixado ao ar livre para serem comidos por animais selvagens. Como prova de perda de escravos que morriam no caminho, os pumbeiros usavam o método macabro de cortar a mão direita do infeliz escravo que tinha morrido, e pô-la num saco cheio de mãos, que traziam para Luanda para comprovar a perda do escravo no caminho.
Quando as caravanas de escravos chegavam à costa, eles eram guardados em barracões durante meses, à esepra de um navio negreiro que os levasse além do oceano. Neste estágio alguns escravos morriam por doença, subnutrição, e
A este número já em si
catastrófico, temos que adicionar cerca de 10% a 18% mortalidade na travessia atlântica nos tumbeiros (a Passagem do Meio), que se traduziu em mais de um milhão de africanos mortos na horrorosa e medronha travessia. Os navios que
transportavam escravos chamavam-se tumbeiros (navios de morte, túmulos flutuantes) pela elevada mortalidade dos escravos que transportavam para as Américas.
Croquis do tumbeiro britânico "Brookes", 1800. Note-se como os escravos eram "armazenados" sem espaço sequer para mexer os seus corpos durante toda a viagem no convés e no porão para maximizar a carga de escravos no navio. A viagem durava entre um a cinco meses.
Seguindo as estatísticas do tráfico, entre os anos de 1500 e 1850 (350 anos), por cada 100 escravos capturados no interior de Angola, apenas 70 chegavam à costa, entre 6 a 10 morriam nos barracões na costa durante a espera de embarque, entre 10 a 18 morriam na Passagem do Meio, chegando apenas 45 ao destino. Destes 45, cerca de 15 morriam nos primeiros três anos de cativeiro. Assim, do número original de 100 de pessoas escravizadas, apenas 30 pessoas sobreviviam, com uma mortalidade de cerca de 70%.
Escravos num tumbeiro Francês, ca. 1800. Note-se que as mulheres eram guardadas no convés, separadas dos homens que ficavam nos porões, para mais fácil accesso sexual à tripulação do tumbeiro.
Assim, em números acumulados, chegamos a uma estimativa de cerca de 9 a 10 milhões de pessoas escravizadas arrancadas aos povos do que é hoje
Angola e Congo (RDC e Brazzaville), dos quais cerca de 3 milhões morriam na viagem para a costa, cerca de 760.000 morreram nos barracões à espera de embarque, cerca de 6 milhões foram exportados
pelos portos ao longo da costa de Angola. Estima-se que de Loango, Malembo, Cabinda, Pinda, Sonho, e Ambriz exportaram-se cerca de 2 ,5 milhões, de Luanda, Dande, e Corimba (cerca de 4 milhões), e de Benguela-a-Velha (Porto Amboím), Novo Redondo (Sumbe), Negunza, Benguela, Catumbela e Moçâmedes (cerca de 2,5
milhões).
Cerca de 1,8 milhões morreram atirados ao mar na travessia do oceano, e que apenas cerca 4,2 milhões chegaram ao destino. Destes, cerca de 630 mil morreram durante os primeiros três anos no Novo Mundo, só cerca de 3,5 milhões finalmente sobrevivendo o genocídio.
Morte do Capitão Ferrer na revolta de escravos do tumbeiro Amistad, ao largo de Cuba em 1839
Ao longo de cerca de 380 anos de tráfico transatântico activo (entre 1500 e 1850, realmente até 1888), e usando médias gerais para cada fase do processo, 25.000 escravos eram comprados ou raptados em Angola por ano (cerca de 70 por dia); cerca de 8.000 morriam por ano (cerca de 21 por dia) na viagem para a costa; cerca de 2.000 morriam por ano nos barracões à espera de embarque; cerca de 3.740 morriam na travessia da Passagem do Meio por ano (10 por dia); e cerca de 11.250 chegavam ao porto de destino nas Américas por ano (30 por dia).
Em termos de portos negreiros principais, por Luanda foram exportados em média cerca de 10.500 escravos por ano (28 por dia); por Cabinda e Malembo, cerca de 6.600 por ano (18 por dia), e por Benguela outros 6.600 por ano (18 por dia).
Uma vez chegado ao destino, cerca de 9.200 morriam por ano (25 por dia) durante os primeiros três anos de cativeiro, por doença, suicídio, violência, ou exaustão por trabalho árduo.
As estatísticas acima enumeradas são baseadas em médias gerais globais, podendo os números específicos variar significantemente para cada estágio ou período de tempo.
É
de notar aqui que estas estimativas não podem ser tomadas com grande
grau de confiança. Por exemplo, não podemos saber o número aproximado de
pessoas capturadas e mortas nas guerras de kwata! kwata!. Os números
que usamos referem-se somente ao tráfico legal, quando sabemos bem que o
volume do tráfico ilícito praticado às escondidas das autoridades era
muito elevado. O volume do tráfico oscilou muito através de regiões e do
tempo. Não sabemos ainda o impacto do corso no grande número de navios
negreiros que foram capturados por corsários e piratas. Assim, todos
estes factores que desconhecemos o seu impacto com certa exactidão,
podem potencialmente aumentar o número de vítimas afectadas pelo tráfico
de escravos para uma dimensão ainda maior.
Apesar de todas estas limitações estatísticas, nós temos hoje acesso à "Trans-Atlantic Slave Trade Database" organizada pelos respeitados historiadores David Eltis, David Richardson, Stephen Behrendt, e Herbert Klein, com base nos trabalhos originais de Philip De Armond Curtin (1922-2009), expostos na sua obra notável "The Atlantic Slave Trade - A Census", publicado pela University of Wisconsin, Madison, EUA, em 1969.
Esta notável database disponível na internet (Viagens de Escravos) contém registos de mais de 50.000 viagens de navios negreiros, efectuadas entre 1514 e 1896, contendo para cada uma o nome do navio, datas da viagem, número de escravos embarcados e desembarcados, porto de embarque e desembarque, e portos visitados durante a viagem, dono e capitão do navio, e bandeira sob a qual o navio viajou.
Os resultados deste estudo foram também publicados em forma de livro muito bem ilustrado "Atlas of the Atlantic Slave Trade", coordenado depos professores David Eltis (Emory University, EUA) e David Richardson (University of Hull, Inglaterra), publicado pela Yale University Press, New Haven & Londres, em 2010.
É importante relembrar que as estatísticas da "Trans-Atlantic Slave Trade Database" se referem somente a escravos embarcados nos portos de origem, transportados em navios negreiros através da Passagem do Meio, e desembarcados nos portos de destino. Elas não incluem números que se referem à compra ou captura de escravos no interior de África, nem à sua viagem para a costa, nem mesmo ao período de espera de embarque nos barracões na costa. Assim, estima-se que para cada 100 escravos embarcados num porto, tinham de ser capturados no interior, transportados para a costa, e retidos em barracões no porto exportador, entre cerca de 135 a 140.
Os Quilombos
Os
escravos revoltavam-se sempre que possível da tirania dos traficantes,
tripulação de tumbeiros, senhores de engenhos de açúcar, e autoridades
coloniais, chegando a criar estados independentes com governo e
território independente como os quilombos no Brasil, e a revolução no Haiti.
O quilombo de
Palmares na Serra da Barriga, na região fronteiriça entre Alagoas e Pernambuco, no Brasil, durante cerca de um século, é um exemplo de um estado organizado por escravos fugidos aos engenhos de açúcar no Brasil que resistiu durante décadas à conquista
pelos luso-brasileiros, sob a liderança de uma linha de chefes famosos que incuem Aqualtuna (1630-50), Nganga Zuma (1650-78), Nganga Zona (1678), e Zumbi dos Palmares (1678-95).
Durante o período colonial, os escravos foragidos criaram centenas de quilombos espalhados pelos actuais estados de Maranhão, Pará, Pernambuco, Alagoas, Goiás, Mato Grosso, Bahia, e Minas Gerais. Nos quilombos, os escravos foragidos viviam livres de acordo com as suas tradições culturais africanas.
Quadro
do famoso pintor alemão Johann Moritz Rugendas (1802-58), mostrando a
vida quotidiana dos escravos africanos num qilombo, no Brasil.
O quilombo de Palmares chegou a albergar mais de 50.000 pessoas em 1650 que viviam em nove mocambos (ou quilombolas), que eram aldeias autosuficientes escondidas no mato protegidas por vegetação espessa, cercas, e armadilhas. Após muitas tentativas pelos luso-brasileiros e holandeses, o Quilombo de Palmares só veio a ser conquistado e destruído em 1695 por uma coluna de Bandeirantes liderados por Domingos Jorge Velho.
A Relevância da África Central e Angola no tráfico trans-Atlântico de escravos (1455-1888)
Até
aos fins do século XIX, a escravatura era a instituição social e
económica que melhor definia Luanda, pois Luanda foi durante alguns
séculos o maior porto negreiro africano e do mundo. Asssim, Luanda era um
grande porto exportador de escravos, com toda a estrutura necessária ao
tráfico (comércio, barracões, armazéns, transporte, hortas, água,
alimentos, armação de navios, reparações, inspecção médica, pedra para
baptismo de escravos, e estrutura militar para garantira segurança do
tráfico), e também era uma cidade que dependia totalmente do trabalho
escravo para a sua economia.
Com
efeito, e até aos finais do séc. XIX, mais de metade da população de
Luanda era constituída por escravos domésticos, de aluguer, e agrícolas,
que faziam todos os tipos de trabalho, desde amamentar os bébés das famílias de
posses, a empregados domésticos, até transportar água do poço da
Maianga (ou mesmo até do rio Bengo), como prestação de serviços, como
pedreiros, sapateiros, alfaiates, cozinheiros em casas de pasto, prostitutas de renda, pedreiros na construção de edifícios, etc., até soldados de "guerra preta" para suportar as guerras "Kuata!, Kuata!".
Os escravos eram frequentemente sujeitos a castigos muito severos mesmo para as faltas mais leves. A figura acima mostra um escravo a ser castigado no Rio de Janeiro, em 1834.
Se
bem que as maiores fortunas no tráfico de escravos se fizeram em
Portugal, na Inglaterra e nos Estados Unidos, também
grandes fortunas se fizeram em Luanda, Benguela, em Salvador da Baía, e
no Rio de Janeiro, no Brasil. O controle do resgate de escravos no
interior do actual território de Angola estava nas mãos de famílias
mestiças angolanas (mãe angolana e pai português) muito ricas e de
grande influência na sociedade luandense, que mantinham uma vasta rede
de aviados, pumbeiros e funantes por todo o hinterland do rio Cuanza,
terras além Cuango, e mesmo além Cassai. Com efeito o tráfico de
escravos foi a principal actividade económica em Luanda nos seus
primeiros trezentos e cinquenta anos de existência. Como tal, Luanda
tinha o seu pelourinho (só demolido em 1884) para administrar castigos
exagerados e crueis aos escravos que desafiassem o status quo da ordem
social e económica da escravatura.
A Economia do Tráfico de Escravos em Angola - Luanda e Benguela
Em Angola e no Brasil, muitos escravos foragidos quando eram apanhados pelas autoridades eram presos e usados nos trabalhos das câmaras municipais. Eles eram acorrentados com libambos e organizados em pequenos grupos vigiados por um soldado ou polícia (cipaios em Angola) que eram usados em obras públicas nas vilas e cidades, como abastecimento de água a hospitais, prisões, e quarteis, arranjo de estradas, e construção de edifícios públicos.
Escravos acorrentados com libambos ao pescoço (Pretos no Libambo) carregando água no Rio de Janeiro, em 1841. Gravura de Joaquim Lopes de Barros Cabral Teive.
A Igreja Católica Perante a Escravatura e o Tráfico
A
escravatura foi ainda justificada e suportada por um discurso religioso que
apresentava o cativeiro como um meio de salvação espiritual temporário (mas necessário) para os escravos. A igreja católica determinou que era responsabilidade
do monarca português assegurar a catequese e o baptismo dos escravos
africanos antes do embarque para as Américas, pois só assim se podia
facultar a salvação da alma. Assim, antes de embarcar e deixar a costa de África, os escravos eram baptizados, para qual a Igreja cobrava um montante por escravo baptizado.
Padre António Vieira pregando aos Índios
Com efeito, o Padre António Vieira num dos seus sermões do Rosário disse: "Oh
se a gente preta tiradas das brenhas de sua Etiópia, e passada ao
Brasil, conhecera bem quanto deve a Deus, e a sua Santíssima Mãe que
pode parecer desterro, cativeiro e desgraça, e não é senão milagre e
grande milagre!", confirmou o vínculo entre a escravidão e a salvação
espiritual. Esta teoria foi oficialmente adoptada pela Companhia de
Jesus, em que era aceite que a escravidão dos africanos e o comércio
negreiro fossem vistos como legítimos na medida em que permitia arrancar os
africanos da idolatria e do pecado, e submetê-los ao domínio de
senhores cristãos que os instruíam no caminho da verdadeira
salvação cristã para a vida eterna (sic!).
Foto do escravo foragido Peter Gordon com cicatrizes de chicotadas nas costas,
Louisiana, Estados Unidos da América, 1863
Assim
em Luanda, os escravos deviam receber catequese e ser baptizados nos
barracões de espera de embarque, antes de embarcarem nos tumbeiros. De facto, houve durante séculos nas Portas do Mar em Luanda (perto do Largo dos Correios) uma
cadeira de pedra na praia da baía de Luanda, na Corimba, e
no Morro da Cruz houve um espaço próprio
especialmente dedicado ao baptismo de escravos por
padres seculares (de maioria africanos) antes do ebarcaque nos navios
negreiros para a temível Passagem do Meio, para o qual os padres reebiam uma pequena quantia por cada escravo baptizado.
É
certo que o mero baptismo, ainda que fosse a porta de entrada para o
reino dos céus, não era suficiente para a salvação da alma, pois era
preciso instruir os escravos nos mistérios da fé católica e conduzi-los a
receberem os outros sacramentos, e tal só se conseguia através da
catequese. Porém, a questão da catequese era mais difícil de realizar,
pois por norma não havia tempo suficiente para catecatizar os escravos
nos barracões de espera, nem padres fluentes nas diversas línguas
nativas para o fazer, para além do facto de que os traficantes de
escravos não queriam assumir quaisquer custos adicionais, pois eles queriam o escravo para trabalhar, não para o evangelizar.
Abolição do Tráfico de Escravos e da Escravaura
Apesar do esforço da abolição da escravatura nos finais do século XVII I e princípios do século XIX, esta continuou ainda a crescer (ainda que ilegal) até aos fins de 1880s, década em que começou a cair muito.
Portugal e colónias
Europa - França e Inglaterra
Antilhas
Estados Unidos
O Brasil e Cuba foram os últimos países a abolir a escravatura. O Brasil fê-lo através de um longo processo d esforços que culminaram com a Lei do Ventre Livre promulgada em 1871 e a Lei Áurea, promulgada a 13 de Maio de 1888, que aboliu definitivamente a escravidão no Brasil.
Lei Áurea do Brasil, de 13 de Maio de 1888, que aboliu a escravidão no Brasil
Cronologia da Abolição em Angola
Mesmo depois da abolição formal do tráfico de escravos no Atlântico, a escravatura como instituição económica e social continuou em forma ilegal em Angola como escravatura doméstica, se bem que em números mais baixos, e em forma de trabalho forçado para trabalhos públicos, como construção de estradas e obras públicas, até às duas primeiras décadas do século XX.
Ferreiro inglês removendo a libamba da perna de um escravo, na costa de Moçambique em 1907
Referências Bibliográficas
Antes
de passar ao próximo tópico neste esboço macro-histórico de África,
cabe-me oferecer aqui algumas sugestões bibliográficas, além da database
indicada acima, para aqueles que queiram aprofundar o seu conhecimento
sobre o tráfico angolano de escravos, que penso podem ajudar muito:
O livro seminal "The Atlantic Slave Trade - A Census", do Prof. Philip D. Curtin, publicado pela University of Wisconsin Press, Madison, USA, em 1969, que deve ser lido a acompanhar a leitura do "Atlas of the Atlantic Slave Trade" mencionado acima.
O livro "Way of Death Merchant Capitalism and the Angolan Slave Trade 1730-1830" (Caminhos de Morte), do Prof. Joseph C. Miller,
publicado em 1988 pela University of Wisconsin Press, Madison,
Wisconsin, USA; Existe uma tradução portuguesa, mas eu não
tenho os detalhes sobre a mesma.
O livro "The Slave Trade - The History of the Atlantic Slave Trade 1440-1870", de Hugh Thomas, publicado por Picador, MacMillan Publishers Ltd. (Simon & Schuster Inc. in New York, USA), London, 1997;
O livro "Transformations in Slavery - A History of Slavery in Africa", 2ª Edição, da autoria do Prof. Paul E. Lovejoy, publicada pela Cambridge University Press, London, 2000;
O livro "O Tratado de Viventes - Formação do Brasil no Atlântico Sul", do Prof. Luiz Felipe de Alencar, publicado pela Companhia das Letras, São Paulo, 2000;
O livro "De Costa a Costa - Escravos, marinheiros e intermediários do tráfico negreiro de Angola ao Rio de Janeiro (1780-1860)", do Prof. Jaime Rodrigues, também publicado pela Companhia das Letras, São Paulo, 2005;
O livro "A Manilha e o Libambo - A África e a Escravidão de 1500 a 1700", do Prof. Alberto da Costa e Silva, publicado pela Editora Nova Fronteira Participações S.A., Rio de Janeiro, 2011;
O livro do Prof. Arlindo Manuel Caldeira "Escravos e Traficantes no Império Português - O comércio negreiro português no Atlântico durante os séculos XV a XIX", publicado pel'A Esfera de Livros, Lisboa, 2013;
Os três volumes da obra "Escravidão", de Laurentino Gomes, publicada pela Globo Livros, Rio de Janeiro, em 2019; Esta trilogia foca mais na relevância da escravatura e tráfico de escravos no Brasil;
Para o estudioso da economia política do tráfico transatlântico de escravos, é útil a leitura do livro "Capitalism and Slavery", de Eric Williams, publicado pela University of North Carolina Press, em 1944;
E finalmente, a obra " The Portuguese Seaborne Empire 1415-1825", de Charles Ralph Boxer, publicada pela editora Carcanet em associação com a Fundação Calouste Gulbenkian e a Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos, Portugueses, Lisboa, 1991. Existe uma tradução portuguesa desta importante obra.
4.7 Rotas de Comércio
A
empresa dos descobrimentos portugueses abriu o mundo para toda a sua
extensão. De quatro macro-regiões económicas relativamente fechadas
entre si (Europa, Mundo Árabe, Índia, e Extremo Oriente), os portuguese
trouxeram "novos mundos ao mundo" com a abertura da África, das
Américas, e do Pacífico ao comércio internacional de então. Esta
abertura realizou-se em dois planos principais: comércio (produtos) e
evangelização (mentalidades).
Desde a Antiguidade até ao fim da Idade Média, ou melhor, até à época dos Descobrimentos Portugueses, o
intercâmbio comercial à escala mundial operou-se basicamente em dois sentidos - do Oriente (Japão, Coreia, China, Índia, Insulíndia, Ásia Central, e Médio Oriente) para o Ocidente (Europa, Médio Oriente, e Norte de África), e vice-versa (da Europa para o Oriente). Este comércio mundial de longo curso era controlado pelos muitos potentados muçulmanos da Ásia Central e pelas répúblicas Italianas (Veneza, Florença, e Génova). Devemos ainda lembrar que havia um comércio inter-europeu muito activo ligando todas as regiões da Europa, incluindo a Rússia.
Com a excepção da Rota da Seda, até à época dos Descobrimentos Portugueses as rotas de comércio eram predominantemente regionais - Mediterrâneo, Báltico, Índico, Insulíndia, e Mar do Japão - não ligando estas a uma rede global de comércio mundial.
Com o advento dos Descobrimentos Portugueses, o comércio mundial tornou-se pela primeira vez verdadeiramente global. Para além das antigas rotas de comércio (Mediterrâneo e a Rota da Seda), novas rotas se estabeleceram sendo a principal entre o
Novo Mundo (Américas) e o Velho Mundo (Europa, e Ásia) e
vice-versa e a outra entre a Europa e a África. Neste quadro global de trocas coube à Àfrica a exportação de
força de trabalho através do tráfico trans-Atlântico de escravos; às
Américas coube a produção de produtos coloniais (açúcar, algodão,
tabaco, e café), bem como a mineração de ouro e prata; e coube à Europa a
produção de meios de transporte, produtos manufacturados, e a gestão do sistema financeiro mundial.
Com
a expansão portuguesa e holandesa na Índia e Insulíndia e a espanhola nas Américas,
duas novas rotas marítimas de comércio de longo curso floresceram: a Rota do Cabo (Sul da África) trazendo principalmente especiarias da Índia e Insulíndia para a Europa, controlada inicialmente pelos Portuguese e mais tarde pelos
holandeses, e a Rota do
Pacífico, ligando o México às Filipinas (a Carreira de Manila, ambos sob domínio espanhol),
Insulíndia, e China. Mais tarde, já no princípio do Séc. XVIII, os Ingleses passaram a controlar a Rota do Cabo quando ocuparam a Índia.
No quadro mundial de trocas, os grandes perdedores foram as répúblicas Italianas, o Império Otomano, os Moghuls da Índia, e os potentados da Insulíndia. O papel da China não se alterou muito,
pelo que continuou a fornecer ao Ocidente tecidos, louças e faiança, chá, e especiarias, e importar prata e produtos manufacturados.
Com a ocupação europeia das Caraíbas e da América do Norte nos sécs. XVI e XVII, um novo sistema de trocas mundiais tomou raíz (Comércio Triangular), caracterizado essencialmente por capitais e produtos manufacturados da Europa, mão-de-obra Africana para
as Américas, e produtos coloniais (açúcar, algodão, tabaco, e café) das
Américas para a Europa, que se manteve até a ascensão dos Estados Unidos como maior potência económica do mundo, já no Séc. XX.
4.8 O Grande Intercâmbio entre a Europa, a África, e o Novo Mundo
O intercâmbio que adveio do contacto entre povos de regiões muito díspares no mundo não se limitou ao comércio de produtos agrícolas, minerais, e industriais; com efeito o este intercâmbio incluiu pessoas, animais, plantas, cereais, alimentos, doenças, ideias, cruzamento de culturas, e até a uma nova maneira de ser e estar no mundo - um homem novo.
Em termos de novos alimentos vegetais vindos das Américas e chegados à Europa temos, entre outros, a batata, o tomate, a mandioca, o milho, o feijão, o amendoím, a batata doce, a abóbora, o abacate, o pimento, o ananás, a baunilha, o cacau. Em termos de animais temos o perú, e em termos de outras plantas temos o tabaco e o quinino. Em sentido opsto, isto é, trazidos da Europa para as Américas, temos o café, a banana, a cana de açucar, a uva, a laranja e o limão, a azeitona, a cebola, o nabo, o pêssego e a pêra. Em termos de cereais temos o trigo, o arroz, o centeio, e a aveia. Temos ainda animais domésticos como o boi, a ovelha, o porco, e o cavalo. A abelha de mel foi também trazida da Europa para as Américas.
O Grande Intercâmbio entre o Velho e o Novo Mundo permitiu também a transmissão de doenças mortais com efeitos devastadores nas Américas como a varíola, o tifo, a gripe, o sarampo, o paludismo, a difetria, e a tosse convulsa. A malária e afebre amarela foi levada da África para as Américas. Estima-se que nos primeiros cem anos de contacto com Europeu nas Américas, cerca de 95% da população nativa americana pereceu a novas doenças para as quais não tinham defesa..
No sentido contrário, a sífilis expandiu-se das Américas para a Europa. Na farmacopeia onde uma verdadeira revolução teve lugar, muitos remédios passaram a a ser usados em todo o mundo, como por exemplo o quinino, que era usado originalmente pelos Ìndios do Perú no tratamento do paludismo.
As famosas acácias rubras de Luanda e Benguela
Pessoas - colonos, escravos africanos, Índios dizimados
Animais domésticos
Plantas, cereais, e especiarias
Alimentos
Medicina
Doenças
Buganvílias em Luanda
Culturas
Metais e riqueza
Cruzamento de povos e mestiçagem
Ideias
O Bom Selvagem
O homem novo
Revolução científica
O tráfico de escravos no contexto da economia mundial
O Mundo Colonial - os Portugueses em África, o Império Espanhol nas Américas e no Pacífico, as colónias nas Caraíbas, Portugal e o Brasil, América do Norte (França e Inglaterra), o império colonial Russo, o Império Otomano, os Árabes na costa oriental da África, a Inglaterra e a Índia, a Holanda e a Insulíndia, a Inglaterra na Austrália, interesses comerciais ocidentais na China e no Japão, e as colónias no Pacífico.
4.9 A Partilha de África
Antecedentes - Roma, Árabes, e Portugueses
África até 1815
África entre 1815 e 1882
Leopoldo II da Bélgica;
Alemanha - colonizadora indecisa e tardia
Conferência de Berlim (1884-85)
Estabelecimento de colónias
Bacia Convencional do Zaire - Liberdade de culto, tolerança religiosa. Missões e ensino religioso
Ocupação militar e administrativa de Angola pelos Portugueses
Demarcação de Colónias
Apesar das conclusões específicas da Conferência de Berlim não demarcarem nem homologarem a criação de colónias em África, a consequência directa mais importante da Conferência foi o assalto imediato a África pelos poderes coloniais europeus, e a partilha da mesma entre a Inglaterra, a França, a Alemanha, e Portugal.
Este assalto tomou várias formas, incluindo conquista e ocupação militar, tratados de suzerania e protecção com chefados locais, aquisição de território, criação de monopólios coloniais através de companhias majestáticas, imigração de colonos europeus para ocuparem as terras conquistadas, e ocupação administrativa e imposição da autoridade colonial.
Campanhas militares de ocupação
Evolução administrativa
Luta de libertação
Descolonização
Independência
5 - Etno-História da Damba
Neste
contexto, a Damba tem um legado histórico importante, pois desde há
alguns séculos que era um dos povoados mais importantes na área fronteiriça
entre as antigas províncias de Mbata e Mpemba, com uma feira muito
activa na confluência dos sobados do Nsosso, Wandu, Nkuso, e Zombo no
tempo do Antigo Reino do Congo, antes da chegada dos portugues às terras
do Congo.
Segundo Duarte Lopes na sua "Relação do Reino do Congo e das Terras Circumvizinhas", publicado por Fillipo Pigafetta em 1591, nos meados do século XVI a região da Damba era tida como
rica em minerais, especialmente ferro, cobre, e prata, e foi na base da
recusa do Rei do Congo Dom António I Manimulaza (Vita Nkanga Ndontoni) de autorizar os portugueses a explorar prata na região que se radicalizaram as
posições que levaram à famosa Batalha de Ambuíla em 1665. Foi com esta
vitória que os portugueses conseguiram destruir o prestígio dos reis do Congo por mais de duzentos anos.
Era também na área da Damba que se realizava um dos maiores mercados regionais do interior (Konzo-Kipemba), sendo o maior em Maquela do Zombo (Mpangala-Zombo). A fama destes mercados regionais era conhecida através do Antigo Reino do Congo, pois não eram só mercadoss locais mas sim mercados regionais onde se compravam e vendiam produtos de áreas muito distantes.
Tavola del Regno de Congo, Duarte Lopez e Fillipo Pigaffeta
Relação do Reino do Congo e das Terras Circumvizinhas, 1591
A sua herança histórica e cultural abriram-me a mente à história
dos povos africanos em Angola, que decerto tinham a sua história, mas
que por muito tempo se havia de mostrar como um mistério para mim.
Pensava às vezes que, talvez devido à minha incapacidade de encontrar
resposta a essas perguntas, aceitava a vida como me era oferecida, sem
ter que aprofundar mais o assunto. Contudo, a falta de resposta a
perguntas como essas continuava a "roer-me" a mente até encontrar
resposta.
O baptismo do Príncipe do Sonho, em Pinda (Soyo), 1491
Pelo que a minha mãe me disse há muitos anos, o nome "Damba" vem da baixa ou vale
por onde passa oum riacho ribeirinho (Ndamba) a leste da vila onde íamos
pescar bagres. Por
outro lado, também ouvi dizer também que o termo "Damba" vem de uma
cobra
pequena muito comum na região. Contudo, cumpre dizer que não há consenso
sobre a origem do nome "Damba", pois como Sebastião Kupessa explica na
sua análise sobre a origem do nome Damba, outras fontes indicam que o
nome da povoação provém de "Nendamba", o nome de um chefe destacado de
uma das tribos do Antigo Reino do Congo.
Por outro lado, Patricio
Batsikama oferece outra explicação, referindo o facto que a
etimologia do
termo "Damba" vem de "Ndamba", o que por sua vez tem origem no verbo
"Lamba", que significa "cozinhar" em Kikongo, e para "cozinheiro" a
palavra é "Ndamba", e em termos etno-históricos, cozinheiro é entendido
como aquele que dominava a arte de fabricar utensílios de ferro
(ferreiro), e que a
na área da Damba em tempos ancestrais havia uma mina onde se extraía
ferro. Outra explicação baseia-se na tradição oral, que nos diz que o
nome "Damba" vem do nome de "Na Ndamda Lutayi" um membro legendário da
kanda Kikenge, que viveu na área e deu o nome à povoação. Contudo, esta
explicação é refutada, pois o nome "Damba" à povoação já existia antes
do legendário Na Ndamba Lutayi ter nascido.
Soube ainda que em
2014 houve um colóquio na cidade do Uíge com o fim de investigar as
origens do nome "Damba" e que, devido à pluraridade de opiniões e
dúvidas, não se chegou a qualquer consenso, e que o consenso final (pela
falta de consenso) do colóquio
foi criar um grupo de estudo encarregado de investigar o tópico mais
profundamente. Contudo, até agora o mesmo continua ainda não resolvido.
Gravura do Rei do Congo (Séc. XVI)
O povo nativo da região da Damba pertencia à tribo Sosso (ou Nsosso, plural BaSosso)
da nação Bakongo (Ba (plural) - Kongo), que pertence ao grande grupo Banto que se estabeleceu
na região durante os séculos X e XI, e que fala Kikongo. A base
económica dos Bassosso
assentava no cultivo e produção de café, ginguba, feijão, e algum arroz
para venda a comerciantes europeus, e no cultivo de mandioca, batata
doce, milho, e vegetais para consumo familiar. As culturas
verdadeiramente tradicionais incluiam somente o milho miúdo, o sorgo e
banana, e diversos tipos de carne, incluindo galinha, porco, cabrito,
carneiro, pacaça, elefante, lagartos e ratos, aos quais foram
adicionados o milho, a ginguba, a mandioca, a
batata doce, o taro, o café, a goiaba, o ananás, a laranja e o limão, a
cana de açúcar, e
a goiaba, que foram todos introduzidos na região pelos portugueses
depois da sua chegada à foz do Rio Zaire em Março de 1483.
A Queima dos Ídolos em São Salvador (Mbanza Kongo) ordenada em 1491 pelo Rei do Congo Nzinga-a-Cuum, primeiro rei católico Dom João I (1470-1509)
O
comércio era muito activo através de feiras locais (quitandas) nos
povos em que compravam e vendiam produtos locais e produtos importados
de Luanda e do Congo Belga. As quitandas (feiras) eram organizadas
semanalmente perto dos povos de maior população. Antes da chegada dos
portugueses, a semana era composta por quatro dias (Ponna, N'kando,
Quengue, e Conzo). A base da alimentação era o funge (farinha
de mandioca ou de milho) acompanhado de peixe seco que vinha de Luanda e
Moçamedes, e molho de muamba (molho feito com óleo de ginguba), e frequentemente condimentada com muito gindungo. A caça era também uma fonte importante de proteínas para a
alimentação. A bebida predilecta dos Bassosso era o malavo que
era feito de seiva de palmeira fermentada, se bem que o infundi feito com farinha de milho grosso e o banvo, o bibidi, e o samba também eram apreciados.
Mulher de Maquela do Zombo a fumar cachimbo (1958)
Lembro-me ainda que o uso de
tabaco era muito comum, e até o de liamba, bem come o de
mascar cola. Não posso
esquecer aqui o facto de que muitas mulheres mais velhas fumavam tabaco
com a ponta acessa do cigarro para dentro da boca, o que eu muito
admirava. O que me admirava ainda mais é que elas podiam falar quase
normalmente enquanto tinham a ponta acesa do cigarro dentro da boca.
Também era comum ver-se pessoas a mascarem um caroço de parecido com o
caroço de abacate, a que chamavam kola.
Os rapazes construiam
maravilhosos carros e casas de bordão que em termos de funcionalidade e beleza
competiam com os melhores brinquedos europeus.
Como em muitos povos de Angola, o batuque (massau)
era um evento muito especial para as comunidades nativas da Damba. No
massau não podiam faltar os dançarinos e dançarinas que actuavam também
como coro, e ainda o quissange , o n'gombe, o mahungo, e as marimbas. O
quissange era feito com uma caixa metal em cima da qual se fixavam um
número de palhetas metálicas, que eram tocadas com os dedos. O n´gombe era um tambor afunilado feito com pele de animal. O mahungo era uma espécie de flauta, e as marimba eram feitas com cabaças de vários tamanhos. Em tempos antigos, o mpungi (ou kipungi) era uma trompa de marfim que só era usada em cerimónias e eventos especiais em que o rei do Congo tomava parte.
Batuque (massau), Damba, 1956
Ao
contrário dos Bazombo da região de Maquela do Zombo (onde eu
nasci, a norte e perto da fronteira com o então Congo Belga) que eram
comerciantes inatos comprando e vendendo tudo nas suas
feiras, desde luandos (esteiras de bordão) a refeições prontas a comer,
os Bassosso da Damba dedicavam-se mais à agrícultura. Os
Bassosso viviam em grupos de sanzalas (povoações tradicionais) chefiados
por um soba. Cada povoação era regida por um sobeta.
Mapa do Reino do Congo na sua maior extensão, ca. 1600, mostrando as províncias e chefados satélites
O
Antigo Reino do Congo era a unidade política soberana estabelecida pelo
povo Bakongo nos princípios do Séc. XVII, portanto muito antes da
chegada dos Portugueses ao Zaire. O
território do Antigo Reino do Congo compreendia a norte as terras a sul
do curso do Grande Rio (Zadi, Zaire) e a sul demarcado pelo curso do
Rio Dande (Dange), entre a costa atlântica a oeste e o Rio Nkisi a
leste.
Mapa do Antigo Reino do Congo, cerca 1595
Segundo Duarte Lopez e Filippo Pigafetta na suaRelação do Reino do Congo e das Terras Circumvizinhas (1591),
o Antigo Reino do Congo era composto por seis "províncias" (sobados
principais) relativamente autónomas, a saber: Sonho (Ducado de Soyo) a
oeste, entre os rios Zaire e M'Bridge; Bamba (Ducado de Mbamba) a
sudoeste, entre os rios M'Bridge; Sundi (Ducado de Nsundi, a norte e ao
longo do Rio Zaire); Pango (Marquezado de Mpangu, ao sul de Sundi e a
norte de Bata); Bata (Ducado de Mbata, a leste, onde se situava Maquela
do Zombo e a Damba); e Pemba (Mpemba, ao centro, onde se situava a capital
de Mbanza Kongo, e onde residia o Manicongo, ou Ntotila).
Embora com maior autonomia política do que as "províncias" descritas acima, os "reinos" de Loango, Cacongo, e Ngoio na costa atlântica a norte da foz do rio Zaire, faziam também parte do antigo Reino do Congo.
Mapa do Reino do Congo, e reinos vizinhos de Loango, Cacongo, Ngoio, Tio (Anzicos), Ndongo (Angola), Matamba, e Yaka, 1648
Monsenhor J. Cuvelier, na sua importante obra L'Ancien Royaume de Congo (1946),
ofereceu uma descrição mais detalhada e precisa da geografia politica
da região, indicando que o sobado da Damba se situava a sul do sobado do
Zombo, a leste do ducado do Nkusso, a norte do ducado do Wando, e a oeste do marquesado do Nsonso. Segundo o historiador Ralph Delgado
na sua notável obra "História de Angola", o Rei D. Afonso I (1509-43)
numa carta que escreveu ao Papa Paulo III em 1539, intitulava-se "Por
graça de Deus, rei do Congo, de Loango, de Cacongo e de Ngoyo, d'aqém e
d'além Zaire, Senhor dos Ambundos de Angola e da Quissama, de Musuauru e
da Matamba e de Muyllu e de Mussuco e dos Anzicos e da conquista de
Panzo-Alumbu".
Os antigos reinos do Loango, Congo, Anzicos (Tio), Angola, Benguela, e Matamba, e o jagado de Kassange (1650)
Por
sua vez, o Antigo Reino do Congo fazia fronteira a norte do Rio Zaire
com os reinos de N'Goyo (Cabinda), Cacongo (Landana), Loango (Ponta
Negra), Vungu, e o Reinos dos Anzicos (Bateque - na margem norte do Rio
Zaire, a nordeste da actual cidade de Kinshasa), a leste com as terras
do Dembo Ambuíla (Quibaxe, de população Ambundo) e o reino da
Matamba a sudeste(até ao Rio Cuango), e a sul do Rio Bengo (Zenza) com
as terras do Dembo Cahenda e do Ngola do Reino do Ndongo (Angola). O
território do reino do Congo chegava até à baía de Luanda, pois era aí
que se obtiam os zimbos (conchas pequenas) que serviam de moeda do
reino. A ráfia de Mbata era da melhor qualidade e beleza e era famosa e
muito cara na Europa desse tempo.
Uma vista de Mbanza Kongo, gravura de Olfert Dapper, 1680
A
sucessão dinástica dos reis do Congo (os Ntotila) não era hereditária.
De facto, o rei do Congo (Manicongo, Ntótila ou Wene Wa Kongo) era eleito pelos
sobas principais (os Mani) representando as principais linhagens (clãs) que governavam as
"províncias" do reino.
Gravura da embaixada portuguesa de Rui de Sousa ao Mani Sonho (1491)
Como eleitores do Ntótila,
os Muene (mani) tinham um
importante peso político no Congo. De facto, eram os chefes das kandas
principais que se escolhiam os reis. As kandas (casas reais) mais
destacadas foram a casa Lukeni (1390-1567), Coulo (1567-1622 e
1626-1631), Kincanga (1622-1626), Kimpanzo (1636), e Kinzala (1636-1665).
Depois da derrota de Ambuíla em 1665, o Reino do Congo entrou numa
crise política profunda com muitos reis usurpadores e depostos, baseados
ao mesmo tempo em diferentes capitais do reino (São Salvador, Kibango,
Inkondo, Ambamba-Lovata, e em Lemba-Ambula). Depois de 1709, houve uma
tentativa de reunificação das kandas principais que estabeleceram um
sistema de escolha rotativo, em que as casas reais Água Rosada,
Kimpanzo, e Kinzala foram as mais predominantes.
Depois do controle
português sobre o reino estabelecido em 1891, a casa dos Água Rosada
deteve o poder até 1914. Depois desta data, os reis do Congo eram mais
titulares (título honorífico) do que reis efectivos pois a autoridade
passou para a administração colonial potuguesas. Esta situação de reis
titulares substiste ainda hoje, mesmo depois da independência.
Antigas maneiras de viajar no Congo, gravura do séc.XVI
Devo esclarecer aqui que o uso dos termos reino, ducado, e marquezado são
uma adaptação portuguesa da organização política nativa
tradicional de
sobados mais ou menos independentes da região, para os quais o factor
linhagem era o factor mais importante.
A corte do rei do Congo, D. Álvaro (1567-1587), gravura de Olfert Dapper (1680),
Durante
o período de ocupação portuguesa efectiva das terras do Congo nos
princípios do século XX, os reis do Congo (os Ntotila) mantiveram o seu
título, mas a sua autoridade política e administrativa foi muito
diminuída pela autoridade colonial. Durante esse período, o Rei D.
Manuel III reinou de 1914 a 1915, o Rei D.Álvaro XV de 1915 a 1923, e o
Rei D. Pedro VIII reinou de 1923 a 1955, que faleceu em São Salvador.
D. Pedro VII, foi sucedido pr D. António III em 1955 com o apoio das
autoridades portuguesas e igreja católica, não obstante a oposição local
protestante.
O Rei do Congo Dom Pedro VIII e sua Família na sua Residência em São Salvador do Congo, 1938
Este diferendo veio dar origem à formação da União dos Povos do Norte de Angola (UPNA), que em 1958 sob a direcção de Holden Roberto se passou a designar por União dos Povos de Angola (UPA), sob a influência de Franz Fanon, o teórico da ideologia anti-colonialista. D. António III
veio a falecer em 1957 e só veio a ser sucedido em 1962 por D. Pedro IX
Afonso.
As ruínas da catedral de São Salvador, Mbanza Kongo, séc. XVI
Os
primeiros contactos dos portugueses com a região da Damba tiveram lugar
com o estabelecimento do hospício do Incusso (Nkusu) de existência
efémera, a leste de São Salvador, sul de Maquela e perto da Damba,)
pelos
padres Capuchinhos italianos em meados do século XVII (entre 1647 e
1651). De acordo com Dom Manuel Nunes Gabriel, antigo Arcebispo de Luanda, na sua obra "Angola - Cinco Séculos de Cristianismo"
foram nesse tempo estabelecidos cinco hospícios no Congo (Sonho (em
Pinda, Soyo), São Salvador, Incusso (Damba), Bamba Congo (Bembe), e
Bamba Lubota (perto do Ambrizete, Nzeto), e cada hospício servia de base
para o trabalho de evangelização itenerante dos padres Capuchinhos.
O Rei do Congo Dom António III, que reinou entre 1955 e 1957 e sua esposa, Dona Isabel Maria da Gama que o sucedeu como regente até 1975.
Em
1758, no tempo do governador António de Vasconcelos, uma expedição
militar portuguesa liderada pelo tenente de ganadeiros Francisco Manuel
de Lira chegou à Pedra do Encoge, situado a sul da província de Mbamba
(ao sul da actual vila de Nova Caipemba e a oeste do Songo), onde
estabeleceram o presídio de São José do Encoge em 1759. Este presídio estava já
situado nas terras do Dembo Ambuíla, que era um potentado independente
do reino do Congo.
Ruínas da Igreja do Forte de São José do Encoge (1759) O Forte do Encoge foi restaurado em 1971, mas está hoje outra vez em ruínas.
Poucos
anos depois, o notável governador Francisco Inocêncio de Sousa
Coutinho, que governou Angola entre 1764 e 1772, incumbiu o Capitão
Duarte de Sequeira de chefiar uma coluna militar aos presídios de Ambaca
e de São José do Encoge, com o intuito de pacificar o Ambuíla, os
Mahungos, e os Sossos (a sudeste da Damba), o que não foi possível realizar-se.
Mapa parcial dos territórios de Cabinda e Malembo, 1904
A ocupação
efectiva do (então futuro distrito do) Congo pelos portugueses não começaria até aos princípios do
século XX. A estratégia da penetração portuguesa começou com a conquista e ocupação do Ambriz em 1858 (depois do acordo com a Inglaterra sobre a Questão do Mossul e Ambriz), seguidas do estabelecimento da vila do Bembe em 1857, e ocupação de São Salvador em 1881, de Maquela em 1896, da Damba em 1911, de Sanza Pombo em 1914, e do Uíge em 1917.
Só depois da
pressão criada pela Conferência de Berlim em 1885 que obrigava à ocupação efectiva dos territórios na foz do Zaire, em oposição ao argumento de direitos históricos invocados pelos portugueses, e da consequente acção
do então Bispo do Congo D. António Barroso é que os portugueses estão
de volta à região de São Salvador (Mbanza Kongo).
Mapa da antiga Província do Baixo-Congo, no antigo Congo Belga, 1913 (Nação Bakongo), situado logo a norte da antiga Provínciaportuguesa de Angola. Note-se a existência das linhas dos caminhos de Ferro Matadi-Kimpese-Thysville-Madimba-Leopoldville e Boma-Lukula (Tshela). Poucos anos depois, os franceses construiram uma linha férrea que ligou Brazzavile a Ponta-Negra, a norte de Cabinda, passando por Lindoumi e Laudima. Apesar das sua vantagem crítica para o escoamento de café e outros produtos coloniais e minerais para a costa, os portugueses nunca construiram uma linha de caminho de ferro no chamado "Congo Português. Note-se ainda que neste mapa as fronteiras de Cabinda ainda não estavam completamente estabelecidas.
A fundação da capitania-mor da Damba data de 1917. A ocupação efectiva da Damba pelos portugueses começou formalmente
em Dezembro de 1911 com o estabelecimento do Posto Militar da Damba,
que passou a capitania-mor em 1913, sendo para aí destacada a 1ª
companhia do Batalhão destacado para o Norte de Angola. Em 1917 a Damba passa a capitania-mor e em 1921, a Damba
passou a ser uma circunscrição civil, e a concelho em 1934. A povoação da Damba foi elevada a vila em 1950.
A população
total do concelho da Damba em 1959 era de 71.571, com uma densidade
populacional média de 9,05 habitantes por quilómetro quadrado (com o
mais elevado índice no distrito do Uíge). A área do concelho da Damba
era de 8.330 quilómetros quadrados.
A Tipoia, puxada por africanos, era o principal meio de transporte para europeus nas primeiras décadas do Séc. XX no Norte de Angola
O
distrito do Congo Português foi criado em 1886 com capital na Vila de
Cabinda e
incluía cinco residências (a saber Cabinda, Cacongo (Lândana), St.
António do Zaire, Ambrizete, e São Salvador). Em 1912 foi criada a
circunscrição de Maquela do Zombo e as capitanias do Bembe (a oeste),
Damba (ao centro), e Cuango (a leste).
Em 1913-14 houve um forte
movimento de resistência (uma revolta generalizada) contra a ocupação
portuguesa da região que levou a uma ocupação militar portuguesa mais
forte e
efectiva da região. Em 1917 a sede do distrito passou de Cabinda para
Maquela do Zombo (que tinha já uma repartição de Fazenda, de Alfândega, e
uma estação de correio), e foi estabelecida a capitania-mor da Damba.
Em 1922, o distrito do Congo foi dividido em dois: o Distrito de do
Zaire, com sede em Santo António do Zaire, incluindo Cabinda, Noqui, e
Santo António do Zaire, e o Distrito do Congo, ainda com capital em
Maquela do Zombo, compreendendo as circunscrições civis do Zombo, S.
Salvador, Bembe, Damba, e Pombo. Depois de mais algumas reorganizações
administrativas nas três próximas décadas, a configuração administrativa
do Congo Português passou finalmente em 1956 a compreender dois
distritos: o distrito do Zaire, com
sede em São Salvador, e o distrito do Uige, com sede na cidade de
Carmona (Uige), da qual o concelho da Damba fazia parte até à
independência de Angola em 1975.
Antiga secretaria militar portuguesa, na rua principal em Cabinda (Rua Raínha Dona Amélia), 1910. Este "barracão holandês" ainda era usado para outros fins em 1975.
O distrito do Congo tinha uma área de 64.022 quilómetros quadrados. Segundo o antigo governador do distrito do Congo, Major Hélio Felgas,
em 1959, a população do distrito do Uíge era composta de 468.416
africanos , 7.172 brancos, 2.518 mestiços, e 751 africanos assimilados,
para um total de 478.857 pessoas. Nos recenseamentos gerais da
população de 1940 a 1970, a população do distrito do Congo (que incluia Uíje e Zaire) era respectivamente:
1940 ........... 360.285
1950 ........... 400.153
1960 ........... 503.318
1970 ........... 427.803
Em 1967, a agricultura era a
principal actividade económica do distrito, dos quais se destacava o
café com 412 fazendas e uma produção de 73.000 toneladas, seguida de
17.500 toneladas de ginguba (amendoím), 1.700 toneladas de algodão, e de
1.500 toneladas de arroz. Produziram-se ainda nesse ano cerca de
900.000 toneladas de mandioca para consumo de subsistência da população
africana. A exploração de madeira era também importante, com 35.000
metros cúbicos de madeira cortada.
Uma vista de Luanda, cerca 1645 Gravura de Olfert Dapper
Convém
reparar que tenho vindo a focar até aqui no período anterior ao
estabelecimento de Luanda e conquista do reino de Angola por Paulo Dias
de Novais, pois os portugueses estabeleceram-se primeiro na Ilha de São
Tomé (1471), depois no Congo (1491), depois em Luanda (1575) e foz do
Quanza (1589), e só mais tarde é que avançaram para o interior, com o
estabelecimento de relações com os N'Gola do Ndongo, já na primeira
década do século XVII, e em Benguela em 1617.
Luanda, vista parcial da Cidade Alta, ca. 1900
Nota- Secção ainda em desenvolvimento
Inserir aqui Tabelas dos Censos de Luanda e Angola
Vida terrena e o sobrenatural
O Ciclo da Vida e Ritos de Passagem
Os ritos de passagem Bantu sãoRituais cruciais em cada fase da vida, marcandoo nascimento, a entrada na vida adulta (iniciação), o casamento e a morte, fortalecendo os laços comunitários e a identidade cultural.As principais práticas incluem dar nome aos recém-nascidos, circuncisão masculina (ulwaluko,imbalu), educação feminina, veneração aos ancestrais e costumes matrimoniais elaborados, comoo lobola, que marca a transição dos indivíduos para novos papéis sociais.
Segue abaixo um resumo dos principais ritos de passagem Bantu:
1. Ritos de Nascimento e Nomeação
Acolhendo o recém-nascido:O nascimento simboliza o crescimento da família e a continuidade da linhagem.
Cerimônias de Nomeação:As crianças costumam receber nomes em homenagem aos ancestrais para emular suas virtudes.
Período Liminar:Em algumas tradições, o bebê é mantido dentro de casa, aquecido com fumaça de ervas, e só é reconhecido plenamente quando o cordão umbilical cai, integrando-o oficialmente à comunidade.
2. Ritos de passagem para a idade adulta (Iniciação)
Esses elementos marcam a transição da infância para a maturidade, com foco na educação, disciplina e papéis de gênero.
Iniciação Masculina (Circuncisão):Prática comum para simbolizar a masculinidade, eliminando traços "infantis". Exemplos incluemulwaluko(Xhosa),imbalu(Gishu) ebogwera(Tswana).
Iniciação feminina:geralmente envolve acampamentos de treinamento que abrangem tarefas domésticas, parto e educação sexual para preparar as mulheres para o casamento.
Reclusão:Os iniciados frequentemente passam por períodos de isolamento, aprendendo com os mais velhos.
3. Ritos do Casamento
Lobola(Preço da Noiva):Um costume central que envolve a troca de gado ou bens para fortalecer os laços entre famílias.
Contrato social:o casamento é visto como uma união de famílias, não apenas de indivíduos.
4. Ritos de Morte
Ancestralidade:A morte é uma transição para se tornar um ancestral que vela pelos vivos.
Enterros:Frequentemente envolvem rituais específicos para garantir que o falecido não retorne para atormentar a família e para honrar seu espírito.
Principais características desses ritos
Foco na comunidade:promovem o senso de pertencimento e a solidariedade.
Educação Cultural:Eles transmitem tradições, valores e responsabilidades.
Definição de gênero:
Religião Bantu
A religião é um componente essencial em qualquer sociedade ou civilização.
Nkisi de Santu Nzambi (Nzambi-a- Mpungo), deus supremo, eterno e criador do povo Holo, região do Cuango, RDC, guardado no Royal Museum of Central Africa, Tervuren, Bélgica
A religião Bantu refere-se aoconjunto de crenças e práticas ancestrais dos povos bantos da África Central, Oriental e Austral, caracterizada pela adoração a um Deus supremo (Nzambi), culto intenso aos antepassados e crença na força vital (nkisi). No Brasil, essa tradição é a base doCandomblé Bantu (Angola/Kongo)e influenciou profundamente a cultura popular.
Principais Características e Conceitos:
Deus Supremo:Acredita-se em um Deus criador, frequentemente chamado deNzambiou Nzambi Ampungu, que é onipotente, mas distante da vida cotidiana.
Culto aos Ancestrais:Os antepassados (espíritos) são fundamentais e atuam como intermediários. Eles influenciam a vida dos vivos, podendo proteger ou causar doenças/crises se negligenciados.
Força Vital (Minkisi/Jinkisi):O culto envolve a veneração de divindades da natureza ou espíritos (minkisi) que habitam receptáculos, representando forças que interagem com a humanidade.
Cosmovisão:A morte não é o fim, mas uma transição de energia para o mundo dos antepassados, mantendo-se o intercâmbio entre os mundos visível e invisível.
Religião no Brasil:Introduziram oCalunduno período colonial. No Brasil, os candomblés de nação Angola (ou Bantu) focam muito no culto aos ancestrais e à terra.
Rituais:A celebração inclui música, dança e ofertas de alimentos para agradar aos ancestrais.
As religiões de matriz Bantu no Brasil também influenciaram o desenvolvimento da Quimbanda e de diversas tradições populares
Mitos e lendas
Crença e religião
Religião ancestral Bakongo
Enagelização católica no Congo
Dom Afonso I, o primeiro rei do Congo católico
Padroado e Propaganda Fide
Jesuítas no Congo
Capuchinhos no Congo
Sincretismo religioso e nacionalismo - Beatriz Vita
Acção das igrejas protestantes no Congo - Metodista, Baptista, e United Church
Evangelização católica moderna no Congo - Dom António Barroso e missões católicas
Sincretismo religioso recente
Padre Capuchinho italiano pregando evangelização no antigo Ducado do Sonho (Soyo), Séc. XVII
6. Refugiados do Congo Belga em 1960
Já
em 1959 e 60, assisti à debandada dos colonos europeus do então Congo
Belga, onde viviam os nossos tios Agostinho e Mélita, e o meu primo Hugo
e a minha prima Luísa, com quem íamos passar férias de vez em quando à
vila de Moerbeck, onde viviam. Os refugiados do Congo Belga passavam diariamente em
longas filas de carros caros Mercedes abarrotados de bens pessoais pela
nossa pacata Vila da Damba em direcção a Luanda, e daí para a Europa.
Perguntei
à minha mãe o que é que estava a acontecer, e ela disse-me então que
eram refugiados do Congo Belga que temiam a independência da colónia do
Congo Belga marcada para 30 de Junho de 1960, e que era uma questão de
tempo até acontecer o mesmo aos portugueses em Angola.
Mapa do Antigo Congo Belga, 1955
Ainda no mesmo ano não fez sentido para mim a suspensão do Grande Rally Automóvel Leopoldville - Luanda - Matadi - Leopoldville,
o maior acontecimento do ano naquelas pacatas paragens, e muito menos
este êxodo de carros e famílias que dia-a-dia aumentava em volume e
intensidade. Este rally automóvel era famoso com prova de endurance pois a geografia era difícil e as estradas eram péssimas.
Momento de Partida do Rally Leopoldville - Luanda - Matadi - Leopoldville, 1959
Percurso do Rally Leopoldville - Luanda - Matadi - Leopoldville
O rally era organizado pelo Automóvel Clube de Leopoldville em Abril (ainda na época da chuva) todos os anos entre1955 e 1960. O percurso do rally começava em Leopoldville (actual Kinshasa), seguinto em direcção a sul para Thysville (actual Mbanza Ngungo) (154 km), Quipango (na fronteira entre o Congo e Angola - em Kimbata no lado de Angola) (150 km), Maquela do Zombo, Quibocolo, Damba (144 km), 31 de Janeiro, Bungo, Negage (158 km), Entre-Rios, Camabatela, Samba Caju, Lucala, Vila Salazar (Ndalatando) (248 km), rumando então para oeste com destino a Zenza do Itombe, Catete e Luanda (272 km). Daqui, seguia para nordeste em direcção nordeste para o interior - Caxito, Úcua (133 km), Quibaxe, Dembos, Vista Alegre, Aldeia Viçosa, Quitexe, Carmona (Uíge) (235 km), e então em direcção a oeste para o Songo, Toto (134 km), Quibala, Bessa Monteiro e Ambrizete (180 km), seguindo daqui em direcção norte para Tomboco, Lufico, e Noqui (264 km). Atravessava então a fronteira do Congo Belga em direcção a Matadi, e daqui de volta a Thysville (215 km), entrando aqui no lanço final até Leopoldville 154 km).
A distância total do percurso do rally era de 2.364 quilómetros a serem percorridos em pouco mais de uma semana. O troço Úcua - Uige - Songo - Nova Caipemba - Toto era o mais difícil pela geografia e condição da estrada.O mais inóspito era de Ambrizete a Matadi, e o mais longo e mais fácil era de Salazar a Luanda, já com algumas estradas asfaltadas.
Já na década de Setenta, este rally veio a ser substituído pelo Rally de Dakar na África Ocidental. No Congo Belga, havia outro rally muito famoso - o Rally do Lago Kivu, e em Angola, havia o Grande Rally de Angola.
A SABENA (Linhas Aéreas Belgas) tinha ligação regular entre Leopoldville (Kinshasa) e Luanda. Fotografia de um avião DC-3 Dakota no antigo aeródromo Emílio de Carvalho situado entre os bairros da Vila Alice e do Café (1953).