1 - Viagem Pela História de Angola

Uma viagem através dos tempos, povos, personagens e acontecimentos que moldaram a História de Angola.

Nome:
Localização: Cranbrook, Colômbia Britânica, Canada

Helder Fernando de Pinto Correia Ponte, também conhecido por Xinguila nos seus anos de juventude em Luanda, Angola, nasceu em Maquela do Zombo, Uíge, Angola, em 1950. Viveu a sua meninice na Roça Novo Fratel (Serra da Canda) e na Vila da Damba (Uíge), e a sua juventude em Luanda e Cabinda. Frequentou os liceus Paulo Dias de Novais e Salvador Correia, e o Curso Superior de Economia da Universidade de Luanda. Cumpriu serviço militar como oficial miliciano do Serviço de Intendência (logística) do Exército Português em Luanda e Cabinda. Deixou Angola em Novembro de 1975 e emigrou para o Canadá em 1977, onde vive com a sua esposa Estela (Princesa do Huambo) e filho Marco Alexandre. Foi gestor de um grupo de empresas de propriedade dos Índios Kootenay, na Colômbia Britânica, no sopé oeste das Montanhas Rochosas Canadianas. Gosta da leitura e do estudo, e adora escrever sobre a História de Angola, de África e do Atlântico Sul, com ênfase na Escravatura, sobre os quais tem uma biblioteca pessoal extensa.

terça-feira, março 25, 2025

1.6 Luanda, Bairro da Maianga, Liceus, e Cursos de Vida Apostólica



 
Alunos no Liceu Nacional Salvador Correia, 1969

 

Amigo(a) Leitor(a) - Para ler os meus outros blogues clica aqui no Roteiro de Viagem e visita o blogue da tua escolha. Obrigado pelos teus comentários. 

 

Esta é uma tarefa sem fim em vista, pois continuo a melhorar o blog continuamente. Assim, volta em breve, pois vais encontrar algo de novo!

 

12. Liceu Paulo Dias de Novais

 
Em Setembro de 1961, nós mudámos outra vez de casa, desta vez para a Rua 28 de Maio, nº.9, (actual Rua Karipande) no Bairro da Maianga, onde haveríamos de viver até 1969, pois eu tinha sido matriculado no Liceu Paulo Dias de Novais. O "Paulo Dias" era situado na Rua da Misericórdia (hoje Rua 17 de Setembro) na Cidade Alta ao lado do antigo Quartel General da Região Militar de Angola (hoje Ministério da Defesa), em frente ao jardim que tinha a estátua de Mouzinho de Albuquerque, o militar português que se tornou célebre por vencer o Soba Gungunhana em Moçambique, por sua vez em frente à escola primária Nº. 12, de José Anchieta.
 
 
O Liceu Paulo Dias de Novais ficava mesmo ao lado à direita do Quartel General da Região Militar de Angola. Na foto ainda se consegue ver o edifício da Secretaria do Liceu.

 
Apesar de ter gostado imenso do liceu (ou talvez por isso mesmo...), reprovei no primeiro ano, o que não agradou nada aos meus pais. Nos anos seguintes fui crescendo e passando de ano para ano no liceu, e a começar a tomar gradualmente consciência da realidade colonial em que vivíamos. 
 
A memória sempre-presente e ao mesmo tempo a saudade mais profunda que tenho do Liceu Paulo Dias de Novais não era de facto o liceu, mas das muitas e belas acácias em flor que havia no largo em frente ao Quartel General (antigo Largo Mouzinho de Albuquerque) com as suas micro-folhas verdes e o encarnado vivo das flores que enchiam o jardim. 
 
 
Acácias Rubras em flor, foto obtida do blogue de "O Viajante", sobre Benguela
 
 
Eu digo isto aqui não porque seja um tópico comum no tema de saudade de Angola, mas sim porque o sinto mesmo profundamente. De facto, eu tenho que confessar, eu sinto que eu faço parte da acácia rubra, e que ao mesmo tempo a acácia rubra faz parte de mim.
 
O edifício do liceu tinha nessa altura sido convertido de liceu feminino em liceu masculino para acomodar o número crescente de alunos vindos das áreas afectadas pela guerra cujas famílias haviam decidido não retornar às áreas afectadas pela guerra no norte de Angola e permacer em Luanda, já que o novo edifício do Liceu Feminino D. Guiomar de Lencastre tinha-se acabado de construir junto à Escola Industrial de Luanda, à entrada do Bairro da Vila Alice e estrada de Catete.

De acordo com a praxe académica herdada do Liceu Salvador Correia, todos os alunos (rapazes) que entravam para o primeiro ano do liceu (os chamados "caloiros") eram sujeitos a fazerem-lhes uma pequena careca, mesmo no remoínho do cabelo no centro da cabeça. Os alunos mais avançados eram quem faziam as ditas carecas com uma pequena tesoura. Para completar a dita praxe, os pobres caloiros eram sujeitos a serem batidos na careca (calinadas) pelos mais velhos durante as primeias semanas durante as quais ainda se viam a careca.
 
 
O corte da ceraca do caloiro
 
 
A configuração do edifício do Liceu Paulo Dias de Novais era na forma de um rectângulo com a frente para a antiga Rua da Misericórdia, em frente à entrada sul do Parque Heróis de Chaves,  e com as traseiras para a antiga Rua Henrique de Carvalho, que ligava o largo  do Hospital ao Bairro do Saneamento e edifício da Imprensa Nacional, logo antes da Igreja de Jesus. No lado este do rectângulo (junto ao Quartel General) estava a secretaria e o ginásio, com os balneários atrás, e as salas de aula ao longo do lado de trás (antiga Rua Henrique de Carvalho) e Travessa da Misericórdia. A secretaria e a reitoria, estavam num edifício separado na frente, e davam directamente para a rua da Misericórdia. O ginásio, num edifício próprio, ficava mesmo ao lado do Quartel General. 
 
Como disse, o edifício e terreno do Liceu Paulo Dias de Novais eram já antigos e eram uma adaptação da função anterior de liceu feminino. Assim, no terceiro ano, o edifício central onde funcionava a reitoria e outros serviços, foi demolido para dar lugar a um grande espaço aberto onde se podia jogar à bola. Dessa antiga estrutura só se salvou o chamado "pombal", que era uma sala sózinha no segundo andar, que servia como sala de aulas para canto coral, cuja escada de acesso era muito longa e íngreme. No rés-do-chão do mesmo edifício estavam situadas as casas de banho e a cantina.


Hora de saída das aulas no Liceu Paulo Dias de Novais, 1968; edifícios do Quartel General da Região Militar de Angola e Estado Maior da Força Aérea à direita da imagem


Em 1971, o Liceu Paulo Dias de Novais mudou-se para modernas instalações perto do Colégio dos Maristas, na antiga Estrada de Catete, passando a funcionar aí como um liceu misto de rapazes e raparigas.

No Liceu Paulo Dias de Novais tive excelentes professores que despertaram em mim o gosto em aprender, ao mesmo tempo que com os amigos de Bairro ou de Liceu fazíamos as maiores tropelias, das quais ainda me lembro em especial do pobre Palhinhas (que vivia só (mas com 23 gatos!) numa casa abandonada mesmo ao lado do Cinema Restauração, na Avenida Álvaro Ferreira - do Hospital (hoje Avenida do 1º Congresso), onde mais tarde foi construída a nova sala de cinema "Studio" anexa ao mesmo cinema), e da Joana Maluca, uma demente muito popular que andava pelas nas ruas de Luanda desse tempo. 
 
Lembro-me que uma vez, depois de alguma diabrura que fizémos ao Palhinhas, ele veio à formatura da Mocidade Portguesa no dia seguinte à tarde, para indicar ao reitor do liceu quem eram os alunos envolvidos no incidente. Eu como era franzino, estava mesmo ao princípio da fila da frente da formatura, sendo o primeiro a ser reconhecido. O Palhinhas olhou para mim com olhos de ódio, e lançando as suas mãos com toda a fúria firmemente à minha garganta, gritou de imediato: "Este é o Cambuta! É um deles! Ele atirou pedras aos meus gatos!", apertando ainda mais a minha garganta. Com certa dificuldade, o comandante de castelo e o reitor (Dr. Saraiva de Carvalho), que estavam à nossa volta, de imediato agiram e lá conseguiram que o Palhinhas largasse as suas mãos da minha garganta. Contudo, como vim a aprender no dia seguinte, eu não me tinha livrado do castigo de um dia de suspensão decretada pelo reitor.

Há acontecimentos na vida que pela sua relevância ficam connosco para sempre. Assim é o caso do assassinato do Presidente John F. Kennedy, que foi morto a 22 de Novembro de 1963. Eu tinha nessa altura 13 anos, e apesar de ainda não ligar à política, lembro-me que foi uma notícia de choque para mim. Eu estava a brincar com alguns colegas do Liceu Paulo Dias no jardim que tinha a estátua de Mouzinho de Albuquerque, situado à frente ao Quartel General quando um colega veio a correr e me disse que o presidente da América tinha acabado de ser assassinado no Texas. Ainda hoje me lembro o sentido de choque que a notícia me deu e o sentimento de não compreender por que é que tais acontecimentos tinham lugar.

O Liceu Paulo Dias de Novais oferecia as disciplinas do antigo 1º ao 5º Ano, em dois ciclos - o primeiro ciclo (1º e 2º anos) com cinco disciplinas - Português (gramática), Francês, História de Portugal, Matemática, Ciências Naturais, Desenho e Trabalhos Manuais, e Educação Física
 
No segundo ciclo (3º, 4º, e 5º anos) com nove disciplinas - Português (Literatura Portuguesa), Francês, Inglês, História (História de Portugal no 3º ano, e História Universal nos 4º e 5º anos), Geografia (Geografia física no 3º ano, Geografia mundial no 4º ano, e Geografia de Portugal e Ultramar no 5º ano), Matemática (geometria, álgebra, e funções), Ciências Naturais (Corpo Humano no 3º ano, Zoologia no 4º ano, Mineralogia e um pouco de geologia no 4º ano, e Botânica no 5º ano), Ciências Físico-Químicas (Física no 3º e 4º anos, e Química no 4º e 5º anos), Desenho, Canto Coral, Religião Moral e Cívica, e Educação Física.
 
Para maximizar o uso das salas de aula para o maior número possível de alunos, as aulas eram dadas em dois turnos - de manhã (das sete e meia ao meio-dia e meia), e da tarde (da uma e meia às seis e meia), de segunda-feira a sexta-feira. As aulas eram de cinquenta minutos cada uma, seguidas de um intervalo de dez minutos para recreio. Nuns anos eu tive aulas no turno da manhã, noutros tive aulas no turno da tarde. Cada turma tinha em média entre 30 e 36 alunos.


O edifício do antigo Liceu Central de Luanda (1919), mais tarde Liceu Salvador Correia (até 1942), perto da Escola #12, de José Anchieta. Um dos seus fundadores e o seu primeiro reitor foi o distinto Monsenhor Alves da Cunha (1872-1947).


O ano lectivo era dividido em três períodos - as aulas começavam por volta do dia 23 de Setembro e iam até uma semana antes do Natal, altura em que tinhamos três semanas de férias de Natal. O segundo período começava na primeira semana de Janeiro e ia até à primeira semana de Março, após as quais tínhamos um mês de férias. Finalmente, o terceiro período começava na primeira semana de Abril e ia até à terceira semana de Junho, após as quais tínhamos as "Férias Grandes", até ao fim da terceira semana de Setembro. 
 
Assim, durante os meses mais quentes do ano - de Dezembro a Março - nós tínhamos dois períodos de férias (para um total de sete semanas), mas as férias grandes (treze semanas) eram durante a estação do cacimbo (estação mais fria e seca), para condizer com o ano académico em Portugal.
 
 
A Escola Primária Nº. Sete, uma das escolas mais bonitas de Luanda... (mas aqui para nós, não se comparava à Escola Primária da Damba, onde aprendi as primeiras letras)

 
O primeiro dia de aulas era ocasião para praxes académicas que incluiam o fazer uma carequinha aos "caloiros" (alunos que entravam pela primeira vez para os liceus e escoloas comercial e industrial), os quais tinham que "baixar a careca" perante os estudantes mais velhos e receber destes um toque na cabeça (carecada). Por outro lado, o último dia de aulas do ano era celebrado com grande fanfarra por toda a cidade pelos alunos dos liceus, escolas comercial e industrial, e colégios privados. 

O Liceu Paulo Dias de Novais situava-se numa das zonas mais antigas da cidade, servindo os antigos bairros da Cidade Alta, Saneamento, Bairro dos Ferreiras, Maianga, Samba, Praia do Bispo, Hospital, Coqueiros, e Baixa. Mesmo perto do Liceu, estava situado o Parque Heróis de Chaves, com uma área verde muito grande delimitada pela Rua da Misericórdia a sudoeste, rua do Casuno a norte, beco do Csuno a leste, e a Praça Dom Pedro V a noroeste. A Avenida do Hospital corria paralela a leste e sudeste. 
 
 
Um dos miradouros do Parque Heróis de Chaves, Luanda, 1960s
 
 
O antigo Parque Heróis de Chaves (hoje Parque da Liberdade) era uma das zonas verdes mais extensas e aprazíveis de Luanda, com jardins muito cuidados e bonitos, com muitas árvores frondosas e muita sombra, muitos passeios e bancos de para descanso, e com uma estufa fria muito linda. O parque incluia também um parque infantil com baloiços e josgos para crianças. Era no Parque Heróis de Chaves que se realizava todos os anos o concurso infantil de vestimentas de carnaval, que era o mais popular de Luanda.

Mesmo junto ao parque havia dois campos de futebol, um junto à Escola José Anchieta de terra batida, e o outro, de pavimento asfaltado ao fundo do Beco do Casuno, onde os grandes encontros de futebol do "Paulo Dias" tinham lugar a qualquer hora. Já perto do jardim onde se encontrava a estátua de Mouzinho de Albuquerque (mesmo em frente ao Quartel da Segunda Região Aérea das FAP (Força Aérea Portuguesa), havia um campo de basquetebol, todo cercado de rede metálica, onde o Sporting Clube da Maianga realizava os treinos das suas equipas de basquetebol juvenis. Naturalmente, o parque e os campos de futebol e basquetebol eram muito usado pelos alunos do Liceu Paulo Dias nas horas de borla (folga) e nas horas de "fuga" às aulas. 

 
O antigo edifício da Mocidade Portuguesa, na antiga Avenida do Hospital, perto da Escola #12 José Anchieta
 
 
Cabe aqui referir que havia na vizinhança do Jardim Mouzinho de Albuquerque e da Avenida do Hospital dois edifícios antigos importantes na Luanda de duas gerações antes: o do Liceu Central de Luanda, primeiro liceu em Angola e percursor do Liceu Nacional Salvador Correia, que se situava na esquina, onde se situavam algumas repartições activas dos Serviços de Instrução (mais tarde Serviços de Educação), e o edifício da sede da Mocidade Portugesa em Angola (na Avenida do Hospital). 
 
Por volta de 1969/70, ambos os edifícios ficaram vazios com a transferência das todas as repartições dos Serviços de Educação, incluindo a Mocidade Portuguesa, para o novo complexo de edifícios do estado que se construiu a leste do Hospital Militar e da Maternidade de Luanda, à entrada da estrada de Catete, ao lado da antiga Avenida Norton de Matos. No seu lugar construiu-se um novo prédio muito grande com cerca de dez ou doze andares. Por trás desses edifícios encontrava-se a Escola José Anchieta (Nº 12) para alunos da 1ª à 4ª classe, que tinha um grande espaço em frente, com os ditos campos de futebol e de basquetebol.
 
 
Outro miradouro no antigo Parque Heróis de Chaves, Luanda, 1967, entre a Rua do Casuno e a antiga Escola #12 José Anchieta

 
O antigo Parque Heróis de Chaves (hoje Parque da Liberdade) foi para muitos rapazes e raparigas da minha geração o lugar onde fumaram o primeiro cigarro, onde leram o primeiro livro em quase absoluto descanço, o lugar do primeiro beijo longo, e o lugar de onde alguns têm as melhores memórias de namoro com as suas "miúdas" ou seus namorados. 
 
Já que menicionei os alunos fumarem o primeiro cigarro, devo mencionar aqui que o desafio do tabagismo era um grande problema de saúde em Angola, pois a grande maioria dos adultos (mais homens do que mulheres) fumava muito, não sendo estranho encontrar um médico com um cigarro ou cachimbo na boca. 
 
Como tudo, havia tabaco para todos as bolsas, bocas, e gostos. Os mais baratos eram os cigarros sem filtro Jucas, Francesinhos, Nº1, e os Caricocos, que vinham em pacotes de 300 cigarros, e que se podiam comprar avulso nas lojas de musseque. Depois tínhamos cigarros em maços de 20 cigarros, sem filtro (Jucas, Hermínios, Swing, Negritos, e Java), com filtro (AC, Delta, Baía, 365, LM, 8008, 9009, Infante, e Senador) com filtro extra-longo, e de sabor a mentol. As marcas mais populares eram produzidas pela Fábrica de Tabacos Ultramarina (FTU), situada ao fundo da Vila Alice em Luanda, mas os cigarros produzidos em Moçambique (Nilos, GT, MC, Havana, Comodoro, e Palmar), eram também muito populares. O tabaco mais caro era o tabaco importado (as marcas internacionais de cigarros, geralmente americanas, e a marca popular francesa Gitanes), de cachimbo, e charutos de Cuba.
 
 
Um pacote de cigarros Jucas, de 300 cigarros, da FTU, Luanda, 1960s

 
Na rua traseira do Liceu Paulo Dias de Novais, então Rua Henrique de Carvalho que ia dar à Imprensa Nacional e ao Bairro do Saneamento, hoje Rua 17 de Setembro, mesmo junto ao complexo da antiga Messe dos Oficiais do Exército Português, havia uma barroca muito funda, longa e íngreme, que era um dos lugares predilectos para onde os alunos do Liceu Paulo Dias de Novais iam fumar quando tínham borla de aulas ou quando fugavam às mesmas. 
 
Como não podia deixar de ser, eu gostava de explorar essas barrocas, que iam até à estrada que ligava o Bairro da Samba à Praia do Bispo, onde hoje se situa a Assembleia Nacional e o monumento ao Presidente Agostinho Neto. Um dia, no meu quarto ano, estando eu mesmo em cima da berma da barroca, perdi o equilíbrio e caí aos trambulhões até chegar ao fundo da barroca, cerca de 80 metros abaixo. Foi uma queda longa e horrível que me deixou bem ferido depois de bater em muitas pedras ao longo da queda. Devido aos ferimentos, tiveram que me levar de imediato para o Banco de Urgência do Hospital Central (que era bem perto), onde me tiveram que consertar com muitos agrafos na cabeça e muitos cortes no corpo todo.
 
Viajando no tempo aos meus primeiros tempos na Maianga, de 1961 a 1963, lembro-me que uma das minhas actividades predilectas era correr as ruas com um arco de aduela de barril, que controlávamos com um arame com um gancho na base para dar direcção ao arco. Corríamos assim distâncias consideráveis, visitando novas ruas e lugares, explorando o mundo à nossa volta, e firmando novas amizades.
 
Uma das nossas actividades mais predilectas era andar de trotinete ou de carro de rolamentos, que nós próprios construíamos.  O carro de rolamentos era mais fácil de construir, mas requeria que tivéssemos alguém para nos empurrar. Por outro lado, a construção da trotinete era muito mais complexa, mas era mais fácil de usar, pois apenas precisávamos das nossas pernas para andar. 
 
Lembro-me que, em termos de carros de rolamentos, as descidas mais perigosas eram a da Avenida Lisboa (acima da Cervejaria Chilena, quem desce do Musseque Catambor do lado direito), a descida do jardim em frente ao Liceu Salvador Correia (que era muito íngreme), e a mais difícil de todas, era a descida ao fim da Avenida Sá da Bandeira, depois do cruzamento com a Rua Guilherme Capelo, no Bairro do Café, porque não dava muito espaço ou tempo para travar ao fundo e atravessar a Rua Cabral Moncada.
 
 
O famoso carro de rolamentos, de fabricação artesanal, Luanda, 1960s

 
Numa clara demonstração de falta de bom senso, um dia resolvemos ligar dez carros de rolamentos em cadeia (uns atrelados aos outros como as carruagens de um comboio, e pior ainda, pôr dois ocupantes por carro!), fomos para o cimo da Avenida Lisboa (oposto à Cervejaria Chilena e Hospital dos Malucos), e... para baixo fomos a grande velocidade. Por qualquer razão que não pudémos controlar, os carros começaram a dar curvas, cada vez mais largas e mais perigosas à medida que o declive e a velocidade aumentavam. Como se tornou evidente muito rapidamente, era uma questão de tempo até um de nós (dos dez condutores) perder control do seu carro, e assim, num grande espalhafato, o comboio desfez-se "cuspindo" os ocupantes para a rua (Avenida Lisboa, cheia de carros a circular a grande velocidade) à medida que descíamos a grande velocidade, ou para uma valeta de cimento do lado direito do passeio com cerca de um metro de fundura e de largo.
 
Quando tudo acabou, as consequências foram pesadas, pois tínhamos muitos feridos entre os vinte pilotos e ocupantes, se bem que ninguém tivesse sido atropelado por um carro, e todos ainda tivessem ficado com todos os ossos inteiros. Os carros de rolamentos, no meio de tudo, estavam na maioria destruídos. Para cúmulo, a polícia veio imediatamente e confiscou o que restava dos carros de rolamentos, querendo levar-nos a todos à próxima esquadra...
 
Numa nota mais sóbria, o acontecimento mais triste que me lembro do Liceu Paulo Dias de Novais foi a morte do nosso muito estimado colega Licas (Eusébio) depois de contraír o virus da raiva de um cão raivoso que o mordeu duas semanas antes. O Licas, que morava no Bungo e jogava na equipa de futebol (categoria juvenis)  do Clube Ferroviário de Angola, era muito popular no liceu, pois para muitos ele era um dos melhores jogadores de futebol do liceu, se bem que alguns dessem esse título ao Dédé. Para tornar esse acontecimento ainda mais trágico, o pai do Licas teve um ataque cardíaco e morreu ao tomar conhecimento da morte eminente do seu filho. A morte simultânea de ambos foi muito sentida no liceu. 

Quando ainda vivíamos na Damba eu também fui mordido por um cão raivoso, quando eu estava a brincar no quintal com o meu irmão Rui. Mais uma vez foi ele quem me salvou pois para me defender do cão, ele atirou-lhe uma telha de barro bem pesada com tanta força na cabeça que matou o pobre animal. Levaram-me a mim e ao cão imediatamente ao hospital e concluiram que o cão estava raivoso, pelo que tive de tomar injecções de soro anti-rábico na barriga todas as manhãs durante os próximos trinta dias, com uma seringa tão grande que parecia mais um copo (bem longo) de beber água, e com uma agulha ainda mais grossa. Lembro-me que durante esse tratamento a minha barriga inchou em vários pontos. 


A Mocidade Portuguesa (MP)

Como estudante do Liceu Paulo Dias de Novais, nós tínhamos de participar uma vez por semana nas actividades da Mocidade Portuguesa (MP). A MP era originalmente uma organização estatal de raíz fascista pré- e para-militar para a juventude (semelhante à Juventude Hitleriana na Alemanha Nazi) fundada em Portugal em 1936, que oferecia também outras actividades como campismo, desportos náuticos (remo e vela), aeromodelismo, cursos de portugalidade, e outras. Nas actividades para-militares e de doutrina cívica, nós tínhamos de usar a farda oficial  da Mocidade Portuguesa que incluia calção (ou saia para as raparigas) castanho claro, camisa verde, bivaque, emblema da MP no bolso esquerdo, meia alta, sapatos ou botas pretos, e cinto de couro castanho com o "S" prateado de Salazar) na fivela. 
 
Dois estudantes (rapaz e rapariga) em uniforme da Mocidade Portuguesa



 
 
A Mocidade Portuguesa tinha duas grandes divisões: a masculina (MP) e a feminina (MPF) organizados em moldes semelhantes, embora a MP (masculina) estivesse um tanto virada para uma vocação militar para os rapazes, e a MPF (feminina) no papel de mãe e dona de casa para as raparigas. O emblema da MPF era similar ao da MP, mas em formato de losango.
 
Como organização para-militar que era, a Mocidade Portuguesa estava organizada em escalões, a saber: a Quina composta por cinco Infantes; Castelo, composto por cinco Quinas; Bandeira, composta por doze Castelos; e Falange, compostas por duas bandeiras. Consoante o progresso do aluno ou aluna (Infante), haviam postos de hierarquia a saber, membro não graduado (raso), Chefe de Quina, Arvorado em Comandante de Castelo, Comandante de Castelo, Comandante de Bandeira, e Comandante de Falange (o posto mais alto). 
 
A maioria dos estudantes participava nas actividades paramilitares da Mocidade Portuguesa porque eram obrigados, mas muitos participaram voluntariamente nas outras actividades que não tinham tanto caracter doutrinário, militar, ou político, como campismo e desportos náuticos.

 
Emblema da Mocidade Portuguesa
 
 
O parque de campismo na zona da Floresta da Ilha de Luanda era o lugar onde os acampamanentos tinham lugar, onde, com muita frequência, os mais inocentes eram sempre compelidos a ir "à caça de gambuzinos". Eu fui a três acampamentos da Mocidade Portuguesa na Floresta da Ilha e na área da praia de Belas, a sul de Luanda. 
 
O pavilhão náutico da Mocidade Portuguesa na Ilha de Luanda oferecia o melhor equipamento e programas para desportos náuticos como natação, vela, e remo em Angola. A Mocidade Portuguesa operava também as colónias de férias no litoral, que traziam a praia a muitos estudantes do interior de Angola, dos quais se destacava a Colónia de Férias na Ilha de Luanda

O Comissariado Nacional da Mocidade Portuguesa em Angola oferecia também um Curso de Portugalidade destinado a jovens seleccionados pelas autoridades coloniais que quizessem saber mais sobre a cultura lusíada (não só portuguesa, mas também ultramarina, e até lusófona). O curso era de natureza política e doutrinária e constava de um programa intensivo de quatro semanas em que se aprendia tudo sobre Portugal e as suas província ultramarinas, e focava na realidade e vocação histórica e ultramarina de Portugal. 
 
O Curso de Portugalidade era visto por muitos jovens com certa suspeita, pois era visto  como um instrumento de propaganda e de produção de quadros afectos à realidade colonial multi-racial que Portugal então apregoava, que era a vocação lusa à miscegenia com os povos dos trópicos, inspirada na tese luso-tropicalista do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre.
 
Como disse acima, a Mocidade Portuguesa foi fundada pelo regime do Estado Novo em 1936, como uma organização estatal inspirada no modelo nacionalista e militarista da Juventude Hitleriana, contudo esse foco abrandou-se e esbateu-se ao longo dos anos, transformando-se a MP numa organização de juventude mais em linha com o movimento internacional dos escuteiros, acabando por ser extinta logo depois da revolução do 25 de Abril de 1974.


Dias de Feriado

O dia 10 de Junho, Dia de Portugal, em evocação ao grande poeta épico Luis de Camões, autor de "Os Lusíadas", também designado por Dia de Portugal (também designado por Dia de Camões ou Dia da Raça) era o principal feriado patriótico do ano. Nos últimos anos, a principal celebração do dia 10 de Junho tinha lugar no Largo Diogo Cão, em frente ao Palácio de Vidro junto ao porto de Luanda, onde havia parada militar e condecorações aos heróis da Guerra Colonial. 
 
Comemoraçõeso do Dia de Portugal (1o de Junho) no Estádio dos Coqueiros em Luanda, 1960s 

 
O outro feriado importante era no dia 15 de Agosto, dia da Cidade de Luanda, e dia da Restauração de Angola à ocupação holandesa levada a efeito a 15 de Agosto de 1648 pela esquadra luso-brasileira comandada por Salvador Correia de Sá e Benevides . 
 
O dia 5 de Outubro, dia da República, era também feriado para celebrar a implantação da república em Portugal em 1910. 
 
O dia 1 de Dezembro era um feriado especial pois era o dia da Mocidade Portuguesa, e dia da restauração da independência nacional, quando em 1640 Portugal expulsou o jugo espanhol, com uma parada da Mocidade Portuguesa junto ao Palácio do Governador, ou mesmo até com uma celebração especial no Estádio Municipal dos Coqueiros
 
Finalmente, o Dia 8 de Dezembro era também feriado, pois era o Dia da Mãe, se bem que com um cariz um pouco mais religioso, pois era também o Dia de Nossa Senhora da Conceição. Para além destes, o dia 1 de Janeiro (Ano Novo) e 25 de Dezembro (Natal), bem como a Terça-Feira de Carnaval e a Sexta-Feira Santa também eram feriado. O dia 1 de Novembro era o dia dedicado aos finados (mortos) não era um feriado oficial.
 

O Carnaval em Luanda era uma quadra de quatro dias (de sábado a Terça-feira) de farra sem interrupção. Na foto, um aspecto do desfile de escolas de Carnaval na Marginal de Luanda, 1972.


A farra estava no coração do luandense, pois qualquer razão para haver farra arrastava todo o mundo para a festa. As quatro noites de Carnaval eram de longe a quadra mais festiva da cidade. As farras, que eram em recintos abertos, começavam no sábado e iam sem interrupção até terça-feira à meia noite, quando nos despedíamos do Rei Momo à meia-noite. Muitas pessoas dormiam de dia e farravam a noite toda até o sol nascer. Havia ainda uma grande parada de carnaval na Marginal com muitos grupos de dança competindo para prémios. As farras de Passagem de Ano eram também muito animadas, acabando a maioria delas já depois do sol raiar no dia seguinte. 
 
A noite de São Martinho (11 de Novembro) era também uma boa razão para festejar com castanhas assadas e geropiga na ponta da Ilha. Na noite de São Silvestre (31 de Dezembro) havia a grande maratona de Luanda, a famosa Corrida de São Silvestre, na qual corriam os melhores atletas de longa distância de Angola.
 
 
Professores do "Paulo Dias"
 
Dos professores que tive no "Paulo Dias", realço o seu primeiro reitor Dr. Álvaro dos Santos Saraiva de Carvalho, homem de grande visão, conhecimento, e iniciativa que fez uma grande obra como reitor (que tinha vindo do Liceu Salvador Correia, onde era conhecido pale alcunha de "Carapau"), a Dra. Judite Morais, professora de História, que inspirou em mim o interesse pela História, a Dra. Maria Amélia Soares Ribeiro (Matemática), que dando sempre muito trabalho de casa me ajudou a abraçar a Matemática, o Dr. João de Almeida, professor de Francês que era amigo do meu Pai, a Dra. Paulina Bento Ribeiro (Francês), que tinham sido alunas do Liceu Salvador Correia em Luanda, e em especial o Professor Eduardo Zink (de Desenho), que me ajudou a compreender melhor a criação artística e as diversas escolas de pintura, o Dr. Polidoro de Oliveira (Português) que pacientemente lia uma secção de "Os Lusíadas" de Luís de Camões e depois "Os Fidalgos da Casa Mourisca" de Júlio Dinis, sem que ninguém prestasse um minuto de atenção, que despertou em mim o gosto pela leitura, por escrever, e pela criação literária, e do Padre Eduardo André Muaca (Religião e Moral) pois que com os seus ensinamentos e exemplo exerceram uma grande influência positiva na minha formação como pessoa e cidadão. 
 
 
Prédio do antigo Hotel Angola, na antiga Avenida do Hospital,
mais tarde sede da Polícia Judiciária em Luanda, 1940s
 
 
No Quinto Ano, como finalistas do Liceu Paulo Dias de Novais, nós organizámos uma excursão de autocarro ao centro e Sul de Angola, até Moçâmemedes que durou cerca de duas semanas. Nesta viagem, nós visitámos a vila do Dondo, Quibala, Cela, Nova Lisboa, Caconda, Quilengues, Sá da Bandeira, Vila Arriaga, Caraculo, Moçâmedes, Quilengues, Caluquembe, Benguela, Lobito, Novo Redondo, Porto Amboím, e Vila Nova do Seles, Dondo, da qual guardo boas recordações. 


Miradouro da Cidade Alta, Luanda, onde eu e a Princesa do Huambo namorámos tantas vezes


Durante os nossos anos de liceu (1961-1970), nós não aprendemos nada sobre a história de Angola. Havia, é certo, um número pequeno de referência à história dos portugueses em Angola. Contudo, essa escolha no programa de estudo da disciplina de História, não foi sempre assim. Com efeito, em 1948, a história de Angola fazia parte do programa da disciplina de História, como atesta o livro de apontamentos/resumo abaixo:
 
 
Capa do livro "Apontamentos Sobre a História de Angola" da autoria do professor primário José de Figueiredo, aprovado oficialmente para uso no ensino primário, e publicado pela Livraria Lello, em Luanda, 1948.

 
Origem da Alcunha "Chinguila / Xinguila"
 
Em casa e em família, eu era chamado Dézito, mas no bairro e no liceu, eu era mais conhecido por Chinguila. Esta alcunha teve origem num episódio de brincadeira que não esqueço. Em 1963, eu tive um explicador angolano, de nome Eduardo Castelbranco, que era filho (ou neto, não estou certo) do historiador Francisco Castelbranco, que publicou a primeira História de Angola em 1932. Lembro-me que a minha mãe conhecia a sua mãe e tinha grande estima e respeito por eles, pois eram uma das famílias angolanas antigas mais conhecidas e respeitadas em Luanda. 
 
Ele morava no rés-do-chão de um prédio de três andares na Rua Guilherme Capelo, no Bairro do Café, mesmo perto da antiga Escola Comercial Vicente Ferreira. Ele era tinha à volta de trinta e cinco anos, com um corpo muito grande, era muito inteligente, e ainda mais bonacheirão ao mesmo tempo. Ele era também um angolano nacionalista ferrenho, e por isso andava a ser perseguido pela PIDE. Eu tinha explicações à tarde, e normalmente chegava sempre antes da hora, de forma que brincava com os outros alunos num terreno baldio (vazio) situado mesmo ao lado do prédio até à hora da aula começar.
 
 
Outro Pechinguila... (desconhecido)

 
Uma tarde, o Eduardo Castelbranco, perguntou-me qualquer coisa relacionado com o trabalho de casa a que eu não respondi correctamente, pelo que ele me lembrou que seria melhor estudar um pouco mais, do que andar "a subir árvores por aí como um pechinguila". Daí, o termo "Pechinguila" ficou, e todos me passaram a chamar "Pechinguila". Mais tarde, usando uma palavra mais simples, alguns amigos passaram a chamar-me "Chinguila", que por sua vez, se transformou mais tarde em "Xinguila". Assim, a alcunha "Xinguila" não tem qualquer conotação com o homónimo umbundo "Xinguila", e menos ainda com qualquer acção negativa, muito pelo contrário, pois se relaciona simplesmente comigo, um  antropóide, trepando árvores como um pechinguila... 


O Engenheiro Sebastião Pessoa
 
Já que estamos no tópico de explicadores, recordo aqui com muita saudade o engenheiro Sebastião Pessoa, que foi meu explicador de Inglês, Matemática, e ciências Físico-Químicas no Quinto Ano. Uma pessoa verdadeiramente extraordinária que me ajudou a abrir os olhos a ver o mundo menos como um espectador e mais como um agente. O engenheiro Sebastião Pessoa (sempre de cara séria, um tanto austero e estóico) teve uma influência extraordinária na minha formação como pessoa, pois despertou em mim a cusiosidade por aprender e estudar mais a fundo o mundo à minha volta, ao mesmo tempo que o fazia com disciplina mais rigorosa. 
 
Além das matériaas das disciplinas, ele ensinou-me quatro coisas preciosas: Porquê estudar (importância de conhecer e explicar), o que estudar (o quê, separando o trigo do joio), como estudar (técnica de aprender), e como gostar de estudar (paixão por aprender). 
 
O Eng. Sebastião Pessoa era casado com uma senhora inglesa (que não me consigo lembrar do nome) e tinha uma filha de três anos (a Michelle) que um dia caíu da varanda do terceiro andar onde viviam. Contra todas as expectativas, a pequena Michelle sobreviveu. No meio desta tragédia terrível ela teve sorte pois a velocidade da sua queda foi amortecida à medida que ela caía sobre os arames de pendurar a roupa em cada um dos três andares do prédio (e os partia à medida que os passava na sua queda), antes de chegar ao chão, o que amorteceu muito a sua queda.
 

Mais uma leva de gente no Ca Posoka para a Ilha do Mussulo num fim-de-semana


Enxurradas em Luanda - Abril de 1963
 
No dia 20 de Abril de 1963, choveu muito mais do que o normal em Luanda o que causou  muitas enxurradas e desabamentos de terra na Baixa da cidade e alagou a maioria dos muceques. Houve alguns mortos, mas a maioria das ruas da Baixa ficaram soterradas pelas terras que se tinham desprendido ao cimo das ruas Vasco da Gama (actual rua da Missão) e Nossa Senhora da Muxima (logo abaixo do Museu de Angola. 
 
 
O desenterrar de um carro coberto de terra na Calçada Gregório Ferreira, junto ao edifício da firma Robert Hudson, Luanda, Abril de 1963.

 
O cruzamento principal da Baixa entre as ruas Salvador Correia (actual rua da Raínha Jinga) e Pereira Forjaz (actual rua Amilcar Cabral), onde se encontravam as lojas e escritórios mais importantes da cidade ficou atolada com quase dois metros de terra, mas o cruzamento entre a calçada íngreme em que se situava a Revista Notícia (Calçada Gregório Ferreira, actual Rua Cirilo da Conceição Silva), e o princípio da Rua Direita (na vizinhança da firma Robert Hudson, então representante dos carros Ford em Angola) foram os mais afectadas com mais de três metros de terra.
 
 
O grande buraco causado pelas enxurradas de Abril de 1963
na Rua de Nossa Senhora da Muxima em Luanda,
em frente ao antigo Colégio de São José de Cluny
 
 
As obras de limpeza e reabilitação duraram meses a concluir, e um grande paredão foi construído em cimento armado mesmo a oeste da Rua da Nossa Senhora da Muxima (actual rua Giorgi Dimitrov) e leste da Rua Direita para evitar que o mesmo pudesse acontecer no futuro.


O paredão em cimento armado que se construiu para defender a rua de Nossa Senhora da Muxima e a Rua Direita da acção nociva da erosão das àguas da chuva, 1966


Roupas de Fardo
 
Quando eu frequentava o Liceu Salvador Correia, a malta nova de Luanda abraçou a roupa "Fardex", pois todo o jovem (mais rapazes do que raparigas) vestia uma camisa, um casaco, e mais provavelmente uma calças "jeans" de fardo. 
 
Os fardos de roupa vinham da América, e destinavam-se inicialmente às pessoas com menos posses que assim podiam ter roupa gratuita ou a baixo custo. Contudo, alguns armazenistas e firmas de retalho nos musseques periféricos de Luanda viram a oportunidade de negócio que elas ofereciam e passaram a importar fardos de roupa directamente dos Estados Unidos e a vender o seu conteúdo ao mercado juvenil de Luanda. A princípio, a roupa de fardo era muito barata e com uma escolha quase infinita de roupas de qualidade razoável, mas com o tempo e a maior procura, tornou-se mais cara e com uma selecção mais limitada.
 
As roupas de fardo eram usadas (não novas), mas de uma maneira geral, ainda de boa qualidade de uso, e com uma boa lavagem e mínima alteração por uma costureira ou alfaiate, facilmente se transformavam em vestuário de atracção muito especial. Durante esses anos, todo o jovem em Luanda vestia roupa Fardex, desde o residente do musseque até ao "sanguito" mais azul do Bairro do Saneamento ou Miramar...
 
Como não podia deixar de ser, eu comprei num fardo perto dos Armazéns da Gajageira um casaco leve muito distinto (tipo "Blazer"), de cor preta, com o brasão muito vistoso e bonito da "Newark Academy" que me assentava incrivelmente bem. Eu gostava muito desse casaco e usava-o sempre que fosse a alguma farra ou baile mais formal, para fazer "banga" (mostrar com vaidade) com ele. Assim, lembro-me que o levei ao baile de Finalistas dos Liceu do meu ano. Se bem me lembro, ainda trouxe esse casaco quando vim para o Canadá.
 
É de notar aqui que as camisas e calções (pois raramente usávamos calças) que comprávamos até mais ou menos 1965 não eram em geral de "pronto-a-vestir", mas eram de encomenda a um alfaiate de bairro. Só mais tarde com a crescente popularidade de camisas de algodão de Macau e das da Casa Saratoga em Luanda (vestuário de homem pronto-a-vestir), é que nós começámos a usar pronto-a-vestir. Da mesma forma, lembro-me também que quando era mais novo e ainda vivia na Damba, os sapatos e sandálias eram de encomenda e feitos por um sapateiro local.
 
 
Colecçõs de Cromos e Revistas de Desenhos Animados
 
Um dos passatempos preferidos dos nossos tempos de então era completar colecções de cromos sobre os tópicos mais variados. Assim, como não podia deixar de ser, eu também abracei essa onda completando várias colecções, incluindo História de Portugal, Raças Humanas, Navios e Navegadores, O Mundo Animal, Bandeiras do Mundo, Maravilhas do Mar, História do Automóvel, Ben Hur, Os Dez Mandamentos, e outras que agora já não me lembro. 
 
 
Capa da caderneta de cromos sobre a  História de Portugal

 
Nós comprávamos os cromos em pacotes de três por meio angolar (50 centavos), e como comprávamos muito pacotes com cromos repetidos, o mercado de troca de cromos repetidos era muito activo. Como em tudo, havia sempre numa colecção um pequeno número de cromos que eram muito raros, que eram trocados a preços muito altos.
 
 
Capa da revista Mundo de Aventuras, número 785

 
Cada colecção tinha sempre alguns cromos que eram muito raros, o que fazia subir muito o preço desses cromos quando os trocávamos com amigos. 
 
Eu referi-me acima a "angolares", mas de facto eles já não existiam pois tinham sido substituídos por "escudos" em 1954. O termo "angolar" ficou na gíria popular por mais alguns anos e poucas eram as pessoas que não o usavam. Nessa altura, nós dizíamos "centavo"em vez de "cêntimo", e em alguns casos ainda fazíamos referência aos antigos  "reis" (anteriores aos "angolares"), como por exemplo dizíamos "dois e quinhentos" (2$50), em vez de "dois escudos e cinquenta centavos".
 
Com o grande surplus de cromos que tínhamos, novos jogávamos "à parede", um jogo em que deixávamos o cromo cair de uma uma altura de cerca de um metro numa parede, e se o cromo caísse a menos de um palmo dum cromo de outro jogador, nós ganhávamos esse cromo.
 

Capa de um dos livros de aventuras de Tintin, de Hergé
 
 
Em termos de revistas de juventude, os mais populares eram as revistas de banda desenhada ("de quadradinhos", dizíamos nós) "O Mundo de Aventuras" e "Condor Popular" (de cowboys e índios, e quem esquece as aventuras de Buck Jones, Kit Carson, ou do mágico Mandrake?), e ainda as revistas das aventuras de Tin-Tin e do seu cão Milu e a revista "Cavaleiro Andante". 
 
 
Capa do número 220 da Revista Cavaleiro Andante
 
 
Para raparigas, a Crónica Feminina e as novelas (literatura de cordel) da colecção Pimpinela e fotonovelas Corin Tellado da Agência Portuguesa de Revistas, eram as mais populares. Uns anos mais tarde, à medida que nos tornávamos mais "adultos", lía-se também muito a revista de cinema "Plateia", que era mais cara, da qual eu não era um fan fervoroso. 


Panorama Desportivo de Luanda na Década de Sessenta
 
Para muitos de nós o evento mais importante do ano era o famoso Grande Prémio de Angola, mais tarde seguido pelo Circuito da Fortaleza, organizado anualmente pelo ATCA (Automóvel Touring Clube de Angola). Talvez como um barómetro da inequidade social e económica dos tempos de colónia, o automobilismo era muito desenvolvido em Angola. Quase todas as cidades principais tinham um grande prémio ou circuito anualmente, que eram muito populares. 
 

O Grande Prémio de Angola - Circuito da Fortaleza em Luanda, 1967
(o Sobrado a que me referi no começo deste blogue,
pode ver-se claramente à esquerda nesta fotografia)
 
 
Assim, tínhamos o Grande Prémio de Luanda, o Circuito da Fortaleza de Luanda, as 6 Horas do Huambo em Nova Lisboa (Huambo), o Circuito da Restinga no Lobito, o Circuito de Benguela, o Circuito de Novo Redondo, o Circuito do Café em Carmona (Uíge). Haviam também muitos rallies, dos quais se destacava mais o Rally do BCA (Banco Comercial de Angola). Em 1972 já haviam dois autódromos em Angola, um em Luanda e outro em Benguela que ofereciam provas internacionais.
 
O nosso primeiro ídolo de automobilistas angolanos foi Álvaro Lopes, que ganhou as primeiras corridas, seguido de Silveira Machado, António Peixinho, Nicha Cabral, Emílio Marta, Ferrobilha Guedes, Ahrens Novais, Mabílio de Albuquerque, Helder de Sousa, Castro Pereira, e do malogrado Freddy Vaz, irmão da minha amiga Maria José Trancoso Vaz, de Benguela, que infelizmente ele morreu ainda muito novo num acidente no Grande Prémio de Angola em Luanda). 
 
O Grande Prémio de Angola cresceu de dimensão e importância tornando-se um dos mais importantes provas de competição de carros em África, atraindo muitos automobilistas de renome como Lucien Bianchi, Herman Muller, De Villiers, e David Piper e marcas Fórmula 1 como a Porsche, Maseratti, Ferrari, e Lotus, e outras. Eu lembro-me que o bilhete de entrada para as corridas era caro, mas nós arranjámos sempre maneira de assistir às corridas de borla (sem pagar).

Os desportos mais populares nesse tempo era o futebol, basquetebol, hóquei em patins, futebol salão, andebol, voleibol, natação, vela, remo, e ténis. Para além do Sporting Clube da Maianga, os principais clubes de Luanda eram o Sporting Clube de Luanda, o Sport Luanda e Benfica, o Clube Atlético de Luanda, o Futebol Clube de Luanda, o Clube Ferroviário de Luanda, o Futebol Clube Vila Clotilde, o Centro Desportivo Universitário de Angola (CDUA), e o Atlético Sport Aviação (ASA).  
 
 
O famoso Estádio dos Coqueiros, onde se realizavam os maiores eventos de futebol, atletismo, e festivais de ginástica em Luanda. Em baixo e à direita, as instalações do Clube de Ténis de Luanda; do lado oposto, a sede e estádio do Sporting Clube de Luanda, 1960s.

 
Em geral, o Sporting e o Benfica dominavam a maioria das modalidades de desporto, mas o Vila Clotilde tinha boas equipas de basquetebol, e o ASA tinha uma boa equipa de futebol. Angola foi durante alguns anos campeã nacional de hóquei em patins graças às excelentes equipas em Moçâmedes (Atlético e Sporting) e Lobito (Lobito Sports Clube). O Sporting Clube de Luanda tinha um programa de ginástica muito bom. 
 
Em termos de desportos aquáticos, nós tínhamos em Luanda (no Clube Desportivo Nun'Álvares e Club Naval de Luanda) excelentes nadadores e velejadores. Devido à qualidade (e popularidade) do desporto da vela, ralizou-se em Luanda em 1969 o Campeonato Mundial de Snipes, em que os angolanos Paulo Santos e Fernando Silva conquistaram a medalha de bronze qualificando-se em terceiro lugar. O remo também era popular, pois a baía de Luanda oferecia condições excepcionais para a prática desse desporto, com equipas do Clube Nun'Álvares, Club Naval de Luanda, e da Mocidade Portuguesa, da qual eu era timoneiro na categoria de Yole de 4 com timoneiro.

 
Instalações do Clube Sports Nun'Álvares de desportos náuticos, 1950s

 
Lembrando aqui o Clube Desportivo Nun´Álvares, não esqueço que um dia megulhei de chapa a toda a velocidade e às cegas na piscina não sabendo que havia apenas cerca de trinta centímetros de água. Maluquices que nunca esquecemos... Felizmente "aterrei" bem de "chapa perfeita" e nada de mal aconteceu, mas o pensamento do que poderia ter acontecido ficou comigo para sempre.
 
 
Instalações do Club Naval de Angola, na Ilha de Luanda, famoso pelas excelentes equipas de vela e remo, 1960s
 
 
O Club Naval de Luanda era o segundo clube de desportos náuticos em Luanda, sendo muito conhecido pelas excelentes equipas de vela e remo. O Club Naval de Luanda tinha ainda uma marina muito boa, e um restaurante e boite que serviam clientes com mais posses. 
 
Luanda tinha ainda o Clube dos Amadores de Pesca, situado ao sul da barra da Corimba, que era exclusivamente dedicado à pesca desportiva. Seguindo a vocação ancestral piscatória dos Axiluanda, a pesca era uma das actividades de recreio e sustento mais populares em Luanda.Viam-se a qualquer hora ou dia pescadores na Marginal, na Ilha, na Baía, na Corimba, no Mussulo, ou mesmo barcos no mar largo esperando pacientemente que o peixe mordesse o anzol.
 
 
Instalações do Clube dos Amadores de Pesca de Luanda, a sul da barra da Corimba, 1960s

 
O Clube de Ténis de Luanda (no bairro dos Coqueiros) também tinha tenistas de renome, mas era um clube manifestamente elitista. O Clube de Caçadores de Angola era mais um clube social do que desportivo, mas que oferecia bons torneios de tiro aos pratos e aos pombos, e organizava a festa de passagem de ano mais desejada em Luanda - o reveillon do Clube dos Caçadores.
 
Por falta de instalações próprias, as equipas do Sporting Clube da Maianga treinavam em locais diferentes (futebol no campo do ASA (Atlético Sports Aviação, situado para além do Aeroporto), basquetebol nas antigas instalações do Sport Luanda e Benfica (entre o Rádio Clube e o Cinema Tropical, que mais tarde mudou para nova sede e campos no Eixo Viário), e hóquei em patins no estádio da Ilha, junto ao Clube Nun'Álvares. Contudo, já em 1972, o Sporting Clube da Maianga construiu instalações desportivas próprias na zona do Rio Seco, mesmo atrás de onde se situava a nossa casa. Para o vetusto Maianga esta importante iniciativa foi a realização de um grande sonho de há muitos anos para os seus sócios e atletas.

Já que estamos no tema de associativismo, para além dos clubes mencionados acima, havia em Luanda algumas casas regionais da metrópole, onde portugueses oriundos da mesma região em Portugual confraternizavam e relembravam a sua herança cultural. As "casas" mais activas eram a "Casa do Minho", "Clube Transmontano", "Casa das Beiras", "Casa do Ribatejo", "Casa do Alentejo", e a "Casa do Algarve". Não me lembro se havia uma casa para os naturais da Ilha da Madeira ou uma para as Ilhas dos Açores. Todas estas associações regionais tinham o seu grupo folclórico e ofereciam farras lendárias. Por exemplo a farra de fim-de-ano no Clube Transmontano era famosa em Luanda. Os grupos folclóricos de música e dança tradicional, competiam entre si para bons prémios e supremo orgulho nacional.
 
 
Já em 1939, como atesta esta foto, a Casa do Minho de Luanda tinha um rancho folclórico muito activo.

 
Esta saudade da terra não se limitava aos portugueses da classe média, pois até os mais eruditos tinham a sua casa (alma mater) própria, como a Associação dos Antigos Estudantes da Universidade de Coimbra, com sede na rua Brito Godins (Avenida Lenine) que até tinha um colégio privado e oferecia palestras de relevo cultural.

 
Luta Livre em Luanda 

No capítulo de desportos, espectáculos e diversões não podemos esquecer os populares torneios de luta livre organizados pelo empresário (e lutador) Lobo da Costa. Todos os anos, Lobo da Costa trazia ao público de Luanda nos terrenos da feira junto à Alameda Dom João II e Avenida dos Combatentes e mais tarde no estádio da Ilha, os mais fantásticos e ferozes lutadores que levavam sempre os espectadores ao delírio quando o Cinturão de Luanda era entregue ao vencedor. 
 
 
O popular lutador de luta livre americana Tarzan Taborda, vencedor de muitos torneios de luta livre em Luanda nos anos Sessenta
 
 
Quem esquece nomes famosos como Tarzan Taborda, Carlos Rocha, King Kong, El Índio, Zé Luis, e Adriano? Cada lutador tinha um grande número de seguidores leais, talvez mais leais do que no futebol, pois chegavam a jurar que tudo nos combates era real e não meramente um espectáculo... aquelas baçulas e kapangas eram mesmo de verdade! E o terrível golpe de tesoura? Como poderiam lutar a fingir? Não; quase impossível...
 

Panorama da Imprensa de Luanda na Década de Sessenta
 
Eu li sempre tudo o que podia. Assim, era sagrada para mim a leitura da Revista Notícia (na calçada Gregório Ferreira) todas as semanas, em especial os escritos de João Charulla de Azevedo (cujo lema era "Projecto o melhor, espero o pior, e aceito de ânimo igual o que Deus quiser", palavras que me iriam guiar para o resto da minha vida), e a crónica semanal "A Chuva e o Bom Tempo" de João Fernandes, em que invariavelmente ele dava magistralmente "uma no cravo e outra na na ferradura" à acção do governo, ou tendência ou acontecimento social.
 
 
Capa da revista Notícia, Luanda, 30 de Janeiro de 1971
 
 
Havia ainda a Revista de Angola, que era um quinzenário mais antigo que a revista Notícia, mas que tinha menor circulação pois focava um pouco mais na economia de Angola. O seu contento editorial era por norma mais sóbrio e menos bombástico que o da Revista Notícia!
 
 
A Revista de Angola, quinzenário, 1960s

 
Da imprensa diária em Luanda lia com frequência os jornais matutinos "A Província de Angola" (de maior circulação em Angola, e que líamos diariamente), e "O Comércio" (ambos com sede na rua Salvadorr Correia), e os jornais da tarde "Diário de Luanda"(sob directa influência do governo), com sede na Avenida Lisboa em frente à Delegacia de Saúde, e não muito longe da nossa casa, e o jornal "ABC"(que achava o mais independente), também com sede na Rua Salvador Correia. Havia ainda o semanário "O Apostolado", publicado pela Igreja Católica, que era o órgão oficioso de imprensa religiosa de maior difusão em Angola, que não lia tanto.
 
 
Primeira página do Jornal "A Província de Angola", 1974

 
O governo publicava "A Tribuna dos Muceques" que era um órgão de propaganda governamental anti-nacionalista controlado pela PIDE e pelos Serviços de Centralização e Coordenação de Informação de Angola (SCCIA), destinado às populações indígenas dos musseques de Luanda. A Tribuna do Muceques trabalhava em sintonia com a emissora A Voz de Angola e outros orgãos do governo colonial no esforço de projectar Angola internacionalmente como uma sociedade multirracial.

 
Primeira página do jornal Diário de Luanda, 1973


Cabe lembrar aqui que a imprensa em Angola desse tempo não era livre (longe disso!). Nós não vivíamos num sistema politicamente livre e democrático, mas sim num sistema autocrático colonial e em guerra. De facto, não só a imprensa, mas qualquer actividade de natureza cultural como a publicação de uma obra literária estava sujeita à censura prévia. Mais ainda, qualquer actividade política era cuidadosamente seguida pela PIDE (a polícia política - Polícia Internacional de Defesa do Estado). 
 
 
O Jornal ABC, o mais independente jornal luandense

 
Dependendo da extensão do "desvio político", para alguns a falta acarretava a perda de liberdade de expressão, intimidação pessoal ou de membros de família, opressão policial, perda de emprego, e até prisão ou morte. Estas formas de repressão fazia-os viver sempre num mundo de medo de quando a PIDE havia de os ir buscar a sua casa a meio da noite para interrogatório, tortura, residência fixa longe de Angola, prisão, ou até morte. 
 
As prisões para presos políticos angolanos mais conhecidas era a prisão/campo de trabalho de São Nicolau, situado na foz do rio Bentiaba (uma região muito remota e de acesso muito difícil) a norte do distrito de Moçâmedes, e o Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde. Em face das consequência, muitos angolanos preferiam "bazar" (fugir do país), e ir juntarem-sa aos movimentos de libertação que tinham as suas bases nos países vizinhos. 
 
Mesmo assim, a qualidade de certos (poucos) meios de comunicação social era muito boa, pois as suas crónicas (como o João Fernandes na Revista Notícia, e Acácio Barradas no Jornal ABC) e reportagens e comentários (como Sebastião Coelho no programa noturno Café da Noite, na Emissora Católica de Angola) conseguiam passar sob o pente fino da Comissão de Censura e dizer ao público o que era preciso saber. Devo ainda dizer ao mesmo tempo que haviam muitos jornais e programas radiofónicos cuja qualidade era baixa e cuja função primordial era vender publicidade e bajular o sistema colonial.

Ainda no tópico da revista Notícia, lembro-me que já no fim da década de Sessenta segui atentamente a série extraordinária de reportagens ao longo de várias semanas sobre a economia e sociedade tradicionais "Nas Terras do Boi Sagrado" sobre os povos pastoris Nhaneca, Humbe, Herero, e Ovambo (Cuanhama) no sudoeste de Angola. Lembro-me que esta série de reportagens despertou em mim o interesse pela antropologia (e antropologia económica) e pelo aprender das diferenças nos modos de produção das economias tradicionais dos povos de Angola - colectores, caçadores, pescadores, pastores, agricultores, comerciantes, operários, e assalariados - o que me levou a querer aprender mais sobre cada povo e a sua história antes e depois do contacto com os portugueses.


Uma imagem antiga do Palácio de Ferro, na antiga Rua Direita de Luanda, desenhado e projectado em ferro por Gustave Eiffel, o mesmo engenheiro que projectou a Torre de Eiffel em Paris em 1887.


Estações de Rádio

 
Sede do Rádio Clube de Angola, no Bairro do Café em Luanda, 1970

 
Nos nossos anos de juventude em Luanda ainda não havia televisão, pelo que a rádio era a fonte de informação preferida e o cinema era a forma de entertenimento mais popular em Luanda. Havia quatro emissoras de rádio (o Rádio Clube de Angola, a Emissora Oficial de Angola e a Voz de Angola (ambas operadas pelo governo), e a Rádio Eclésia (Emissora Católica de Angola), operada pela Igreja Católica.
 
 
Cartão de verificação de recepção do Rádio Clube de Angola, 1940s
 
 
A Voz de Angola era uma emissora do governo associada à Emissora Oficial de Angola cuja audiência era a população nativa residente nas maiores cidades e no mundo rural de Angola. A Voz de Angola oferecia programas em línguas autóctones e visava a radiofusão da política oficial do governo de acção psicológica e de sociedade multiracial. Estesq eram sempre acompanhados de muita música de artistas angolanos, com o fim de preencher o tempo livre das populações nativas e mantê-las assim um pouco mais distanciadas da influência dos movimentos de libertação, e próximas da propaganda do governo
 
Haviam em Luanda dois programas de rádio do MPLA e da FNLA, que embora ilegais e proibidos pela PIDE, tinham alguma udiência, especialmente entre as as camadas crioulas. O MPLA oferecia o programa "Angola Combatente" às quartas-feiras e domingos às 19:00 horas, que era de longe o mais popular, e a FNLA oferecia o programa "A Voz de Angola Livre" às terças e sextas feiras às 20:30 da noite mais alvejado para as populações Bakongo do norte de Angola, cuja audiência era menor.
 
 
Edifício da Emissora Oficial de Angola em Luanda, 1970

 
Programas de Rádio
 
Desde os muito cedo que se ouvia muito música em nossa casa, pois a nossa Mãe adorava música, especialmente música clássica, e ela incutiu em nós o gosto pela música. Como resultado disso, o meu irmão Rui tocava viola muito bem e era membro de um conjunto musical, e a minha irmã Ema completou o curso de piano do Conservatório de Música de Lisboa. Em Cabinda, a minha irmã Dilar tinha uma colecção muito extensa de discos LP. 
 
Um dos tempos mais aprazíveis para mim era ouvir a rádio à noite. Eu gostava muito de ouvir música clássica no Programa 2 da Emissora Official de Angola sempre que podia. Para mim, as obras mais preferidas eram "O Casamento de Fígaro", de W. A. Mozart (1756-1791), a "Quinta Sinfonia" de L. Bethoven (1770-1827), a ópera "Aida" de G. Verdi (1813-1901), a "Cavalgada das Valquírias" de R. Wagner (1813-1883), a "Abertura de 1812" de P. Tchaikovsky (1840-1893), a "Sinfonia do Novo Mundo" de A. Dvorjak (1841-1904), "Madame Butterfly" de G. Puccini (1858-1924). As obras preferidas da minha Mãe era a música ligeira da década de 1920 de A. Ketelby (1875-1959), em especial "Num Mercado Persa" (a composição mais preferida da minha Mãe), e as canções e árias de ópera de Giuseppe Verdi (1813-1901) e Giochino Rossini (1792-1868) interpretadas pelos grandes tenores Enrico Carusso (1873-1921), Mário Lanza (1921-1959), e Maria Callas (1923-77), em especial "Be My Love" e "Oh Paradiso", que eu ainda hoje continuo a ouvir sem me cansar nunca. 
 

"Num Mercado Persa", de Anthony Ketelbey, a peça de música preferida da minha Mãe

 
É curioso, mas eu nunca pensei na influência que a música clássica havia de ter para o resto da minha vida, mas o certo é que um dos maiores prazeres que tenho na vida ainda hoje é ouvir calmamente peças de música clássica, o que tento realizar sempre que posso, não importando quantas vezes ouço a mesma peça. Eu penso que a música, não só clássica mas também a popular, me ajudou a transbordar o horizonte da minha mente para uma dimensão mais universal, do todo fechado e controlado que era Angola em que vivia.
 
Já que estamos no tópico de emissoras de rádio, eu tenho que dizer que o programa radiofónico que mais gostava de ouvir era o "Café da Noite" produzido por Sebastião Coelho (Estúdios Norte), um dos radialistas de maior renome e integridade em Angola. O programa era produzindo nos Estúdios Norte, na Travessa da Sé nº 40 e radiofundido através da Rádio Eclésia (Emissora Católica de Angola), às nove da noite nos dias de semana. Sebastião Coelho (também conhecido pelos amigos por "Sebas" ou "Kandimba" ("coelho" em umbundo, pois ele era natural de Nova Lisboa, Huambo), através do Café da Noite, ele  oferecia sempre conversas de grande qualidade e interesse. Ele era decerto o produtor de rádio de maior idoniedade na Luanda desse tempo. 
 
Lembro-me que ele abria o programa com as palavras "Boa Noite amigo ouvinte, aqui nós somos Café da Noite, café de Angola, a bebida da cordialidade". Ainda hoje, mais que cinquenta anos passados, quando sinto que estou a viver uma noite serena e refrescante, vem-me à mente o mesmo que sentia nas noites em Luanda quando me sentava a ouvir serenamente Sebastião Coelho no seu inesquecível Café da Noite.


O saudoso produtor de rádio angolano Sebastião Coelho (Kandimba) (1931-2002)

 
Sebastião Coelho foi um nacionalista angolano ferrenho desde longa data, tendo sido preso pela PIDE em Nova Lisboa em 1962, quando transmitia o seu programa "Cruzeiro do Sul" que transmitia em língua umbundu. Ele foi também perseguido e ameaçado de morte por um grupo muito grante de taxistas portugueses em Junho de 1974 em Luanda. Já no Canadá, ainda troquei cartas com ele quando ele vivia em Buenos Aires. Infelizmente, ele faleceu nessa cidade em 2002 saudoso da sua pátria.

Não posso ainda deixar de mencionar aqui o quanto eu gostava de ler as crónicas de Ernesto Lara Filho, no Jornal ABC e na Revista Notícia sob a égide Crónicas dum Seripipi Angolano, que tinha uma forma única e genuinamente angolana de escrever e cobrir tópicos de flagrante injustiça social.
 
 
O poeta e cronista Ernesto Lara Filho - Seripipi Angolano (1932-1977)
 
 
Natural de Benguela, e regente agrícola de profissão, ele era irmão da poetisa Alda Lara e primo do nacionalista Lúcio Lara. Ernesto Lara Filho morreu ainda muito novo (aos 45 anos) num acidente de carro no Huambo em 1977, quando ainda muito se esperava da sua creatividade espantosa.
 
Apesar do sistema apertado de censura à imprensa, à rádio, e à produção literária imposto pelo governo português e pelo clima geral precário de insegurança internacional criado pela chamada Guerra Fria, podemos dizer que em geral nós acompanhávamos mais ou menos bem os acontecimentos que abalavam o mundo desse tempo. 
 
Lembro-me assim do interesse de muitos em seguir de perto a luta pelo fim da segregação racial e dos direitos civis nos Estados Unidos, a guerra de independência da Argélia, a revolução cubana, a descolonização da África (em especial o que se passava no vizinho Congo ex-Belga), a crise de mísseis de Cuba, o fenómeno social dos "Hippies", a guerra do Vietname, a evolução política da União Soviética e dos países do Leste da Europa, a declaração unilateral de independência da Rodésia, a revolução cultural na China, os protestos estudantis em Maio de 1968 em França (e em Lisboa) e a "Primavera de Praga", a corrida espacial, o regime de aparteid na África do Sul, a resistência às ditaduras militares na América Latina, e a crise do petróleo em 1973.
 

Cinemas de Luanda
 
 O cinema era a forma de entertenimento mais popular em Angola desse tempo. Havia dois tipos de cinemas em Luanda: as salas de cinema propriamente ditas e as esplanadas de cinema. Haviam dus companhias distribuidoras de filmes que também eram proprietárias dos melhores cinemas em Luanda ; a Angola Filmes Limitada, que era proprietária dos cinemas Restauração, Tropical, Império, Nacional, e Colonial, e a Cine-Angola Limitada (Sulcine) que era a proprietária das cine-esplanadas Miramar e Aviz.
 
A melhor sala de cinema de Luanda era o Cinema-Boate Restauração, situado na antiga Avenida Álvaro Ferreira (vulgo Avenida  do Hospital) inaugurada em 1952 pela grande orquestra de Shegundo Galarza. O Cinema Restauração era a maior sala de espectáculos a a mais luxuosa (e mais cara) em Angola. Em 1971, uma pequena sala, o Cine Studio, foi adicionada ao complexo, que oferecia várias sessões ao dia (matiné, soiré, e segunda sessão à meia-noite). Até meados da década de Sessenta, era no Restauração que vinham actuar os mais consagrados artistas internacionais.


O Cinema "Restauração" em Luanda, 1970s. Anexo,
ao lado esquerdo, estava o novo cinema "Studio"
 
 
A sala de cinema Stúdio, adjacente ao Cinema Restauração, oferecia também segundas sessões à Sexta e ao Sábado, que começavam perto da meia-noite. Ao sábado, o Cinema Restauração oferecia o popular evento de variedades "Chá das Seis e Meia" (mais tarde "Chá das Seis") onde vinham actuar os artistas mais populares de Luanda, e se realizavam concursos que ofereciam aos espectadores bons prémios e bom dinheiro. O Chá das Seis apresentava não só artistas locais, como também estrelas internacionais como João Villaret, Charles Aznavour, Ângela Maria, António Calvário, Mara Abrantes, António Prieto, Nelson Ned, Ivon Curi, e outros artistas famosos.
 
Depois da Independência, os edifício dos cinemas "Restauração" e "Stúdio" foram usados temporariamente durante muitos anos como sede da Assembleia Nacional de Angola, antes de se mudar para instalações próprias entre a Samba e a Praia do Bispo. 

Quando nós estivémos em Luanda em 1960-61, o Cine-Clube de Luanda oferecia sessões de cinema no Restauração às 3:00 horas da tarde de sábado. Os filmes eram em geral muito bons e orientados para a juventude. 

O cinema Cine Bar Dancing Tropical na Avenida Brito Godins (actual avenida Lenine) era um cine-dancing, onde as pessoas se sentavam como se estivessem num bar, podendo mandar vir comida e bebidas, ao mesmo tempo que via o filme. O cinema Tropical podia facilmente reconfigurar-se num grande salão de dança, onde se organizavam grandes bailes e casamentos. Muitos dos bailes de fim-de-ano do Liceu Salvador Correia tiveram lugar no Tropical, mas o espaço era mais um cinema que um lugar de dança.
 
 
O Cine-Bar Dancing Tropical, na antiga Avenida Brito Godins (Avenida Lenine) em Luanda, 1957

 
O Cine-Teatro Nacional, situado junto ao Largo Dom Afonso Henriques, era o cinema mais antigo de Luanda (inaugurado a 1 de Janeiro de 1932) onde durante muito tempo se apresentavam as peças de teatro em Luanda. Era ainda no cine-teatro Nacional que o Grupo de Teatro Infantil Cremilda Torres apresentava as suas famosas e concorridas peças de teatro infantil ao domingo à tarde.
 
 
O antigo Cine-Teatro Nacional em Luanda 1950s

 
O Cine Colonial, no Bairro de São Paulo era o cinema para as massas mais pobres da cidade, onde se dizia que os espectadores avisavam em viva voz os cowboys no ecran da presença de bandidos ou Índios prontos a matá-los (!), e depois se congratulavam do sucesso do seu aviso com efusivas salvas de palmas e prolongados assobios.
 

Hora de saída do Cine Colonial no Bairro de São Paulo, em Luanda 1960s

 
Em termos de cine-esplanadas, o Cine-Esplanada Miramar era o mais belo e aprazível de todos, sendo considerado por muitos a sala de visitas de Luanda. O complexo era muito bem ajardinado e oferecia vistas magníficas da baixa da cidade, da avenida Marginal, da Ilha de Luanda, e do famoso pôr-do-sol de Luanda. Para além das vistas maravilhosas, o cine-esplanada Miramar tinha jardins em cada lado da plateia, que eram  muito bonitos com as flores e plantas mais exóticas e emblemáticas de Angola.
 
 
O belo Cine-Esplanada Miramar em Luanda, 1970
 
 
Ao domingo à tarde era oferecido no cine-esplanada Miramar o espectáculo de variedades infantil "Cazumbi", (em kimbundo "Pequeno/Criança Fantasma") promovido pelo conhecido empresário de espectáculo Luís Montês, também era muito popular para as camadas mais jovens de Luanda.
 
O Cine-Esplanada Aviz, no Bairro de Alvalade era também muito bom, mas era mais fechado e ligeiramente mais pequeno que o Miramar, mas não tinham vistas espantosas que o cine esplanada Miramar oferecia, embora oferecesse a vantagem de ser completamente abrigado da chuva. No jardim do Aviz havia um espécime da famosa planta Welwitchia Mirabilis do deserto do Namibe. Depois da Independência, o Cine-Espalanada Aviz passou a chamar-se (descabidamente) Karl Marx.
 
 
O Cine-Esplanada Aviz no Bairro de Alvalade, Luanda 1970s

 
O Cine-Esplanada Tivoli, situado no Bairro Azul (Samba) também muito bonito, mas mais pequeno que o Miramar e o Aviz, servia os bairros da zona sul de Luanda. Já construído na década de Sessenta, o Tivoli era um cinema mais convencional ao ar livre (esplanada), completamente coberto, e ligeiramente menos requintado que o cine-esplanada Aviz. Foi no Cinema Tivoli que vi o filme "Doutor Zivago".
 
 
O Cinema Tivoli bo Bairro Azul, Samba, fotografia já tirada nos 1980s


O último grande cine esplanada a ser construído em Luanda, em 1968 foi o Cine-Esplanada Império, à entrada do Bairro da Vila Alice, perto da Escola Industrial de Luanda. O Cine-Esplanada Império foi construído pela empresa Angola Filmes para poder concorrer com o Miramar e o Aviz. Ele era o maior cine-planada de Luanda, muito espaçoso, completamente coberto, e tinha dois grandes paineis verticais (um em cada lado do ecran) muito bonitos em estilo abstracto pintados pelo nosso professor famoso de desenho no Liceu Paulo Dias de Novais, Prof. Eduardo Zink. Depois da Independência, o Cinema Império passou a chamar-se Cinema Atlântico.
 
 
Esplanada do Cinema Império, no bairro da Vila Alice  em Luanda, 1970

 
Já na década de 1970, mais salas de cinema e cine-esplanadas foram construídoss como o Studio (junto ao cinema Restauração), o Cine São Paulo, o Cine Kipaka no Bungo, a esplanada Ngola Cine, e outros, que eram mais pequenos e mais cinemas de bairro e clubes recreativos. Para além destes cinemas públicos, haviam em Luanda alguns clubes, como o Sporting Clube da Maianga, que ofereciam cinema aos seus sócios.
 
Haviam nesse tempo duas firmas distribuidoras de filmes em Angola: a Angola Filmes Limitada, que eram os proprietários dos cinemas Restauração, Império, Tropical, Nacional, e Colonial, e a Cine Angola Limitada que era proprietária dos cinemas Miramar e Avis. Os filmes eram apresentados geralmente à noite (soirée) durante os dias de semana, mas ao fim de semana também ofereciam sessões à tarde (matinée). 
 
Dito tudo isto, o cinema onde eu ia com mais regularidade e frequência era a cine-esplanada coberta do Sporting Clube da Maianga, onde fui atleta, situado na Rua João Seca mesmo à frente da nossa casa, que oferecia filmes quatro vezes por semana (terça-feira, quinta-feira, sábado, e domingo), e como eu era atleta do clube, eu tinha entrada gratuita para os filmes. 
 
A esplanada de cinema do Sporting Clube da Maianga oferecia somente filmes que já tinham sido apresentados anteriormente noutros cinemas em Luanda, pois por norma comercial os filmes novos só se estreavam nos grandes cinemas da cidade. O preço dos bilhetes de ingresso no Maianga era assim muito mais baixo que nos cinemas comerciais, se bem que reservado somente a sócios e convidados do clube.

Ao domingo à tarde, o Sporting Clube da Maianga oferecia um matinée dançante, que era muito concorrida pelos jovens do bairro e não só. Contudo, as maiores farras no Maianga era sem dúvida as farras do Carnaval, que iam de sábado a terça-feira. Ao domingo de manhã, a esplanada do Maianga era convertida em igreja onde era celebrada missa de domingo, que era muito concorrida pelos maianguenses mais fiéis.

 
O popular actor mexicano de cinema Cantinflas (Mário Moreno - 1911-93),
muito popular nos cinemas de Luanda na década de 1960s (1963)
 
 
Panorama Cultural de Luanda na Década de Sessenta

Como disse noutro lugar neste texto, a cultura que estava em formação na Angola das décadas de Cinquenta e Sessenta do Séc. XX estava sujeita à influência de três vectores culturais principais: a cultura tradicional dos povos africanos de Angola (em particular de Luanda), a cultura portuguesa, e a cultura popular ocidental. Embora pequena, havia uma certa influência brasileira e latina, mais através da música e de revistas.
 
Da interacção e influência destes três vectores culturais principais, a cultura angolana ia construindo a sua identidade própria. Havia uma certa fricção entre a cultura africana e a portuguesa, pois a primeira fazia tudo para resistir aos esforços da segunda, que por sua vez era imposta pela necessidade de "portugalizar" Angola através do processo de colonização. O peso e a influência da cultura popular ocidental derivava principalmente pelo facto de que Angola era um consumidor de produtos culturais ocidentais através da rádio, cinema, e literatura que consumíamos do exterior.

O produto final da interacção das três culturas ajudava a construir o que nós chamávamos a cultura angolana de então. A cultura angolana incluia elementos híbridos (crioulos, especialmente em Luanda), em que se sentia uma clara primazia da cultura africana, pois a influência africana na música, na dança, na literatura, na culinária, no vestuário, no artesanato, na religião, e até no pensamento era patente em toda Angola.


Teatro
 
Se bem que não tão popular como o cinema como forma de diversão, o teatro ainda tinha um número bom de fans em Luanda, sendo o Cine-Teatro Nacional, mesmo abaixo do Largo Afonso Henriques, também conhecido como largo da Obras Públicas, pois era onde se situava a sede desse departamento do governo.
 
Em termos de teatro, o Cine-Teatro Nacional, o mais antigo cinema de Luanda, depois do Cine-Parque, que já não existia na década de Quarenta, foi durante muito tempo o único teatro em Luanda, se bem que fosse mais um cinema do que um teatro. Contudo, o antigo Nacional era onde as revistas de teatro portuguesas eram apresentadas quando vinham a Luanda, e era onde o Grupo de Teatro Infantil Cremilda Torres oferecia peças de teatro infantil ao domingo à tarde. 
 
Já nos fins da década de 1960s, o Teatro Avenida foi construído ao fundo da Avenida dos Restauradores de Angola (actual avenida Raínha Jinga), passando a ser a única casa de espectáculos  exclusivamente dedicada ao teatro em Luanda.
 
É de notar aqui que as produções de teatro apresentadas em Luanda eram geralmente "importadas", no sentido em que não eram teatro angolano, pois vinham de Portugal ou do Brasil. Assim, não podíamos dizer que houvesse teatro genuinamente angolano, pois tudo o que assistíamos eram "importações" de outras culturas. Em geral, as peças de teatro que víamos eram peças de sucesso noutros lugares, como Portugal, Europa, ou Brasil, e não tinham nada a haver com a realidade histórica, social, ou cultural de Angola.
 
 
O antigo Teatro de Luanda, substituído em 1969 pelo Teatro Avenida

 
Música

O que se passava no quadro da música é um exemplo bom deste conjunto de influências: em Angola ouvia-se nas estações de rádio muita música angolana sendo o Ngola Ritmos, o Duo Ouro Negro,  os Kiezos, os Jovens do Prenda, o África Ritmos, os Gingas, os Negoleiros do Ritmo, e os Águias Reais, os mais populares, e cantores de renome como Lilly Tchiumba, e seu irmão Eleutério Sanches, Sara Chaves, Dinah Jardim, Conchita Mascarenhas, Fernanda Ferreirinha, Teta Lando, Eduardo Nascimento, Elias Dya Kimuezo, Miguelito do Pandeiro, Luís Visconde, Bonga, e outros.
 
 
O popular conjunto  "Os Kiezos" que abrilhantavam muitas farras em Luanda, 1965

 
O famoso conjunto musical luandense "Ngola Ritmos" foi fundado por Liceu (Carlos Aniceto) Vieira Dias (1919-1994) em 1947 na casa de Manuel dos Passos no Bairro Operário, depois da experência de Liceu Vieira Dias com o "Grupo dos Sambas" e orquestra "Ritmo Tropical" desde os primeiros anos da década de Quarenta. O Ngola Ritmos era o conjunto musical mais antigo e mais venerado em Angola na década de Cinquenta, tendo sido o primeiro conjunto musical angolano a popularizar canções tradicionais luandenses cantadas em kimbundo (não em português), mas tocadas com instrumentos modernos.
 
 
Liceu Vieira Dias (1919-1994), o Pai da música popular luandense 

 
Em termos de música, o Ngola Ritmos for o primeiro conjunto angolano a fundir em canções tradicionais angolenses instrumentos musicais modernos como a viola, o baixo, e a bateria, com instrumentos musicais tradicionais luandenses, como a dikanza (espécie de reco-reco), o ngoma (tambor/batuque), e o hungo (espécie de berimbau).
 
 
O famoso conjunto Ngola Ritmos - Liceu Vieira Dias, Nino (Ndongo) Mário Araújo, Bélita Palma, Amadeu Amorim, Lourdes Van Dunen, e Zé Maria. Fotografia tirada em Benguela em 1957.
 
 
Os muitos êxitos musicais do Ngola Ritmos ao longo dos anos incluiram "Muxima", "Madia Kandimba", "Mana Fatita", "Xinguilamento", "Ngakwambele kiá", "Phalami", "Tchon Bon", "Enu mu ilumba", "Mbiri-mbiri", "Tôtoritwé", "Dya ngo wé", "Kuaba kai kalumaba", "Kungwuenu", "Kopê" e "Maria Provocação", conforme nos relembra Jomo Fortunato no seu artigo no Jornal de Angola "A Modernidade Estética da Música Angolana", de 16 de Novembro de 2009. 
 
O Ngola Ritmos apresentou-se nas melhores salas de espectáculos em muitas cidades de Angola, se bem que a suas audiências mais queridas e memoráveis fossem no Bairro Operário, na Liga Nacional Afruicana, e noutros musseques de Luanda. 
 
Os membros do Ngola Ritmos tinham fortes raízes nacionalistas pelo que foram desde os meados dos anos Cinquenta perseguidos pela PIDE, até ao ponto de que o conjunto foi desmembrado em 1962, pois alguns dos seus membros foram presos e desterrados para o Campo de Concentração do Tarrafal em Cabo Verde (como Liceu Vieira Dias que então trabalhava como empregado bancário no Banco de Angola, Amadeu Amorim que trabalhava como electricista na Câmara Municipal de Luanda, e Zé Maria, e Fontinhas que era funcionário do estado nos Serviços de Metereologia foi transferido para o Luso (Luena), bem longe de Luanda. 
 
Apesar de todos estes precalços, o conjunto musical Ngola Ritmos renasceu das suas próprias cinzas em 1964 tornando-se outra vez o conjunto musical angolano mais genuíno e mais adorado em Luanda.
 
Só por curiosidade, é interessante notar que Carlos Aniceto Vieira Dias, nascido a 19 de Fevereiro de 1919, ficou com a alcunha de "Liceu" de acordo com uma tradição popular luandense, pois ele nasceu poucas semanas depois da data em que foi fundado o Liceu Central de Luanda (1 de Maio de 1919), que mais tarde em 1924 passando a ser chamado Liceu Nacional Salvador Correia.

Liceu Vieira Dias foi um dos fundadores do MPLA, e esteve implicado no Processo dos 50; como tal, ele passou uma década prisioneiro no Campo de Concentração do Tarrafal em Cabo Verde. Lamentavelmente, e apesar da seu genuíno exemplo de nacionalista sincero e activo, devido à sua simpatia pela antiga facção da Revolta Activa do MPLA, Liceu Vieira Dias foi injustamente tratado com falta do devido reconhecimento como importante líder nacionalista e votado um tanto ao ostracismo pelo governo do MPLA durante os seus últimos vinte anos de vida. Ele era tio do popular cantor Ruy Mingas. Liceu Vieira Dias morreu em Luanda em 1994.


Raúl Indipo (1933-2006) e Milo MacMahon (1938-85) em Luanda (o famoso Duo Ouro Negro)
 
 
Em termos de popularidade para além de Angola, o Duo Ouro Negro era o conjunto angolano de maior projecção internacional, percorrendo o mundo a difundir a música angolana. De facto em 1963, o Duo Ouro Negro passou a basear-se em Lisboa, e não Luanda. 
 
Para a juventude luandense da década de Sessenta, os conjuntos de musica pop mais populares eram "Os Rocks", "Os Jovens", "Os Windies", e "Os Big Boys", já mais chegados à Maianga. Um pouco mais sofisticado e tocando para audiências mais restritas, o conjunto Thilo's Combo, dirigido pelo popular músico Thilo Krasmann, era o expoente mais alto do jazz angolano.
 
 
Membros do conjunto musical "Os Rocks", o mais popular de Luanda na década de Sessenta
 
 
Em Luanda especialmente haviam muitos conjuntos musicais para agradar todos os gostos. Os mais populares eram aqueles que tocavam nos musseques, pois eram eles que criavam as músicas mais originais e de ritmo mais acelerado. Entre eles, encontravam-se os Kiezos e os Jovens do Prenda, que tinham muitos fans não só na cidade de areia, como também na cidade do asfalto.
 
É de notar também que a música crioula de Cabo Verde (Mornas e Coladeras) era também muito popular em Angola na década de Sessenta, sendo o conjunto "A Voz de Cabo Verde", o seu vocalista Bana, e trompetista Luis Morais os que mais destaque tinham. Ouviam-se também muito na rádio a  música de B. Leza e as mornas baseadas na poesia crioula de Cabo Verde de Eugénio Tavares (quem esqueçe "Ó Mar Eterno"?). 
 
 
O popular conjunto musical "Os Jovens", Mário Bento Catela à frente, 1966


Havia também muita música portuguesa (fado, música popular, e música folclórica) em que os fadistas mais famosos eram Amália Rodrigues, Alfredo Marceneiro, Fernando Farinha, Max, Hermínia Silva, Teresa Tarouca, Tony de Matos, Lucilia do Carmo, Maria Teresa de Noronha, Carlos do Carmo, Maria da Fé, Teresa Silva Carvalho, António Calvário, Simone de Oliveira, Carlos Paredes, Trio Odemira, e muitos outros).
 

Roberto Carlos (1941-), o popular cantor brasileiro das décadas de Sessenta e Setenta. Quem esquece "O Calhambeque" e "A Namoradinha de Um Amigo Meu"?

 
A música popular brasileira e a música latina eram também muito populares, especialmente o Samba, a Bossa Nova brasileiras, a rumba cubana, e o tango argentino. Os cantores mais populares eram o  Roberto Carlos (êxitos como O Calhambeque, Parei na Contramão, Quando..., e A Namoradinha de um Amigo Meu), a Ângela Maria (Beijo Roubado, Garota Solitária, Meu Primeiro Amor, e Avé Maria do Morro)e o Carlos Gardel (My Buenos Aires Querida, Por uma Cabeza, Tomo y Obligo, e Cuesta Abajo), e os conjuntos musicais mais populares eram Los Índios Tabajara (Maria Helena, Amapola, Perfídia, e El Condor Pasa), Los Machucambos (Mas Que Nada, La Cucaracha, Quando Calienta el Sol, Granada, Carnavalito, e Esperanza), e Los Panchos (quem esquece Quiçá, Quiçá, Quiçá..., Uma Estória de Amor, e Alma, Corazon y Vida?). 
 
 
A Raínha da Rádio Brasileira, Ângela Maria (1929-2018), cantora muito popular em Angola durante a década de 1960. Quem se esquece de Beijo Roubado?

 
Em termos de música internacional (pop-music - americana, francesa e italiana), Elvis Presley, Bob Dylan, Joan Baez, Tina Turner, Aretha Franklin, Charles Aznavour, Adamo, Sylvie Vartan, Cliff Richard, Mary Hopkin, Gianni Morandi, Françoise Hardy, The Beatles, The Monkees, The Animals (quem esquece The House of the Rising Sun?), eram os mais populares. A influência do jazz americano era relativamente reduzida, comparada com a maior popularidade do Rythm and Blues e música Gospel.
 
As as orquestras de música ligeira de Mantovani, Ray Conniff, Paul Mariat, e James Last, e de música clássica, como a Orquestra Filarmónica de Berlim, dirigida pelo Maestro Herbert von Karajan, tinham também uma audiência relativamente apreciável, todos contribuindo para um universo musical angolano mais vasto, activo, e em contínuo desenvolvimento.
 
 
Património Cultural


O edifício do antigo Museu de Angola, na antiga Rua de Nossa Senhora da Muxima

 
O Museu de Angola, estabelecido em 1936 por iniciativa conjunta do Monsenhor Alves da Cunha e de Alberto de Lemos, estava inicialmente instalado na Fortaleza de São Miguel, mas mudou-se para instalações próprias em 1956 para a antiga Rua Nossa Senhora da Muxima, mesmo em frente ao Colégio de São José de Cluny (cujo edifício construído em 1948 e é hoje usado pela Universidade Católica de Angola) e logo abaixo do antigo Mercado de Quinaxixe, era a melhor institutuição a visitar para quem quizesse aprender um pouco mais acerca de Angola, com uma secção de cinegética (animais selvagens embalsamados) muito boa, com uma amostra muito impressionante dos animais selvagens mais típicos de Angola. 
 
De igual modo, mas talvez não tanto impressionante, o Museu de Angola tinha uma extensa secção etnográfica notável pela amostra razoável de arte e utensílios dos diversos grupos étnicos de Angola, e uma secção de obras de pintura e escultura de artistas angolanos. O Museu de Angola tinha também uma sala de conferências onde se realizavam colóquios importantes. O Museu de Angola publicou ainda alguns livros importantes sobre a história dos portugueses em Angola por ocasião do 3º. centenário da Restauração de Angola, em 1948.


Edifício da sede da antiga Sociedade Cultural de Angola (mais tarde Instituto de Angola, 1960s), na antiga Calçada de Santo António. Gravura de Carlos Ferreira, 1950.


Até 1960, a Sociedade Cultural de Angola, localizada na Calçada de Santo António, em frente à Emissora Católica de Angola, era uma instituição cultural muito conceituada em Luanda, que oferecia colóquios, apresentações culturais de grande valor, e promovia  a cultura angolana através da publicação da suaa revista de cariz cultural (Boletim Cultura) muito apreciada nos meios mais eruditos e tradicionais de Luanda. 
 
A Sociedade Cultural de Angola oferecia também um prémio anual à pessoa que mais se destacasse no foral da cultura angolana. Em 1962, este prémio foi atribuído ao sociólogo Óscar Ribas, pelo seu esforço em explicar, divulgar, e promover o folclore luandense. Contudo, por acção da PIDE, a Sociedade Cultural de Angola (mais tarde conhecida como Instituto de Angola), viu a sua acção de difusão de cultura genuinamente angolana dramaticamente reduzida, pelo que passou a ser apenas uma sombra muito esbatida e estranha do seu passado mais activo e glorioso.

 
Antigo monumento aos Mortos da Grande Guerra, Largo dos Lusíadas (Quinaxixe, Maria da Fonte), em Luanda, 1940s

 
Luanda tinha uma instituição social muito peculiar e de grandes pergaminhos: o Asilo de Dom Pedro V, para raparigas órfãs, mais tarde chamado Instituto Feminino Dom Pedro V, situado na Cidade Alta. Ali, muitas gerações de raparigas sem posses não foram deixadas ao abandono, pois não só recebiam uma educação académica boa, mas também uma preparação esmerada para sucederem na vida.
 
 
Hora do recreio no Asilo Feminino Dom Pedro V, na Cidade Alta em Luanda, 1973

 
Podemos também dizer que o universo das belas artes (arquitectura, escultura, pintura, música, literatura, dança, e cinema) em Luanda era muito activo e estava sempre muito presente na vida da cidade. É certo que não havia um estilo arquitectónico tipicamente angolano, mas haviam muitos edifícios que se destacavam pela sua beleza artística e funcionalidade, e ainda embora não tivéssemos ainda um cinema, um teatro, e uma escultura angolana, mas quanto às restantes formas de arte havia em cada uma um estilo angolano que se revelava facilmente. Tínhamos um estilo próprio de música angolana, um estilo de pintura angolana, e também uma literatura genuinamente angolana. 
 
Em termos de arquitectura, a presença do estilo rústico oficial português do Estado Novo, presente em todos os edifícios públicos dominava o panorama arquitectónico. Nas residência privadas, havia uma certa influência da arquitectura brasileira moderna, especialmente na década de Sessenta.
 

Antiga porta de entrada da Fortaleza de São Miguel em Luanda, 1935
 
 
Mais na temática de história de Angola, a Fortaleza de São Miguel, se bem que não aberta ao público como um museu pois era um forte militar, tinha uma colecção de azulejos muito única mostrando os momentos mais importantes da história dos portugueses em Angola. Já quando eu saí de Angola em 1975, alguns dos paineis de azulejos estavam em avançado estado de decomposição, pelo que numa medida louvável do Presidente José Eduardo dos Santos, foram completamente restaurados em 2014.
 
 
Azulejo na Fortaleza de São Miguel, mostrando a audiência que Dom Garcia II, rei do Congo, deu aos Padres Capuchinhos italianos que chegaram à região em 1645

 
No campo das artes plásticas, o centro de exposições do CITA, na baixa de Luanda, no andar térreo do Hotel Império (que funcionava também como messe de oficiais superiores do exército oferecia regularmente exposições de artistas locais e estrangeiros. Este prédio serviu antes como sede do Banco Comercial de Angola (BCA), antes deste banco mudar para sede própria no novo prédio mais alto de Luanda, junto ao Banco de Angola.
 
 
O prédio do BCA (Banco Comercial de Angola) foi durante alguns anos o edifício mais alto de Luanda, e um ícone do progresso económico alcançado em Angola entre 1964 e 1974.
 
 
Entre Dezembro e Março, nós íamos sempre à praia. Quando o meu pai estava em Luanda, nós íamos (toda a família) com ele de carro, de outra forma íamos (eu e o meu irmão Rui e mais amigos do Bairro da Maianga) de autocarro de casa até à Mutamba (linha 3), a pé até ao largo Dom Fernando (entre os CTT e o prédio do snack-bar Polo Norte)  e daqui para a Ilha de novo por maximbombo (linha 9). Devido ao trânsito e as duas linhas de maximbombo (autocarro) que tínhamos de usar, nós tinhamos de ir muito cedo e voltávamos já bem à tarde. Nós normalmente ficávamos a princípio da Ilha (na chamada praia da Contra-Costa), pois a viagem de carro ou de autocarro podia demorar horas com o trânsito muito vagaroso, pois milhares famílias faziam o mesmo que nós.
 
 
O antigo Bar Restaurante Ermelinda à entrada da estrada da Ilha de Luanda, um dos restaurantes mais antigos da cidade, era bem conhecido pelos seus famosos pratos de peixe fresco e marisco.
 
 
Lembro-me que o meu Pai tinha dois lugares predilectos para almoçar na Ilha de Luanda, o s restaurantes Restinga, Mar e Sol e Tamariz, mesmo à entrada da rotunda da Ilha, onde serviam pratos de marisco muito bons. O restaurante Mar e Sol era uma esplanada aberta de dois andares muito bonita, rodeada de palmeiras e outras plantas que o protegiam do burburinho da rua.

 
A antiga Avenida dos Combatentes - em baixo à direita encontrava-se a estação dos correios onde eu e o meu irmão Rui íamos buscar o correio, e na esquina estava a Cervejaria Mónaco.

 
Lembro-me ainda que a minha Mãe nos relembrava sempre que tínhamos de ganhar e poupar dinheiro durante a semana para ter dinheiro para pagar o bilhete de maximbombo para a Ilha (linha 9). Como nós ainda tínhamos a caixa postal na estação dos correios da Avenida dos Combatentes, junto à antiga Cervejaria Mónaco, a minha Mãe dáva-nos dois escudos (um escudo para mim e um escudo para o meu irmão Rui), para irmos a pé (da Maianga à Avenida dos Combatentes) todas as semanas buscar o correio à estação postal dos Combatentes. é de notar que havia uma estação dos correios na Maianga, na esquina da Avenida António Barroso e da Rua João Seca, mas não tinha caixas de correio disponíveis para aluguer, pelo que os meus pais mantiveram a caixa postal na estação dos CTT nos Combatentes.
 
 
Romaria de domingo para as praias da Ilha de Luanda, anos Cinquenta.
 

Este percurso era longo e demorava mais de uma hora a fazer, pois tínhamos de subir a Rua Guilherme Capelo até ao fim e atravessar o Bairro do Café até  à Igreja da Sagrada Família, depois íamos através dos terrenos próximos ao  Hospital Militar, do Clube de Bowling, apanhar a Rua Sidónio Pais, atravessar o Liceu Dona Guiomar de Lencastre e a Escola Industrial, e finalmente tomar a Rua Dom João II (atravessando as ruas General Carmona, Coronel Artur de Paiva/Avenida Brasil, até à esquina com a Avenida dos Combatentes, onde se encontrava a dita estação dos correios. Anos mais tarde, em 1964, os CTT (Correios Telégrafos e Telefones) começaram a distribuição do correio ao domicílio.

 
Praias de Luanda
 
Em termos geográficos e há muito tempo, a Ilha de Luanda era a continuação da restinga das Palmeirinhas/Mussulo, formada pelos solos escuados pelo Rio Quanza a sul, que mais tarde se separou em duas partes, criando a Barra da Corimba entre o Mussulo (a sul) e formando a norte aIlha de Luanda propriamente dita. 
 
De facto, foi através da Barra da Corimba que os navegadores portugueses entraram primeiro na Baía de Luanda, e não pelo norte, ao largo da Ponta (mais tarde, Farol) das Lagostas. Da mesma forma, a esquadra brasileira de Salvador Correia de Sá, que restaurou a soberania portuguesa na região também entrou pela Barra da Corimba a sul de Luanda, com a intenção de atacar os holandeses em dois flancos, um a nordeste, através do Bungo, e outro de sudeste, a partir da Samba e Praia do Bispo.
 
A preferência da entrada na Baía de Luanda pelo sul prevaleceu até à chegada do uso de barcos a vapor no fim do século XIX, pois era ditada pelo movimento das àguas determinadas pela currente fria de Benguela e pelos sistemas de ventos locais, que corriam de sul para norte ao longo da costa, o que facilitava a navegação à vela.
 
Luanda tinha praias para todos os gostos. Na Ilha de Luanda, as praias da contra-costa (viradas para o mar) eram mais bravas, com ondas muito grandes, onde as calemas eram um factor a ter em conta. Aqui, o ciclo das ondas era "em sete", pois cada sétima onda era uma onda maior do que as outras. As águas eram muito limpas, com muita espuma e um pouco mais frias.
 
Por sua vez, as praias viradas para o interior da Baía eram mais calmas (não tinham ondas), um pouco mais quentes, mas mais sujas. Assim, quem gostasse de mar bravo ia para uma das praias da contra-costa, e quem gostasse de mar mais brando, como por exemplo famílias com filhos pequenos, ia para uma das praias viradas para a Baía. 
 
De uma maneira geral, as praias da contra-costa eram desertas e delimitadas por paredões de grandes calhaus de pedra aí colocados para deter a erosão, e as praias viradas para a Baía, algumas da quais com palmeiras ou outra cobertura florestal. A praia mais popular do lado da Baía era a Praia da Floresta, que era de facto um parque plantado na década de 1930 com centenas de casuarinas que ofereciam alguma sombra.

Em toda a extensão da restinga das Palmeirinhas/Mussulo e da Ilha de Luanda, o mar era muito fértil em peixe e marisco, e as praias eram muito ricas em conchas, especialmente quitetas (pequenas) e mabangas (maiores), e búzios e cornucópias muito bonitos, que nós nas nossas aventuras, sempre tentávamos desenterrar da areia ou encontrar nas praias mais desertas. Era na Ilha de Luanda que entre  os séculos XV e XVIII que se apanhavam os zimbos (pequenas conchas), que serviam de meio de troca no Antigo Reino do Congo.
 
Em termos de geografia humana, a Ilha de Luanda apresentava já no meu tempo quatro componentes muito distintos: um elemento de recreio, manifestada pelas muitas praias, restaurantes, e clubes, que existiam na sua extensão total; um componente residencial imediatamente a sul à saída do Ponte, e mais a nordeste, a meio da ilha, na chamada área da Ilha do Cabo, onde desde há séculos viviam muitas famílias de pescadores nativos Axiluanda; e finalmente um componente institucional constituído pelo Comando e Base Naval da Marinha, da Igreja de Nossa Senhora do Cabo, e das colónia de férias da Mocidade Portuguesa, da Diamang, e de clubes náuticos; havia ainda um pequeno componente industrial, representado por uns poucos estaleiros navais pequenos, que se especializavam na construção e reparação de pequenas traineiras para a faina pesqueira local.
 
 
Igreja de Nossa Senhora do Cabo,
na Ilha de Luanda, pintura de Garcia Marques, 1940
 
 
Em termos de praias, a oeste da cidade, na direcção a leste do Porto, do Bungo e da Boavista e até ao Cacuaco e ao Farol das Lagostas, as praias não eram concorridas, pela falta de ligação directa à cidade. Esta era uma área mais preferida por pescadores amadores, apesar das boas praias ao fundo das Barrocas.
 
 
Praia da Barracuda, uma das muitas e belas praias na Ilha de Luanda, 1970
 
 
Se comerçarmos a nossa descrição das praias pela Ilha de Luanda, havia assim a praia imediatamente a oeste da ponte da Ilha e em frente ao morro da Fortaleza, que era muito pequena e muito calma. Haviam aqui algumas residências, e a praia era coberta de palmeiras frondosas. As águas desta praia eram muito calmas, quase paradas, e tinham a desvantagem de acumular muitos detritos. Foi nesta praia que em 1959 os meus pais alugaram uma casa de praia moderna durante as férias de Março que tinha a particularidade de ter uma palmeira muito grande mesmo no meio da casa, circundada completamente pelas diversas divisões da casa.
 
O resto da Ilha de Luanda era salpicado por muitas praias em ambos os lados da Ilha, das quais se destacavam a Contra-Costa (logo à saída da Ponte), a Praia em frente ao Club Naval, a praia da Ilha do Cabo (do lado do mar aberto), a Praia do (Restaurante) São Jorge, a Praia da Barracuda, e a Praia da Ponta da Ilha. Com efeito, haviam tantas praias na Ilha, que algumas não tinham ainda nome oficial. Cada praia era delimitada por paredões de defesa contra a erosão permanente, compostas de rochas muito grandes, que entravam mar-a-dentro.
 
 
Ilha de Luanda com os paredões de pedra à direita, construídos para defesa contra a erosão do mar, ao mesmo tempo que definiam as diversas praias na Ilha de Luanda

 
Contudo, prosseguindo na direcção a sul da Ilha, haviam também muitas e boas praias, a maioria das quais eram calmas e protegidas pela longa restinga que começava na Ponta das Palmeirinhas a sul e ia até à Ponta do Mussulo a norte, com a excepção da Praia da Corimba e da Samba, que eram de mar aberto, mas que não tinha ondas grandes. 
 
Logo mais a sudoeste havia a chamada Praia do Sol delimitada pela Ilha da Chicala, que era de facto uma nova restinga formada pela bloqueamento das àguas causada pela ponte da Ilha construída nos anos Quarenta. As praias da Chicala ofereciam àguas calmas para o lado da Baía da Samba (mesmo em frente ao bairro da Praia do Bispo), e ondas mais bravas do lado da contra-costa. O desafio maior das praias da Chicala era o da falta de estacionamento para carros, onde se podia somente fazer ao longo da Avenida da Praia do Bispo, pois os carros não podiam  circular na ilha propriamente dita.
 
 
Aspecto da Praia da Corimba, a sul de Luanda, 1970s

 
Continuando na direcção sul, encontrávamos as praias da Samba, da Corimba, e de Belas, que também eram de àguas calmas, embora sujeitas à acção das calemas (arrebentação forte do mar na costa,  resultante da ondulação que vem do mar largo) que ocorria com muita regularidade. Estas praias eram menos concorridas que a s praias da Ilha devido à dificuldade de accesso, pois estavam situadas muito mais longe da cidade, e só quem tivesse carro podia lá chegar. As praias a sul de Luanda apresentavam um outro desafio aos banhistas: durante certas épocas do ano,  elas eram infestadas de alforrecas (medusas), cuja picada era muito dolorosa.
 
 
A temível alforreca, cujas picadas dolorosas nos mantinham fora da àgua

 
A praia mais almejada de Luanda era a Ilha do Mussulo. Esta era de facto uma restinga muito comprida que ia da Ponta das Palmeirinhas até quase à Corimba, com cerca de 18 km de comprimento, na direcção NNE. A restinga do Mussulo delimitava uma baía interior na qual se encontravam algumas ilhas importantes, as ilhas do Sumbo, da Quissanga, de São João da Cazanga, dos Pássaros, e do Desterro.
 
Com o meu Pai, íamos aos domingos de carro também à praia do Sol na Ilha da Chicala (antiga Ilha da Cabeleira, situada em frente ao bairro da Praia do Bispo, uma língua de areia formada a partir do assoreamento das areias trazidas pelo Rio Cuanza cujo movimento foi bloqueado pela obstrução da ponte da Ilha), à praia da Corimba, à praia das Palmeirinhas, à Ilha do Mussulo, e à Praia do Cabo Ledo
 
 
Domingo à tarde, na paradisíaca Ilha do Mussulo, 1970s

 
Durante as férias de Março íamos com frequência à praia da Floresta da Ilha (cheia de casuarinas plantadas décadas atrás), e à praia do São Jorge, e à praia da Ponta da Ilha, mais tarde designada como a praia da Barracuda, onde se encontrava o restaurante do mesmo nome. Contudo, a praia mais popular era sem dúvida a da Contra-Costa, logo ao princípio da Ilha, do lado oposto ao Clube Náutico Nun'Álvares. Falando nesta praia, eu lembro-me que depois dos treinos de hóquei em patins no estádio da Ilha, nós íamos mergulhar (alguns nús) às onze horas da noite.

 
Praia das Palmeirinhas, ao fim da antiga estrada de Belas, a sul de Luanda, 1970s. Palmeirinhas eram um tipo de palmeiras mais pequenas e de folhas abertas.

 
Apesar das boas praias na Ilha de Luanda, a praia mais desejada de Luanda era a Ilha do Mussulo, que se situava cerca de 30 km a sul de Luanda. A Ilha do Mussulo era uma ilha raza formada pelo assoreamento das areias trazidas pelo rio Quanza um pouco mais a sul, que juntamente com a Ilha da Cazanga oferecia praias idílicas. Não havia estrada directa para o Mussulo, pois era de facto uma península em forma de língua muito longa, pelo que se tinha que fazer uma travessia de barco de cerca de trinta minutos. As praias do Mussulo não eram tão concorridas pois eram de mais difícil acesso (só de barco) e mais caras quanto a transporte e comida.
 
Já que acima falámos de transportes, lembro-me que o meu pai ao longo do tempo teve vários carros: uma carrinha Ford F-35 de cor azul clara e caixa aberta, na Damba, e em Luanda teve primeiro um Saab 96 (modelo 1958), um Plymouth Fury (modelo 1959), um Renault Gordini (1962), e um Peugeot 203 (1962). Quando mudámos para Cabinda, ele tinha um Holden (1967, carro fabricado pela General Motors na Austrália, com o volante à direita), um Jeep Willys amarelo (do tempo da Segunda Guerra Mundial, mas muito bem estimado), e um jeep Land Rover mais moderno de caixa curta.
 

O Peugeot 203, modelo 1958, igual ao do meu Pai

 
As Linhas de Maximbombos de Luanda
 
Já que mencionámos linhas de maximbombos (autocarros) havia quatro bases principais: Mutamba, Largo Kinaxixe, Largo Dom Fernando, e Largo Bressane Leite. As linhas que me lembro são as seguintes: 
 
  - Linha 1 ia da Mutamba ao Palácio do Governador
  - Linha 2 para a Casa Branca
  - Llinha 3 para a Maianga (bairro onde nós morávamos)
   - Linha 4 para o bairro de São Paulo
   - Linha 5 para os bairros da Vila Clotilde e CAOP
   - Linha 6 para o bairro da Terra Nova
   - Linha 7 do Largo de Dom Fernando para o Hospital Maria Pia, Samba, e Praia do Bispo
   - Linha 8 da mutamba para a Vila Alice
   - Linha 9 do Largo de Dom Fernando para a Ilha
   - Linha 10 atravessava a cidade ligando a Alameda Príncipe Real (rua António Enes e Bairro Miramar) e o Palácio
   - Linha 11 ligava o Largo Bressane Leite ao porto de Luanda (através da marginal)
   - Linha 12 a Mutamba aos bairros perto do Cemitério Novo (de Santana, na estrada de Catete)
   - Linha 13 ligava o Largo Bressane Leite ao Hospital, Samba, e Praia do Bispo
   - Linha 14 ligava o Palácio ao Bairro do Cruzeiro
   - Linha 15 já não me lembro para onde ia
   - Linha 16 ligava a Mutamba à Avenida Brasil e Terra Nova
   - Linha 17 ligava a Mutamba ao Bairro da Cuca
   - Linha 18 ligava a Maianga ao Largo dos Lusíadas (Kinaxixe)
   - Linha 19 já não me lembro para onde ia
   - Linha 20 ligava a Mutamba ao Bairro dos Quarteis (acima do Bairro de Alvalade), e 
   - Linha 21 ligava o Largo Bressane Leite à Ilha do Cabo.
 
Nota: - Lanço aqui um pedido de ajuda aos meus amigos leitores que me digam (se souberem, claro está) o percurso das linhas de maximbombo que já não me lembro. Desde já fica aqui o meu obrigado pela vossa ajuda.


O popular maximbombo a arrancar da Mutamba, 1960s

Tendo em conta a sua população, Luanda tinha muitos taxis, estimados em 600 em 1960, que eram na sua grande maioria operados por colonos portugueses, pois desses 600 só três era operados por não brancos. Todos os taxis eram de cor preta (corpo) e cabine verde, sendo a grande maioria da marca Mercedes-Benz, com motor a gasóleo. Falando em combustíveis para carros, as marcas de gasolina mais estabelecidas eram a Fina (antigamente PetroFina), Sacor (Angol), Shell, e Mobil, a maioria das quais eram produzidas na refinaria da Petrangol, no Cacuaco.

Desde que me lembre, houve sempre em Luanda um certo antagonismo entre africanos e chaufferes de taxi portugueses. De um modo geral, os taxistas brancos não gostavam receber clientes pretos pois receavam que tivessem que os levar para os musseques. A popular canção emblemática "Chofer de Taxi" de Luis Visconde, criada por Xabanú, e imensamente popular em Luanda desse tempo é um bom exemplo disso. Pela sua relevância passo a transcrever os quatro versos principais:

         Mandei parar um carro de praça
        Ansioso em ver meu amor
        Chofer de praça então reclamou,
        Quando eu lhe disse que o meu bem morava no subúrbio
         
        "Tempo chuvoso no subúrbio não vou.
        Pois sou chofer de praça e não barqueiro"
        Então implorei: Peço senhor chofer leve-me por favor
        Ela não tem culpa de morar no subúrbio
        E quanto à chva, é obra da natureza"

   
    Então o chofer dominado por mim
        Na borracha puxou, atravessando a lagoa
        Quando eu olhei para o relógio
        E lhe pedindo que colasse o acelerador ao tapete.
         
        Então o chofer trombudo respondeu:
        Se você quer ver seu amor, atravesse a lagoa a pé.
        Não vou partir meu pó-pó só porque você quer dar show".

Em termos de transportes, Luanda era o términus da linha do caminho de ferro de Malange (antiga linha de Caminho de Ferro do Ambaca), sendo a estação ferroviária do Bungo localizada perto do porto, na área da Boavista. A linha de Malange começava em Luanda (estação do Bungo), e parava nas estações urbanas de Viana, Catete, Zenza do Itombe (que ligava ao ramal do Dondo de 55 km), Salazar (Ndalatando), Lucala, Cacuso, e finalmente Malange, com um percurso total de cerca de 480 km.

 

Postal antigo da Estação Ferroviária da Cidade Alta, na Maianga em 1906, com vista abaixo para a Rua Serpa Pinto e Bairro dos Ferreiras (Ingombotas à direita e Maianga à esquerda).

Luanda teve em tempos idos a sua linha de combóio urbano - a linha da Cidade Alta - que ligava a Estação do Bungo e a área entre a antiga Maternidade Maria do Carmo Vieira Machado (actual Lucrécia Paim) e a Escola Industrial, atravessando a cidade com paragem nas estações da Quipaca, perto do antigo Colégio de São José de Cluny (actual Universidade Católica - de facto, a antiga Rua de Nossa Senhora da Muxima era anteriormente chamada Rua das Quipacas), estação do Carmo (à entrada do Bairro das Ingombotas), e estação da Cidade Alta (à entrada da Maianga). Daí a linha seguia abaixo do Bairro do Café (abaixo das Ruas Guilherme Capelo e Cabral Moncada) subindo sempre gradualmente em direcção ao antigo aeroporto Emílio de Carvalho (acima da Maternidade Maria do Carmo Vieira Machado e por detrás da igreja da Sagrada Família), até mais ou menos onde mais tarde se viria a situar o Hospital Militar.

Esta linha de comboio urbano oferecia duas viagens diárias (uma de manhã cedo e outra à noitinha) e era muito usada pelos trabalhadores africanos que moravam na então nos musseques na periferia da cidade para os transportar para os seus locais de trabalho no centro e a baixa da cidade. A linha da Cidade Alta foi desactivada em 1951. 

A estação da Cidade Alta, que operou entre 1899 e 1951, foi uma iniciativa do famoso empresário Alexandre Peres, que foi concessionário da construção do Caminho de Ferro do Ambaca em 1885, e também participou na criação da LAL (Luanda Água e Luz, companhia das águas, e da electrificação das ruas da baixa), também em 1885, e que mais tarde foi convertida em SMAE (Serviços Municipalizados de Água e Electricidade). Em reconhecimento pela sua iniciativa empresarial, a Câmara Municipal de Luanda deu o nome de Rua Alexandre Peres à rua que começava em frente da antiga Estação da Cidade Alta e ia acabar em frente ao Quartel General, atravessando o a Rua Serpa Pinto, Bairro dos Ferreiras, e Avenida do Hospital.

Eu lembro-me que quando ainda morava na Maianga, o prédio da antiga estação da Cidade Alta ainda lá estava (embora fechado e não usado) e que nos terrenos adjacentes, vazios durante a maior parte do ano, todos os anos durante cerca de dez dias havia a Feira da Maianga, com carroceis, cadeirinhas voadoras, poço da morte, carrinhos de choque, e outras diversões que eram a delícia dos miúdos da Maianga. 

Houve em tempos outra linha férrea em Luanda, ligando a Boavista à Ilha e ao longo da Marginal, de que ainda se podia ver os trilhos em alguns pontos, mas que era uma linha para carga de pesca, que servia o antigo mercado da Caponta, em frente de onde se encontra hoje o edifício do Banco de Angola e as Portas do Mar, em frente ao antigo Largo Pedro Alexandrino da Cunha (Largo dos Correios) e não para passageiros. Eu li em várias fontes que esta linha ia até à Ilha, mas nunca encontrei evidência que o possa confirmar.


Largo da Mutamba em Luanda, 1964
 
 
Em termos de transportes aéreos, Luanda tinha um bom aeroporto - o Aeroporto Internacional Craveiro Lopes, não longe da cidade, com ligações regulares através da antiga DTA (Direcção dos Transportes Aéreos, mais tarde chamada TAAG - Transportes Aéreos de Angola) com a maioria das das cidades capitais de distrito e principais vilas de Angola, e a cidade de São Tomé (em São Tomé e Príncipe). 
 
 
Bilhete de avião da DTA para uma das muitas viagens que fiz de Luanda a Cabinda

 
Em termos de ligações internacionais e mais distantes, Luanda tinha ligações aéreas através de vôos directos a jacto com Lisboa, Ilha do Sal (em Cabo Verde), Lourenço Marques (em Moçambique), através da TAP (Transportes Aéreos Portugueses), e Johanesburg através da SAA (South African Airways). Em tempos idos nos anos Cinquenta, Luanda teve ligações regulares com Leopoldville (mais tarde Kinshasa, no então Congo Belga) através da companhia Belga SABENA, e só em 1975 teve vôos directos para o Rio de Janeiro, num consórcio entre a TAP portuguesa e a VARIG brasileira.


Entrada principal da Base Aérea Nº 9 da Força Aérea Portuguesa em Luanda, 1960s


Mesmo junto ao aeroporto Craveiro Lopes, situava-se a Base Aérea nº 9, que era a principal base aérea militar em Angola. Mais a sudoeste da Base Aérea Nº9, estava situado o Batalhão de Caçadores Paraquedistas Nº. 21.
 
 
Instalações do Batalhão de Caçadores Paraquedistas Nº 21, em Luanda, 1960s


Ainda contíguo ao Aeroporto Craveiro Lopes, situava-se o Aero Clube de Angola, que oferecia um bom número de avionetes para aluguer e treino de pilotos. Luanda tinha também ligações não regulares com muitas vilas através de companhias privadas de taxi aéreos, que usavam aviões mais pequenos para o efeito. 


Embarque de passageiros num antigo avião DC-3 (Dakota) da DTA no aeroporto em Luanda, 1950s.


A DTA iniciou as suas operações em 1953 com aviões DC3 (Dakota), que nos fins da década de Sessenta foram substituídos por aviões de hélice Friendship F28 que tinham maior capacidade de passageiros e carga. 

 
O avião Friendhip F-28, que substituiu o Dakota no serviço de passageiros da DTA em Angola, no fim da década de Sessenta
 
 
A TAP usou aviões Constellation até princípios da década de Sessenta, quando foram substituídos por aviões a jacto Boeing 707, 727, e 747

 
O avião a jacto Boeing 707 que fazia ligação da TAP entre Luanda, Lisboa , e Lourenço Marques (Maputo) nos anos Sessenta

 
O primeiro aeródromo em Luanda foi o antigo campo de aviação Emílio de Carvalho, estabelecido na década de 1930, nos terrenos mais tarde usados pela Escola Industrial de Luanda, Liceu Feminino Raínha Dona Guiomar de Lencastre, e Hospital Militar de Luanda, e sede dos Serviços de Geologia e Minas, Serviços de Educação, Mocidade Portuguesa, e Serviço Postal Militar. Em 1973, o jacto supersónico Concorde fez uma paragem breve (mas histórica) em Luanda.
 
 
Chegada de avião da TAP de Lisboa ao Aeroporto Craveiro Lopes, 1960s.

Em 1973, Luanda recebeu a visita do extraordinário avião supersónico Concorde da Air France, acontecimento que cativou a atenção da imprensa e dos residentes. Para tornar este acontecimento num ainda mais bombástico, a tripulação do avião, que era francessa, e em protesto à presença portuguesa em Angola, decidiu à chegada desfraldar a bandeira do MPLA, o que foi extremamente embaraçoso para o governo, e para a PIDE, que pouco ou nada puderam fazer, a não ser proibir a imprensa de o anunciar.

 
O avião supersónico Concorde no Aeroporto Craveiro Lopes, em Luanda, 1973
 
 
Porto de Luanda

Luanda era o principal nódulo de transportes em Angola, pois podíamos dizer que todos os caminhos levavam a Luanda. A cidade capital era o términus da linha de caminho de ferro de Malange; de estradas para o norte (Caxito, Ambriz, e Uíge), do interior imediatamente a leste (Ambaca, Malange, e Lunda), se sudeste (Seles, Huambo, e Bié), e do sul (Quissama, Porto Amboím, e Novo Redondo); de transportes aéreos domésticos e internacionais; e tinha ainda um porto magnífico.

O porto de Luanda era o maior porto de carga e de passageiros de Angola, apesar do Porto do Lobito lhe chegar muito perto. O porto de Luanda, que foi construído somente em 1944, situava-se no canto nordeste da cidade, e ocupava uma grande área juntamente com o términus da linha de caminho de ferro que ia até Malange. Junto aos terrenos do porto havia uma zona industrial, a Boavista,  que chegava até à vila do Cacuaco, situada a cerca de vinte quilómetros a nordeste da cidade.

  

As instalações do porto de Luanda e o terminal do caminho de ferro da linha de Malange, 1960s

Até 1944, Luanda não tinha um cais acostável. Nos dias de "São Vapor", que era um dia de festa para para a cidade, pois todos iam às "Portas do Mar" dar benvindas aos que chegavam e dizer adeus aos que partiam. Os navios ancoravam ao largo na baía, e até à terceira década do século XX, os passageiros que chegavam ou partiam eram transportados em bateis. Depois desta data os passageiros e carga eram transportados em "gasolinas" (barcos a motor) até às Portas do Mar em terra firme (ou vice-versa). As antigas Portas do Mar, hoje inexistentes, estavam situadas na embocadura do antigo Largo Pedro Alexandrino da Cunha, também conhecido como Largo dos Correios (CTT), onde também se encontrava o edifício da Alfândega. Nesse tempo, toda a carga e descarga de mercadorias era feita por estivadores africanos.
 
Em frente ao edifício do Banco de Angola, na avenida Marginal,estava situado o Porto Pesqueiro de Luanda. Era aqui que as traineiras vinham atracar todos os dias, abarrotadas de peixe e outros produtos do mar. Se bem que situado um pouco mais a norte, o mar de Luanda era muito fértil, pois as suas águas  beneficiavam da corrente fria de Benguela, uma corrente marítima que vinha do extremo sul do Atlântico.
 
 
Navio de passageiros atracado ao porto de Luanda, 1960s

 
O Porto Pesqueiro não era decerto o melhor lugar para visitar em Luanda, mormente pelo constante cheiro a peixe, mas era um dos lugares mais típicos da cidade, onde podíamos ver a faina dos pescadores a descarregar o pescado, das quitandeiras a regatear o preço de compra de peixe para revenda, dos mecânicos a reparar pequenos problemas nas traineiras, e da entrada e saída constante de pequenas carrinhas e camionetes que levavam o peixe aos diversos mercados e quitandas da cidade.  
 
 
Hoteis, Restaurantes, e Boates de Luanda
 
Sendo a capital e a maior cidade de Angola, com o seu maior porto de passageiros, o maior aeroporto, e o términus da linha de caminho de ferro de Malange, Luanda tinha sempre muitos visitantes. Com a excepção do porto do Lobito, por norma, quem quizesse visitar Angola começa (e acabava) por Luanda. 
 
 
Hotel Presidente, ao fundo da Avenida Marginal em Luanda, 1974
 
 
Do interior (do "mato", como nós dizíamos) vinham também muitos visitantes (famílias, fazendeiros, comerciantes, militares, e funcionários), especialmente na durante as férias escolares de Março para gozar as boas praias. Depois de 1961, com o afluxo de milhares de militares portugueses, Luanda era o magneto que atraía os soldados portugueses em folga. 
 
 
Edifício do Hotel Continental, no antigo Largo do Infante Dom Henrique, em Luanda, 1960s.


Assim, Luanda tinha muitos hoteis. Os melhores e mais caros eram  o Hotel Universo na Rua Eduardo Costa, o Hotel Continental ao fundo da Avenida dos Restauradores, o Hotel Presidente no largo em frente ao porto, o Hotel Trópico, o Hotel Costa do Sol a sul da Corimba, e o Hotel Panorama na Ilha de Luanda. O Hotel Império (no centro da Baixa)  também era bom, mas operava como uma messe (hotel) para oficiais superiores do exército. 
 
 
Decalque para bagagem do Grande Hotel Universo, Luanda, 1960s
 
 
Haviam também muitos hoteis de 3 ou 4 estrelas, dos quais mais se destacam Hotel Turismo na Avenida dos Restauradores, o Hotel Paris e o Hotel Globo, o Hotel Avenida, o Hotel Atlantic, o Hotel Europa, o Hotel Luanda, o Hotel Luso, e o Hotel Atenas, todos na Baixa, e o Hotel Central à entrada do Bairro dos Coqueiros, perto da Rua dos Mercadores. Haviam ainda alguns hoteis residenciais bons sem serviço de refeições, dos quais o Hotel Tivoli, o Hotel Katekero, e o Hotel Dom João II eram os mais destacados. Luanda tinha também muitas pensões de preços mais em conta, das quais a Pensão Sirius, a Pensão Faias, a Pensão Setubalense, e a Pensão Majestic eram as mais conhecidas.
 
 
A vetusta Pensão Sirius, na antiga Avenida do Hospital, 1950s

 
Para servir a populaçãolocal e os visitantes, Luanda tinha também muito (e bons) restaurantes. Estes podiam dividir-se em restaurantes chic, restaurantes e retiros de comida de fama, snack-bars, e restaurantes mais comuns. 
O Hotel Costa do Sol, na Corimba, 1973

 
Os restaurantes mais chiques e mais caros eram os restaurantes dos melhores hoteis como o El Pátio do Hotel Universo, a Kaverna do Hotel Continental. Os outros bons restaurantes eram o restaurante do Clube Naval, o Belo Horizonte no Largo da Maianga (que fechou em 1967), o restaurante da Versailles no Largo da Portugália, e a Charcuterie Française, à entrada do Bairro do Cruzeiro.
 



Em termos de comida de fama, quem quizesse comer bom marisco ia ao restaurante Mar e Sol, ao
Tamariz, à Restinga, ou ao São Jorge (todos na Ilha). O Amazonas, na Avenida dos Restauradores, era conhecido pelo melhor caranguejo de Moçâmedes (Sapateira) em Luanda.
 
 
Restaurante esplanada Tamariz, na Ilha de Luanda, 1970s

 
Quem preferisse comida regional luandense ia comer ao restaurante Mãe Preta. Quem preferisse comida regional portuguesa ia comer  à Floresta, ao Escondidinho da Conduta, ou ao Vilela (no Bairro da Cuca), famoso pelo seu Bacalhau à Vilela, à Esplanada de Santo António ou ao Retiro da Mulemba, o Retiro Transmontano, ou a Estalagem do Leão.

Para quem quizesse uma refeiçaõ boa e serviço rápido, o restaurante tipo snack-bar era por norma a melhor escolha. Os snack-bars mais conhecidos em Luanda eram o Polo Norte, o Expresso, o Zero, a Portugália, a Kitanda (na Mutamba), o Rialto, o Pingão, e a Caçarola (na Avenida General Carmona), que servia os famosos frango na púcara e o bife à Caçarola onde pelo menos uma vez por mês eu fugia da comida da cantina da Universidade de Luanda, quando as finanças me permitiam.
 

O famoso Bar América, na Rua de São Paulo, 1963


A Pastelaria Paris, no centro da Baixa (em frente ao Hotel Império, na antiga Rua Governador Eduardo Costa) era o meu lugar predilecto para mata-bicho (pequeno almoço) pelos excelente galão e croissant com fiambre, quando eu estava destacado na Divisão de Combustíveis da Chefia de Serviços de Intendência em 1975. 

Haviam muitas cervejarias com esplanada e serviço de refeições, e estes incluiam de facto o maior número de lugares para comer em Luanda. Entre os mais conhecidos, encontravam-se a Bracarense, a Mexicana, e o Planeta todos perto do Largo da Maianga, as cervejarias Baía, Arcádia, e Império na Marginal, a Flórida na Avenida General Carmona, a Mónaco na Avenida dos Combatentes, a Monte Carlo, a Picnic, e a Académica no Bairro do Café, a Chilena mais abaixo na Avenida Lisboa, a Suiça (com ç) no Largo Serpa Pinto, o Bar América na Rua de São Paulo, a Suissa (com s) na Rua António Enes, e o Bar América na Rua de São Paulo. Na baixa, as cervejarias mais conhecidas (e mais antigas) eram as cervejarias Biker, Portugália, e Gelo, todas no coração da baixa na Rua Salvador Correia.
 
 
Cauteleiro, vendendo sonhos de sorte grande, na Cervejaria Portugália, em Luanda, 1970s

 
Até aos fins da década de Cinquenta, a grande maioria dos empregados de bares, restaurantes, e hoteis eram africanos, contudo com a grande onda de imigração de portugueses da Metrópole depois da Segunda Guerra Mundial, eles foram gradualmente substituídos por empregados brancos que em geral não tinham tanta experiência. 
 
Pode dizer-se que as esplanadas de Luanda eram uma das características que melhor definia a vida na cidade. A pouca chuva, o calor na rua, e as noites aprazíveis atraíam as pessoas para as esplanadas, fora de ambientes fechados como bares e restaurantes. O que era mais agradável senão estar sentados confortavelmente numa esplanadaà sombra de uma sombrinha e sob uma brisa amena, saboreando um café (bica) ou galão com bolos ou pasteis, ou um fino (cerveja a copo) bem geladinho acabado de saír do tambor de cerveja Cuca ou Nocal. e acompanhado de tremoços, ginguba, ou dobradinha? Ou ainda melhor, quando ainda tínhamos algum dinheiro a princípio do mês, um bom prato de marisco (camarões, quitetas, lagostim, sapateira, ou lagosta), ou mesmo um bom "prego no pão", "bife com ovo-a-cavalo" em qualquer altura do ano? 
 
 
Famílias saboreando uma tarde amena na Esplanada Arcádia, na Avenida Marginal em Luanda, 1960s


Para nós jovens, as esplanadas eram as nossas tertúlias onde regularmente nos encontrávamos com os nossos colegas e amigos. No meu caso, o ponto de encontro era por regra a Cervejaria e Pastelaria Bracarense, junto ao Largo da Maianga, mas também nos encontrávamos na Cervejaria Mexicana, que era bem perto, ou mesmo na Cervejaria Chilena, uma esplanada mais nova e muito aprazível que abriu na zona mais baixa da Avenida Lisboa, em frente ao "Hospital dos Malucos".
 
O melhor lugar para gelados era o Baleizão, na antiga praça Infante Dom Henrique, ao lado do Hotel Continental, operado pela família Aparício. O Baleizão era o lugar predilecto para as famílias de Luanda, pois oferecia uma grande variedade de sorvetes deliciosos a preços razoáveis. O Baleizão tinha também uma esplanada virada para a Baía. Os empregados de mesa do Baleizão eram todos africanos.
 

Esplanada do Baleizão, onde serviam os mais deliciosos gelados de Luanda, 1965


Haviam também em Luanda alguns restaurantes para comensais, dos quais os mais conhecidos era o Restaurante Tonga, ao fundo do Bairro dos Ferreiras, e um outro que infelizmente não consigo lembrar do nome que era num primeiro andar em frente aos Serviços Geográficos e Cadastrais na Baixa, ao lado da 1ª esquadra da Polícia e perto da Livraria Lello.

Com tantos jovens locais e visitantes do mato e soldados a virem a Luanda, a cidade oferecia um número muito grande de lugares de diversão. Em geral, estes podiam-se classificar em dois tipos principais: buates de dança (do francês "boite"), e os night-clubs para encontrar companhia. 
 
A vida noturna era relativamente activa com muitas boates (night-clubs) muito concorridos por jovens, e alguns que atendiam a uma clientela mais adulta. As boates mais populares para dançar à noite, e geralmente mais frequentadas pela juventude de Luanda, eram o Flamingo, a L'Etoile, Hotel Universo, Calhambeque, e Dom Quixote. Em termos de night-clubs, o Tamar e o Tamariz na Ilha de Luanda, o Dom Quixote, Choupal, Os Marialvas, Retiro da Saudade, eram também muito procurados pois ofereciam espectáculos de variedades.

Por fim, havia um grande número de lugares que eram mais frequentados por homens solitários à procura de conforto feminino, como o Rex, Bambi, Embaixador, Copacabana, Maxime, Estoril, Lorde, Cortiço, Coqueiro, Gôndola, Zorba, Acrópole, Xeque, Adão, Gruta, Gaivota, Cheik, El Chicote, e o Ngoma

Breve Passeio Sobre a História de Luanda

Meio Natural
 
A geografia é um dos principais livros em que se escreve a História. O meio natural da região de Luanda inclui alguns factores únicos que facilitaram a sua escolha como o principal porto negreiro português a sul da foz do Zaire. 
 
Com efeito, com a excepção do Lobito muito mais a sul, Luanda é o único ponto em toda a costa centro-ocidental de África, da foz do Zaire até à Costa dos Esqueletos na Namíbia, que está protegido das calemas, pois é abrigada por uma restinga (Palmeirinhas/Mussulo) muito longa a norte da foz do rio Quanza que acaba em ilha também oblonga (Ilha de Luanda), que por sua vez dá lugar a uma grande baía de águas calmas e facilmente defensável de ataque pelo mar. 
 
O clima de Luanda é sub-tropical, caracterizado por um longo período sêco (o cacimbo, de Maio a Outubro), e de uma estação quente e chuvosa, com chuvas muito fortes durante os meses mais quentes de Março e Abril. O solo é composto de areias vermelhas ou amarelo-acastanhadas (ancestralmente chamadas "musseques"), e facilmente sujeitas à acção erosiva das águas da chuva. 
 
Luanda não tinha a vantagem de estar situada na foz de um rio. Contudo, em tempos idos, Luanda tinha acesso a àgua potável através de duas lagoas formadas e mantidas pelas àguas da chuva: a Lagoa dos Elefantes, na baixa da Maianga, e a Lagoa de Quinaxixe, acima das Ingombotas. A vegetação era em geral esparsa, semi-árida até, sem árvores de grande porte, à excepção do imbondeiro, da mulembeira, da macieira da Índia, e da figueira da Índia, já de porte mais pequeno.
 
 
A costa de Angola, com cerca de 1,650 km de extensão, com a excepção da foz de alguns rios, restingas, e baías protegidas que formam praias magníficas, é em geral caracterizada por um plateau de areias frágeis de 50 a 80 metros de altura que cai abruptamente para o mar, em forma de barrocas muito susceptíveis a erosão.

 
A topografia de Luanda era em geral caracterizada por um planalto de entre 50 a 80 metros de altitude, que caía bruscamente em forma de barrocas até à beira-mar. Como resultado da acção milenar da erosão das àguas da chuva, formaram-se duas bacias internas (da Maianga e da Samba) que, interrompendo as barrocas, deslizavam suavemente para o mar (Cidade Baixa). A bacia da Maianga era delimitada pela antiga Avenida do Hospital, Alto da Maianga (antigo Bairro dos Quarteis), cimo do Bairro de Alvalade, crista do Bairro do Café, e encosta do Bairro ds Ingonbotas, embocando na zona central da Cidade Baixa (Coqueiros). A bacia da Samba, mais pequena em extensão e onde hoje se encontra o Mausoléu do Presidente Dr. Agostinho Neto e a Assembleia Nacional, era delimitada pelo Morro da Samba, Alto da Samba (antigo hospital Maria Pia), antiga Rua Henrique de Carvalho na Cidade Alta, Palácio do Governo, Paço Episcopal, e Bairro de Saneamento, indo"desaguar" à baixa da Praia do Bispo.
 
Enquadramento Histórico
 
Se considerarmos as escolhas possíveis no tempo da chegada dos portugueses ao território, Luanda oferecia as melhores condições para povoamento europeu. A foz do rio Zaire tinha um clima mortífero e era sujeita a correntes muito fortes e não tinha qualquer protecção de uma baía fechada. O mesmo se passava com a foz do rio Loge (Ambriz), barra do Dande, a barra do Cuanza, a foz do rio Longa (Benguela-Velha/Porto Amboím), e a foz do Rio Cuvo (Novo Redondo). Só mais a sul, na restinga do Lobito é que íamos encontrar o próximo porto abrigado. É certo que ambas Benguela e Moçâmedes eram protegidas por baías abertas, mas situavam-se na foz de rios muito pequenos, já demasiado a sul, e de difícil acesso ao interior.
 
 
Selo postal emitido em 1967 por ocasião do 350º aniversário da fundação de Benguela pelo Governador Manuel Cerveira Pereira, mostrando o mapa da configuração da costa e dos antigos reinos de Angola e Benguela no interior.

 
Por outro lado, Luanda tinha a proteção de uma baía funda, larga, e facilmente defensável através das fortalezas no morro de São Miguel, de São Pedro da Barra, e de São Francisco do Penedo. Luanda situava-se ainda logo a sul da Barra do Dande e a norte da foz do rio Cuanza. O rio Cuanza era o principal vector de ocupação humana do interior (e o maior mercado de escravos da região - o povo Ambundo da bacia do Quanza / Reino do Ndongo e Reino da Quissama). Por fim, o seu porto era protegido das calemas pela restinga das Palmeirinhas/Mussulo, e pela Ilha de Luanda, o que facilitava grandemente as ligações directas de navios negreiros com as nas Ilhas de São Tomé e Príncipe, onde recentemente se tinham estabelecido alguns engenhos de açucar por colonos cristãos-novos portugueses. Era também na Ilha de Luanda que se apanhavam os zimbos que actuavam como moeda no Antigo Reino do Congo. Por último, a Ilha de  Luanda tinha a vantagem de ser já uma povoação de tamanho razoável habitada por pescadores nativos Axiluanda.
 
Chegada dos Portugueses
 
O navegador português Diogo Cão na sua viagem ao sul da costa ocidental de África em 1482-3 foi o primeiro europeu a visitar a Ilha das Cabras e a região de Luanda. Após a sua paragem na foz do Rio Poderoso (Zaire), onde eregeu o Padrão de São Jorge, na Ponta do Padrão, no Pinda (Sonho/Soyo) a sua frota continuou rumando sul e parou na foz do Rio Dande para se aprovisionar de água e alimentos frescos, fazendo a seguir uma paragem na Ilha das Cabras (Ilha de Luanda) para se aprovisionar de mais peixe e mais alimentos frescos.
 

Texto inscrito na face das Pedras de Ielala, na foz do Rio Poderoso (Zaire), pelo navegador português Diogo Cão em1482: "Aqui chegaram os navios do esclarecido rei D. João II de Portugal - Diogo Cão, Pêro Anes, Pêro da Costa, Álvaro Pires, e Pedro Escobar", noutro rochedo "João Santiago, morto de doença", e na face de uma terceira rocha "Gonçalo Álvares, Diogo Pinhão, Antão"


Infelizmente, devido ao regime de ventos, a frota de Diogo Cão passou largo da foz do rio Quanza, não sendo esta avistada pelos navegadores. A frota continuou ao longo da costa na direcção sul até atracar na foz do Rio Longa (Terra das Duas Pontas), mais tarde chamada Benguela-a-Velha (Porto Amboím),  atracando depois na foz do Rio Catumbela (Rio do Paúl) para aguada, logo a seguir à Angra de Santa Maria das Neves (mais tarde Angra das Vacas, Benguela-a-Nova). Daqui a frota de Diogo Cão foi até ao Cabo do Lobo, onde colocou o padrão de Santo Agostinho. Este foi o ponto mais a sul da viagem de Diogo Cão, invertendo aqui a direcção para norte da sua viagem de regresso a Portugal. 
 
 
O navegador português Diogo Cão ereje o seu segundo padrão, o de Santo Agostinho, no Cabo do Lobo, na costa da Namibia, em 1483. O primeiro padrão, o padrão de São Jorge, foi eregido na ponta do Pinda, na foz do Rio Zaire ("Rio Poderoso") em 1482.

 
A povoação de Luanda começou de facto na Ilha das Cabras (mais tarde chamada Ilha de Luanda), onde os habitantes ancestrais, os pescadores Axiluanda, viviam há muitas gerações. Quando os primeiros residentes portugueses se estabeleceram na Ilha de Luanda na década de 1530, já lá residiam cerca de três mil axiluanda. Os pescadores axiluanda eram uma tribo do povo ambundo, eles falavam kimbundo, e viviam na Ilha das Cabras desde tempos imemoriais.

 
Cubatas Axiluanda típicas da Ilha do Cabo, Luanda, 1956
 
 
Os portugueses foram atraídos à Ilha das Cabras pelas condições magníficas do porto natural da baía de Luanda, protegido pela Ilha, e localização não muito distante da foz do rios Quanza (a sul) e dos rios Bengo (Zenza) e Dande (a norte). 
 
 
A cidade de São Salvador do Congo (Mbanza Kongo), nos meados do século XVI, mostrando o curso do Rio Lelunda ao centro.
 
 
A concorrência pelos lucros do tráfico de escravos que saíam pelo porto de Luanda, acabou em conflito entre o rei do Congo, Dom Diogo Nkumbi-a-Mpudi, e o Ngola Inene do Ndongo. Os exércitos dos dois chefados encontraram-se frente a frente em 1556 na Batalha do Dande, saindo vencedor o Ngola Inene, o que veio a firmar a independência do reino do Ndongo em relação ao antigo reino do Congo.
  
Era pelos portos do Pinda (Zaire) e Luanda que se escoava o tráfico muito activo de escravos do interior para os engenhos de açúcar nas ilhas de São Tomé e Príncipe, operados por descendentes dos cristãos-novos (judeus) que tinham sido expulsos de Portugal pelo Rei Dom Manuel, através do seu édito de expulsão de judeus e mouros de território português de Dezembro de 1496. 
 

Paulo Dias de Novais (1510-1589), donatário e capitão-general das Terras de Sebaste (reino de Angola) e fundador de Luanda em Janeiro de 1576.


Em 1575, quando o seu fundador, o donatário Capitão-General das Terras de Sebaste Paulo Dias de Novais chegou à baía de Luanda na sua segunda viagem às terras do Ngola, senhor do reino do Ndongo, já cerca de quarenta portugueses lá viviam do tráfico de escravos do Congo para a Ilha de São Tomé


Imagem mítica dos Jagas quando invadiram o Antigo Reino do Congo em 1568, na "Histoire Générale des Voyages, ou Nouvelle Collection des Toutes les Relations de Voyages par Mer et par Terre" de Antoine François Prévost, Didot, 1757.

 
 Quando chegou à Ilha, Paulo Dias de Novais encontrou sete barcos negreiros ancorados na baía, e estabeleceu contacto imediato com o representante local do rei do Congo que o representava na exploração de zimbos (moeda corrente no Congo) na Ilha, e com o cura da igreja de Nossa Senhora da Conceição. Alguns dos portugueses residentes na Ilha das Cabras tinham fugido das terras do reino do Congo, devido às invasões dos Jagas (hordas guerreiras Imbangalas), que assolaram e destruiram São Salvador do Congo (Mbanza Kongo) em 1568 e a ocuparam até 1574.
 
A Ilha das Cabras (mais tarde Ilha de Luanda) era então uma possessão do antigo Reino do Congo, pois era aí que se iam buscar os zimbos, um búzio pequeno único que só aí se encontrava, e que era usado como moeda no reino do Congo, sob protecção directa do rei. Os zimbos eram colhidos na praia por mulheres axiluanda e levados para Mbanza Kongo e outros mercados importantes no interior do reino do Congo.

Paulo Dias de Novais não era estranho à região. Com efeito, ele tinha ancorado na foz do rio Cuanza na sua primeira viagem à região quinze anos antes, entrado pelo corredor do Cuanza e lutado contra o rei do Ndongo, onde ele passou cinco anos de cativeiro (1560-1565) na corte de Ndambi-a-Ngola, em Cabassa, então capital do reino do Ndongo.
 
É muito provável que houvesse já uma aldeia nativa na baía de Luanda (em terra firme), e assim Paulo Dias de Novais mudou o conjunto da povoação das suas forças da Ilha para terra firme em Janeiro de 1576 para ter acesso a água potável do poço da Maianga e da lagoa dos Elefantes e beneficiar do dispositivo de defesa que o então chamado Morro de São Paulo, mais tarde chamado Morro de São Miguel, oferecia aos portugueses.
 
Nota: - É interessante referir aqui a razão por que os navegadores portugueses davam o nome de santos a tantos marcos geográficos importantes que encontravam ao longo das suas viagens. A razão é simples: por regra, os portuguese e espanhois davam o nome a esses marcos geográficos baseados no nome do santo padroeiro do dia no calendário católico em que fora encontrado. Por exemplo, o primeiro forte de madeira no Morro de São Miguel em Luanda foi erigido em 29 de Setembro (dia de São Miguel Arcanjo) de 1576.
 
 
A formosa e famosa baía de Luanda, figura holandesa, 1640s
 
 
A geografia de Luanda foi um factor determinante não só para a sua localização, mas também para a sua expansão ao longo dos tempos. Três factores geográficos principais determinaram a evolução e expansão da urbe: a Ilha formando a Baía, as linhas de barrocas que caíam bruscas do planalto para o mar, e as linhas de comunicação mais fáceis para o interior, principalmente através do Dande a norte, e para a bacia do Quanza a sul.
 
A Ilha ao largo da Baía permitiu o estabelecimento de um porto fundo e calmo, protegido do mar aberto e dos ataques de frotas inimigas, foi talvez o factor principal no estabelecimento da cidade. Apesar da evidente falta de uma boa fonte de água potável, a lagoa do Quinaxixe, ao cimo das barrocas centrais, e a Lagoa dos Elefantes, já na encosta mais suave da Maianga, tinham água suficiente para suprir as necessidades da povoação até aos princípios do século XIX. Depois desta data, a água era fornecida pelo Rio Bengo, e transportada por escravos e carregadores em grandes barris para a cidade.
 
Por outro lado, as barrocas, geologicamente muito instáveis, limitaram expansão territorial da cidade, com duas vertentes principais, uma a leste da Cidade Baixa, e a outra ao longo da costa sul, desde a Praia do Bispo até à Barra da Corimba, fizeram com que a cidade se concentrasse na Cidade Baixa (à volta dos Coqueiros e nas vertentes mais suaves das Ingombotas e da Maianga) e do Morro da da Fortaleza de São Miguel para sul ao longo da Praia do Bispo, Samba, e Corimba. 
 
 
As barrocas de Luanda, escarpas sedimentares geologicamente muito instáveis, impediram durante séculos a expansão da cidade para o plateau.

 
Com efeito, as barrocas foram um factor que impediu por muito tempo a expansão da cidade para o plateau, na medida em que as chuvas torrenciais de Março traziam todos os anos grandes (e mortíferos) desabamentos de terra (as famosas enxurradas), já que o solo era fundamentalmente constituído por areias apenas ligeiramente comprimidas.

Por fim, a sua localização mais ou menos a meio entre a foz do rio Cuanza (Barra do Cuanza) e do rio Dande (Barra do Dande), conferiram-lhe o papel de lugar chave estratégico para o domínio da costa mais larga entre a foz do Zaire a norte (antigo Reino do Congo), e a a Baía das Vacas (Benguela - antigos reinos do Ndongo, da Quissama, e do Seles) a sul.
 
Loanda (dos tempos do antigamente, ainda escrita com "o") foi durante a maior parte da sua história, uma povoação relativamente pequena, se bem que tenha sido sempre o maior porto negreiro na costa ocidental de África. Da pequena povoação que começou na Ilha, e apesar de todos os desafios, Luanda foi evoluindo a pouco e pouco ao longo dos séculos.
 
De imediato, Paulo Dias de Novais mandou construir um  o pequeno forte de Nossa Senhora da Guia, construído em taipa na base do Morro de São Miguel, onde pouco tempo mais tarde se viria a construir a Fortaleza de São Miguel e a Igreja de São Sebastião, no mesmo morro. 
 
Paulo Dias de Novais não se confinou à conquista da região de Luanda. De acordo com a sua carta donatária emitida pelo rei português Dom Sebastião, ele avançou para sul na direcção da barra da Corimba e da península da Mazanga (mais tarde chamada Ilha do Mussulo) e na direcção para o interior, para as terras do reino do Ngongo, ao longo do curso do rio Cuanza, então controlado pelo Ngola. Nessa jornada de conquista, ele estabeleceu presídios em  

Em breve a pequena feitoria de escravos começou a crescer a partir de dois polos principais: a Cidade Baixa e a Cidade Alta. A Cidade Baixa era a área onde os comerciantes, artesãos, e soldados viviam (povoação comercial), em duas áreas principais: os Coqueiros onde mais tarde as as famílias tradicionais mais importantes viviam em sobrados grandes, e a Baixa propriamente dita, lugar onde as casas comerciais e oficinas se concentravam. 
 
As ligações entre a Cidade Alta e a Baixa eram feitas através de calçadas breves mas muito íngremes, como a Calçada do Pelourinho, a Calçada de Santo António, e a Calçada de Dom Simão de Mascarenhas (dos Enforcados).
 
 
Planta da cidade Baixa de Luanda em 1816, com vista da Baía e da Fortaleza de São Miguel, e perfil dos edifícios principais da Cidade Alta
 
 
O padrão urbanístico de Cidade Alta/Poder e Cidade Baixa/Comércio era típico da colonização portuguesa na costa de África e no Brasil, pois encontramos exemplos deles (Cidade Baixa e Cidade Alta) em Benguela, Catumbela, Novo Redondo, Moçâmedes, Cabinda, e em Salvador da Baía.
 
A Cidade Alta era a área no plateau acima dos Coqueiros onde o governador e os altos funcionários, o bispo e o clero, e as altas patentes militares moravam (instituições de governo). A norte destas duas áreas encontravam-se as áreas das Ingombotas e do Maculusso (conhecido inicialmente como  "cemitério dos pretos"), que eram as área onde a população indígena vivia e onde se encontravam os quintais e barracões onde se guardavam os escravos antes do seu  embarque para o Brasil e para as Américas. Até à conclusão da construção da Igreja e do Convento de Nossa Senhora do Carmo em 1689, a população indígena das Ingombotas era servida pela Igreja de Nossa Senhora do Rosário, padroeira das confrarias e irmandades de africanos (escravos e libertos) em Luanda e no Brasil.

 
Um aspecto da cidade Baixa de Luanda nos meados do século XIX
 
 
A Maianga, atrás e abaixo do antigo Convento de São José (no local onde mais tarde foi construído o Hospital Maria Pia) era também também um musseque antigo de Luanda, onde se situavam as duas cacimbas de água que abasteciam a Cidade Alta e a Cidade Baixa. A água era trazida dos poços da Maianga para a povoação em barricas puxadas por bois ou transportadas por escravos.

Para além destas áreas urbanas, Luanda era rodeada no interior, desde a Barra do Dande a norte até à Barra do Cuanza a sul, por muitos arimos, hortas, e sobrados, onde se produziam a maioria dos alimentos frescos necessários ao consumo na cidade, sendo as mais importantes as de Bem-Bem e Sequeli.
 
Em 1576 começou a construção da Igreja da Misericórdia, e da Sé Episcopal em 1583. Dez anos depois começou a construção da Igreja dos Jesuítas, e em 1604 do Convento de São José, situado ao cimo da Samba, no local onde mais tarde se viria a construir nos fins do século XIX o Hospital Maria Pia (actual Josina Machel).


Ruínas do Forte de Massangano, com o rio Quanza atrás, foto tirada na década de 2010s.


De acordo com os termos da carta de doação da capitania de Angola e Terras do Sebaste, emitida pelo rei português Dom Sebastião em 1571, o donatário e capitão-general Paulo Dias de Novais era obrigado, entre outras cláusulas, a explorar, conquistar, e povoar as terras vizinhas ao longo do curso do rio Cuanza. 
 
 
Igreja de Nossa Senhora da Muxima e Rio Quanza, 2009

 
Assim, entre 1578 e 1581, ele fundou ao longo do Cuanza os presídios de Tombo, Calumbo, e Anzele. Em 1581, ele chega a Cambambe, onde funda o presídio de Mucumbe. No ano seguinte, ele continua o esforço de conquista, chegando a Massangano em 1583, onde funda mais um presídio (a vila de Nossa Senhora da Vitória de Massangano). Anos depois, prossegue para o interior na procura das míticas minas de prata de Cambambe, e funda a Vila de Nossa Senhora da Muxima em 1589. Paulo Dias de Novais veio a morrer meses mais tarde, ainda em 1589, em Massangano, onde foi sepultado.
 
 
Ruínas do interior da antiga Igreja de Nossa Senhora do Rosário no Presídio de Cambambe, fundado pelos portugueses em 1609

 
 Os portugueses continuaram o seu avanço para o interior do Quanza, em direcção à Lunda, estabelecendo o presídio de Cambambe em 1609, e finalmente, já em 1571, o presídio de Pungo Andongo, eliminando assim por definitivo o poder dos chefados locais do Congo, Ndongo, e Matamba, e passando a dominar todo o curso do rio Cuanza.
 
 
Antigo Brazão da Cidade de Luanda
 
 
Em 1605, durante o primeiro governo de Manuel Cerveira Pereira (fundador de São Filipe de Benguela em 1617, nomeado Governador, Conquistador, e Povoador de Benguela), foi concedida à povoação a carta de foral de cidade que oficialmente se passou a chamar Cidade de São Paulo da Assunção de Luanda, sendo assim empossado pouco depois o primeiro senado da câmara. Em 1607 começa a construção do palácio do governador, onde mais tarde havia de funcionar o Tribunal da Relação de Luanda
 
 
Mapa do Antigo Reino de Benguela no século XVII, que como tal, de facto,  nunca existiu.
 
 
A região de Benguela era de facto constituída por diversos chefados umbundo e herero independentes. A cidade de São Felipe de Benguela foi fundada em 1617 pelo então governador e capitão-geral do Reino de Benguela, Manuel Cerveira Pereira, como capital de uma nova  colónia portuguesa separada da colónia de Angola. A separação de  Benguela foi breve, pois em 1626 ela foi reunificada de vez a Angola. Durante séculos, e a seguir a Luanda, Benguela foi o maior porto exportador de escravos de África e do mundo. 


Mapa mostrando a extensão territorial dos reinos de Angola e Benguela em meados do século XVII


Nota - Já que menciono aqui o nome de Manuel Cerveira Pereira, eu devo dizer que ele é uma figura controversa na história de Angola. Ele foi elogiado em tempos idos como grande herói de indomável coragem, estratégia militar superior, e até pelo seu humanismo cristão por alguns historiadores coloniais de reputação como Ralph Delgado e Gastão Sousa Dias
 
Ao mesmo tempo, ele é também apontado como exemplo de uma pessoa de má índole que para amassar a sua máxima riqueza pessoal, ele não olhava a meios. Com efeito, ele mentiu aos reis da União Ibérica (Portugal e Espanha) sobre a existência de minas de cobre do Sumbe Ambela, a governantes, a juízes, a  bispos, a sobas, a jagas, e muitos outro pelas mais variadas razões. Ele traiu membros da sua família, amigos e companheiros de luta. Ele atacou, destruiu, e incendiou muitas aldeias indefesas; capturou milhares de escravos em razias não justificadas; roubou milhares de cabeças de gado; apoderou-se indevidamente de minas de sal, e matou com crueldade inúmeros inocentes, incluindo velhos, mulheres, e crianças. 
 
 
 Manuel Cerveira Pereira, controverso fundador de São Filipe de Benguela (1617), e Governador e Capitão-General dos Reinos de Angola e Benguela, não se sabe ao certo a data do seu nascimento, ele faleceu em Luanda em 1626.
 
De facto, Artur Pestana (Pepetela), no seu livro de ficção histórica "A Sul. O Sombreiro" Edições Dom Quixote, 2011, Alfragide, vai ao ponto de dizer que o capitão Manuel Cerveira Pereira "era na verdade um filho da puta", que ele não passava "de um bastardo de bode com galinha", e que ele passou os seus últimos dias em Luanda "rico como um nababo". 
 
É evidente que Pepetela usa aqui um discurso um tanto radical na sua obra de ficção histórica, que acaba por não ajudar na isenção que esperamos da História. Contudo, ele dá uma achega importante à tarefa necessária de deconstrução de "heróis" na história de Angola que nunca o mereceram ser chamados e admirados como tal.
 
Não obstante o que disse acima, não podemos esquecer que o comportamento de Manuel Cerveira Pereira era o de um homem europeu do seu tempo, em linha com o que os outros pensavam e faziam no resto do mundo. Decerto tivémos muitos exemplos não-portugueses como ele, e até podemos contar com os dedos da mão quantos não podemos acusar do mesmo comportamento. Enfim, atrás da glória das vitórias mais cantadas na História, encontramos sempre homens como Manuel Cerveira Pereira... 
 
Em 1623, no tempo do governador João Correia de Sousa, foi fundado na Cidade Alta o Colégio dos Jesuítas, o único na costa ocidental de África. No mesmo ano, são completadas as remodelações do antigo edifício da Câmara, açougue e cadeia para albergar o novo palácio do governador. A Fortaleza de São Miguel foi reconstruída em 1634 em moldes mais fortes e permanentes. 
 
referência à Raínha Jinga
 
 
Imagem da famosa audiência do governador português João Correia de Sousa dada em 1623 à Embaixatriz Nzinga Mbani, representando o seu irmão, o rei do Ndongo, Ngola Mbandi, em Luanda, na qual ela se sentou nas costas de uma das suas escravas, pois não foi oferecida uma cadeira para se sentar ao princípio da audiência. Quando e audiência acabou, Nzinga Mbandi deixou lá a sua escrava ainda ajoelhada de costas, dizendo que não era hábito seu retirar as mobílias quando se retirava de uma sala.

 
Com a união das corôas portuguesa e espanhola numa só em 1580 (a União Ibérica, que havia de durar até 1640), especialmente depois da derrota da Armada Invencível em 1588, Portugal perdeu muito do seu poder militar e económico no quadro geo-estratégico mundial de então, tanto na Insulíndia, na Índia, em África, e no Brasil.
 
A República das Províncias Holandesas Unidas, que na altura lutava pela sua independência do jugo católico espanhol, reagiu à decisão do rei Filipe II de Espanha em 1581 de proibir o comércio espanhol (que incluia possessões portuguesas como o Brasil e Angola) com os portos holandeses, viraram-se para o comércio no Índico e na Insulíndia com a criação da Companhia Holandesa das Índias Orientais em 1602.Cinquenta anos mais tarde, em 1652, a Companhia Holandesa das Índias Orientais funda a Colónia do Cabo, como porto chave de abastecimento à navegação entre a Holanda e a Insulíndia.
 
Esta medida provou ser muito lucrativa no longo prazo, mas não conseguiu superar a perda eminente do avultado investimento holandês nos engenhos de açúcar na costa brasileira, pois a maior parte do capital investido pelos donos dos engenhos de açúcar (os cristãos novos que tinham deixado Portugal) era fornecido pelas Repúblicas Holandesas Unidas. Este receio levou os holandeses a criar a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais em 1621, com o monopólio por 24 anos e com o intuito de retomar o comércio do açúcar no Nordeste do Brasil e do tráfico de escravos no Atlântico Sul e nas Antilhas. Esta geo-estratégia e plano holandês de conquista do Atlântico Sul é conhecido como o Plano Groot Desseyn.

Assim, a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais depressa aproveitou a fraqueza militar em que Portugal se encontrava depois da derrota da Armada Invencível em 1588 e avançou com um programa agressivo de conquista colonial que em poucos anos retirou da soberania portuguesa extensos e ricos territórios que incluiam feitorias na Insulíndia, na Índia, no Ceilão, no Brasil, e no golfo da Guiné.
 
Este esforço militar começou com a tentativa não sucedida da conquista do porto do Rio de Janeiro pela esquadra de quatro navios e 248 homens comandados pelo almirante Olivier Van Noort em 1598. 
 
Em Maio de 1624 os holandeses preparam uma esquadra de vinte e seis navios e mil e setecentos homens comandados pelo Almirante Jocob Willekens e atacam e conquistam a cidade de Salvador da Baía, então capital do Brasil Português, ao que a União Ibérica respondeu no ano seguinte (1625) com a poderosa armada de cinquenta e dois navios e cerca de doze mil homens comandados pelo Marquês de Villanueva de Valduesa, Dom Fradique de Toledo Osório, e do general da Armada da Costa de Portugal, Dom Manuel de Menezes, que derrotaram e expulsaram os holandeses da cidade de Salvador da Baía e restauraram a administração portuguesa. 
 
Em 1630 os holandeses reorganizam-se e formam uma poderosa esquadra de sessenta e sete navios e  cerca de sete mil homens sob o comando do Almirante Hendrick Lonck, e atacam as cidades de Olinda e Recife, 1630), que conquistam depois de fraca resistência dos portugueses. De imediato, os holandeses reforçam o contingente militar no Recife com um novo efectivo de seis mil homens para segurar as novas conquistas.
 
Em 1640, os holandeses atacam a Ilha de São Luís do Maranhão por uma expedição comandada por Jan Cornelisz Lichth e Hans Koinart. Em breve os holandeses constataram que o fornecimento contínuo de grandes quantidades de escravos africanos era essencial à sobrevivência e progresso  das suas novas colónias na costa brasileira e nas Antilhas, conforme tinha dito o Padre António Vieira "Sem negros não há Pernambuco, e sem Angola não há negros".

Assim, em Agosto de 1641, os holandeses atacaram e conquistaram Luanda com uma esquadra de 18 navios e 2.145 soldados sob o comando do Almirante Cornelius Jol, o temido corsário holandês "Perna-de-Pau" que aterrorizou as Caraíbas e o Atlântico Sul, e que viria a morrer três meses depois no assalto a São Tomé em 1641), sob instruções do Príncipe João Mauricio de Nassau-Siegen, governador-geral do Brasil holandês e director da Companhia das Índias Ocidentais (WIC) no Recife.
 
A embaixada de Dom Miguel de Castro foi acompanhada por dois secretários: Dom Diogo Bamba e Dom Pedro Sunda, que viajaram através do Brasil Holandês, onde teve uma audiência com o governador Príncipe Maurício de Nassau em Recife, em que discutiram o plano para a expulsão definitiva dos portugueses do Congo e Angola.
 
 
Dom Miguel de Castro, primo do Conde do Sonho, embaixador do Rei do Congo Dom Álvaro VI (Casa de Kinzala) à República das Províncias Holandesas Unidas, em Haia em 1643.

 
Além da conquista militar das feitorias na costa africana de Loango a Benguela, nesse tempo controladas pelos portugueses, a estratégia holandesa incluia uma vertente diplomática em trabalhar com os potentados africanos (reis de Loango, Cacongo, Ngoio, Congo, e Ndongo) no sentido de garantir destes o suporte necessário para eliminar a presença portuguesa da região. Com esse objectivo em mente, e sob a orientação do Príncipe Maurício de Nassau, então governador do Brasil Holandês, os holandeses firmaram tratados com alguns chefados locais, como atesta a embaixada mandada a Amsterdão em 1637 pelo Rei Dom Álvaro VI da casa de Kinzala, chefiada por Dom Miguel de Castro.
 
 
Vista de S. Pauli de Loanda, nos anos de ocupação holandesa (1641-48), desenho de Olfert Dapper, 1680

 
Com efeito, em 1643, no apogeu da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, ela dominava o  Atlântico Sul com engenhos de açúcar na costa brasileira as praças de São Luís do Maranhão, Ceará, Paraíba, Recife (Mauritsstad, cidade capital), Penedo na foz do rio São Francisco, e Sergipe, e portos negreiros na costa africana de Goreia (Ilha de Palma), Axim, Elmina, Mouree, São Tomé, Loango, Cacongo, Malembo, Cabinda, Luanda e Benguela.
 
 
Retrato do Príncipe João Maurício de Nassau-Siegen (1604-1679), notável Governador-Geral do Brasil Holandês (Recife / Mautitiópolis, 1637-1644)

 
Para fugir ao ataque holandês e preservar a soberania portuguesa na bacia do rio Cuanza, o malogrado governador Pedro César de Menezes e o bispo Dom Francisco Soveral e demais portugueses saídos de Luanda refugiaram-se temporariamente no interior da bacia do Cuanza, na Vila de Massangano, situada na confluência dos rios Cuanza e Lucala, e perto das praças de Muxima e Cambambe, onde supostamente se encontravam as famigeradas minas de prata, e Ambaca na confluência dos rios Lucala e Lutete. 
 
 
Mapa indicando a encarnado a retirada dos portugueses de Luanda para o reduto de Massangano em 1642, e mostrando os chefados regionais africanos da época. Obtido dos Arquivos de Angola, e baseado na descrição de Oliveira Cadornega na sua História Geral das Guerras Angolanas, 1680

 
Como consequência do ataque batavo a Luanda em 1641, o governador português Pedro César de Menezes teve um governo frágil e difícil. Com muita dificuldade e perícia, ele teve que fugir de Luanda, abrigado pelo escuro da noite, onde estava com residência fixa estabelecida pelo governador holandês, e refugiar-se no com grandes desafios no interior, no reduto de Massangano, sempre fustigado pelos holandeses. 
 
O bispo Dom Francisco Soveral (a quem foi dado o nome da rua que ligava o bairro dos Coqueiros à avenida da Praia do Bispo em Luanda) acompanhou-o nessa retirada, não conseguindo sobreviver aos desafios. Com efeito, ele veio a morrer em Janeiro de 1642 em Massangano. Ele foi inicialmente sepultado na igreja de Nossa Senhora da Vitória de Massangano, mas mais tarde os seus restos mortais foram transladados para a antiga Sé Catedral de Luanda, demolida em 1864.
 
 
Planta de Stadt  Loanda St. Pauli (Luanda holandesa) em 1647. Note-se o detalhe minucioso do mapa.

 
 
A soberania portuguesa foi restaurada em 1648 por uma grande esquadra de quinze navios vinda do Rio de Janeiro, comandada por Salvador Correia de Sá e Benevides, almirante dos Mares do Sul, e então governador e capitão-general da Capitania do Rio de Janeiro, que resultou na derrota e consequente expulsão dos holandeses de Luanda, Benguela, Cabinda, Molembo, e São Tomé e Príncipe, e na restauração do domínio português no Atlântico Sul. 
 

Salvador Correia de Sá e Benevides (1602-1688), Almirante dos Mares do Sul, Governador da Capitania do Rio de Janeiro, Restaurador do domínio português do Atlântico Sul, e Governador de Angola (1648-1651)


Restauração de Angola por Salvador Correia de Sá e Benevides (em desenvolvimento)
 
 
Azulejo mostrando o ataque das forças luso-brasileiras comandadas por Salvador Correia de Sá e Benevides, ao bastião holandês da Companhia das Índias Ocidentais em Luanda, resultando na derrota desta e na restauração do domínio português de Angola, em Agosto de 1648.

Para distinguir o nome de Luanda, de Loanda, nome que internacionalmente era associado ao domínio holandês da colónia entre 1641 e 1648, o nome da capital da colónia portuguesa de Angola, foi mudado passando a chamar-se oficialmente cidade de São Paulo da Assumpção de Luanda. 
 
 
Uma imagem da época da cidade de São Salvador da Baía de Todos os Santos, capital da colónia portuguesa do Brasil até 1763, muito cobiçada (e atacada em 1623) pela Companhia Holandesa das Índias Ocidentais.


Nesse tempo, Luanda tinha ligações mais estreitas com o Brasil do que com Portugal. Pode-se dizer até que Luanda e Benguela eram feitorias mais brasileiras do que portuguesas, pois forneciam uma grande parte de escravos primeiro para os engenhos de açucar de Pernambuco, Maranhão, e Baía. Um século  mais tarde passou a fornecer mão-de-obra escrava para as Minas Gerais, e já no século XIX era a maior fonte de escravos para as fazendas de café no Rio de Janeiro e São Paulo, no Brasil.
  
A Ordem dos Padres Carmelitas chegaram a Luanda em 1659 a convite da raínha Dona Luisa de Gusmão, viúva do rei Dom João IV e regente de Portugal, que restabeleceu a independência portuguesa da suserania espanhola. Logo no ano seguinte, 1660, começaram as obras de construção da Igreja e Convento de Nossa Senhora do Carmo nas Ingombotas, então nos arrabaldes da povoação, e concluídas em 1689, com materiais doados pelo governador brasileiro João Fernandes Vieira e por doações e esmolas dos moradores da cidade.
 
 
Fotografia antiga da Igreja e Convento de Nossa Senhora do Carmo, Luanda, ca. 1906

 
Derrota das monarquias Negras - Congo em Ambuíla, Ndongo em XXXX, e Matamba, em 1671, em Pungo Andongo.
 
 
Antiga planta minuciosa da área das Pedras Negras de Pungo Andongo, no reino da Matamba

 
Em 1684 a sede do Bispado do Congo, que até aí se encontrava em São Salvador, foi transferida definitivamente para Luanda e começou a construção da Ermida da Nazaré pelo governador brasileiro André Vidal de Negreiros. Luanda recebeu um grande impulso durante o tempo do governador Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho (1764-72), nomeado pelo Marquês de Pombal. 
 
Em 1765 foi construído o Terreiro Público (grande armazém para víveres secos) mesmo à entrada das antigas  Portas do Mar, perto do antigo Baleizão; no ano seguinte o Forte de São Francisco do Penedo; em 1769 é estabelecida a Aula de Geometria e Fortificação; em 1770 é construído o edifício da Alfândega; e no ano seguinte começou a construção do Trem


Selo em memória do grande governador pombalino Dom Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho (1726-1780), considerados por muitos como o mais ilustre governador português de Angola.


Como um resultado das lutas liberais em Portugal, em 1834 a administração municipal passou do Senado da Câmara para a Câmara Municipal (em desenvolvimento)
 
Desde os primeiros tempos de porto negreiro, Luanda, como outras cidades do seu tempo, tinha o seu pelourinho, onde os escravos e criminosos eram severamente castigados em público. O Pelourinho de Luanda foi removido em 1884 pela Câmara Municipal de Luanda, mas o nome de Largo do Pelourinho (o antigo Largo Katádi - "katari" em kimbundo quer dizer lugar de suplício) ficou para a posteridade.
 
 
Escravo a ser punido por chicote no Pelourinho do Rio de Janeiro, 1836

 
 
Em 1889 foi inaugurada a ligação de água corrente do rio Bengo a Luanda. (em desenvolvimento)

Até meados do século XIX, a economia de Luanda foi desde a sua fundação baseada no tráfico de escravos do interior, que eram trocados por mercadorias mandadas para o interior por comerciantes de Luand, como panos, geritiba (cachaça/aguardente), tabaco, sal, e armas.
 
Os intermediários (chamados "aviados") eram por norma africanos pretos ou mestiços que levavam as mercadorias para o interior para as trocar por escravos de propriedade de senhores locais. Por sua vez, os "aviados" faziam o uso de "pumbeiros" (pretos descalços) que trocavam mercadorias nos mercados do interior (pumbos). Pouco ou nada se produzia em Luanda, a não ser nos arimos periféricos do Bengo, pelo que os demais bens de consumo e de capital tinham de ser todos importados do Brasil ou de Portugal.
 
Novos ventos sopraram em Luanda com a abolição do tráfico da escravatura no Atlântico Sul em 1836 e com a abertura do porto ao tráfico marítimo estrangeiro em 1844. Gradualmente e com grandes desafios, Luanda passa a ser sede de governo de uma colónia de exploração de produtos coloniais, à medida que o tráfico de escravos decrescia, como resultado da patrulha de navios britânicos e portugueses ao longo da costa de Angola.
 
Contudo, a transição de maior feitoria de escravos na costa ocidental de África por mais de três séculos para colónia de produção de produtos coloniais não foi nada fácil para Luanda. Com efeito, entre 1840 e 1860 Luanda passou por uma crise económica muito profunda em que os parcos lucros do comércio e da agricultura não se comparavam em nada aos antigos lucros chorudos do tráfico de escravos. O impacto económico deste período de transição foi tão severo que muitas famílias deixaram Luanda, e houve muitas vozes em Portugal que questionaram a utilidade de se manter a colónia de Angola.
 
Contudo, a população de Luanda aumentou com o afluxo de escravos domésticos que já não saíam de Angola, mas a economia contraíu-se marcadamente. Muitas famílias de mercadores de escravos deixaram Luanda e foram para o Brasil e poucos portugueses vieram para a Colónia (a maioria degredados), militares, funcionários públicos, fazendeiros, e comerciantes, transformando aos poucos a pacata Loanda em cidade capital da colónia que então se ia formando.
 
A antiga sociedade Luandense - O papel da aristocracia africana na sociedade, administração, e economia colonial
 
 
Uma senhora africana de Luanda, da burguesia colonial luandense, ca. 1870.


O Boletim Oficial de Angola começõu a publicar-se oficialmente em 1845, como o primeiro órgão de imprensa em Angola, durante o governo de liberal de Pedro Alexandrino da Cunha. Durante os seus primeiros anos de publicação, o Boletim Oficial de Angola não era só o boletim oficioso do governo colonial, ele era também o único jornal citadino que dava notícias locais, tinha uma secção de anúncios (publicitários, de eventos, óbitos, chegad e partida de navios, etc.), e era até uma publicação cultural, pois publicava poesias de poetas locais notáveis.
 
 
Morro da Fortaleza em Luanda, vista da Ilha de Luanda. Pintura do Século XIX.

 
Em 1853, foi formalmente estabelecido em Angola o serviço de correio (inicialmente a Mala Postal Real, e mais tarde os Correios Telégrafos e Telefones de Angola - os CTT). O edifício dos Correios, no Largo Pedro Alexandrino da Cunha, foi durante algumas décadas o maior edifício da cidade.

Em 1865, o Banco Nacional Ultramarino abriu a sua agência em Luanda, e em 1889 o Caminho de Ferro do Ambaca estabeleceu ligações regulares com o hinterland do distrito do Ambaca (Ndalatando, Cuanza Norte) e Malange. Em 1857 é fundado o antigo Observatório João Capelo, e em 1883 começa a operar o Hospital Maria Pia (hoje Josina Machel).


Imprensa Luandense nos finais do século XIX (a desenvolver)
 
 
A primeira página do Jornal "A Civisação da Africa Portuguesa", edição de 27 de Dezembro de 1866

 
 
Edifícios Históricos de Luanda (em desenvolvimento)
 
 
Secção da Avenida Marginal de Luanda mostrando o porto pesqueiro antes da construção do edifício sede do Banco de Angola, nos princípios da década de 1950s.

 
Terreiro Público na antiga Rua da Praia
Palácio do Governo
Paço Episcopal
Antigas Portas do Mar
Imprensa Nacional
Observatório João Capelo
Casa do Conto
Trem / Arsenal, 1750, edifício da Alfândega, Governador Sousa Coutinho
Convento do Carmo, de Santa Teresa das Religiosas Descalças (Carmelitas Descalças)
Palácio de Dona Ana Joaquina, destruído e reedificado depois da Independência
Pelourinho, desfeito nos princípios do séc. XX
Hospital Central Maria Pia
Estação Central dos Correios
Ponte sobre a Rua Francisco Soveral
Palácio das Comunicações
Sede dos Serviços de Agricultura, no Largo do Quinaxixe, destruído para dar lugar ao prédio com o sinal da Cuca
Palácio de Ferro
Câmara Municipal
Edifício das Obras Públicas
Liceu Nacional Salvador Correia
Palácio do Comércio
Porto de Luanda
Colégio de São José de Cluny
Liga Nacional Africana
Edifício do Banco de Angola
Mercado de Quinaxixce
SNECIPA - Sindicato Nacional dos Empregados de Comércio e Indústria da Província de Angola
Sindicato dos Motoristas
Edifício dos Serviços de Fazenda e Contabilidade
Aeroporto Craveiro Lopes
Quartel General
Hospital de São Paulo (mais tarde Hospital Universitário)
Edifício do BCA - Banco Comercial de Angola

 
Fortes, Fortalezas, e Instalações Militares em Luanda (a desenvolver)
 
Forte de Nossa Senhora da Guia
Fortaleza de São Miguel
Forte de São Pedro da Barra
Forte de São Francisco do Penêdo
Fortim da Porta Negrana antiga Rua da Misericórdia, onde se encontra hoje o edifício da Imprensa Nacional
Base Naval da Ilha do Cabo
Base Aérea Nº. 3
Campo Militar do Grafanil
Batalhão de Caçadores Paraquedistas Nº. 21
Comando Naval de Angola
Quartel da 2ª. Região Militar de Angola
Quartel da 2ª Região Militar Aérea
Bairro dos Quarteis
Companhia de Comando e Serviços

Igrejas Católicas de Luanda Antiga (a desenvolver - com alguns elementos de Manuel da Costa Lobo , Subsídios para a História de Luanda, 1967)
 
- Igreja de Nossa Senhora da Conceição, na Ilha do Cabo (então Ilha das Cabras), primeira igreja construída em Luanda, antes da fundação da cidade de Luanda. Já não não existe há muito tempo.
- Ermida de Nossa Senhora da Guia, na Fortaleza de São Miguel
- Igreja de Nossa Senhora da Conceição, na Rua da Misericórdia; demolida depois da Independência 
- Igreja do Colégio dos Padres da Companhia de Jesus, fundada em 1605. 
- Antiga Sé do Bispado de Angola e Congo, também designada como Sé Velha, no local do Observatório João Capelo; demolida no séc. XIX pelo Governador Bressane Leite (1842-43).
- Igreja do Carmo da Ordem dos Padres Carmelitas Descalços, fundada em 1659, à entrada das Ingombotas
- Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, construída em 1628. Destruída pelos Holandeses (1641-48) e reconstruída pelo governador Salvador Correia de Sá e Benevides, restaurador do domínio português em Angola, em 1651.Situada na Cidade Baixa, mais tarde Sé Catedral de Luanda, desde 1897.
- Antiga Igreja de Santo António do Convento dos Capuchinhos Italianos; no local dos Jardins da Cidade Alta; demolida no séc. XIX, pelo governador Gonçaves Cardoso ((1866-68).
- Antiga Igreja de São João dos Europeus, em frente à Igreja de Jesus, pertencente à antiga irmandade de Santa Cruz dos Militares; demolida no séc. XIX.
- Ermida de Santo Amaro, na antiga Travessa de Santo Amaro, perto de onde se situava o edifício do Arquivo de Identificação, entre as antigas ruas da Misericórdia e Henrique de Carvalho; demolida no séc. XIX.
- Antiga Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, da irmandade dos pretos, perto da Ermida de Santo Amaro, junto a onde se encontra hoje o edifício da Imprensa Nacional; demolida no séc. XIX, pelo governador Sérgio de Sousa (1851-53).
- Ermida da Nazaré, na Avenida Marginal de Luanda, mandada construir pelo governador André Vidal de Negreiros em 1654 
- Antigo Convento de São José e Igreja de São José dos Padres Terceiros Franciscanos, no local onde mais tarde foi construído o Hospital Maria Pia, ao topo da Rua da Samba; demolida no séc. XIX, pelo governador João Baptista de Andrade (1866-68)..
- Antiga Ermida de Santa Efigénia, na antiga Praça da República, na Baixa, paralela à antiga Rua Salvador Correia.
- Antiga Igreja do Corpo Santo e de São Pedro Gonçalves Telmo, no antigo Largo Luis Lopes de Sequeira, na Baixa, perto da antiga sede e estádio do Clube Atlético de Luanda.
- Igreja Metodista (na antiga Rua das Quipacas)
 

AIgreja da Missão Metodista em Luanda, 1960s


- Igreja de Nossa Senhora do Cabo, na Ilha de Luanda, construída em 1947, na Ilha do Cabo
- Capela do Colégio de São José de Cluny, 1951
- Igreja da Missão de São Paulo (1950s)
- Igreja de São Joaquim, na Praia do Bispo (1950s)
- Igreja da Sagrada Família (1964), ao cimo do Bairro do Café
- Igreja de Nossa Senhora de Fátima (1967), em Viana
- Igreja de São Domingos (1968), ao cimo da Vila Alice, sede da paróquia de Nossa Senhora de Fátima, no actual Musseque Nelito Soares
 
 
Comércio em Luanda através dos Tempos (a desenvolver)
 
Escravos ladinos (ama/ama secas - Mãe Negra) e domésticos (criados, cozinheiros, lavadeiras, carregadores de água, carregadores de tipóia para transporte de pessoas dentro da cidade), falavam português e tinham uma profissão, alguns sabendo ler e escrever português. Quimbares eram filhos de escravos que falavam português e tinham uma profissão de ganho.
Macolunto era um escravo capataz de um grupo de escravos
 
Escravos boçais (apanhados recentemente no interior, e que passavam em Luanda para serem embarcados para as Américas. Para não fugir, os escravos tinham libambos (correntes de ferro nas pernas).
 
Uma "peça" representava um escravo jovem ou adulto (homem ou mulher). Crianças e velhos valiam menos do que uma peça, de pendendo do seu estado de saúde e capacidade de energia. Em alguns casos, os escravos eram usados em pagamento, como se fossem moeda. No antigo reino do Congo, a moeda mais comum era o zimbo; no reido do Ndongo, era o pano (libongo), e no planalto de Benguela, era o sal.
 
Escravos de ganho - em geral artisãos, vendedores ambulantes, mercadores, carpinteiros, alfaiates, sapateiros, carregadores, de transporte de água, trabalhadores do sexo/prostitutas. Quimbares
 
Ocupações dos moradores de Luanda antiga: Boticário (barbeiro/médico), ervanário, padeiro, alfaiate, sapateiro, pedreiro, cobreiro, ferreiro, carpinteiro, e serralheiro.
 
Agentes de comércio em Luanda: armadores (portugueses e brasileiros que financiavam a exportação de escravos, e o comércio nos presídios do interior), comerciantes, avançados (Pumbeiros, lançados) 

Produtos vendidos em Luanda: Feijão (ensaca), milho grosso (massa), bolo de milho (enfunde), farinhas (milho, trigo, mandioca), pirão, geritiba, vinho (de uva, de palma, ou de milho), e panos (songos, cundes, pintados).
 
Papel do provedor/tesoureiro/escrivão das fazendas dos defuntos e ausentes
O comércio de marfim foi sempre importante.
Bacular - pagar tributo
Quilamba - capitão de guerra preta
Baquianos - soldados feitos às guerras sertanejas
 
Os antigos vendedores ambulantes de Luanda
 
 
Antigo vendedor ambulante, Luanda, 1890s

 
Quitandas - banca de mercado, e também antigo mercado - Terreiro Público 1765, Quitanda da Fazenda, Quitanda da Caponta, Quitanda Grande, Quitanda do Largo da Alfândega, Mercado do Xamavo, Mercado do Caputo, Mercado de Quinaxixe, e Mercado de São Paulo.
 
 
Uma quitanda na Ilha do Mussulo, 1960s

 
Mercadorias que vendiam - Fazendas, panos de algodão, calicos, cobertores, quinquilharias, frutas, fuba de mandioca e de milho, verduras, feijão, peixe, carne, óleo de palma, guinguba torrada, doces tradicionais, paracuca, e pirolitos, pão de milho, comidas prontas a comer, bebidas tradicionais, ervas medicinais, produtos farmacêuticos, e carvão. 

Quitandeiras, Peixeiras, Lavadeiras, Carregadoras de Água, e papel das Bessanganas

Lojas de Bairro - Maianga - exemplo Mercearia Simões (Alfredo e Acácio), na Maianga, Loja do Hernâni no terreiro da Mulembeira (Rua Comandante Correia da Silva, Maianga/Rio Seco); loja ao lado da casa dos irmão Rui e Tito Nabais, na Rua 5 de Outubro. Vendas a crédito - aponta no livro e paga ao fim do mês.
 
Mercearias maiores e mais esmeradas, como Martal - Martins & Almeida, na Avenida António Barroso, que faziam entregas ao domicílio.
 
 
Um anúncio da popular Ervanária Sambo, de Luanda 1960s

 
Lojas de Musseque e Botequins, que vendiam água potável, peixe seco, óleo de palma, sabão de barra azul, fuba, vestuário, e cobertores.
 
Lojas de especialidade - Casa Saratoga, Casa Popular, relojoarias, farmácias, drogarias, lojas de ferragens, etc.
 
Grandes lojas de artigos de luxo importados - bens duradouros, vestuário, e bens de consumo - Quintas & Irmão, A. Santos Pinto Lda. e Armazéns do Minho.
 
Cooperativas - COFA Cooperativa dos Funcionários de Angola, e COOPETROL - Cooperativa dos Empregados das Companhias de Petróleo; DBI - Depósito Base de Intendência, para militares e famílias
 
Armazéns de venda por grosso e atacado - Gajageira
 
Hipermercado Jumbo, estabelecido em 1973
 
 
Arquitectura de Luanda Antiga (em desenvolvimento)
 
Sanzala - comunidade rural, aldeia chefiada por um soba;  Mbanza - cidade/vila, sede de poder político regional
Cidade Alta (instituições de poder político, militar, e religioso) e Cidade Baixa (comerciantes, residentes, artífices. Barracões de escravos na periferia imediata (Ingombotas e Maianga)
Cidade portuguesa e Musseques
Vestígios de sobrados antigos de Luanda no antigo Bairro dos Coqueiros - casa apalaçadas das grandes famílias tradicionais angolanas de Luanda
Arquitectura colonial - Influência brasileira e do Sul de Portugal

Casa grande (piso único) e sobrado (dois pisos - piso de baixo para loja/oficina/ ou estabelecimento comercial, e acomodações para trabalhadores e piso superior para família do patrão ou dono)
Varanda atrás e pátio ou quintal
Apoosentos para escravos (e mais tarde empregados domésticos) no quintal.
Anexos para a criação de animais domésticos ao fundo do quintal
Pátio interior em algumas casa mais ricas, relembrando as grandes casas de Havana, Cuba.
Telhados de quatro águas em cima de cada divisão da casa (sala ou quarto) 
Barracões para escravos nas Ingombota, ou ao fundo do quintals
 
Arimos / fazendas no Bem Bem, no Bengo, e em Belas, como a Fazenda Gomes & Irmão  que forneciam carnes, leite, e alimentos frescos a Luanda.   
 
 
Cemitérios de Luanda
 
Duarante o período que residi em Luanda, a cidade tinha dois cemitérios activos: o Cemitério do Alto das Cruzes, estabelecido na década de 1880, e situado no planalto logo acima do Eixo Viário (a sul do Bairro Miramar e a oeste do Bairro do Cruzeiro), e o Cemitério de Santa Ana (ou da Estrada de Catete), estabelecido em 1950. 
 
 
O Cemitério do Alto das Cruzes, estabelecido na década de 1880s, à entrada do Bairro Miramar e do Bairro do Cruzeiro, 1960s

 
Era no vetusto Cemitério do Alto das Cruzes que se sepultavam os residentes de maior posses e prestígio da cidade. Em 1975 falava-se muito da necessidade de se estabelecer um novo cemitério para a cidade, pois "os luandenses morriam (estavam ansiosos) para lá ir morar"... para as bandas do Cacuaco ou de Viana.


Capela do antigo Cemitério de Santa Ana, na estrada de Catete, Luanda, 1970s

 
Já que estamos no tema de falecidos e funerais, dizia-se na Luanda dos meus tempos que o dono de uma certa agência funerária muito conhedica em Luanda (que eu não me atrevo a dizer o nome porque não o posso agora confirmar) ia regularmente visitar os doentes às portas da morte aos hospitais de Luanda, para o que trazia sempre consigo, escondida no bolso, uma fita métrica, e que durante a piedosa visita, ele muito discretamente tirava as medidas (altura, barriga, e peso) dos clientes potenciais, logo depois oferecendo de imediato os préstimos dos seus bons serviços às famílias dos que estavam prestes a partir...😛


Desenvolvimento Urbanístico de Luanda (em desenvolvimento)
 
Ilha das Cabras - Ilha do Cabo
Cidade Baixa
Cidade Alta
Bairro dos Coqueiros - Largo do Pelourinh, Rua dos Mercadores, e Rua Avelino Dias
Ingombotas, Maianga, e Maculusso - zonas de transição, das encostas que levavam ao planalto
Bairro Operário
Luanda cresceu "em leque" a partir da Baía em direcção ao Planalto
Luanda Sul - Samba, Prenda, e Corimba
Luanda Norte - Bungo e Cacuaco
Desenvolvimento da antiga Rua da Praia (Marginal)
Morro de São Paulo e plateau acima do Bairro do Café
Bairro do Café
Bairros para funcionários construídos pelo Estado - Cruzeiro, dos Quarteis, Praia do Bispo, e Saneamento
Bairro de São Paulo
Vila Clotilde e Vila Alicre
Bairro Miramar
Bairro Popular Nº1 e Nº2
 
Luanda tinha um problema de saneamento muito grave, pois a maioria da sua rede de esgotos ia desaguar à Baía de Luanda. Isto não só era uma fonte permanente doenças para quem tomasse banho ou pescasse na Baía, o que era estritamente proibido, como dava um mau cheiro permanente à beira-mar ao longo da maravilhosa Avenida Marginal. A juntar a estes, havia o impacto que os esgotos tinham na vida aquática da Baía, não sendo raro encontar-se peixes mortos na Baía.
 
Haviam também animais indesejáveis que aí viviam, pois uma vez quando estava sentado num banco na Avenida Marginal a ler, vi uma família de ratazanas gigantes a sair da conduta do esgoto, sem mostrarem qualquer mêdo em me confrontar.
 
 
O descarregamento de esgotos não tratados na Baía de Luanda, além de criar um grande perigo de saúde para os residentes da cidade, dava um mau cheiro à Avenida Marginal.

 
Bairros e Musseques de Luanda (em desenvolvimento)

Evolução urbana e história económica de Luanda


Classes sociais
 
Taxonomia racial de Luanda
Brancos / mundele - da Metrólpole, da Madeira, e dos Açores - Reinóis (governantes, militares, e padres em comissão de serviço), besugos, e matarroanos
Moradores/residentes, filhos da terra, artesãos, comerciantes, padres, funcionários, soldados, e degredados (presos de delito comum, presos políticos)
Brancos de 1ª e de 2ª
Brancos cafrealizados.

Pretos - forros (livres), e escravos - Mbika / Ngamba - (ladinos - domésticos e amas (Mãe Preta), escravos de ganho, e boçais - em trânsito para as Américas)
Ambaquistas educados; Cangoandas crioulos de Angola e São Tomé que vestiam a portuguesa; e gentios do interior
Pumbeiros, avançados, Lançados, ou Empacaceiros (caçadores de pacaça ou mosqueteiros)
 
Mestiços - Mulatos, Cabritos, e Cafusos. Mulatos assimilados
 
Caboverdeanos, Sãotomenses, e Indianos (Monhés)
 
Ralph Delgado - "A peça da Índia tão depressa era animal lançado ao mercado, vergado a chicote, como dona de casa, mãe do tipo adaptado - moreno e devasso -, companheira infatigável da conquista".
 
Por ordem cronológica, os bairros mais antigos de Luanda eram a Baixa, a Cidade Alta, as Ingombotas, o Maculusso, e a Maianga. Com o tempo e com a expansão gradual de Luanda ao longo dos séculos, e tendo em conta a geografia e a economia da cidade, antigos bairros e muceques desapareceram para dar lugar a novos bairros, num processo de renovação contínua. 
 
 
Monumento do Canhão no antigo Largo Luis Lopes de Sequeira, perto do Clube Atlético de Luanda, antiga Avenida dos Restauradores de Angola, à entrada do Bairro dos Coqueiros, 1970. Era aqui (no antigo Largo do Rufino) que antigamente se situava a Igreja do Corpo Santo, demolida nos finais do século XIX, e o mercado da Quitanda Grande.

 
Duma forma geral, pode dizer-se que a expansão urbana de Luanda ocorreu da beira-mar para o interior e da baixa para o planalto adjacente, e só mais recentemente (depois de 1945) é que Luanda se começou a estender para sul (Corimba e Belas), e para norte (Cacuaco).
 
 
O emblemático edifício do Banco de Angola, cartão de visita de Luanda, 1960s
 
 
Já na década de 1970 Luanda era muito maior e tinha muitos bairros, a saber e listando os mais antigos primeiro: Ilha, Baixa, Coqueiros, Cidade Alta, Casuno, Praia do Bispo, Ingombotas, Maculusso, Maianga, Boavista, Bungo, Bairro Operário, São Paulo, Bairro do Cruzeiro, Samba, Bairro Azul, Bairro dos Ferreiras (único bairro que tinha as ruas calcetadas de pedra), Bairro do Café, Vila Clotilde, Vila Alice (cujas ruas tinham nomes de poetas portugueses), Bairro do Saneamento perto e atrás da Igreja de Jesus, Miramar no plateau acima do eixo viário, Bairro da CAOP (Companhia da África Ocidental Portuguesa) entre as avenidas Paiva Couceiro e dos Combatentes, Bairro Madame Berman perto da Terra Nova, Bairro do Prenda entre o Aeroporto e a Samba, Bairro de Alvalade acima e a norte da Maianga, Corimba ao longo pa praia do mesmo nome, Belas já perto da praia das Palmeirinhas, Bairro da Cuca, Bairro da Precol, Samba Pequena, Samba Grande, Bairro Sarmento Rodrigues, Terra Nova, Bairro Popular #1 e #2, Bairro Indígena, Bairro da Mabor, Bairro Salazar, Bairro Américo Tomás, e Bairro Rebocho Vaz. 

 
Um aspecto da antiga Avenida António Barroso, Luanda, 1972

 
Em 1975, estimava-se que a população de Luanda era superior a meio milhão de pessoas (cerca de duzentos mil brancos e mestiços e cerca de trezentos mil africanos negros). Luanda, como cidade capital de uma colónia era uma cidade dualista: a cidade do colono e a cidade do africano. Em termos gerais, pode dizer-se que o branco viviam em casas de cimento em bairros com ruas de asfalto e com todos os serviços municipais, e o preto vivia no musseque, em casas de construção mais frágil e pobre sem quaisquer serviços mucipais - ruas de terra que se transformavam em lagoas na estação das chuvas, ausência de água canalizada e de electricidade, falta de esgotos, e sem cobertura policial.
 
Como na maioria das cidades com história, alguns bairros de Luanda tinham a sua própria personalidade manifestada por um bairrismo único. Esta personalidade era por norma conferida pela actividade or função principal dos residentes de cada bairro, pela sua história e pergaminhos, e pela posição dos seus residentes na pirâmide económica e social de Luanda. Em alguns bairros, já depois de 1945, a presença de clubes desportivos ou associações recreativas dinamizava ainda mais a afirmação da personalidade de cada bairro.


A Rua dos Mercadores, uma das ruas mais antigas de Luanda, atrás do antigo Hotel Central, 1960s. Imediatamente à direita, o famoso restaurante Floresta da Sé, e à esquerda o Escondidinho da Sé.

 
Assim, a Baixa era a principal zona comercial da cidade, indo do Baleizão até ao Porto em dois eixos -a Avenida dos Restauradores e a Rua Salvador Correia, e Avenida Marginal, e da baía até ao sopé do plateau, onde se encontravam as maiores lojas, bancos, stands de automóveis, escritórios, repartições públicas, restaurantes e hoteis. Ainda assim, a Baixa tinha muitos residentes que moravam nos muitos prédios altos de vários andares.
 

Edifício da antiga Associação Comercial de Angola, na Baixa de Luanda, hoje sede do ministério das Relações Exteriores


O bairro dos Coqueiros, talvez o bairro mis antigo de Luanda, era próximo da Baixa e dominado pela influência de três clubes desportivos e pelo estádio dos Coqueiros - O Sporting Clube de Luanda, associado com o Sporting Clube de Portugal (de Lisboa), o Clube Atlético de Luanda constituído principalmente por angolanos oriundos de famílias antigas, e o Futebol Clube de Luanda, associado ao Futebol Clube do Porto, e ainda pelo Clube de Ténis de Luanda. O Bairro dos Coqueiros tinha um sentimento forte de bairro, pois era lá que residiam muitas  das famílias antigas de Luanda com seus filhos e netos. A fábrica da Pepsi-Cola, a Delegação da Diamang, o Hotel Central, a sede dos SMAE (Serviços Municipalizados de Água e Electricidade), e a Rua dos Mercadores (a rua mais antiga de Luanda) eram polos de actividade no Bairro dos Coqueiros. 
 

O Bairro dos Coqueiros na recuada década de 1940


Alguns dos bairros mais exclusivos de Luanda estavam na área do Beco do Balão e o Bairro do Saneamento onde as famílias dos membros do governo e altos funcionários viviam. Era aqui que se encontravam também algumas repartições civis, militares, e eclesiásticas (Palácio do Governador, Quartel General do Exército, Imprensa Nacional, Arquivo de Identificação, Paço Episcopal, Observatório Metereológico, residência do Governador do Banco de Angola, Consulado Britânico, algumas Secretarias provinciais, Depósito Base de Intendência (DBI), Quartel da CCS (Companhia de Comando e Serviços), Asilo Dom Pedro V, Igreja da Conceição, Igreja de Jesus, e sede da PIDE. Era típico verem-se nesta área carros de cor preta do estado com chauffers privativos transportando esses altos funcionários e suas famílias. 
 
O bairro do Saneamento, todo constituído por vivendas muito espaçosas construídas pelo Estado nas décadas de Cinquenta e Sessenta para os quadros superiores do governo. O Bairro do Saneamento era o bairro mais calmo, mais exclusivo, e com menos trânsito em Luanda.
 

Um aspecto do antigo Bairro do Saneamento, nas traseiras do Palácio do Governador, 1950s


No lado oposto da cidade, o Bairro Miramar era também muito rico e exclusivo, com residências modernas e grandes com jardins muito grandes e muito bem cuidados. Era na Avenida Almirante João Azevedo Coutinho, uma das ruas mais cénicas de Luanda, pois daí se deslumbrava a maravilhosa vista de toda a baía e Ilha de Luanda, que se encontravam as maiores e mais luxuosas mansões de Luanda. 
 
 
A antiga mansão do representante em Luanda da Companhia dos Diamantes de Angola (Diamang), logo após ter sido construída no Bairro Miramar em 1955

 
Era neste bairro que havia um quarteirão de casas de funcionários superiores da Diamang, a companhia majestática concessionária da exploração de diamantes em quase todo o território de Angola, das quais se destacava a mansão do representante da companhia em Luanda. A maioria das casas do Bairro Miramar eram mais modernas, construídas durante o ciclo do café (1945-1960). Era neste bairro também que residiam a maioria dos oficiais estrangeiros dos diferentes países que tinham consulado em Luanda. O cemitério do Alto das Cruzes, à entrada do Bairro Miramar, a Casa de Saúde de Luanda, o Cine-Esplanada Miramar, e o Clube de Caçadores de Angola eram os principais polos de atracção do Bairro Miramar.
 
Para atraír e reter bons funcionários públicos em Angola por períodos mais longos, o governo provincial durante as décadas de Cinquenta e Sessenta construiu vários bairros para funcionários públicos através da cidade de Luanda, dos quais mais se destacam o Bairro do Saneamento, o Bairro do Cruzeiro, o Bairro da Praia do Bispo, o Bairro da Vila Alice, e os Bairros Populares Nº 1 e Nº2.
 
 
Aspecto de um bairro com casas para funcionários do estado em Luanda, 1950s

Não se pode dizer que havia um espírito de bairro em cada um dos três bairros descritos acima, pois haviam poucas famílias com filhos jovens a morar neles, e as pessoas que viviam neles (muito deles estrangeiros) não participavam activamente na vida da cidade, a não ser nos escalões mais altos e reservados da alta sociedade luandense.
 
 
A antiga Casa de Saúde de Luanda, onde a minha irmã Dilar nasceu em 1952, na antiga Rua António Enes, entre o Bairro dos Cruzeiro e o Bairro Miramar.

 
O Bairro do Cruzeiro, do mesmo estilo do Bairro de Saneamento era formado por uma secção de moradias do Estado (de estilo rústico português do Estado Novo) para funcionários superiores do Estado, e outras residências privadas de dois andares para famílias de posses. Era também um bairro muito calmo.
 
 
Largo do Cruzeiro, no Bairro do Cruzeiro
um dos bairros mais sossegados de Luanda 1950-75


O Bairro de Alvalade, acima da Maianga, era o outro bairro onde viviam famílias com muitas posses. Contudo, era um bairro mais moderno, construído entre 1960 e 1975, com muitas famílias jovens, com alta educação, vivendo em muitos casos em casas geminadas. Era onde viviam os "meninos e meninas de bem" ou "sanguitos" como nós os chamávamos.
 
 
Uma vista do Bairro de Alvalade na década de 1960s 

 
O Cine-esplanada Aviz e a piscina olímpica. Já havia um pouco mais de vida no Bairro de Alvalade, pois já haviam muitos jovens.
A Piscina Olímpica no Bairro de Alvalade, 1969

Acima do Bairro de Alvalade, no lado oposto da antiga Avenida Norton de Matos, situava-se o antigo Bairro dos Quarteis, que foi construído pelo Estado para albergar famílias de militares portugueses que vinham de Portugal prestar serviço militar em Luanda.
 
O Bairro do Café, construído também durante o ciclo do café (1948-1960), limitado pelo Liceu Salvador Correia, a Igreja da Sagrada Família e o Hospital Militar, e o Bairro do Maculusso, tinha ruas largas e arborizadas em quadrado com muitas residências espaçosas de dois andares onde viviam muitas famílias com filhos. 
 
 
Um trecho da antiga Rua de Cabral Moncada, ao fundo do Bairro do Café, 1960s

 
Era no Bairro do Café que se encontravam as instalações do Sport Luanda e Benfica, do Rádio Clube de Angola, da Associação dos Naturais de Angola (Anagola), da Escola Comercial Vicente Ferreira, a igreja da Sagrada Família, do cine-dancing Tropical, e a excelente mercearia António Paula de Carvalho, que tinha um serviço próprio de marçanos que entregavam ao domicílio as compras que os clientes faziam. 
 
O Bairro do Café tinha um grande sentimento bairrista que era cimentado pelos muitos cafés e esplanadas que tinha, onde a malta nova (e não só) se encontrava todos os dias. No Bairro do Café viviam famílias da "classe média", talvez um pouco mais acima da média de riqueza desafogada. As casas eram melhores e maiores, e os carros eram mais caros.
 
 
Vista parcial do Bairro do Café em Luanda na década de 1950s

 
Logo adjacente encontravam-se os bairros do Maculusso e da Vila Clotilde, que eram mais um bairro comum do que dois bairros separados. A vida nesses bairros andava à volta do Futebol Clube Vila Clotilde, da Liga Nacional Africana, e da sede do Instituto de Investigação Científica
 
 
Quotidiano no Bairro do Café, Livraria S. Luiz, 1959

 
Mais para cima ficava o bairro da Vila Alice, com moradias mais modernas e espaçadas, onde também residiam muitas famílias com filhos. A vida na Vila Alice centrava-se à volta da Escola Industrial de Luanda e do Liceu Feminino Dona Guiomar de Lencastre, desempenhando ainda um papel relevante a Fábrica de Tabacos Ultramarina, a Fábrica de Borracha "Macambira", o Cine-esplanada Império, e já nos anos Setenta, o Supermercado Jumbo
 

Casas de funcionários do Estado no Bairro da Vila Alice, 1950s


Abaixo do Bairro do Café na encosta das antigas barrocas encontrava-se o Bairro das Ingombotas. Este era um bairro um pouco mais antigo e com mais história e construído muito antes do ciclo do café e mais denso, se bem que com muitas residências construídas durante o ciclo do café. No Bairro das Ingombotas viviam famílias (africanas e portuguesas) grandes, de geralmente menores posses, mas antigas, o que resultava num bairrismo mais fincado.
 
 
Bairro das Ingombotas, Luanda, 1969. Em cima e à esquerda o Largo das Ingombotas e a Rua de Bartolomeu Dias, vendo-se também o vistoso prédio da antiga Cervejaria Roma.

 
Era no bairro das Ingombotas que estava situada Igreja do Carmo, a Câmara Municipal, e a Escola Nº. 7. O bairro das Ingombotas estava situado perto da Baixa, pois de facto era o bairro que ligava a cidade Baixa à (vova) Alta. Ele era delimitado pela Rua Luís de Camões a norte, pela Avenida Brito Godins a leste, e pela rua Serpa Pinto a oeste, e pela Rua Alves da Cunha e calçada do Liceu a sul.  
 
O Bairros dos Ferreiras, de geografia mais ou menos rectangular e relativamente perto da Baixa, estava situado entre a antiga Avenida Álvaro Ferreira (vulgo Avenida do Hospital) e a Rua Serpa Pinto, e desde a Rua Guilherme Capelo (até ao Largo da Maianga e a Rua do Conselheiro Júlio de Vilhena, que ligava o Largo Serpa Pinto ao Largo de Dom Afonso Henriques. Era um bairro calmo, não moderno, pois até tinha as ruas calcetadas. As as residências eram amplas e vistosas, todas com jardins bonitos, indicando uma certa riqueza. As ruas muito arborizadas. O Cinema Restauração, o Hospital Maria Pia, o Hospital Central, o governo do distrito de Luanda, o IASA (Instituto de Acção Social de Angola), o Sindicato dos Motoristas, a Polícia Judiciária, o Restaurante Tonga, a Farmácia Africana, a Pensão Sirius, e o Centro Médico da Cruz Vermelha eram as instituições principais e negócios que se situavam no Bairro dos Ferreiras.


O Bairro dos Ferreiras, ao longo da Avenida do Hospital, em Luanda, 1950s


O Bairro da Praia do Bispo era um bairro com residências construídas pelo Estado para os funcionários públicos junto à beira-mar situado abaixo do Bairro do Saneamento nos meados da década de Cinquenta. O bairro da Praia do Bispo estava  em certa medida isolado, pois era cercado por barrocas por todo o lado excepto do lado do mar, onde se encontrava a Ilha (e praia) da Chicala, que era uma língua de areia que se formou por assoreamento das areias vindas da Ilha do Mussulo, mais a sul. O bairro da Praia do Bispo tinha o seu clube e a sua igreja. 
 
Uma das características que identificava o bairro da Praia do Bispo era a consistência da arquitectura, pois todas as residências foram construídas no mesmo estilo arquitectónico. As ruas da Praia do Bispo não tinham nomes, pois eram simplesmente numeradas.
 
O nome do lugar "Praia do Bispo" vem do facto de que era aí que se situava durante mais de três séculos o paço episcopal de Luanda, onde morava o Bispo de Angola e Congo, abaixo das barrocas atrás do Palácio do Governador e junto à praia.
 
 
Residências de funcionários públicos no Bairro da Praia do Bispo, Luanda, 1960s

 
A Samba e a Barra da Corimba eram áreas muito antigas de Luanda, pois durante séculos os navios entravam na Baía de Luanda pelo lado sul, vindos da foz do rio Cuanza acima. A Samba era então uma aldeia de pescadores, e o Morro da Cruz (onde se situa hoje o Museu da Escravatura), ao sul da Corimba, era um ponto onde haviam muitos barracões para escravos, à espera de serem embarcados para as Américas. Aí foram baptizados milhões de escravos antes seguirem na grande viagem sem retorno nos tumbeiros que os haviam de levar a atravessar o tenebroso Kalunga (a Passagem do Meio).


A avenida marginal da Praia do Bispo que ligava a Samba à Ilha de Luanda,1960s. Esta foto foi  provavelmente tirada num Domingo, como atestam os muitos carros estacionados ao longo da avenida e à entrada da Ilha da Chicala (Praia do Sol), onde não podiam circular veículos.


Já no século XX, a Samba tornou-se uma área residencial apreciada onde viviam muitas famílias. Adjacente ao bairro da Samba estava a Samba Pequena (ou Bairro Azul) que se situava imediatamente a sul. Próximo da Samba encontravam-se os musseques do Morro da Samba e do Prenda, e o novo bairro da Precol. Durante a década de Sessenta estas áreas foram invadidas por um fluxo muito grande de casas em transgressão, normalmente de propriedade de famílias luandenses que não podiam esperar pelo lento processo de aprovação camarária. A Samba era essencialmente um bairro residencial de classe média; contudo era próximo da Samba que se encontrava o maior complexo hospital de Luanda (Hospital Maria Pia, Hospital Central, Escola de Enfermagem, Hospital das doenças infecto-contagiosas, Hospital do Malucos, Delegacia de Saúde, Teatro Anatómico, Faculdade de Medicina, e Casa Mortuária), bem como o cine esplanada Tivoli
 
O bairro da Samba estava situado a sul do bairro da Praia do Bispo, ao longo do Morro da Samba, e era delimitado a norte e a oeste pela rua Dom Afonso V, a este pela rua da Samba (ao longo dos hospitais), e a sul pela rua do Padre Baltazar Barreira.
 
Um aspecto do antigo Bairro da Samba, 1960s. Atrás estava o Morro da Samba.

 
Os bairros do Bungo e da Boavista eram os bairros à volta do porto de Luanda e da estação de caminhos de ferro. Um bom número dos seus residentes (famílias remediadas) trabalhavam no porto ou nos caminhos de ferro, mas muitos trabalhavam na Baixa como operários e empregados de comércio ou de escritório. Estes bairros eram também um pouco industriais, pois lá se encontravam muitas empresas industriais de Luanda. Era no Bungo que estava situado o estádio e sede do Clube Ferroviário de Angola.
 
Os bairros do Bungo e da Boavista estavam situados a oeste da Baixa da cidade, abaixo das barrocas do Miramar, e eram delimitados pela Avenida da Boavista e pela Estrada de Circumvalação.
 
 
Vista do Bairro do Bungo. à frente as Barrocas do Miramar; em baixo, o refeitório de trabalhadores do FASTA (Fundo de Acção Social dos Trabalhadores de Angola); à esquerda o Eixo Viário. A Baixa e a Baía ao fundo.

 
O bairro de São Paulo era um dos bairros mais activos de Luanda, onde viviam muitas famílias portuguesas e africanas. Era um bairro de fronteira da cidade de asfalto e era vizinho do Bairro Operário e do Bairro da CAOP. Logo a seguir ao bairro de São Paulo começavam os musseques. O bairro de São Paulo era um misto de residencial e comercial, onde se encontrava a Igreja de São Paulo, Missão de São Paulo e a cadeia de São Paulo.
 
 
A Igreja de São Paulo, no bairro de São Paulo em Luanda
 
 
O bairro de São Paulo era delimitado a oeste pelo bairro do Cruzeiro, a norte pela rua António Enes, a leste pela rua do Senado da Câmara, e a sul pela Rua Paiva Couceiro. 
 
O bairro da CAOP (Companhia da África Ocidental Portuguesa) construído nos fins da década de Cinquenta e princípios da década de Sessenta era uma pequena área residencial de residências modernas geminadas situadas entre a Rua Paiva Couceiro e Avenida do Brasil, e acima da Avenida dos Combatentes. Apesar da ebulição das vizinhas  rua Paiva Couceiro e avenida dos Combatentes, o bairro da CAOP era muito sossegado.

 
Vista do Bairro da CAOPem Luanda, 1960s

 
O crescimento acelerado de Luanda entre 1961 e 1975 deu lugar a que o processo regrado de urbanização da cidade não pudesse acompanhar o passo da procura de construções novas. Assim, começaram a aparecer alguns bairros novos em que as casas eram na maioria obras em transgressão (não devidamente autorizados pela Câmara Municipal), sem o suporte próprio de abastecimento de água e electricidade, esgotos, recolha de lixo, entrega de correio, e cobertura de protecção de bombeiros. Estes bairros incluiam entre outros o Bairros da Corimba, o Bairro Salazar, o Bairro Prenda, e o Bairro da Samba Grande, todos a sul de Luanda


Luanda, cidade de asfalto e musseques, 1970s


Como muitas outras cidades no mundo, a riqueza não era distribuída numa forma equitativa em Luanda, criando um fosso muito grande entre os mais ricos (em geral os brancos) e os mais pobres (em geral os africanos), assim Luanda tinha os seus bairros pobres que eram chamados musseques (ou muceques em português de Portugal), como Lisboa tinha os seus bairros de lata, Paris os seus bidonvilles, Rio de Janeiro as suas favelas, Buenos Aires as suas villas de miséria, Lourenço Marques os seus bairros de caniço, e Calcutá os seus bustees.
 
Os musseques em Luanda, onde vivia a maioria da população africana, tiveram sempre na sua origem duas forças urbanas em conflito e de pressão muito forte: a expansão sempre crescente da cidade "branca" e afluxo contínuo de populações rurais africanas, que fugiam da pobreza e do atraso do interior e procuravam em Luanda melhores oportunidades de vida. Nesse processo de expansão urbana baseada na ocupação de terras de musseques, muitos musseques se formaram e mais tarde desapareceram, com é o caso do antigo Musseque Braga, que até à década de Quarenta existia acima da Maianga e deu lugar ao Bairro do Café.


Vista antiga do cimo do Bairro das Ingombotas em Luanda, 1910s. Em quimbundo, "Ingombota" quer dizer lugar de gente perseguida.

 
Os musseques, palavra derivada do kimbundo mu (onde) + seke (areia), situavam-se por norma na periferia, e todos os bairros de Luanda se construiram "empurrando" os musseques sempre para a periferia cada vez mais afastada do centro da cidade. Em português (de Portugal), a palavra escrevia-se "muceque".

Como exemplo, durante alguns séculos os terrenos que vieram dar origem aos bairros das Ingombotas e Maculusso, eram de facto musseques, onde se encontravam os quintais dos escravos durante os trezentos e cinquenta anos de escravatura. Este processo de crescimento urbano de "empurrar" os musseques para a periferia mais afastada ocorria por norma sem qualquer reconhecimento ou indeminização dos residentes tradicionais africanos pelo uso da terra por parte dos novos "proprietários".
 
 
Uma rua do Musseque Sambizanga, 1950s
 
 
Manuel da Costa Lobo, na sua preciosa obra "Subsidios Para a História de Luanda", edição do autor, Lisboa, 1967, descreve brevemente os bairros de Luanda antiga, que pela sua importância, passo a transcrever (de direcção norte para sul) com adaptações para reflectir locais actuais:

Bairro das Quipacas - onde está situada a estação (ferroviária) da Cidade Baixa
Nazaré - Onde está a Ermida (de Nossa Senhora) da Nazaré
Bungo - Desde Nazaré até à Kaponta (onde se encontra o actual edifício do Banco Nacional de Angola)
Kaponta - onde estava situado o antigo mercado municipal
Katomba - onde foi a antigo Largo de António de Oliveira Cadornega (que ainda não sei onde era)
Mutamba - Actual Largo da Mutamba
Mazuika - nas trazeiras da Igreja do Carmo
Kafako - área em frente à Universidade Católica (antigo Colégio de das Irmãs de São José de Cluny), incluindo os terrenos adjacentes ao antigo Museu de Angola e da Missão Metodista até à Rua Luis de Camões, abaixo do antigo Mercado do Kinaxixe.
Maculusso - Situado no actual bairro do mesmo nome. Maculusso é um termo kimbundo que significa cruzes. Era o lugar onde antigamente se enterravam os indígenas e se punham cruzes sepulcrais.
Ingombotas - Localizado no bairro do mesmo nome
Sangandombe - Onde é hoje o Bairro dos Ferreiras - por detrás do edificio das Obras Públicas (em frente ao antigo Cinema Restauração) e onde, antigamente viviam os indígenas oleiros que fabricavam bilhas de barro preto.
Quibando - Local onde está agora o antigo Cine-Teatro Nacional
Katari - Onde é actualmente o Largo do Pelourinho. Em quimbundo Katari quer dizer lugar de suplício.
Remédios - nas imediações da actual Igeja de Nossa Senhora dos Remédios
Quitanda - Local onde se situava a antiga Quitanda-Grande, defronte do actual Largo Luis Lopes de Sequeira, junto à actual Avenida Nzinga Mbande
Coqueiros - Localizado no actual bairro do mesmo nome
Terreiro - Onde hoje fica o Largo Infante Dom Henrique
S. Miguel - nas proximidades da Fortaleza de S. Miguel
Misericórdia - nas imediações da antiga Igreja de Nossa Senhora da Conceição
Maianga - Localizado no bairro do mesmo nome, atrás do Hospital.

Luanda era rodeada de musseques em 1975, sendo os principais Cazenga, Lixeira, Catambor, Mota, Rangel, Marçal, Sambizanga, Cemitério Novo, Bananeira, Zangado, Palanca, Golfe, Calemba, Cidadela, Caputo, e Adriano Moreira, onde viviam mais de duzentas mil pessoas. 
 
Apesar de não serem chamados musseques, na orla litoral havia alguns bairros onde predominavam  comunidades de pescadores axiluanda, como a aldeia de Nossa Senhora do Cabo (na Ilha de Luanda), Samba Grande e Samba Pequena, e já nos anos Sessenta, a Ilha da Chicala, que mantinham as suas tradições e identidade própria, e não eram tanto reservas de mão-de-obra para a cidade do asfalto como os outros musseques o eram.
 
 
Pescador Axiluanda em trajo tradicional, Luanda, 1960s
 
 
Se bem que a maioria da população dos musseques eram luandinos, em cada musseque podiam encontrar-se núcleos (vizinhanças) de residentes oriundos das mesmas áreas rurais de Angola que viviam em comunidades com afinidades étnicas, geralmente dos de distritos ou áreas rurais adjacentes a Luanda, como Icolo-e-Bengo, Catete, Caxito, Quibala, Libolo, Malange, Dembos, Bailundo, e até Cabo Verde. Isto devia-se ao facto de geralmente nos primeiros tempos, o imigrante (geralmente o homem) de uma área rural procurar juntar-se a parentes e conterrâneos para mais facilmente poder receber o apoio social que precisava no novo mundo urbano.

A casa típica num musseque era feita de pau-a-pique (paus entrelaçados) coberta a barro ou  madeira com telhado de zinco ou outros materiais e chão de terra ou de cimento. Na maioria dos casos a casa era construída pelo própria família, com um ou dois quartos, sala de jantar, e em menos casos, cozinha e sala de visitas, e um pequeno quintal. A grande maioria das casas não tinham casa de banho. Esta era por norma numa pequena dependência anexa com uma selha para higiene e lavagem pessoal  A latrina era por norma um buraco no quintal com um assento de cimento ou de madeira, a que chamavam fossa seca. O quintal era vedado com aduelas de barril, tábuas de caixote, placas de madeira, chapas de aluminio, ou placas de cartão. 
 
 
Um musseque de Luanda, 1970s
 
 
A grande maioria das casas nos musseques não tinha água canalizada, sendo esta somente disponível em fontanários e chafarizes públicos fornecidos pelas autoridades municipais. A falta de água canalizada representava um grande desafio para as familias, pois para abastecer a casa de água, as mulheres e crianças tinham de ficar em bichas longas de várias horas para conseguir cinco ou dez litros de água para casa, o que levava muitas familias a comprar água directamente ao comerciante mais próximo a preços altos. 

Por outro lado, na época das chuvas, estas criavam lagoas muito grandes nos musseques, dificultando ao extremo a vida dos residentes. Para as crianças, contudo, essas lagoas eram a alternativa para as praias da Ilha.

A densidade da população nos musseques era muito elevada, sendo as ruas, ou melhor vielas, de terra batida e de traçado e largura muito irregular, sem sistema de esgotos para esvaziamento das águas da chuva, o que causava grandes problemas na estação das chuvas. Por norma, as casas nos musseques não tinham acesso a energia eléctrica. 
 
Outro grande problema de sanidade era a falta de recolha de lixo pelas autoridades municipais, o que levava os residentes a disporem dos resíduos de lixo em certas áreas da vizinhança, o que devido à sua acumulação e cheiro fétido, representava uma fonte de doença para todos na comunidade.
 
Não era de admirar que tais condições de saúde pública tão precárias nos musseques  atraíssem tantas epidemias. Com efeito, o paludismo (malária) era endémico, e outras epidemias de tifo, paralisia infantil (polio), febre amarela, e cólera grassaram Luanda repetidas vezes, causando elevado número de vítimas, especialmente entre velhos e crianças.
 
Para complicar as condições de pobreza, não havia escolas nos musseques de Luanda, deixando a maioria das crianças e famílias presas a essa malha de pobreza crónica.
 
Desde os meados da década de Cinquenta até ao 25 de Abril de 1974 que as populações dos musseques em Luanda eram assoladas constantemente por rusgas violentas conduzidas pela PSP (Polícia de Segurança Pública) e pela PIDE, com o objectivo de prender pessoas que não tivessem documentos (Caderneta Indígena), pessoas nativas que parecessem suspeitas de serem simpatizantes dos grupos nacionalistas, membros activamente envolvidos nos movimentos de libertação, reprimir vadios, ladrões ou receptores de artigos roubados, desertores e criminosos. 
 
O Administrador de bairro Poeira ficou famoso na memória social de Luanda pela dureza com que efectuava as rusgas nos musseques feitas com a ajuda de cipaios, que instauraram um verdadeiro regime de terror nos musseques de Luanda na primeira metade da década de Cinquenta.

 
A famigerada Caderneta Indígena, cujo porte era obrigatório para pessoas indígenas não assimiladas em Angola até Junho de 1961. Quem não fosse acompanhado da sua Caderneta Indígena era sumáriamente preso pela Polícia e muitas vezes espancado.

 
O Bairro Operário, ou simplesmente B.O. como era popularmente conhecido, não era ao mesmo tempo um bairro convencional nem um musseque típico. As suas ruas eram de traçado direito e largas, e em quarteirões em quadrícula. As casas eram de traçado convencional eram feitas de adobe em estrutura de madeira, com telhado a zinco e pequeno quintal. Contudo, o Bairro Operário não tinha água canalizada nem electricidade,e as ruas não eram asfaltadas nem tinham iluminação pública.
 
 
Casa onde viveu durante os 1940s a família do Dr. Agostinho Neto no Bairro Operário em Luanda, quando ele frequentou o Liceu Salvador Correia

 
O Bairro Operário (B.O.) foi construído durante as duas primeiras dédadas do Séc. XX para albergar trabalhadores africanos empregados na construção da estação de tratamento de água e da electrificação de Luanda. Com o fim destes dois grandes projectos, muitas famílias de empregados mudaram-se para outras áreas e o Bairro Operário começou a receber muitas famílias africanas que se tinham mudado do Bairro das Ingombotas a partir de 1920, devido não só à pressão da expansão da cidade do asfalto, como também ao crescente empobrecimento das famílias tradicionais africanas (negras e mestiças) que entretanto passaram a perder com a concorrência de maior número de colonos portugueses brancos para a maioria dos empregos tradicionais, que passaram a ser preferidos pelo governo colonial e pela sociedade luandense. 
 
Talvez pela pobreza e pela falta de meios para atender a desgraças inesperadas na família, muitos residentes africanos nos musseques e na cidade do asfalto estavam organizados em sociedades de auxílio mútuo, ou em sociedades de caracter recreativo e espirituail. De entre estas salientava-se a Sociedade Tristeza Carmona - Alegria Américo Tomás, famosa pelas suas massembas, em que as damas em trajo Bessangana e os cavalheiros trajados de fato e casaco, dançavam as melhores umbigadas. óscar Ribas, na sua obra "Izomba" descreve em muito detalhe essas sociedades e o seu papel fundamental na sociedade luandense de então.
 
 
Membros da Sociedade recreativa Tristeza Carmona - Alegria Américo Tomás, em frente à sua sede no Bairro Operário, 1960s

 
É de lembrar aqui que até ao governo de Norton de Matos (1920) as famílias crioulas de Luanda constituíam de facto uma elite social devido aos seus níveis mais elevados de riqueza e educação, comparados com a maioria da população africana e ocupando uma posição económica e social de relevo em relação aos degredados, colonos, e soldados portugueses, muitos deles analfabetos. 

O alto-comissário Norton de Matos reverteu esta realidade secular, promovendo a imigração de portugueses brancos (de Portugal), apadrinhando a não misceginação de culturas, substituindo os africanos dos lugares de chefia na burocracia colonial, e criando uma classificação subalterna para os portugueses brancos e mestiços nascidos em Angola.
 
Durante o ciclo do café, a imigração europeia aumentou substancialmente depois da Segunda Guerra mundial, vindo a aumentar ainda mais depois do início da guerra de libertação nacional em 1961. Este fluxo de europeus acabou por destruirir a posição social e económica tradicional das antigas familias africanas de Luanda.
 
Com a chegada a Luanda de um número crescente de soldados portugueses a partir de 1961 e até 1974, a prostituição de raparigas de familias pobres africanas aumentou muito. Este problema era particularmente agudo em alguns musseques, como o Bairro Operário (o famoso BO), que passaram a ser conhecidos mais como bairros de prostituição do que propriamente área residenciais tradicionais. 
 
Contudo, a prostituição não se limitava ao B.O., pois haviam em Luanda muitos clubes noturnos e alguns bordeis ilegais, que atendiam às necessidades e desejos sexuais de homens solteiros e não só. Já que estamos neste tópico, eu lembro-me que havia uma prostituta muito cara e famosa em Luanda, a chamada Marabunta, (de nome próprio Gracinda, e natural da Ilha da Madeira) que servia apenas clientes com muito dinheiro (fazendeiros do mato). Ela morava na Avenida dos Combatentes (Comandante Valodia) e tinha um carro descapotável Chevrolet Corvette muito vistoso de cor vermelha (ou amarelo vivo, já não me lembro exactamente) muito conhecido em Luanda.
 
 
Um aspecto da antiga Avenida Paulo Dias de Novais (Marginal) em 1972

 
Entre 1961 e 1974 Luanda cresceu muito como cidade. Não só prédios novos apareceram em todo o lado, como muitos bairros novos construídos, cada vez mais longe do centro da cidade. Contudo, é de de notar, que de uma forma geral, as amplas moradias individuais da década de Cinquenta deram lugar a prédios de apartamentos nas décadas de Sessenta e Setenta, podendo dizer-se que Luanda estava a crescer mais "para cima" do que espalhar-se para os lados. 
 
Esta explosão urbana não foi muito ordenada, pois apareceram prédios muito altos em ruas muito estreitas, sem capacidade adequada para estacionamento de carros, tornando muitas vezes essas ruas em becos escuros de trânsito caótico.  Muitos dos prédios para habitação foram construídos por duas cooperativas de habitação - "O Nosso Abrigo" e "O Lar do Namibe", que devido à ausência de facilidades de crédito bancário, se esforçavam por preencher as necessidades.

 
Cartão de Namoro
 
Para os rapazes mais tímidos na Luanda de 1950s e 1960s era fácil encontrar nas livrarias e nas lojas o cartão de pedido de namoro, que eu, de facto, nunca vi ninguém usar. Este cartão tão popular, às vezes perfurmado e com um bouquet de rosas engravado em relevo em prateado, dourado, ou em côr-de-rosa,  reduzia a zero a tremenda coragem e esforço que era preciso para pedir namoro a uma moça em pessoa. Tudo o que o rapaz precisava era de comprar o cartão e mandá-lo à donzela. Ela apenas tinha que dobrar o canto superior direito (sim) ou esquerdo (não), ou não dobrar canto nenhum, para deixar o coração do rapaz a arder ainda mais por mais tempo...O cartão era vendido já com o necessário envelope com lugar para o endereço do remetente.
 
 
Cartão de pedido de namoro para almas tímidas... Este é um exemplo de um cartão mais antigo. Os que me lembro diziam "Por si meu coração sofre"
 
 
Este cartão inspirou o poeta e nacionalista Viriato Cruz a escrever um dos poemas mais icónicos do meio luandense "Namoro", que passo a transcrever abaixo apenas algumas linhas:
 
Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse que ela tinha
um sorriso luminoso tão quente e gaiato
 
...
...
 
Mandei-lhe essa carta
e ela disse que não.
 
Mandei-lhe um cartão 
que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM , noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou
 
...
...
 
Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
Pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
e ela disse não.
 
...
...
 
Andei barbado, sujo e descalço
como um mona-ngamba
Procuraram por mim
«- Não viu... (ai, não viu...?) não viu Benjamim?»
E perdido me deram no Morro da Samba.
 
Para me distrair
levaram-me ao baile do Sô Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso às moças mais lindas do Bairro Operário
 
Tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voámos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: «Aí, Benjamim!»
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e la disse que sim.

 
14. Bairro da Maianga
 
 
Vista do Bairro da Maianga em 1970. A Rua 28 de Maio (Karipande) é a rua arborizada à esquerda
 
 
Nos anos da década de Sessenta, o Bairro da Maianga era um bairro de famílias europeis e africanas relativamente pobres e remediadas mas de grandes pergaminhos em Luanda. Os primeiros registos históricos sobre a área da Maianga remontam ao tempo do Governador Manuel Cerveira Pereira em 1607. Se bem que um dos bairros mais antigos de Luanda, o bairro da Maianga começou a urbanizar-se somente na década de 1930, e tinha à sua volta um número de bairros que se fundaram mais tarde em que as famílias tinham muito mais posses - Bairro do Café, Bairro de Alvalade, Cidade Alta, Samba) e menos posses (Catambor e Prenda), mas nenhum deles tinham as tradições e o bairrismo da Maianga. 
 
Atrás de onde vivíamos havia uma Zona Verde do Rio Sêco muito grande e muito arborizada ao longo do Rio Sêco, que funcionava como um pulmão verde entre os bairros do Café (Rua Guilherme Capelo, actual Rua Kwame Nkrumah) e Rua Cabral Moncada (actual Rua Eduardo Mondlane), Maianga (Rua 28 de Maio, actual Rua Karipande) e perímetro abaixo do Bairro de Alvalade.
 
 
O antigo Hospital Maria Pia em Luanda, onde Henrique de Carvalho serviu como capataz de obras  (1865-1883) no local do antigo Convento de São José, ao cimo da Samba
 
 
Era na encosta da Maianga, que separava a área baixa de Luanda do plateau acima dos bairro de Alvalade e Prenda (o plateau onde se situa o Aeroporto de Luanda) que se situavam em tempos passados duas das três famosas e históricas cacimbas (poço/fonte de água), a saber, a Maianga do Rei, a Maianga do Povo, e a Lagoa dos Elefantes. De facto, o termo "Maianga" tem origem no termo Kimbundo "Muazanga / Mayanga", o que significa lagoa (lençol de água/lagoa/charco criado pela água da chuva). 


A antiga Maianga do Rei

 
A mais antiga cacimba pública (maianga) de Luanda foi a Maianga do Rei, que foi estabelecida pelo Governador Manuel Cerveira Pereira, quando governou Angola entre 1603-07 na encosta do Prenda (a oeste da antiga Avenida Lisboa) para fornecer água aos moradores portugueses da Cidade Alta de Luanda, e para servir o antigo Convento de São José, onde mais tarde se veio a construir o Hospital Maria Pia (actual Hospital Josefina Machel), no alto da Samba.

A segunda cacimba, a Maianga do Povo, foi criada pelo Governador Salvador Correia de Sá e Benevides, quando ele governou Angola entre 1648 e 1651, situada no museque do Catambor já perto da Samba, mais acima na antiga Avenida António Barroso (hoje Avenida Marien Ngouabi, acima do Supermerado Martal (Martins & Almeida, ou mesmo Almeida das Vacas de antigamente).

 
A antiga Maianga do Povo, restaurada em 1949

 
O excesso de água das duas maiangas (do Rei e do Povo) corria para a Lagoa dos Elefantes, já situada na Samba ao longo do percurso do que viria a ser mais tarde a parte mais baixa do Rio Seco.

 
Uma fotografia mais antiga da "Mayenga do Povo"

 
Infelizmente, quando nós lá vivemos nos anos Sessenta, as cacimbas da Maianga já não funcionavam, pois tinham sido desactivadas em 1948 e designadas como património histórico em 1949, como resultado do fervor à volta das celebrações do Tricentenário da Restauração de Angola em 1948. 
 
Mais tarde, já depois da Independência, ambos os monumentos foram esquecidos e foram eventualmente absorvidos pela expansão urbana e parcialmente destruídos, dos quais infelizmente restam apenas alguns vestígios, conforme a figura abaixo.
 
 
Vestígios da Maianga do Povo, agora absorvida pela expansão urbana e não defendida como património histórico de Luanda

 
A terceira cacimba foi a Lagoa do Quinaxixe, estabelecida pelos padres Carmelitas Descalços em 1670, acima dado Convento e Igreja do Carmo, que fornecia água aos residentes das Ingombotas e Maculusso de então. Foi no bairro das Ingombotas que se estabeleceram os primeiros muceques de Luanda e os grandes quintais onde se guardavam os escravos em barracões. Mais acima, já no plateau, encontrava-se o grande cemitério de escravos do Maculusso (das Cruzes - Ma Culusses). 

Já que nestamos no tópico de abastecimento de água a Luanda de outros tempos, cabe referir que a maior parte da água usada pelos residentes da Baixa de Luanda vinha do Rio Bengo, a cerca de vinte quilómetros norte, que era trazida até à cidade em barris grandes e puxada a bois ou por escravos.
 
Quando eu morei no bairro da Maianga, havia um outro poço privado de água (não para consumo público da população, pois em tempos idos se vendia água ao barril), que se situava logo abaixo do Largo da Maianga, no princípio da antiga Avenida António Barroso, não muito longe de onde era a antiga estação dos Correios, no local da antiga Horta do Raposo (também já inexistente), onde eu um dia encontrei um lagarto muito grande (com mais de um metro de comprimento) morto no terreno, mais do tamanho de um iguana que um lagarto normal.
 

Universo de Amigos e Vizinhos na Maianga
 
Nós morávamos numa casa à entrada da Rua 28 de Maio (nº 9). O nome da rua era em evocação à revolta liderada pelo general Sidónio Pais que estabeleceu o regime do Estado Novo, que teve lugar em Lisboa ea 28 de Maio de 1926, liderado pelo Dr. Oliveira Salazar depois de 1932.
 
Muito embora mais de sessenta e cinco anos se tenham passado, vou tentar descrever em pormenor o universo dos nossos vizinhos e amigos (quem vivia e aonde nessa altura em que lá vivemos), ciente de que me possa estar a esquecer de alguém, pelo que peço desde já desculpa pela omissão não intencionada e agradeço também desde que me ajudem na correcção.
 
A nossa casa era geminada e alugada e o senhorio era o Sr. Alípio Pires, então já reformado depois de ter trabalhado muitos anos para o Tribunal da Relação de Luanda. Ele tinha duas filhas mestiças talvez dez anos (ou mais) mais velhas do que nós. Nunca soube o nome delas. A nossa casa tinha um pequeno quintal à frente e outro atrás (ambos acimentados), este também pequeno e com uma goiabeira plantada no centro. Atrás do quintal havia um anexo que estava arrendado a uma família (pai, mãe e filha) em que o pai trabalhava na construção civil. Infelizmente, já não me lembro do nome deles.
 
À entrada da rua junto à bifurcação com a Rua 5 de Outubro, do lado esquerdo de quem entra do lado da rua da nossa casa) viviam os o Carlos Russo e irmã Laura e o Jorge Pinho que era hospedado e que a família vivia um pouco a sul da Ilha do Mussulo. O Carlos Russo e a Laura eram alunos da Escola Comercial, e o Jorge Pinho era um aluno muito bom do Instituto Industrial de Luanda. O nome da rua 5 de Outubro era em evocação à revolta de 5 de Outubro de 1910, que acabou com a monarquia e estabeleceu o sistema republicano em Portugal.
 
O Afonso (de alcunha "Fininho" porque era muito magro e alto) e a sua irmã (que não me lembro do nome mas que era muito bonita e reservada) moravam no rés-do-chã da próxima casa que era geminada. Não me lembro das famílias que moravam nas duas moradias no primeiro andar. A próxima casa era a nossa, que era geminada. O Joca Oliveira morava no nº. 7 e nós morávamos no nº.9. O pai do Joca, era o Sr. Hernani Oliveira que tinha uma oficina de reparação de automóveis (bate-chapa), e a Mãe do Joca era a Dona Carolina (ambos falecidos há já muitos anos), que era muito nossa amiga e muito nos ajudou. 
 
Na casa imediatamente a seguir à nossa viveu em 1961 e parte de 1962 o Morgado, que depois a família se mudou para a Avenida Lisboa, nuns anexos, perto do Largo da Maianga e mesmo opostos à Cervejeria Mexicana. Esses anexos foram demolidos mais tarde para dar lugar a um prédio grande em arco a acompanhar o Largo da Maianga. A mãe do Morgado era enfermeira e o pai era escultor de renome, natural da Ilha da Madeira.

Nuns anexos atrás da casa do Sr. Alípio Pires vivia o Dimas e a sua familia. O pai era sargento do exército e ele tinha um irmão mais novo de quem não me lembro do nome. Na casa (muito bonita) a seguir vivia uma família de bem que não tinha crianças; vivia lá uma senhora de idade que era parente dos donos da Casa Popular na Baixa de Luanda. Logo a seguir vivia a Isabel (da nossa idade) que era filha única e que não brincava muito com as crianças da vizinhança. Na ca sa a seguir vivia o Américo e a irmã que eram mais velhos que nós uns seis ou oito anos. A seguir era a Carpintaria e Serralharia Padinha que empregava muita gente. 
 

Estátua de Salvador Correia de Sá e Benevides, antigo Largo do Palácio, 1960s

 
Logo a seguir era a casa do Alfredo (Frédito) Figueiredo (da nossa idade) e da irmã Filomena (Bany), que era uns quatro ou cinco anos mais velha do que nós. O pai do Alfredo era o Sr. Figueiredo, já nos seus sessenta e tal anos. O Sr. Figueiredo, que era mestiço, andava sempre de fato, chapéu e bengala, sempre muito formal, e comandava o respeito de todos nós. A família Freitas (irmãos Vítor e Fernando) viviam na próxima casa. O Sr. Freitas, pai do Miúdo Vítor, era muito magrinho, fumava muito, e tinha um quiosque no Largo da Maianga, onde vendia jornais, revistas, e tabacos. O Vítor era da nossa idade, mas o Fernando era mais velho uns quatro ou cinco anos.

A próxima casa era da família Brito (José, Xico, e Milú). A casa situava-se num grande quintal, pois o alinhamento antigo da Rua 28 de Maio não era direito, mas virava um pouco para a esquerda. Em 1966 ou 67, a família Brito mudou-se para a Samba Pequena. Logo a seguir era a casa do José Luís Bernardino e irmã Lídia (ambos da nossa idade). O pai, o Sr. Bernardino era alentejano de Almodôvar e trabalhava para a Câmara Municipal de Luanda. 
 
Duas casa depois e antes de se virar para o primeiro beco da Rua 28 de Maio, viviam duas irmãs (que nós chamávamos Misses da Maianga) que eram tias do nosso saudoso amigo Orlando Malhão Maio, que vivia na Praia do Bispo, mas que vinha com muita frequência à Maianga. O Orlando foi um colega chegado meu, pois fomos colegas durante cinco anos no Liceu Paulo Dias de Novais e passávamos muito tempo juntos. O Orlando mais tarde arranjou uma mota antiga de marca "Ìndia" de cor preta, que captava a atenção de todos nós. Anos mais tarde, ele e a Manuela Moreira de Melo casaram e foram viver para Portugal depois de 1975. Lamentavelmente, soube que o Orlando faleceu recentemente.
 
No beco nº 1 da Rua 28 de Maio viviam várias famílias com filhos da nossa idade. Quem subia e à esquerda havia uma prédio de dois andares em que no rés-do-chão vivia uma família com duas filhas e um filho mais ou menos da nossa idade (dos quais infelizmente não me consigo lembrar dos nomes, Miúdo Zé?), e no primeiro andar vivia a Manuela (muito bonita), que o pai tinha um negócio de estaleiro para construção de traineiras e outros barcos na Ilha de Luanda. 
 
Na próxima casa vivia a família Lopes (Paulette, talvez dois ou três anos mais velha do que nós), o Predocas, e a irmã mais nova, que era também muito reservada e bonita, mas de que não me consigo lembrar agora do seu nome). O Pedrocas era um bom compincha para qualquer brincadeira. Duarante o período do Governo de Transição  e logo a seguir à Independência, a Paulette tornou-se uma pessoa muito destacada no aparelho político do MPLA.
 
Ainda no beco nº 1 da rua 28 de Maio vivia uma senhora, a Dona Ana, que fornecia ternos (comida) e que nós usámos quando a minha Mãe trabalhou para a Companhia Comercial Oriental na Avenida Marginal (perto da Igreja da Nazaré). Mais abaixo, vivia a a família da Nela (que nós chamávamos "Nela Fininha", pois era muito magra e alta). 
 
Já de volta à Rua 28 de Maio, duas casas depois vivia a família Lacerda, que tinham dois filhos (um filho, o António, e uma filha) só um pouco mais novos do que nós. O Sr. Lacerda tinha uma oficina de reparação de carros e motorizadas, e foi durante alguns anos presidente da direcção do Sporting Clube da Maianga ao qual trouxe muito dinamismo.
 
No segundo beco da Rua 28 de Maio (também chamado o Beco do Braga, que antigamente dava acesso ao Musseque do Braga, no Bairro do Café) vivia o Tomané, um amigo meu muito chegado que muitos bons tempos passámos juntos. O Tomané tinha uma personalidade muito jovial e estava sempre pronto para qualquer brincadeira. Ainda no mesmo beco vivia a família do Boléo, que era talvez dois anos mais novo do que nós. Ele tinha uma irmã mais nova que não me lembro do nome. E assim chegámos ao fim do lado esquerdo da Rua 28 de Maio. Para além do fim da rua ficava a zona verde do Rio Seco.
 
No lado oposto da rua à nossa casa, ou melhor dizendo, ainda na rua 5 de Outubro, viviam os irmãos Nabais (Rui e Tito, mais velhos que nós uns anos, e exímios nadadores do Clube Nun'Álvares de Luanda), e no próximo quarteirão o Jajão e a Titocas (já falecida), que eram amigos muito chegados do meu irmão Rui. 
 
Já propriamente na nossa rua e em frente à nossa casa vivia o Jorge Tavares de Almeida, mais velho uns anos do que nós, mas com quem nunca estabelecemos amizade. Na esquina do próximo quarteirão vivia a família do Rui Humberto Cabral (Russo), que mais tarde (em 1965, não estou bem certo) se mudou para o Bairro da Cuca. 
 
No quintal da casa do Rui Cabral nós fizémos uma experiência muito especial. Baseado na invenção dos irmãos Lumiere (inventores do projector de filmes), nós fizemos uma máquina de projectar cinema, baseada numa caixa de cartão com uma câmara escura, um projector de luz, e uma lente, o que nos permitia projectar imagens de desenhos animados que tinhamos desenhado em folhas de papel. Esta experiência foi muito notável, pois com uma caixa de papelão, uma lente (tirada de uma garrafa de refrigerante), e uma lâmpada, e algumas páginas brancas com desenhos a preto feitos por nós próprios, nós conseguimos fazer os nossos filmes.
 
Nós (os miúdos da 28 de Maio) éramos muito engenhosos pois fazíamos os nossos próprios brinquedos como arcos de aduela de barril, trotinetas e carros de rolamentos de madeira, enquanto que nos bairros à nossa volta os rapazes e raparigas com mais posses já tinham bicicletas. 

O popular sinaleiro do Largo da Maianga

 
Em 1964/65 a família Anapaz Pereira mudou-se para essa casa, depois da família Cabral ter mudado para o Bairro da Cuca. Os Anapaz Pereira tinham um filho, o Carlos, mais conhecido por Curibita, e a irmã, que não me consigo lembrar do nome, ambos da nossa idade, e, se não me engano, um irmão mais novo. Como amigo do bairro, o Curitiba substituiu bem o Rui Cabral, pois tornou-se um amigo popular entre todos. Como eu, ele andava também no Liceu Paulo Dias de Novais, e assim fomos muitas vezes juntos para o liceu. A irmã do Curibita era reservada e muito bonita. A família Anapaz era uma das grandes famílias africanas antigas de Luanda, e conforme o que a minha mãe então me disse, uma avó do Curibita foi uma professora de música e pianista destacada na Luanda nas décadas de Trinta e Quarenta. 
 
Na próxima casa viviam os irmãos Borralho, que na altura tinham emigrado recentemente de Portugal. Infelizmente, já não me lembro dos seus nomes. Eles eram dois irmão da nossa idade, que trabalhavam já (não iam à escola), e já chegaram um pouco tarde (talvez em 1966/67). Mesmo assim, eles alinhavam muito em algumas brincadeiras, mas não eram parte do grupo central da malta da 28 de Maio. 
 
Na próxima casa, uma casa de primeiro andar, vivia o Inglês, que era uns anos mais velho do que nós, e que trabalhava com frequência como bilheteiro nas sessões de cinema do Sporting Clube da Maianga.
 
Numa casa geminada a seguir, moravam os irmãos Soto Maior (Tó e Darío), que eram ligeiramente mais velhos do que nós. O Darío era um amigo chegado do meu irmão Rui, e o Tó era assistente técnico de algumas modalidades de desporto no Sporting Clube da Maianga. Ele trabalhava no CITA (Centro de Informação e Turismo de Angola) e sempre me deu muitos livros e revistas publicados pelo CITA e pela AGU (Agência Geral do Ultramar) sobre Angola em particular, muitos quais guardo hoje como tesouro. 

Na casa a seguir aos Soto Maior morava o Nélito, que era ligeiramente mais novo do que nós (dois ou três anos). Ele andava também no Liceu Paulo Dias, pelo que muitas vezes fomos juntos para o Liceu. Talvez pela sua idade, o Nélito alinhavaem algumas das brincadeiras, mas não em todas.
 
 
Vista do antigo Palácio do Governador-Geral, na Cidade Alta, Luanda, 1960s

 
Na próxima casa geminada moravam as pérolas da 28 de Maio - as irmãs Manuela e Olga (Moreira de Melo), que eram o sonho de todos os rapazes da Rua. Elas eram muito simpáticas, de personalidade muito radiante, e extraordinariamente bonitas, e davam-se bem com todos. A família Moreira de Melo veio de Braga (Portugal) para Luanda em 1963/64, e o Pai trabalhava para a Casa da Sorte e a Mãe era modista, ambos muito simpáticos (e pacientes).
 
Na próxima casa viviam os manos Zeca e Fátinha Silva. O Pai, o Sr. Silva, tinha uma oficina de bate-chapa de carros no quintal atrás ca casa da Manuela e da Olga, e a Mãe, a Dona Cesaltina, era muito nossa amiga, pois passava tempo todos os dias a conversar connosco em frente à entrada da casa deles. O Zeca era da minha idade e andou na Escola Industrial, mas deixou os estudos e começou a trabalhar na oficina do pai ainda muito cedo. A Fatinha andou no Liceu Salvador Correia até ao 5º ano.
 
Era em frente à casa do Zeca e debaixo de uma árvore muito frondosa era o local onde nós tinhamos corridas de carrinhos (Dinky Toys e Corgi Toys) e onde tínhamos também os buracos no chão do passeio para jogar  à bilha (berlinde). Era ainda à frente das casas do Zeca e da Fátinha e das manas Manuela e Olga que o grupo mais restrito de amigos da rua 28 de Maio se encontrava todos os dias ao fim da tarde. 
 
A Fátinha foi sempre a amiga mais especial para mim e com quem mais tempo passava a conversar. É com grande saudade que recordo as nossas conversas e a Fatinha é uma das pessoas que mais senti a falta durante estes anos todos. Logo que atingiu a idade necessária, o Zeca comprou um Fiat 124 (station wagon) branco muito bonito. Infelizmente, O Zeca, alguns anos depois de regressar a Portugal em 1974 foi vítima de um acidente que o deixou incapacitado de levar uma vida normal para o resto da sua vida. Há alguns anos atrás recebi a triste notícia do seu falecimento.
 
Como rapazes, nós procurávamos a aventura e o perigo. Recordo que uma vez decidimos (Eu, o Zeca, o Vítor, e o Bernardino) ir acampar no Morro da Fortaleza, com o objectivo de caçar pássaros, onde na verdura da encosta muitas espécies de pássaros, incluindo periquitos de várias cores. Assim, fizémos os planos e completámos a logística, levámos visgo, fisgas e armas de chumbo, uma tenda, e alimentos para dois dias, e lá fomos. 
 
Como não tinha uma arma de chumbo, eu levei a minha fisga, devida mente construída por mim para o efeito. Como bons caçadores, nós não levámos em conta que havia no dito Morro da Fortaleza muitos cactos cheios de picos muito pequenos, quase invisíveis, cujas flores tinham uns picos muito pequenos ainda muito mais muito penetrantes. Com o entusiamo de chegar o mais próximo possível aos pássaros para pormos visgo (cola) nos ramos das árbores onde eles se encontravam, todos nós ficámos todos picados pelos ditos cactos, ao qual eu no meu caso não paguei muita importância. 
 
Três dias depois, eu acordei de manhã todo inchado com uma febre altíssima, não sabendo a causa. A minha Mãe levou-me imediatamente ao banco de urgência do Hospital Central, onde pacientemente os enfermeiros tiraram uma quantidade grande de picos de flor de cacto, quase invisíveis, mas à mostra em todo o corpo. O médico disse no fim que tinha sido uma infecção generalizada causada pelos ditos micro-picos, e que podia ter sido muito mais séria, não tivéssemos nós vindo ao hospital imediatamente. 
 

A entrada do banco de urgência do Hospital Central, no topo da Avenida do Hospital (Avenida Álvaro Ferreira), que eu visitei várias vezes.

 
Na casa logo a seguir à da família Silva vivia a Emília, filha única de pais mais velhos do que os nossos, sendo ela um ou dois anos mais velha do que nós, e que portanto não alinhava nas nossas brincadeiras. A seguir, já na esquina da rua 28 de Maio e Rua da Maianga, viviam as irmãs Pinto Pereira que não socializavam connosco. O Sr. Pinto Pereira comerciava em exportação de café, e foi graças à sua iniciativa que o cinema do Sporting Clube da Maianga expandiu a sua sala de cinema com um telhado de chapas Lusalite próprio para proteger das chuvas.

No começo do próximo quarteirão vivia o Fernando (mais propriamente na Rua da Maianga) que era um ou dois anos mais novo que nós e andava na Escola Industrial. Já na Rua 28 de Maio num bloco de três casas geminadas vivia o Renato Santos, que era uns cinco ou seis anos mais velhos do que nós. Na casa a seguir vivia a Paula Correia de Oliveira, que era da nossa idade, muito bonita e atraente, e que cuja família tinha mais posses do que a média das famílias na vizinhança. Contudo, ela era muito dada e muito amiga de todos. 
 
Já no próximo prédio vivia a Fernanda Caetano (Figueiredo), irmão do Carlos, que também fazia parte do círculo de amigos. A Fernanda veio a casar com o Tonho Figueiredo, que vivia na Rua 5 de Outubro. A Fernanda era um tanto reservada, mas muito simpática. Ela praticou basquetebol na equipa feminina do Sporting Clube da Maianga. O seu irmão Carlos Caetano, que era mais velho do que nós, tirou o curso do Instituto Comercial.

Na casa a seguir vivia a nossa amiga Rosário, que era filha única e tinha vindo recentemente de Lisboa, mas que também alinhava com os amigos da vizinhança. Logo a seguir vivia o Edgar Neves, que também era filho único, e que trabalhava na Baixa de Luanda. O Edgar tinha uma motorizada V5 encarnada, que era muito vistosa. 


Antiga estátua de Paulo Dias de Novais, fundador de Luanda em 1576, na Ilha do Cabo, 1960s

 
Entre tantos jovens vivendo tão perto e tão intensamente na vizinhança, naturalmente haviam romances e pares de namorados (mais ou menos permanentes) que se destacavam: o Zeca e a Olga, o Vítor e a Manuela, o Vítor Azevedo e a Emília, o Tomané e a Paula, e o Edgar e a Rosário. Cabe notar aqui que desses amores de juventude, nenhum acabou em casamento. Apesar de sermos todos vizinhos e amigos, haviam dois polos onde nos encontravamos mais frequência: um em frente à casa das manas Manuela e da Olga (Moreira de Melo) e do Zeca e da Fatinha, e o outro, mais acima na rua, em frente à casa da Paula Correia de Oliveira.

Apesar da Rua 28 de Maio ser o nosso universo mais imediato, nós tinhamos muitos amigos com quem privávamos com muita frequência que viviam no perímetro mais alargado do Bairro da Maianga. Na Rua Comandante Correia da Silva  tinhamos também vários amigos, incluindo o Adelino Vieira e irmã Leta, e o irmão mais novo Luís, que viviam perto da pequena ponte sobre o Rio Seco, perto de uma grande mulembeira e junto a uma mercearia, o Mário Jorge, que vivia no outro lado do Rio Seco, na Rua José Oliveira Barbosa, e a Isabel Morna. Mais abaixo, já na esquina com a Avenida António Barroso e em frente à agência do Banco de Crédito Comercial e Industrial vivia a Milú, que era muito bonita. A grande mulembeira a meio da rua Comandante Correia da Silva dava sombra a um largo de terra junto à ponte do Rio Sêco, onde se viam sempre à tarde velhotes sentados a curtir a sombra e frescura que a árvore gigante dava.
 
Já no mesmo quarteirão da Avenida António Barrosos tínhamos os irmãos Mendes e irmãos Pugliese, e no próximo quarteirão em direcção aos Correios, o Víctor Azevedo e os irmãos Dadinho e Zeca Loures (já falecidos há alguns anos) e primo Dádá (falecido recentemente), que era dirigente e jornalista desportivo de destaque em Luanda. Na Rua João Seca tínhamos o Artur e Mizé Araújo, que veio a casar com o Carlos Abreu, jogador de hóquei no Sporting Clube da Maianga, com os irmãos mais velhos Virgílio, Vasco (já falecido), e irmã Bela que casou com o Renato Pires. A família Araújo, por parte da Mãe, ainda eram primos muito afastados nossos através do nosso Pai, pois eram também oriundos de perto de Bragança, Trás-os-Montes, Portugal. Atrás da casa do Artur e da Mizé havia a carpintaria e serralharia Janeiro, cujas máquinas faziam muito barulho e poeira durante todo o dia.
 
Sobre este tópico da existência de uma serralharia/carpintaria num bairro urbano como os casos das serralharias Padinha e Janeiro na Maianga, cabe-me dizer aqui que era comum vê-las na Luanda de então, pequenos estabelecimentos industriais, e oficinas de reparação de automóveis (mecânica e bate-chapas) a operar dentro de bairros residenciais. Num grande número de casos, essas industrias precediam as residências, pois os bairros foram construídos depois das indústrias. Não quero com isto dizer que os vizinhos gostassem do barulho, da poeira, do cheiro a óleo e gasolina, e do movimento de camionetas e trabalhadores que durante todo o dia afectava a calma do bairro, mas de facto toleravam-no. Que remédio!
 
Na Rua 5 de Outubro tinhamos o Tiago (também já falecido), o João Costa e a Ana Maria Costa, os irmãos Celso e Jorge, a Ana Maria Silva (que era amiga chegada da minha irmã Dilar e vivia numa casa com um jardim de rosas muito bonito), o Fernando Rosa Rodrigues (recentemente falecido), e o José Pedro. Um pouco mais longe, já à entrada do Catambor, tínhamos o Francisco Loureiro. O Mário Lourenço dos matraquilhos na Avenida António Barroso vivia mais abaixo, perto da Padaria Aliança, onde nas noites de cinema no Sporting Clube da Maianga no segundo intervalo nós íamos comprar pão quente às onze da noite. 
 
Os irmãos Paixão (Jorge e Beto) viviam no prédio da estação de serviço da Texaco à entrada da Rua 5 de Outubro, e os irmãos Jacques Pena - João, Isabel, e Paula (também precocemente falecida) que viviam mais abaixo da Rua João Seca (próximo da esquina dos Correios com a Avenida António Barroso), o Nascimento que vivia abaixo da Rua da Maianga, a Gina, a Selda, e a Guilhermina que viviam na Travessa João Seca, e tantos outros. Um pouco mais acima, na Rua José Maria Antunes, paralela à Avenida António Barroso e já junto ao Muceque Catambor, vivia a Nini que jogava basquetebol no Sporting Clube da Maianga, e a sua irmã Carmo, e a terceira irmã de quem já não me lembro dos seu nome. As três irmãs eram muito bonitas, e eram o centro de atenção nas matinées dançantes de Domingo no Sporting Clube da Maianga. Lembro-me que os seus pais tinham um talho.
 
Um pouco mais distante de casa, eu tinha dois bons amigos na Avenida Lisboa, os irmãos Reis (Zé e José Luis) que viviam perto da esplanada Chilena. Eles eram era meus colegas no Salvador Correia (e mais tarde na Universidade de Luanda), e eram filhos do Comandante Reis, director do Instituto das Indústrias de Pesca de Angola (IIPA), muito conhecido em Angola pela grande obra que realizou em dinamizar o sector da pesca. O Zé Reis foi meu colega na turma de Matemática Moderna, e o seu irmão Luis foi meu colega na Faculdade de Economia. 
 
Nota - A rua, travessa, e largo João Seca evocavam a memória de João Augusto dos Santos Seca, que foi um destacado condutor de Obras Públicas e chefe da repartição técnica de Luanda na primeira década do Séc. XIX e que esteve ligado a muitos melhoramentos da cidade nesse tempo. A Rua José Oliveira Barbosa evocava a memória de José de Oliveira Barbosa que foi governador de Angola entre 1810 e 1816 que se preocupou com o problema de abastecimento de água a Luanda. A Rua Comandante Correia da Silva evoca a memória do destacado oficial da marinha portuguesa, que foi administrador do concelho de Luanda, governador dos distritos de Benguela e de Moçâmedes, e ministro das colónias em 1925. 
 
 
O Supermercado Martal (Martins & Almeida), não muito diferente do que parecia na antiga avenida António Barroso em 1969. Fotografia tirada em 2022

 
A antiga avenida António Barroso evocava a figura do Bispo Dom António Barroso, que se distinguiu em conseguir incluir os antigos territórios Bakongo como o distrito do Congo (português) na província de Angola no terceiro quartel do Séc. XIX. Quanto à Rua José Maria Antunes, onde morava a Nini e as irmãs, eu não sei se evocava a memória do Padre José Maria Antunes, da Congregação do Espírito Santo, fundador da Missão da Huíla grande evangelizador das terras longínquas da Huíla e do Cunene, ou a memória do Dr. José Maria Antunes, destacado médico de Luanda nas décadas de Trinta e Quarenta que foi professor do Liceu Salvador Correia durante 28 anos.

O bairro da Maianga era servido pela linha nº. 3 de maximbombos, que começava na Mutamba, subia a rua Pereira Forjaz até ao Largo Serpa Pinto; daqui seguia pela rua do mesmo nome  até ao largo da Maianga, virava para a avenida António Barroso até encontrar o cruzamento da rua Comandante Correia da Silva, para onde virava até encontrar a rua 5 de Outubro. Daqui seguia para oeste até encontrar uma pequena porção da rua Guilherme Capelo, até ao Largo da Maianga, onde outra vez seguia para baixo as ruas Serpa Pinto e Pereira Forjaz, e acabava na Mutamba.
 
Ainda como rapazes cheios de banga e poucas posses, nós gostávamos de ir de vez em quando (quando o dinheiro permitia) à Cervejaria, Snack-bar e Pastelaria Bracarense para tomar uns finos (copos de cerveja) com aperitivos de tremoços ou dobrada cozida com feijão a acompanhar. A Bracarense era também um restaurante e uma pastelaria, famosa pelos seus pregos-no-pão (o básico que podíamos pagar...), e a pastelaria. 
 
Em frente à Bracarense, na esquina com a Rua Alexandre Peres, estava o Colégio Moderno, que era da propriedade da professora Dona Lindalva que era conhecida por ser muito rigorosa e exigente, que a minha irmã Paula frequentou até à terceira classe em 1968.
 
 
Aguarela da antiga estação ferroviária urbana da Cidade Alta (1899-1951), na Maianga em Luanda, Aqui também operou uma estação postal de 1916 a 1951. Autor desconhecido.

 
A antiga Estação de Caminho de Ferro da Cidade Alta era na Rua Alexandre Peres, onde havia um grande terreno descampado adjacente, e onde uma ou duas vezes por ano havia uma feira com muitas diversões como carrossel, cadeirinhas, carrinho eléctricos, poço da morte, e outros. Outras cervejarias muito concorridas na Maianga eram a Cervejaria Mexicana e o Restaurante Belo Horizonte (muito chic), à entrada do Largo da Maianga, o Snack-Bar Planeta, junto à Chefia dos Serviços de Intendência do Exército Português (Serviços de Contabilidade e Mecanografia) e as oficinas gráficas do Diário de Luanda, e a Cervejaria Chilena, mais abaixo na Avenida Lisboa, um pouco mais abaixo do Hospital de Doenças Mentais, que na gíria popular era chamado o Hospital dos Malucos.
 
Quando a minha Mãe trabalhou na Companhia Comercial Oriental na Marginal, cuja sede e armazém era no quarteirão logo a seguir à Igreja da Nazaré, no mesmo prédio da Missão dos Inquéritos Agrícolas (MIAA), nós íamos almoçar e jantar ao restaurante do Snack-bar Planeta durante uns tempos. Por volta de 1968, o Restaurante Belo Horizonte fechou e o edifício foi convertido em Colégio Universal. No topo da Avenida António Barroso havia um clube noturno e dancing (cabaret), o "Choupal", famoso por outras razões menos honrosas. 

Dispersos pelas ruas do bairro da Maianga, haviam muitas árvores de fruto e de sombra pois a maioria das ruas eram muito arborizadas. Das árvores de fruto, as que mais me lembro era as que davam os saborosos figos da Índia, maçãs da Índia, e tamarindos. Nos quintais das casas era comum ver goiabeiras, bananeiras, abacateiros, mamoeiros, pitangueiras, maracujazeiros, e até cajueiros. No cimo do muceque Catambor havia ainda alguns imbondeiros, e na antiga Rua Comandante Correia da Silva, junto à ponte do Rio Seco (perto de onde morava o Adelino Vieira e a família Morna), havia uma grande mulembeira, onde era normal ver pessoas gozando a sombra dessa àrvore gigante.

Pela sua curiosidade, lembro aqui o som de gaita dos funileiros e amoladores, que nas suas bicicletas de três rodas corriam o bairro de tempos a tempos para afiar facas e tesouras, ou fazer latas. Para se fazerem conhecer que estavam na área, os funileiros usavam um pífaro que produzia um som muito característico.

 
O sorveteiro puxando o carro - figura tão característica de Luanda dos meus tempos

 
Outras figuras típicas dos bairros de Luanda desse tempo eram o sorveteiro e o vendedor de pirolitos, que era uma espécie de rebuçado de açucar torrado que foi solidificado em forma de pequenos guarda-chuvas. O sorveteiro vendia sorvetes (gelados) num carro puxado a pedal, e o "piroliteiro" trazia os pirolitos num saco. Especialmente no tempo das férias grandes, eles faziam parte do ambiente quotidiano que definia a vida das crianças na Luanda desse tempo.

Do mesmo modo, lembro aqui a tifa, que era a fumegadora dos Serviços de Saúde que todos os anos passava pelas ruas do bairro a fumegar a nuvem espessa de DDT que se dissipava para dentro das casas que para o efeito as donas de casa deixavam as janelas e portas abertas para o nevoeiro do insecticida entrar. Como não podia deixar de ser, nós delirávamos correr atrás da tifa, completamente cobertos com o fumo do DDT.
 
 
Carrinha a fumegar DDT (Tifa) nas ruas de Luanda, 1960s. Nós corríamos atrás da carrinha da Tifa, no meio do fumo do insecticida, completamente dentro da núvem, inspirando assim o insecticida.

 
Hoje sabemos que o DDT deixou de ser produzido há muitos anos por ser muito tóxico e ter sido banido o seu uso na maior parte do mundo. Na mesma linha de pensamento, o uso de folhas de Lusalite, produzido pela companhia Lupral, de Benguela, para paredes e telhados era muito usado em Angola. Da mesma forma, sabemos hoje que as fibras de asbestos são um carcinogéneo muito letal para qualquer pessoa que o use ou esteja exposto.


O complexo do antigo Hospial Maria Pia, com o Banco de Urgência acima e à esquerda da foto

 
Nós tinhamos algumas brincadeiras predilectas. Entre ouitras coisas, nós fazíamos as nossas trotinetes e carros de rolamentos; corríamos com um arco de aduela de barril com um arco; apanhávamos boleia atrás das camionetas de instrução que circulavam nas ruas mais pacatas; jogavamos à bilha (berlinde), e bricávamos com carrinhos de metal pequenos. 
 
Eu fui sempre magro e muito leve, mas com muita vida e energia. Assim, ninguém me conseguia vencer a correr em velocidade até 200 metros. Esta qualidade livrou-me de muitas situações difíceis, pois nem perseguidor nem polícia corria mais rápido do que eu...

Entre a Avenida da Samba e a Avenida Lisboa, os Serviços de Saúde e Higiene de Angola tinham uma área muito grande de terrenos onde se situavam o Hospital Central, o Hospital Maria Pia (com cinco pavilhões muito grandes), a Delegacia de Saúde onde se apanhavam as vacinas, a Casa Mortuária (pequena para as necessidades da cidade), o Teatro Anatómico e salas de aula da Faculdade de Medicina da Universidade de Luanda, o Pavilhão de Doenças Infecto-Contagiosas, o Hospital de Doenças Mentais, a Escola de Enfermagem, e o Centro de Reabilitação Física e Fisioterapia
 
 
O pavilhão de Doenças Infecto-Contagiosas onde estive internado 10 dias em 1972 - os dez dias mais sombrios da minha vida.

A área era mesmo mito grande pois estendia-se desde as traseiras das casas na Rua Guilherme Capelo e ia até à baixa da Samba (antigo lugar da Lagoa dos Elefantes), ao começo da subida da Avenida Lisboa para o Bairro Prenda. 

Como toda a cidade de Luanda, em termos de urbanização, a área da Maianga não era estática, pois muitos prédios novos se construiram entre 1961 e 1975, especialmente à volta do Largo da Maianga e ao longo da Avenida António Barroso. Este surto de construção mudou muito a personalidade do bairro, especialmente do lado do Alvalade e do Catambor, onde muitas famílias pobres tiveram que mudar do musseque em que viviam há muito tempo para dar lugar a vivendas e prédios para famílias com mais posses. 
 
A expansão urbana era também muito evidente no Bairro Prenda, onde se construiram os prédios da Precol. Acima da Avenida dos Quarteis (Avenida Norton de Matos/Comandante Jika) até se construiu um bairro muito grande e completamente novo de construções ilegais (as chamadas casas em transgressão) - o Bairro Salazar - que ia até ao Aeroporto. Assim notei que em poucos anos mudámos de uma situação em todos nos conhecíamos na Maianga para uma nova em que só encontrávamos desconhecidos nas ruas.
 
 
Luanda, 1970s - Cruzamento das ruas Silva Porto e Sá da Bandeira, no Bairro do Café.

 
Sociografia de Luanda
 
Foi na Maianga onde pela primeira vez constatei a existência de dois mundos que a antiga Avenida António Barroso (hoje Avenida Presidente Marien Ngouabi) dividia: o da cidade dos brancos (Maianga e Alvalade) e o dos musseques dos africanos de cor (Catambor e Prenda). O Sporting Clube da Maianga era o elemento aglutinador desses dois mundos em que o factor "raça" não tinha grande tão grande peso. 
 
Apesar da política oficial de convivência racial apregoada pelas autoridades portuguesas depois de 1961, ainda subsistia em Luanda evidência clara de segregação racial dos tempos de colónia mais antiga. Todos sabemos que mudanças no campo de relações raciais demoram gerações a realizar, contudo, podemos dizer que logo a seguir a 1961, houve uma mudança radical para o melhor (pelo menos nas escolas e repartições públicas) nas relações raciais em Angola, guiadas pela política de integração racial preconizada pelo governo português. 
 
Este progresso aconteceu mais em termos de politica oficial do governo do que nas relações privadas entre indivíduos com cor de pele diferente. Assim e em geral, o "branco" vivia no centro da cidade de cimento, e o africano (preto e mulato) viviam nos muceques da periferia; o "branco" era o patrão e o africano (preto e mulato) o empregado; o  "branco" era o dono do negócio ou loja, e o preto (as quitandeiras) dominavam o comércio informal; o médico era branco e o enfermeiro era mestiço ou preto; a "branca" era a dona de casa, e a "preta" era a lavadeira; o "branco" era o oficial do exército e o polícia, e o africano era o soldado raso ou cipaio; o "branco" (não a maioria) andava de carro privado, ao passo que o africano (preto e mestiço) andava a pé ou de maximbombo (autocarro). A imprensa e a rádio (talvez com a excepção da Voz de Angola) preocupava-se mais com o bem-estar do branco do que do africano (preto ou mestiço).
 
Ainda dentro do universo "branco" haviam duas classes facilmente reconhecíveis: uma minoria dos funcionários superiores da administração colonial e altos comandos militares (que eram transportados em carros pretos de luxo com chauffers), e dos ricos comerciantes e donos de grandes fazendas de café. 
 
A grande maioria de famílias brancas, muito mais pobres e remediadas, tinham imigrado para Angola mais recentemente (depois do fim da Segunda Guerra Mundial) e viviam remediadamente de salários muito mais baixos de empregos mais frágeis no comércio, indústria e construção civil, e funcionários assalariados do estado. 
 
As famílias "de bem" viviam no Bairro do Saneamento, na Cidade Alta, no Bairro Miramar, e no Bairro do Café; as mais pobres viviam nos outros bairros da cidade. Era relativamente comum para as famílias mais ricas terem uma criada branca (ou governanta), coadjuvada por mais empregados domésticos, incluindo lavadeiras, cozinheiros, e criados, por norma africanos. Em tempos idos, era muito comum em Luanda ver amas negras a tomarem conta de crianças de famílias brancas. As famílias europeias tinham por norma um criado e uma lavadeira, que trabalhava dois ou três dias por semana.
 
Os filhos das famílias brancas "de bem" eram chamados "de sangue azul" ou simplesmente "sanguitos", e estudavam em colégios particulares ou mesmo até na metrópole (Portugal), ao passo que todos os outros (brancos remediados (a grande maioria), pretos e mestiços, chamados "mwangolés") estudavam nas escolas e liceus públicos do estado.  
 
Nos pergaminhos da história da Luanda antiga, estes residentes portugueses das classes mais altas de Luanda eram chamados "reinóis", que refletia o seu status social de poder económico e político, abilidade, e educação, e influência social. Durante o início da ocupação efectiva da bacia do Cuanza, as mulheres portuguesas mandadas (órfãns, degredadas, e cristãs-novas) para Angola para casarem com portugueses residentes na colónia eram chamadas "orfãs do Rei".
 
 
A Quitandeira, o Ardina, o Engraixador, e o Cauteleiro
 
Luanda tinha três figuras únicas que a definiam como uma cidade muito especial: a quitandeira, o ardina, e o engraixador. Em qualquer rua da cidade e a qualquer hora do dia ouvia-se sempre o gritar das quitandeiras com as suas vestimentas de cores garridas, e às vezes com os filhos à costas, carregavam uma cesta pesada na cabeçoacheia de mercadoria para vender ao domicílio. Elas gritavam para  anunciar o que tinham para vender, fosse peixe fresco, ou fruta ("Mangaa! Manga boa!), ou mesmo comida tradicional pronta-a-comer: "Eh, Senhora, peixe fresco! Fresquinho!, Mesmo fresco, peixe fresco!".
 
 
Fruuta!!;  Fruta Booa! diz a quitandeira de Luanda

 
Por seu lado, o ardina (vendedor de jornais diários), que era normalmente um rapaz ainda novo percorria as ruas da cidade todas as manhãs gritando bem alto "Província!" ou "Comércio!". À noitinha, o mesmo ardina gritava "Diááário!" para vender a edição da noitinha do "Diário de Luanda" ou do "ABC". 

O engraixador era mais calado. Normalmente, estabelecia a sua banca, feita de um pequeno banco e de uma caixa de madeira onde o pé assentava num lugar concorrido, como uma junto a cervejaria, à entrada de um cinema, ou uma esquina muito movimentada da cidade, e não tão alto gritava "Graxa! Graxa, Patrão!" ou chegando mais perto do cliente diziam "Patrão, seu sapato precisa de polimento!".
 
 
Engraixador de Luanda em acção

 
Tanto o ardina como o engraixador eram crianças negras ainda novas que tinham de trabalhar para sobreviver. Algumas viviam na rua. A quitandeira era por norma uma mulher mais madura que sabia bem qual o custo da mercadoria e o preço que a devia vender. 
 
Outra figura típica de Luanda, mas não tão notória, era o cauteleiro, que vendia bilhetes de lotaria da Casa da Sorte ou da Casa Campião. Os cauteleiros tendiam/se a concentrarem/se no Largo da Cervejaria Portugália e noutras cervejarias mais concorridas de Luanda
 
Em termos de cobertura de serviços municipais, a cidade "branca" (do asfalto) tinha água canalizada, esgotos, ruas asfaltadas, transportes públicos, electricidade, iluminação pública, telefones, e protecção de polícia e bombeiros, ao passo que o muceque não recebia quaisquer desses serviços.
 
Contudo, como resultado das transformações sociais e políticas trazidas pela guerra de 1961 a 1975, já nos primeiros anos da década de 1970, a chamada "integração racial" era um facto em construção, pois havia igualdade nas escolas, e a grande maioria dos funcionários públicos já eram africanos mestiços e pretos, se bem que a inequidade económica teimasse em continuar de forma ainda muito flagrante. O mesmo se observava nas escolas e liceus em que a já haviam muitos estudantes de côr, número que crescia a passos largos de ano para ano. 
 
Cabe lembrar aqui que o grande obreiro do grande esforço de escolarização em Angola na década de 1960 foi o Dr. José Pinheiro da Silva, natural de Massabi, Maiombe, Cabinda, que exerceu durante esses anos o cargo de Secretário Provincial da Educação. Apesar deste grande esforço, havia ainda muito poucos estudantes de côr a frequentar Universidade de Luanda, se bem que já muitos frequentavam os liceus, e as escolas comercial e industrial. 
 
No ensino primário e secundário público, a grande maioria de alunos eram já africanos (pretos e mestiços), ao passo que nos colégios privados, com algumas excepções, a maioria continuasse a ser branca. Talvez com a excepção do Colégio dos Maristas e do Colégio de São José de Cluny, que eram reconhecidos como os melhores estabelecimentos de ensino em Luanda, a qualidade do ensino secundário público era muito boa, e em alguns casos rivalizava com essas escolas religiosas. Os demais colégios privados de ensino secundário não gozavam de tal reputação. 


O Dr. José Pinheiro da Silva, natural do Massabi (Maiombe), Cabinda, que como Secretário Provincial da Educação foi o grande dinamizador da educação e deixou um grande legado em Angola na década de 1960, em que a população escolar em pouco mais de cinco ano foi the 200.000 para 800.000.

 
Todos nós temos coisas de que nos arrependemos de ter feito nos nossos anos de juventude. Para mim, uma delas foi ter participado durante vários anos no carnaval de fuba (farinha branca de milho ou de mandioca, de que se fazia a "funge") da Maianga. Este consistia em atirar fuba aos muitos inocentes transeuntes que vindos do musseque Catambor, passavam a pé na Avenida António Barroso. A maior parte das vítimas eram pessoas de côr que iam ou vinham do trabalho, bem vestidas, sendo a última coisa que podiam tolerar eram ser pulverizados de fuba seca, e de um momento para o outros ficarem completamente brancas. A maioria das vítimas reagia (com direito) e muitas vezes o carnaval acabava à pancada, até a polícia vir e parar com o desacato. Ás vezes alguns de nós acabavamos na 2ª esquadra da polícia, que era no Bairro dos Ferreiras (com ruas de pedra), a um quarteirão da Rua Guilherme Capelo, já perto da Avenida do Hospital.

Da mesma forma, também temos actos bons de amigos que ficam connosco para o resto das nossas vidas. Comigo, sinto que tenho de contar que uma vez numa das matinées de domingo à tarde no Sporting Clube da Maianga houve um concurso de puxar a corda entre dois grupos no palco em frente a uma plateia repleta espectadores, em que após cada puxada, cada grupo perdia um membro até chegarem ao fim com um membro só cada para cada grupo na competição. 
 
Foi o caso entre eu e o Júlio, que era muito mais forte que eu, e que ele voluntariamente me deixou ganhar, mesmo a custo de não receber o melhor prémio. Este acto de amizade ficou na minha memória para sempre, e ajudou-me a ser um pouco menos interesseiro em situações em que eu via que eram de maior valor para outros. 
 
O Júlio era um de quatro irmãos (Zé, Russo, Júlio, e Gualter) e uma irmã oriundos de Portugal que viviam na rua João Seca logo a seguir à casa do Artur e irmã Mizé Araújo. Infelizmente, ainda em Angola, soube da morte do Júlio num trágico acidente numa viatura militar, no Chitembo, próximo da cidade de Silva Porto (hoje Kuito), mas ele e o acto que practicou ficaram para sempre na minha memória.
 

Estátua de Diogo Cão, primeiro português a chegar à foz do Rio Zaire em 1483, atrás o Palácio de Vidro, onde se encontravam muitas repartições públicas do governo provincial

 
Eu era relativamente conhecido e popular no Liceu Paulo Dias de Novais, onde grangeei muitas amizades. Entre os bons amigos que lá tive estava o Fernando Farinha, que era um ano mais velho do que eu, mas andava no mesmo ano que eu. O Farinha, como nós o chamávamos, tinha sido vítima de paralisia infantil quando ainda muito jovem pelo que tinha andar com a ajuda de dois aparelhos de prótese e muletas muito pesados e incómodos (um para cada perna). Contudo, ele estava sempre pronto para alinhar nas brincadeiras, mesmo que tal lhe custasse dor física. 
 
Ele morava logo ao princípio da rampa da Fortaleza, depois da ponte sobre a Rua Dom Francisco Soveral, e nós fomos amigos chegados por todo o tempo no Liceu Paulo Dias de Novais e mais tarde no 6º e 7º anos no Liceu Salvador Correia. Talvez porque associasse a sua penosa cruz com a do meu irmão Rui, eu nunca esqueci o Farinha estes anos todos, e gostaria muito de ainda o poder encontrar e estar com ele uns momentos para recordar bons tempos nos velhos Paulo Dias e Salvador Correia. O Farinha tinha uma cadeira de rodas que ele usava raramente, já que a grande maioria dos edifícios e lugares em Luanda desse tempo não eram construídos para permitir o accesso e uso a pessoas com deficiência física acentuada.

Durante o período que vivemos no Bairro da Maianga, o nosso médico de família era o Dr. Mercês de Melo, que dava consultas no Centro Médico da Cruz Vermelha Portuguesa, situado no Bairro dos Ferreiras perto do do Cinema Restauração, onde o custo das consultas médicas era mais baixo (quase de graça). O Dr. Mercês de Melo era um médico muito conhecido e respeitado em Luanda, ele era natural de Goa (ex-Índia Portuguesa) e tinha completado  o curso de medicina na famosa Escola Médica de Goa. Ele era muito boa pessoa e tinha três filhas muito bonitas e simpáticas (a Tété, a Guida, e a Mimi, recentemente falecida) que andaram no Liceu Salvador Correia.

Falando em médicos e doenças, nós devemos lembrar-nos que o clima em Luanda (e em geral do norte de Angola) não eram dos mais saudáveis do mundo. Haviam desafios endémicos permanentes como o paludismo (malária) e risco alto de infecções muito más como cólera, febre amarela, febre tifóide, hepatites, meningites, infecções renais, tétano, gonorreia, e outras doenças infecciosas que ainda matavam muitas pessoas. Assim, desde muito novos, já na Damba, a nossa mãe nos fazia tomar um comprimido semanal contra o paludismo (malária - Daraprim, Resoquina, Camoquina, e Plaquinol), normalmente ao domingo. A nossa mãe fazia-nos ainda tomar tónicos (chamados "elixires") como óleo de fígado de bacalhau (com um sabor horrível), e extracto de sangue de cavalo para abrir o apetite (também nada apetitoso).

Durante toda a minha meninice eu sofri muito de infecções na garganta e nos ouvidos, que me davam dores terríveis de tempos a tempos. Para tratar as infecções de garganta, a minha mãe besuntava-me a garganta com um preparado líquido azul (colírio de argirol) que era relativamente eficaz. Quanto às infecções nos ouvidos, dores, terríveis, antibióticos e resignação eram a solução. Assim, desde muito cedo aprendi o significado da palavra simples oto-rino-laringulogista...

No meu sexto ano do liceu caí de cada com febre tifóide, uma doença muito grave, que me fez ficar de cama em casa por mais de um mês. Não esqueço que o médico receitou um antibiótico muito forte e de largo expectro chamado Cloromicetina cujo composto base era Cloranfenicol, e que anos mais tarde se veio a provar que tinha efeitos colaterais graves, including a cegueira.
 
Já que estamos no tema de higiene e doenças, cabe referir aqui que Luanda (e Angola) desse tempo não tinham um sistema próprio de higiene e inspecção para o manuseamento de alimentos, e que muitas doenças se propagavam porque aqueles que lidavam com alimentos não sabiam  ou não seguiam regras apropriadas de higiene para manusear alimentos. 
 
Eu sei, por exemplo próprio, que apanhei uma infecção rara em humanos mas não rara em gado, que foi derivada do facto que o leite que bebi num restaurante não tinha sido propriamente pasteurizado, e não havia serviços de inspecção adequados para monitorizar a produção e comercialização de leite fresco. 
Da mesma forma, eu lembro-me que quase ninguém usava luvas para lidar com dinheiro e alimentos ao mesmo tempo, e ninguém lavava as mãos, mesmo nos talhos e peixarias, para trabalhar com carne ou peixe fresco depois de lidar com dinheiro, não havia prazos de validade para a maioria dos alimentos que comprávamos.
 
Por outro lado, as moscas eram um problema grande nos mercados municipais e nas cozinhas domésticas. Neste ponto, ainda tinhamos muito que aprender... Os mosquitos, nas muitas poças de água parada que se formavam em todo o lado, eram um problema ainda maior, pois ampliavam exponencialmente o risco endémico do paludismo (malária), da febre amarela, e da cólera.


Mural de azulejo, Liceu Salvador Correia, Luanda, mostrando as principais viagens dos Descobrimentos Portugueses através do mundo


Em 1965 ou 66 foi descoberto no local da construção de um prédio novo perto do largo onde se situava o Clube Atlético de Luanda (onde havia uma estátua com um canhão no Largo Luis Lopes de Sequeira, uma quantidade muito grande de macutas (moedas antigas), das quais consegui arranjar uma lata de flocos de aveia (Quaker Oats) cheia das ditas moedas, comprando algumas e outras trocando cromos e outros valores. 
 

O paraíso que era a Ilha do Mussulo nos Anos Sessenta

 
Em 1966 ou 67, eu e um grupo de amigos da Maianga (o Edgar Neves, o Vítor Freitas, o Mário Jorge, o Júlio, e eu) decidimos ir acampar por uma semana para a Ilha do Mussulo. Fomos de autocarro até à Barra da Corimba onde era o cais do "Ka-Posoka" e do "Kitoko" que  nos levou até à paradisíaca Ilha do Mussulo. Uma vez na Ilha, procurámos o melhor lugar onde assentar as tendas de campanha, onde ficámos por uma semana. 
 
O local onde acampámos era a meio caminho entre a costa do cais do Ka-Posoka e a contra-costa da ilha. Lembro-me que a base principal de alimentação nessa semana foram caranguejos cozidos numa panela grande de água quente só com sal, que colhíamos durante o dia. Explorámos apé a Ilha do Mussulo toda, e eu consegui o donativo de muita fruta (bananas e mangas) da missão católica que havia na Ilha da Cazanga (também conhecida como Ilha dos Padres) em troca de explicações de história e geografia que dei aos aos alunos da missão durante duas tardes. 


A nossa viagem à Ilha do Mussulo, em 1967 - Edgar, Mário Jorge, Júlio, Eu (Helder), e Miúdo Vítor

 
O Sporting Clube da Maianga
 
 
No Sporting Clube da Maianga, uma verdadeira escola para todos nós, comecei por jogar basquetebol (juvenis) por dois anos sob a orientação do famoso Ùnico (Francisco André) e mais tarde do Nanico,   mas que por não ser alto e ter pouca (quase nenhuma...) habilidade para tal, mudei para hoquei em patins em júniores, em que a habilidade não era melhor. Para poder praticar desporto competitivo, todos os atletas em Angola tinham que fazer um exame de aptidão física no Centro de Medicina Desportiva. Devido à minha compleição física fraca, eu não passei esse exame médico pela primeira vez, pelo que tive de repeti-lo uma segunda vez.

 
Antigo edifício da sede e cinema do Sporting Clube da Maianga, na esquina das ruas 28 de Maio e João Seca, 1986 em Luanda. A nossa casa era a menos de cem metros à direita na rua 28 de Maio (Karipande) de onde esta fotografia foi tirada.
 
 
Como atletas do Clube, nós podíamos ir ao cinema sem pagar, o que resultou em ter ido ao cinema pelo menos duas ou três vezes por semana durante quatro ou cinco anos, e o que me ajudou imenso a melhor perceber o mundo à minha volta. 
 
Como em todos os cinemas em Luanda desse tempo, as sessões de cinema começavam geralmente com notícias à volta do mundo, ou um breve documentário acerca de algo interessante, seguidos de um breve filme em bonecos animados, como Mickey Mouse e Minnie Mouse e Tom and Jerry, que iam até ao primeiro intervalo. O filme vinha depois. Lembro-me ainda aqui que os filmes do Cantinflas eram sempre muito populares.
 
 
Minnie Mouse a aprender a patinar no gelo com a ajuda de Mickey

 
O bar do clube abria todos os dias, e à tarde e à noite (nos dias em que não tínhamos treino) nós íamos para lá jogar às damas, xadrez, e aos dados. Eu era um bom jogador de damas, mas nada que se chegasse à sapiência do Mestre Sr. Martins (que era oficial de diligências no Tribunal da Relação de Luanda) com as suas jogadas "piro-magneto-trápicas". Eu jogava xadrez mais ou menos bem, e competia muito com parceiros mais velhos do que eu.
 
O Sporting Clube da Maianga tinha equipas que competiam nos campeonatos e torneios distritais masculinos em futebol, basquetebol, e hóquei em patins, em três níveis - juvenis (14 a 16 anos), juniores (16 a 18 anos), e séniores (mais de 18 anos). O Sporting Clube da Maianga tinha também equipas feminina em basquetebol (juvenis e juniores). Para ser apurado para os campeonatos provinciais era outra coisa, pois só os dois melhors clubes de cada distrito podiam competir a esse level.
 
 
A equipa de séniores do Sporting Clube da Maianga - atrás - Fernando Costa Pereira, Silvestre, Joaquim, Carlos Abreu, frente - Russo, Artur Araújo, e Víctor Azevedo (guarda-redes).

 
As equipas de hóquei em patins do Sporting Clube da Maianga, tanto em séniores como em juniores, eram muito boas, levando sempre aos jogos um grande número de maianguistas. A equipa de séniores tinha jogadores muito bons (Laurentino, Arménio Jardim, e Ruca) que tinham vindo do Atlético de Moçâmedes, que era de longe a melhor escola de hoquei em patins em Angola desse tempo. 
 
As equipas de futebol e de basquetebol não eram tão famosas. Para o transporte de atletas para treinos e jogos, o clube tinha uma carrinha fechada (van) de marca Commer com capacidade de transportar doze pessoas, das cores do clube (branco e encarnado). Lembro-me bem dos motoristas, o Sr. Guerra (pai da Fernanda Guerra), e o Sr. Araújo, já mais velhote mas muito castiço, natural de Murça, Trás-os-Montes, Portugal.


Equipa de solteiros em jogo de futebol amigável contra equipa dos os casados, Sporting Clube da Maianga, Maio de 1969 (Topo: Tó Sotto Maior, Graça (guarda-redes), Manhente, Caiado, Único (Francisco André), Figueiredo, e Rui (irmão do Tiago). Abaixo: Eu (Helder), Tiago, Artur Herman Araújo, Mizé Araújo (ao centro), Nelo, e Chope.

 
O sucesso do Sporting Clube da Maianga só foi possível através da liderança, carolice, e entrega total dos seus sócios, directores, e atletas. Lembro aqui o nome de alguns a quem muito o clube deve, como João Pinto Pereira, Carlos Morais, Renato Santos, Francisco André, Orlando Lopes da Silva, António Lacerda, Joaquim Rebelo, Sr. Morna, Renato Pires, Único, Nanico, e muitos outros. Como a maioria dos clubes em Luanda que estavam filiados com clubes metropolitanos, o Sporting Clube da Maianga era filiado ao Sporting Clube de Braga, em Portugal.
 
Apenas com dezasseis anos, eu comecei a ajudar em matérias administrativas no conselho técnico do Sporting Clube da Maianga, sob a direcção do meu grande amigo e mentor Sr. Carlos Morais, funcionário dos Caminhos de Ferro de Angola e membro da direcção do clube (Secretário). Como secretário técnico do  S.C. da Maianga, eu tornei-me assim o dirigente desportivo mais jovem acreditado nas associações provinciais de futebol, basquetebol, e hóqei em patins em Angola. Eu lembro-me que afixei na porta de entrada do meu pequeno escritório a famosa frase de Aristóteles em latim "In medio stat virtus".
 
Eu devo muito ao Sr. Carlos Morais, já falecido há muitos anos, pois foi ele quem me orientou e ajudou como fazer o meu trabalho, e foi um mentor para mim numa idade de grandes riscos em que muito podria ter dado para o torto. O Sr. Morais era casado com a Dona Dina e não tinham filhos. Ambos eram um casal de referência de participação social e um modelo para nós todos seguirmos. 
 
Sr. Renato dos Santos, que era funcionário dos CTT (Correios, Telégrafos e Telefones) também me ajudou muito no desempenho desta responsibilidade. O Sr. Renato tinha perdido um braço num acidente ainda cedo na vida, mas mesmo assim e já não jovem, ele atravessava a Baía de Luanda a nado, só com um braço; a quem muito devo a ambos como aprendiz, o que me permitiu lidar com atletas de todas as categorias sociais, e de me aperceber de mais perto da diferença entre os dois mundos em que se dividia as sociedades luandense e portuguesa de então.
 

A Odete Silva
 
Foi ainda nas matinées dançantes de domingo à tarde no Sporting da Maianga que a minha paixão pela Odete Lopes Silva me deu a coragem para lhe pedir namoro. A Odete era muito bonita e reservada. Ela era um ano mais nova que eu e jogava basquetebol no clube. Confesso aqui que não posso esquecer nunca os nossos passeios de namoro com a Odete acima e abaixo da Avenida António Barroso (quase sempre com a companhia da Lurdes!, por instruções da sua Mãe...) e o seu vestido azul com bolas brancas e lapela branca que lhe ficava tão bem. 
 
Asim, não esqueço nunca a canção Meu Primeiro Amor interpretada por Ângela Maria e Agnaldo Timóteo, durante os anos Sessenta, muito popular nas estações de rádio em Luanda de então:

    Saudade, palavra triste
    Quando se perde um grande amor
    Na estrada longa da vida
    Eu vou chorando a minha dor
    ...
    Meu primeiro amor    Tão cedo acabou, só a dor deixou neste peito meu    Meu primeiro amor    Foi como uma flor que desabrochou e logo morreu
    ...

O seu pai era o Senhor Orlando Lopes da Silva que era vice-presidente (muito activo) da direcção do Sporting Clube da Maianga. A sua irmã Lurdes e a sua mãe, de quem lamentavelmente já não me lembro do nome, eram também muito simpáticas. O Sr. Orlando tinha um carro Austin A40 preto, modelo de 1950, que ele próprio tinha restaurado. A família Lopes da Silva vivia primeiro na Avenida António Barroso, mais ou menos em frente aos armazéns Martins & Almeida (Martal), mas mudaram-se mais tarde para o Bairro Popular. 

Falando da equipa feminina de basquetebol do Sporting Clube da Maianga, ainda me lembro de algumas atletas: a Odete, a Fernanda Caetano, a Nini, a Fernanda Guerra, a minha irmã Dilar, a Isabel Morna, a Mizé Araújo, a irmã do Genaro Pugliese, a irmã dos irmãos Mendes, a nossa vizinha Isabel, a Ana Maria Costa, a Carmo (irmã da Nini), e as irmãs Fançony. A equipa tinha como treinador o Nanico, que era muito conceituado em Luanda.
 
Já que mencionei os Armazéns Martal, lembro-me que uma das famílias (Martins, ou Almeida, já não posso precisar,) ganhou a dez mil contos na lotaria da Santa Casa da Misericórdia, com o que construiram um prédio de apartamentos novo de dez andares na primeira rotunda da Avenida António Barroso, na esquina da rua José Oliveira Barbosa, e rua José Maria Antunes.
 
 
15. Os Meus Herois e o Gosto por Livros e pela Leitura
 
 
Livros, Livros, ... e mais Livros.

 
Eu li nessa altura um livro sobre a famosa viagem de exploração e pesquisa científica de Charles Darwin à volta do mundo entre 1831 e 1836 no navio H.M.S. Beagle, sob o comando do Capitão Robert Fitzroy. Foi nessa viagem que Darwin colectou a evidência necessária para dar corpo à sua teoria de evolução natural tão bem explicada no seu livro "A Origem das Espécies" publicado anos mais tarde em 1859. 
 
Para além da maravilhoasa descrição da costa oeste da América do Sul (Brasil, Argentina, Chile, Perú e Equador), da região da Patagónia, e das Ilhas Galápagos, este livro abriu a minha mente à teoria da evolução natural, que estava em contraste frontal com as explicações sem fundamento científico contidas na Bíblia até então propagadas pela Igreja. Lembro-me ainda dos estudos detalhados de animais e plantas que Darwin fez nas Ilhas de Cabo Verde e no Rio de Janeiro quando lá parou na sua viagem de ida.

Aprendi assim com a viagem de Darwin no H.M.S. Beagle a discernir a diferença entre ciência (método científico) e fé (religião), e a luta que ele teve consigo próprio durante o resto da sua vida em suplantar a religião a favor da evidência científica. A esposa de Darwin era muito crente em Deus e ele, com grande sacrifício e durante muitos anos, ocultou dela o que ele pensava sobre a religião só para não ferir os sentimentos dela. 
 

Charles Darwin no Rio de Janeiro, em 1832

 
Já que mencionei algo sobre ciência, Luanda tinha uma "pérola científica": o Observatório Espacial da Mulemba, situado na estrada do Cacuaco, com telescópios e equipamento capaz de monitorizar as naves espaciais americanas e soviéticas que nessa altura tentavam chegar à Lua, aos planetas vizinhos, e ao espaço sideral. O Observatório da Mulemba foi fruto do trabalho de uma pessoa extraordinária; o Sr. Carlos Bettencourt Faria, um autodidata astrónomo amador que com muito trabalho, inteligência e empenho construiu um observatório espacial em Luanda reconhecido mundialmente. 
 
 

 
Eu visitei o Observatório da Mulemba três vezes e lembro-me que fiquei muito admirado com o que vi e lá aprendi. Infelizmente, o Sr. Bettencourt Faria foi barbaramente assassinado em Julho de 1976, vítima do fervor anti-ocidental que reinou no MPLA no periodo imediatamente após a independência. 
 
Luanda tinha outro observatório, o observatório oficial do governo, mas mais orientado para o clima e previsão do tempo - o Observatório João Capelo - operado pelos Serviços Metereológicos de Angola, que se situava no Beco do Balão, perto do consulado Britânico, e residência do Administrador do Banco de Angola, abaixo do Palácio do Governador-Geral, junto à antiga Rua Diogo Cão.

 
O Escritor Fernando Castro Soromenho
 
Na nossa biblioteca em casa, os meus pais tinham um livro pequeno muito especial que a minha mãe me disse que era proibido. O livro era "Terra Morta", da autoria de Castro Soromenho, e era sobre a vida pacata e sem espeança no longínquo distrito da Lunda, na perspectiva indígena. Isso chocou-me, pois não sabia nessa altura qual seria a razão pelo qual um livro pudesse ser proibido. Como fruto proibido, não resisti à tentação de o ler. 

Fernando Monteiro de Castro Soromenho nasceu em Chinde, distrito da Zambézia, Moçambique, em 1910, mas os seus pais vieram para Angola quando ele tinha apenas dois anos de idade (1911). O seu pai, Artur Ernesto de Castro Soromenho, foi o terceiro administrador e presidente da Câmara Municipal do então recém-criado concelho do Huambo criado pelo Alto-Comissário Norton de Matos em 1912, e um notável quadro administrativo superiord e governador de vários distritos em Angola entre 1921 e 1933 (Congo, Bié, Moxico, e Lunda, e Secretário Geral de Angola, Secretário Provincial da Agricultura, e Secretário Provincial da Colonização), e a sua mãe, Stela Fernançole de Leça Monteiro, era de ascendência caboverdeana.

 

O escritor angolano Fernando Monteiro de Castro Soromenho (1910-1968), revelador da vida genuinamente africana e pioneiro do realismo na literatura angolana.

 

Ele estudou em Lisboa até ao 5º Ano dos liceus, regressou a Angola em 1925, prosseguindo os seus estudos em Sá da Bandeira (Lubango), tendo sido aluno do historiador Gastão de Sousa Dias, na Escola Primária Superior Artur de Paiva. Com apenas 18 anos de idade, ele arranjou um emprego em Vila Luso (Luena, Moxico) numa agência de recrutamento de contratados negros para as minas da Diamang no distrito da Lunda, onde trabalhou pouco mais de um ano. Entre 1930 e 1936, ele trabalhou no distrito da Lunda como funcionário administrativo (aspirante e mais tarde chefe de posto), onde o seu pai era governador de distrito. 

Talvez influenciado pela grande expedição (1884-88) e relatório de Henrique de Carvalho "Expedição Portuguesa ao Muatiânvua (1884-88), em especial o volume dedicado à Etnografia e História Tradicional dos Povos da Lunda", publicado pela Imprensa Nacional de Lisboa em 1890, sobre a etno-história dos povos da Lunda, Castro Soromenho tomou desde cedo um interesse especial na história e etnografia dos povos africanos e como a vida deles iria mudar sob o regime colonial.

A sua experiência com a Diamang não foi boa. Como quadro da administração civil e angariador de trabalhadores nativos durante os primeiros anos da Diamang, depressa ele se apercebeu das condições de trabalho (e de vida) atrozes para os milhares de trabalhadores Lunda, entrando assim em conflito com a direcção da companhia e com as autoridades civis e militares coloniais, em especial com o quase omnipotente adminstrador delegado Comandante Ernesto de Vilhena, conhecido pela sua petulância e influência no governo de Salazar e pelo seu poder económico em Angola.

Foi durante este período da sua vida que Castro Soromenho tomou contacto e aprendeu em primeira-mão o quotidiano da vida africana na Lunda, da sua cultura e etnografia, do seu momento histórico (as invasões dos Quiocos e a eventual dissolução do império Lunda), da sua história longínqua, e do novo regime colonial que aí e no vizinho Congo Belga recentemente se havia instalado. 
 
Foi também aí que ele entra em contacto de choque com a exploração sagaz e brutal da Companhia dos Diamantes de Angola (Diamang) dos trabalhadores e comunidades do Nordeste da Lunda, que de picareta na mão em regime de trabalho forçado arrancavam das entranhas da terra os diamantes que faziam muitos homens ricos em terras distantes, mas que para eles só traziam violência, opressão, pobreza, dor, e desespero.
 
 
Castro Somenho foi o escritor angolano pioneiro a denunciar a exploração sagaz e brutal dos contratados negros pela Companhia de Diamantes de Angola (Diamang), tendo por isso pago um preço muito alto pela sua liberdade para o resto da sua vida.
 

Em Portugal, Castro Soromenho continuou a sua actividade de escritor e jornalista, o que o levou a ser perseguido não só pela polícia política, mas mais ainda pela petulância de Ernesto de Vilhenha, administrador delegado da Diamang, que era também renhido defensor da burguesia portuguesa metropolitana, que Castro Soromenho sabia tão bem como a Diamang trabalhava em Angola. Ainda em 1937 ele conheceu a jovem Mercedes de la Cuesta, que era filha do consul da Argentina em Lisboa, com quem veio a casar em 1949, logo depois de chegar ao Brasil.

 

Castro Soromenho e sua esposa Mercedes em Paris, 1965
 

O seu livro "Terra Morta" reflecte a perspectiva pessoal de Castro Soromenho da realidade colonial que se vivia na Lunda no tempo de estabelecimento da Diamang, descrevendo com mestria como a vida mudou para os povos do antigo império Lunda (Muatiânvua) e os recém-chegados Quiocos com a implantação do regime colonial da comandado pela Diamang, como empresa majestática às terras da Lunda. 

 
O trabalho para muitos dos contratados negros da Diamang era extremamente perigoso, tendo muitos morrido em acidentes de trabalho.
 
 
A princípio "Terra Morta" não me cativou em especial, mas reparei que voltava várias vezes a reler secções do livro, pois a descrição da vida nativa era para mim um mundo novo que me fascinava cada vez mais. Assim passei a conhecer mais a fundo e admirar a obra de Castro Soromenho como pioneira (e até aí única) na literatura angolana, pois ele foi para mim a porta que se me abriu na minha juventude para a literatura verdadeiramente angolana e até para a angolanidade. O mundo que Castro Soromenho partilhava comigo era o mundo africano, um mundo que para mim, apesar de viver em África, era escondido pelas autoridades coloniais, desconhecido, mágico, longe da Luanda crioula em que eu vivia, e quase impenetrável, mas absolutamente fascinante.
 
A obra literária de Castro Soromenho foi influenciada pelo grande escritor brasileiro Jorge Amado, que foi percursor dos neo-realistas portugueses (Geração de Quarenta) - Alves Redol, Fernando Namora, Vergílio Ferreira, e Soeiro Pereira Gomes. A maior parte da sua obra foi escrita depois de deixar Angola, se bem que o tema continuou sempre a ser relacionado com a vida do preto em Angola e a violência do colonialismo. De facto, podemos dizer que Castro Soromenho, o escritor, jamais deixou Angola.
 
Por seu lado, e através da sua experiência pessoal de quadro administrativo (chefe de posto nos Luchazes, no Moxico e na Lunda, onde seu pai era governador), amizade pessoal, e obra literária, Castro Soromenho influenciou os três grandes estudiosos da Lunda, como José Redinha, João Vicente Martins, e mais tarde Mesquitela Lima.

Em 1936, ele deixou a Lunda e abraçou a carreira de jornalista em Luanda, onde trabalhou durante um breve período como jornalista para os jornais Diário de Luanda e Província de Angola. Finalmente, em 1937 ele decidiu deixar Angola e regressar a Lisboa, para nunca mais voltar à terra que o havia moldado para sempre. 

Ainda em 1936, ele publica o seu primeiro trabalho que foi uma série de contos "Lendas Negras" nos "Cadernos Coloniais", e em 1938, já em Lisboa, o seu primeiro livro "Nhari" (contos), seguidos de "Noite de Angústia", romance, em 1939, "Homens Sem Caminho", romance, em 1941, e "Rajada e Outras Histórias" em 1942. 

Uma vez em Lisboa, Castro Soromenh retomou a actividade jornalística escrevendo muitos artigos de índole etnográfica e histórica angolana para muitos jornais e revistas como "O Século", "Diário Popular", "Seara Nova", "Jornal da Tarde", "A Noite", "O Diabo", "O Mundo Português", e "O Primeiro de Janeiro".

Quando Castro Soromenho regressou a Portugal, o foco da sua actividade literária mudou. Ele deixou de tentar retrara a vida do povo Lunda num tempo antes e até ao estabelecimento do sistema colonial, com atenção particular na sua etno-história, e passou a focar no impacto e nas consequências do opressivo sistema colonial, em especial a acção da Diamang, nos povos Lunda e Quioco, ao nível da pessoa, da família, e da comunidade. 

Em 1938 ele recebeu o Prémio de Literatura Colonial pelo seu primeiro livro "Nhari", e em 1943 foi de novo agraciado com o mesmo prémio pelas suas obras "Homens Sem Caminho" e "Noite de Angústia". Em 1944 ele publicou "A Aventura e a Morte no Sertão", "Sertanejos de Angola", e "A Expedição ao País do Oiro Branco".

O seu pai morre em 1944, após o qual ele publica "Mistérios da Terra: Mucanda, Cangongo, que foi um estudo sobre a circuncisão entre os Quiocos. Em 1945 ele publica "Calenga", um livro de contos, e conclui a sua obra mais conhecida "Terra Morta" que foi imediatamente proibida pela censura do Estado Novo. Em 1946 ele publica uma série em fascículos "A Maravilhosa Viagem dos Exploradores Portugueses" que veio a ser publicado em livro em 1948, e re-editado em 1956 em edição de luxo, e mais tarde em 1960.

Em 1948, Castro Soromenho é encarregado da propaganda eleitoral na rádio portuguesa para a candidatura do General Norton de Matos às eleições presidenciais em Portugal. Cabe lembrar aqui que Norton de Matos e o pai de Castro Soromenho trabalharam juntos durante alguns anos em Angola e eram amigos desde 1912. Com efeito, Norton de Matos, como Alto-Comissário e fundador da cidade deu o nome de "Castro Soromenho" a uma das ruas principais da recém-criada cidade de Nova Lisboa, em memória do seu amigo e colaborador Artur Ernesto de Castro Soromenho.

Em 1949 ele vai ao  Brasil e ajusta os detalhes para uma nova edição de "Terra Morta" mas desta vez a ser publicada fora de Portugal. A 23 de Maio ele casa-se com Mercedes de la Cuesta em Buenos Aires, Argentina, que já conhecia de Lisboa desde 1937,  quando ela era lá morou como filha do consul geral da Argentina em Portugal. Fernando Castro Soromenho e Mercedes tiveram três filhos - Fernando Waldemar, nascido em Paris em 1950, Stella Susana, nascida em Madrid em 1952 e falecida em São Paulo, Brasil, em 2006, e Jorge Eduardo, nascido em Lisboa em 1955. 

Em 1956 "Terra Morta" é publicada em francês sob o título "Camaxilo". Em 1960 Castro Soromenho foge para a França, onde a sua família se vai juntar meses mais tarde. Ainda em 1960, "Terra Morta" e "Viragem" são traduzidas em várias línguas. 

Em 1960, Castro Soromenho é convidado a reger cursos sobre língua portuguesa e literatura luso-brasileira na Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos. Em 1963 ele é convidado a visitar a União Soviética para participar no Congresso da Paz, e a visitar a Argélia, então o centro da actividade anti-colonialista em África.

Em 1962 e 1963 ele trabalhou no que viria a ser o seu último livro "A Chaga", que conclui em 1964, mas que só veio a ser publicado postumamente em 1970 no Brasil pela Editora Civilização Brasileira. 

Em 1964-65 Castro Soromenho trabalha em Paris como investigador de literatura científica portuguesa sobre África, no Centre Nacional de Recherche Scientifique, e na Secção de África Negra do Musée du Homme. Quando viveu em Paris, ele deu sempre um grande suporte no que podia aos movimentos idependentistas africanos das colónias portuguesas.

Em 1965 a família Castro Soromenho emigrou de vez para o Brasil, onde fixou residência na cidade de São Paulo, SP,  onde Castro Somenho começa a colaborar no Centro de Estudos e Cultura Africana da Universidade de São Paulo (USP), onde rege os cursos de "Introdução à Sociologia da África Negra" e "A Formação do Estado Lunda".

Lamentavelmente, a 18 de Junho de 1968, com apenas 58 anos de idade, Castro Soromenho morre precocemente no Hospital da Beneficiência Portuguesa, em São Paulo, vítima de um derrame cerebral. O seu corpo foi enterrado no Cemitério de Tremembé, a norte de São Paulo, SP. Sua esposa Mercedes faleceu em 1983.

Como reconhecimento da sua importância para a literatura angolana, a trilogia "Camaxilo" de Castro Soromenho, composta de "Viragem", 1937, "Terra Morta", 1949, e "A Chaga", 1970, foi publicada pela União dos Escritores Angolanos em Luanda em 1979.

 

Castro Soromenho (1910-1968), como chefe de posto na Lunda, ca. 1935

 

Elaine Sanceau

Através dessas e outras obras aprendi que a África era na verdade um continente muito grande (muito maior do que parecia nos mapa-mundi) e muito diverso com regiões e povos muito diferentes. Por outro lado, o meu interesse pela História de Angola começou com a leitura dos muitos livros de Elaine Sanceau sobre a expansão portuguesa no mundo, dos quais se destacavam, "O Infante Dom Henrique", "Os Descobrimentos Portugueses", "Os Portugueses no Brasil", "Capitães do Brasil",  "Afonso de Albuquerque", "Dom João Castro", e "Os Portuguese na Etiópia", e do livro Gastão Sousa Dias "E Julgareis qual Será o Mais Excelente..." que tínhamos em casa. 
 
 
A grande difusora da epopeia dos Descobrimentos Portugueses, Elaine Sanceau (1896-1978)
 
 
Eu gostava muito de ler a narrativa épica, mas simples, de Elaine Sanceau, pelo que aos poucos, e à medida que as poupanças me permitiam, comprei todos os livros da séria completa (a minha primeira colecção completa!) publicada pela Livraria Civilização, dessa grande mestra em história da expansão portuguesa no mundo que foi Elaine Sanceau. Foi ela quem abriu para mim as portas ao interesse sobre a expansão portuguesa no mundo e ao contacto e interacção entre europeus e povos nativos através do mundo. 
 
Elaine Sanceau era inglesa de origem mas de ascendência francesa. Ela foi educada na Suiça e viveu muitos anos perto da cidade do Porto. Ela escreveu um total de 38 livros, todos sob o grande tema dos descobrimentos portugueses.
 
 
Gastão Sousa Dias
 
Gastão Sousa Dias (nome completo Gastão Adalberto Antunes de Sousa Dias), nasceu na cidade de Chaves em Portugal, em 1887, e faleceu em Sá da Bandeira (Lubango) em 1955. Ele foi um dos mais importantes historiadores sobre a história dos portugueses em Angola do século XX. Ele foi capitão do Exército Português e viveu em Sá da Bandeira (Lubango) durante muitos anos desde 1918 até à sua morte em 1955, onde foi professor de Português, História, Matemática, e Desenho, no Liceu Diogo Cão (segundo liceu em Angola). Ele nasceu e morreu precisamente nos mesmos anos em que o meu avô Júlio Pinto Correia nasceu e morreu. 
 
A sua obra extensa sobre história de Angola, ou melhor, sobre a história dos portugueses em Angola, inclui muitos estudos importantes, como "Julgareis Qual Será o Mais Excelente...", "A Batalha de Ambuíla", "Os Portugueses em Angola", "Relações de Angola", "Pioneiros de Angola", "A Cidade de Sá da Bandeira", "Povoamento de Angola", "Os Auxiliares na Ocupação do Sul de Angola", e "O Destino da Grei", e outros estudos. 
 
Ele escreveu também ensaios biográficos muito bons sobre muitas personalidades importantes na história dos portugueses em Angola, como Silva Porto, Artur de Paiva, Manuel Cerveira Pereira, Bispo Dom António Barroso, Padre Charles Duparquet, Padre Ernesto Lecomte, Monsenhor Keiling, e José de Anchieta.
 
 
O profíquo historiador Gastão Sousa Dias (1887-1955)

 
O meu encanto por África cresceu com a leitura ainda cedo da biografia de Albert Schweitzer e a sua obra no hospital de Lambarené, no Gabão, e de dois livros muito interessantes de Fernando Laidley "Roteiro Africano" e "Missão em África" que relataram a primeira incrível viagem de automóvel à volta do continente africano num Volkswagen "Carochinha" em 1956, e dois anos mais tarde a única viagem de automóvel ligando as províncias portuguesas no continente africano (Guiné, Angola, e Moçambique) num carro de marca Ford Taunus, de fabrico alemão. Os livros de Fernando Laidley eram fáceis de ler, pois eram cheios de aventura e tinham muitas fotografias dos muitos lugares exóticos que visitou.


Desenterrar o VW no deserto do Kalahari
Uma gravura da viagem de Fernando Laidley à volta de África
no seu livro "Roteiro Africano", 1958

 
Fernão de Magalhães
 
Foi nessa altura também que li a biografia de Fernão de Magalhães, o famoso navegador português primeiro a dar a volta ao mundo, escrita por Stefan Zweig a partir dos diários de António Pigafetta. O feito de Fernão de Magalhães é de facto um dos maiores feitos (senão o maior e mais difícil) de exploração na história da humanidade. Contra tudo e contra todos, Fernão de Magalhães continuou fiel ao que pensava e acreditava. Embora uma personalidade reservada, ele foi um líder extraordinário que grangeou o respeito e a admiração de todos, e é hoje o português mais reconhecido no mundo (talvez com a excepção de CR7 Ronaldo...).
 

A rota da incrível primeira viagem à volta do mundo (1519-21) de Fernão de Magalhães (1480-1521)

 
Após ler a história da sua vida e a descrição da sua incrível viagem de circum-navegação, Fernão de Magalhães ficou a ser uma das personagens históricas que mais admirei na vida; de facto, ele passou a ser o meu herói para o resto da minha vida, e de me dar razões para ter orgulho em ser português. 
 
 
Selo memorativo do grande navegador português Fernão de Magalhães (1480-1521)

 
Deste livro recordo em especial os capítulos sobre o injusto tratamento que recebeu do Rei Dom Manuel I, da maneira sábia, resoluta e justa como ele geriu as revoltas dos comandantes espanhóis contra a sua autoridade, das tentativas malogradas de atravessar o tenebroso estreito que havia de ter o seu nome, da travessia do Pacífico em que não avistou qualquer ilha por muito temo e a tripulação se viu obrigada a comer ratos e sola de sapatos em água quente.
 
 

A armada de Fernão de Magallães foi a primeira a chegar ao Oceano Pacífico atravessando por mar o sul da Patagónia em 1521

 
 
Em especial, não esqueço o parágrafo da oração fúnebre de Pigafetta após a morte de Fernão de Magalhães na Ilha de Mactan, nas Ilhas Filipinas, em que retrata o amor, a admiração, e o respeito que toda a tripulação (incluindo os seus antigos inimigos) tinha por ele.
 

A morte heróica de Fernão de Magalhães, na Ilha de Mactan, nas Ilhas Filipinas, em 1521.
 

Stefan Zweig foi um escritor austríaco de origem judaica que escreveu muitos livros de grande popularidade nos anos Trinta, Quarenta e Cinquenta do século passado, dos quais acabei por ler toda a sua obra, e que destaco as biografias de Fernão de Magalhães, Maria Antonieta, Raínha Maria da Escócia, e Américo Vespúcio, e as suas obras "O Mundo de Ontem", "Os Grandes Momentos da Humanidade", e "A Marcha do Tempo", que foram best-sellers no seu tempo.
 
 
O escritor austríaco Stefan Zweig (1881-1942)

 
Infelizmente, descoroçoado com a expansão do nazismo no mundo, Stefan Zweig e sua esposa fugiram da Áustria e da Alemanha e refugiaram-se na Inglaterra, mudando mais tarde para o Brasil, onde, desiludidos com o expandir do fascismo no mundo, acabaram por se suicidar ambos na cidade de Petropólis, no estado do Rio de Janeiro, em 1942.


Óscar Ribas
 
Em parte encorajado pela leitura desta importante obra de Mário António, li quase toda a obra de Óscar Ribas, com ênfase em Missosso (três volumes), Izomba, Uanga, Sunguilando, e Quilanduquilo, que hoje guardo como grande tesouro. Foi através da pena de Óscar Ribas que eu aprendi quanto viva e rica era a cultura tradicional luandense.


O grande sociólogo de Luanda colonial Óscar Ribas (1909-2004)

 
Óscar Bento Ribas foi sem dúvida o mais importante autor em estudos de folclore, ensaísta, e escritor luandense do século XX. Filho de pai português e de mãe angolana, ele nasceu em Luanda a 17 de Agosto de 1909. Cresceu em Luanda num universo crioulo onde os vectores culturais português e angolano se cruzavam em todo o lado e a todo o momento. Estudou a instrução primária no Seminário Maior de Luanda, e ensino secundário até ao 5º ano no Liceu Salvador Correia. Já um jovem adulto completou os seus estudos em práticas comerciais em Portugal, nas cidades da Guarda e Lisboa. 
 
Ele viveu a maior parte da sua vida em Luanda, mas também viveu noutras cidades em Angola, como Benguela, Novo Redondo (Sumbe), Salazar (Ndalatando), e Silva Porto (Kuito). Durante alguns anos, ele foi funcionário público, trabalhando nos Serviços de Fazenda e Contabilidade.
 
Devido à progressão da retinite pigmentária ocular que sofria desde a sua juventude, uma doença genética ainda sem cura, Óscar Ribas acabou por perder a vista aos 36 anos de idade, tendo sido auxiliado durante o resto da sua vida de produção literária pelos seus irmãos Mário e Joaquim Ribas.
 
Óscar Ribas começou a escrever ainda muito novo, enquanto estudante do Liceu Salvador Correia (ainda no antigo edificio na Avenida do Hospital), publicando inicialmente três novelas: "Nuvens que Passam...", em 1927, "O Resgate Duma Falta", em 1929, e "Flores e Espinhos", em 1948.
 
Neste esforço de aprender mais sobre o folclore luandense, ele contou com a ajuda preciosa de cinco informantes luandenses como sua mãe Maria da Conceição Bento Faria, Adelina João Rodrigues, Rita Manuel, Maria Câncida Camacho, e Virginia Francisco Santos, que o acompanharam na pesquisa e recolha de elementos durante muitos anos.
 
O seu interesse em aprender tudo sobre o universo cultural luandense levou-o a pesquisar a fundo o folclore, a literatura e tradição oral,a língua, as canções, a música, as danças, a sabedoria popular, e a religião e filosofia tradicionais da Luanda crioula.
 
Depois de um interregno de cerca de vinte anos, e devido à progressão da sua cegueira, Óscar Ribas deixou o romance em 1942 e virou-se para a reprodução literária de contos e estórias tradicionais, romance folclórico luandense, canções e danças populares, adivinhas, provérbios, superstições e lendas, sincretismo religioso, gastronomia, farmacopeia e etno-botânica, etiqueta, vida conjugal, vida familiar, educação, vida associativa e recreativa, desfile de danças e carnaval, e instantâneos da vida africana luandense.
 
Em todas as suas obras ele usou o kimbundo vernáculo e a correspondente tradução em português de canções, ditados, e provérbios, bem como de fotografias originais de eventos como bailes tradicionais (massemba) e desfiles (carnaval), chegando assim a oferecer uma descrição muito rica e pormenorizada da vida social luandense.
 
Com o intuito de dar ao leitor a melhor compreensão possível, Óscar Ribas, incluiu no final da maioria das suas obras um elucidário onde explicava em detalhe o significado de certos termos kimbundo, ou de gíria popular luandense.
 
Óscar Ribas tinha o dom de descrever situações quotidianas de tal forma clara e viva que fazia o leitor sentir que estava a viver o momento real dentro do universo que estava a ser descrito. Ele narrava com fidelidade o dia-a-dia da vida e o universo mental africano e português, bem como as relações raciais entre os mesmos. O seu objecto de estudo e descrição foi a vida na Luanda crioula, não Angola no seu todo, e nem tanto o universo Ambundo do interior da bacia do Quanza, apenas Luanda crioula.

A sua produção literária é extensa, e inclui clássicos da literatura angolana como "Uanga - Feitiço" (romance folclórico, 1969), "Ecos da Minha Terra Natal" (dramas angolanos, 1952), "Ilundo" (ritos e divindades angolanas, 1958), "Missosso"(literatura tradicional angolana, em três volumes, 1961, 1962, e 1964), "Alimentação Regional Angolana" (1965), "Izomba" (associativismo e recreio, 1965), "Sunguilando" (contos tradicionais angolanos, 1967), "Quilanduquilo" (contos e instantâneos, 1973), e a sua autobiografia "Tudo Isto Aconteceu" (romance autobiográfico, 1975). A sua década mais produtiva foi entre os cinquenta e sessenta anos de idade.
 
Em 1983, Óscar Ribas foi viver para Portugal, onde publicou  mais duas obras importantes "Cultuando as Musas" (1992), e "Dicionário de Regionalismos Angolanos" (1994).

Durante a sua longa vida Óscar Ribas foi galoardoado com os mais prestigiados prémios e distinções, títulos honoríficos, e homenagens do maior reconhecimento internacional, não só em Angola, como em Portugal, no Brasil, e noutros países. 
 
Óscar Ribas faleceu aos 94 anos de idade num lar de terceira idade em Estoril, Cascais, a 19 de Junho de 2004. As suas cinzas foram mais tarde transladadas para o Cemitéio do Alto das Cruzes em Luanda, panteão onde descansam os restos mortais dos angolanos mais ilustres.
 
Em evocação e memória à pessoa que foi e à extraordinária obra que deixou, o seu nome foi dado a uma escola no Cazenga, em Luanda, à Universidade Óscar Ribas, também em Luanda, à Fundação Óscar Ribas, e à Casa Museu Óscar Ribas, bem como a ruas em cidades em Angola e em Portugal. Em 1983 ele doou a Angola a sua residência em Luanda com todo o seu precioso espólio que são hoje base para a Casa Museu Óscar Ribas. Ele foi também um grande arauto defensor do apoio a pessoas cegas ou afectadas por deficiências visuais.

 
Mário António
 
Já mais perto da minha vivência quotidiana em Luanda, li o livro "Luanda, Ilha Crioula" de Mário António (Mário António Fernandes de Oliveira), que foi uma figura erudita na década de Sessenta em Angola, que me ajudou a compreender melhor o mosaico cultural diverso que era Luanda desse tempo, e me revelou a "ilha" crioula que Luanda (não Angola) era no contacto e cruzamento de culturas. 
 
Ainda neste tópico de universo crioulo e de relações raciais em Luanda, devo dizer que foi através dos escritos de Mário António sobre o fenómeno social da cultura crioula luandense que eu acordei à evidência de que foi o impacto global da exploração marítima dos Portugueses que levou ao contacto entre muitos povos espalhados pelo mundo.
 
 
Mário António Fernandes de Oliveira (1934-1989) notável ensaista, poeta, historiador, e sociólogo angolano
 
 
Mário António Fernandes de Oliveira, meu conterrâneo de Maquela do Zombo, foi um nacionalista, poeta, sociólogo, e investigador importante de história de Angola. Além do seu livro mais original "Luanda Ilha Crioula", ele coordenou a publicação da série monumental "Angolana - Documentação Sobre Angola" em três volume, publicados pelo Instituto de Investigação Científica de Angola (IICA) e o Centro de Estudos Históricos Ultramarinos (CEHU) que revelou ao público muitos documentos históricos inéditos entre os anos de 1783 e 1887. Ele publicou ainda alguns livros de poesia.
 
Mário António foi um nacionalista ferrenho que desde muito cedo lutou afincadamente contra o sistema colonial. Com Viriato Cruz, António Jacinto e Ilídio Machado, ele foi um dos fundadores do Partido Comunista de Angola em 1955. Ele sofreu nas cadeias da PIDE, mas foi libertado mais tarde. Contudo, a sua tese de crioulidade de Luanda, o seu regresso à vida cultural de Luanda (em vez da fuga para o estrangeiro como muitos outros), adicionado ao facto de que trabalhou durante alguns anos para instituições portuguesas de investigação histórica, vieram todas a grangear-lhe um doloroso ostracismo pelos movimentos nacionalistas, que chegaram ao ponto de o chamar traidor à causa nacionalista. Felizmente, nos últimos anos esta injustiça foi um tanto mitigada, e o valor do seu trabalho e a justiça da sua memória foram um pouco restabelecidos.  
 
Na sua importante obra "Luanda Ilha Crioula", Mário António avaçou a ideia de que mercê de séculos de contacto entre a cultura africana e a portuguesa, Luanda era uma "Ilha Crioula". Eu concordo com a sua ideia, mas eu penso que tal se limitava a Luanda somente e não ao resto de Angola. De facto, Luanda era a cidade em que o fenómeno da crioulidade estava mais enraizado e era mais evidente, como se pode ver na obra de Óscar Ribas, mas à medida que se ia para o interior e para sul, a crioulidade depressa se esbatia. 
 
Pelas mesmas razões eu penso que  Benguela e Catumbela eram uns  "ilhéus crioulos" (pequenos, não chegavam a uma ilha), mas à medida que íamos para sul encontrávamos Lobito, Sá da Bandeira (Lubango) e Moçâmedes (Namibe) que era a cidade mais "branca" de Angola, e para o interior (Nova Lisboa (Huambo) e Silva Porto (Kuito), que eram cidades mais europeias onde, com a excepção de Silva Porto, Chinguar e Bela Vista, o contacto de culturas e a misceginação genética entre africanos e europeus era menor e mais recente.


Alberto Lemos
 
Cabe-me referir aqui que em 1969 o Tó Soto Maior deu-me um livro precioso sobre a História de Angola - Nótulas Históricas, da autoria de Alberto Lemos, (Alberto Jorge Júdice Ferreira de Lemos era o seu nome completo) e edição do CITA, que por várias razões achei importante. 
 
Foi o primeiro livro que li dedicado exclusivamente à História de Angola que foi escrito por um angolano (designado como "angolense" nesse tempo), se bem que ainda sob o tema da história dos portugueses em Angola, mas que numa perspectiva angolense descrevia de uma maneira muito clara e cativante o que era a vida quotidiana das famílias mais destacadas de Luanda nas últimas décadas do Séc. XIX e primeiras do Séc. XX. 
 
Alberto Lemos foi o fundador dos Serviços de Estatística de Angola (originalmente Repartição de Estatística Geral de Angola), e chefiou os trabalhos do primeiro Censo Populacional de 1940. Ele (com a ajuda do Monsenhor Alves da Cunha) desempenhou também um papel essencial na colecção e publicação dos "Arquivos de Angola", e na fundação do Museu de Angola, que originalmente se situava na Fortaleza de São Miguel, e mais tarde foi transferido para edifício próprio na Rua de Nossa Senhora da Muxima.
 
 
O historiador e cronista Alberto Lemos (1893-1977), arauto da difusão da história de Angola propriamente dita, e defensor dos interesses angolenses no governo colonial.
 
 
Alberto Lemos contribuiu com muitos artigos sobre história de Angola na a imprensa luandense do seu tempo (o jornal A Província de Angola), e escreveu também alguns contos sobre Loanda Antiga, dos quais destaco "Marinela, a Mulher da Moda" que foi uma descrição da derrocada dramática da famosa família Lencastre de Loanda antiga, incluído na sua obra "Nótulas Históricas".
 
Os textos de Alberto Lemos são claros na sua angolanidade genuína, onde se nota até um pouco de desdém sobre os novos colonos portugueses quase analfabetos que começaram a imigrar para Angola depois da década de 1920, especialmente se tivermos em conta que foram escritos como um grito de resistência no auge da opressão do novo regime colonial e já policial do Estado Novo (1930-1945).
 
Voltando ao fenómeno colonial numa perspectiva mundial, é certo que este contacto dos povos nativos com colonos/emigrantes europeus levou à exploração económica desenfreada dos povos nativos pelas nações europeias (imperialismo), o que invariavelmente levou a conflitos graves entre esses povos e a hegemonia europeia/ocidental (guerras coloniais e mundiais), que ainda hoje se travam no mundo. É a esta espiral histórica do colonialismo (exploração marítima - contacto - exploração económica - conflito - destruição da sociedade nativa) que eu chamo de furacão colonial. 
 
Comecei assim a compreender que o sistema colonial é na sua essência baseado na extinção da sociedade nativa, no roubo da terra e das riquezas naturais, na apropriação do trabalho indígena, na opressão - o colonizado não é cidadão (é força de trabalho) -  e na violência (ocupação militar, polícia dura, e castigos duros para faltas leves).

 
16. Liceu Nacional Salvador Correia
 
 
Vista do Liceu Nacional Salvador Correia, aguarela da pintora Zélia Reis Ferreira.

 
Desde muito cedo os meus pais, especialmente a minha Mãe, cultivaram em mim o interesse pela história e pelo negócio (eu era um bom jogador de Monopólio...), o que talvez subconscientemente me levou a seguir a Alínea "G" no Sexto e Sétimo anos (Ciências Económicas e Financeiras), quando mudei para o Liceu Salvador Correia para frequentar o sexto e sétimo anos. Os meus três anos no "Salvador Correia" (só fiz os exames de Matemática e Inglês um ano mais tarde) foram críticos para a minha formação como pessoa e cidadão. 
 
Findo o 5º Ano no Liceu Paulo Dias de Novais, eu entrei para o Liceu Salvador Correia em 1967. Entre os mundos das humanidades e das ciências no Liceu Nacional Salvador Correia, os alunos da Alínea "G" tinham certas disciplinas com os cursos de línguas (românicas e germânicas), ciências histórico-filosóficas e direito (História), e outras com os alunos de ciências e arquitectura (Geografia e Matemática), sendo as disciplinas de Filosofia e OPAN (Organização Política e Administrativa da Nação) comuns a todas as alíneas do terceiro ciclo, o que me permitiu conhecer muitos colegas e fazer muitas amizades num universo mais alargado de estudantes e professores. 
 
 
Alunos em frente ao antigo Liceu Central de Salvador Correia. Foto tirada antes de 1942.

 
Recordo aqui que havia uma certa concorrência entre os alunos de Direito e de Economia, pois tínhamos três disciplinas comuns (História, Filosofia, e OPAN), mas como sempre, os alunos de economia eram melhores (não esqueço aqui o que o provébio "Presunção e água benta, cada qual toma a que quer...). As salas de aula eram na parte nova do Liceu, junto à escola preparatória. Os melhores alunos da nossa turma de Ciências Económicas e Financeiras (Alínea G) eram a Margarida Chagas Lopes e o José Luís Seara de Morais. Não esqueço que a chefe de turma era a nossa colega Judite Villa Lobos, que desempenhou um excelente trabalho.
 
Para frequentar o Liceu, os alunos tinham de pagar todos os anos uma propina não muito cara, que era paga em selos fiscais. Os alunos cujas famílias não pudessem arcar com esse custo, podiam requerer isenção de propinas, que lhes era normalmente concedido, dependendo no seu desempenho académico.
 
O edifício do Liceu Salvador Correia era um dos mais vistosos prédios de Luanda, de facto era mesmo o mais vistoso e imponente complexo educativo em todo o império português. Mesmo ao cimo da Rampa do Liceu, ele dominava Luanda e projectava um sentido de poder e permanência, ao mesmo tempo de calma e solidez. A duração da construção do complexo do liceu durou quatro anos, sendo o novo edifício inaugurado pelo ministro das Colónias, Dr. Francisco José Vieira Machado, em Julho de 1942. 
 
 
Vista do Liceu Nacional Salvador Correia na Avenida Brito Godins (Lenine) em ca. 1950.
 
 
Embora completamente urbanizado à sua volta no tempo que eu frequentei o Liceu, até à década de Cinquenta, os terrenos à volta do Liceu eram vazios e devolutos onde que mais tarde se vieram a construir o Bairro do Café (residências e instalações do Rádio Clube de Angola), área do antigo Musseque Braga. 
 
Atrás da Torre do Relógio do edifício do Liceu, estava o ginásio que servia também de salão para saraus, festas, e sessões de teatro; ao centroera a  entrada principal. No átrio à esquerda havia um jardim que tinha dois jacarés pequenos. A biblioteca era ao centro, no primeiro andar. O Salão Nobre, de altura de dois andares, era no veio do centro, separando os dois átrios. A secretaria era à direita da ala central, e a sala dos professores era à esquerda. O parque desportivo era à direita, com campo de futebol, futebol salão, recinto para basquetebol, andebol, voleibol,e ringue de patinagem; e o jardim de entrada ao centro. As salas de aula eram muito amplas, protegidas do sol, e muito bem arejadas. Mais tarde foi erguido um busto em memória do patrono do Liceu, o luso-brasileiro Salvador Correia de Sá e Benevides, restaurador do domínio português de Angola, em 1648. 
 
 
Os vetustos claustros do Liceu Salvador Correia; no jardim cercado à esquerda haviam dois jacarés pequenos que lá viviam a sua pacata vida sem incomodar ninguém.
 

Não posso falar do Liceu Salvador Correia e não falar das caminhadas de ida e vinda das aulas. Nós morávamos a princípio da rua 29 de Maio, que era a pouco mais de dez minutos do Liceu. Na ida para as aulas nós tínhamos que subir metade da Avenida Brito Godins, que ainda era um pouco íngreme, e no regresso tudo era mais célere pois só tínhamos que descer o mesmo percurso. Como todos, nós tínhamos os nossos amigos preferidos com quem andávamos todos os dias. Nesses breves dez minutos de caminho nós falávamos sobre tudo (não sobre todos!), e às vezes tínhamos até conversas muito interessantes. Como posso esquecer as conversas com a Fatinha, com a Mitinha, com o Mário Jorge, com o Tomané, e com o José Luís Bernardino? Que saudades de amigos tão bons!


O Salão Nobre e de Exposições do Liceu Nacional Salvador Correia, 1960s
 
 
Lembro aqui as professoras Dra. Teresa Velhino (de Inglês), a Dra. Piedade (de alcunha Periquita, de Filosofia), a Dra. Graça Prata (de História), e Dr. Catarino, o notável professor de filosofia e OPAN no 7º ano. Adorei todas as disciplinas (História, Geografia, OPAN, Matemática, Inglês, e Filosofia), em especial História, Geografia e OPAN (Organização Política e Administrativa da Nação) em que eu era um dos bons alunos na turma. 

A disciplina de Filosofia abrangia psicologia e filosofia. Em psicologia no 6º ano aprendíamos o seu objecto e método, consciência e a atenção. Sobre a vida intelectual, aprendíamos  a aquisição dos conhecimentos (sensação e percepção), a conservação e combinação de conhecimentos (imagem, associação,memória, e imaginação criadora), elaboração intelectual dos conhecimentos (abstração e generalização, a ideia, a razão, o raciocínio, e a inteligência). Aprendíamos depois noções de vida afectiva (prazer e a dor, as tendências, o sentimento, o temperamento, a emoção, e a paixão). Aprendíamos por fim noções fundamentais sobre a vida activa, como o instinto, o hábito, a vontade, a liberdade, e a personalidade.
 
No 7º ano cobríamos conceitos fundamentais de filosofia, como a lógica, metodologia das ciências, teoria do conhecimento, ética, moral formal e prática, estética, metafísica, ontologia, cosmologia, psicologia racional, e teodiceia.
 
O livro de estudo básico era o temido e famoso "Compêndio de Filosofia", para os 6º e 7º anos, da autoria de J. Bonifácio Ribeiro e José da Silva. Eu era um aluno normal em filosofia. Eu tive ambos o Dr. Catarino e a Dra. Piedade como professores de psicologia e filosofia, respectivamente, e sinto que tenho que confessar que gostei mais do método não convencional de explicar e captar a participação dos alunos nas aulas do Dr. Catarino. 
 
A disciplina de OPAN (Organização Política e Administrativa da Nação), dada também pelo Dr. Catarino, incluia rudimentos (muito filtrados) de ciência política e o estudo dos órgãos de soberania nacional - Assembleia Nacional, Câmara Corporativa, Chefe do Estado, Governo, e os tribunais. Aprendíaos também nesta cadeira a organização política e administrativa de Portugal como país soberano, e das suas (então) províncias ultramarinas. Eu era um dos melhores alunos em OPAN.
 
A cadeira de História era uma repetição mais detalhada e extensa do que tinhamos aprendido do 3º ao 5º ano. No 6º ano cobrimos história de Portugal (sem qualquer referênci à história de Angola), e no 7º ano cobrimos história universal, com ênfase na história dos países ocidentais. 


O Dr. João Agostinho Teixeira Lucas, saudoso reitor do Liceu Nacional Salvador Correia, 1967-69.


A nossa professora de Geografia era a Dra. Ondina Amarelo Cruz, que penso que era natural de Cabo Verde (não estou completamente certo), que nos fez gostar ainda mais de cosmografia, e geografia física, económica, e humana. O tópico de cosmografia, que eu ainda hoje adoro, como um dos ramos da astronomia, não era de fácil compreensão mas dava azo a uma ginástica mental muito mais ampla e complexa. 
 
Lembro-me que o aparentemente simples exercício de calcular a distância entre dois pontos no espaço baseado nas suas posições no espaço era de facto uma tarefa deveras complicada, pois não podíamos usar coordenadas terrestres fixas pois a posição do observador é sempre relativa na órbita do sol e dos seus planetads.

Lembro-me ainda que foi nessa altura que eu cheguei à conclusão por mim próprio do carácter pseudo-científico da astrologia e dos signos do Zodíaco, pois eu não podia reconciliar o facto manifestamente cientifico que o alinhamento dos planetas e estrelas dependia da altura do ano e estava sempre também dependente do local onde se fazia a observação da terra, pois os corpos celestes que vemos no hemisfério sul não são os mesmos que se vêm no hemisfério norte. Esta constatação levou-me a concluir não ser possível haver um calendário astrológico universal que se aplicasse a todos os lugares no planeta Terra durante todo o ano, pois quando e onde nascemos determina o alinhamento dos corpos celestes que podemos observar.
 
 
Oh, não! A sorte e o azar não dependem do signo de Zodíaco.

 
Foi em Julho de 1969, quando eu frequentava o Liceu Salvador Correia, que um dos marcos mais extraordinários da história da ciência e tecnologia teve lugar: A aterragem e breve visita de 21 horas da nave espacial Apollo 11 à superfície da Lua. Lembro-me que acompanhei de perto este acontecimento através da rádio, jornais, e cinema, pois ainda não tínhamos televisão em Angola, e que me entusiasmei com a sua ligação à cosmografia que tinha aprendido recentemente no liceu. Na verdade, as palavras de Neil Armstrong resumiram perfeitamente o significado dessa conquista: "É um passo pequeno para um homem; mas um passo bem grande para a humanidade". 


Aterragem da tripulação do Apollo 11 na Lua, a 20 de Julho de 1969, um marco histórico no progresso da ciência e da tecnologia


No Sexto Ano fui escolhido para fazer parte da turma experimental de Matemática Moderna no Liceu Salvador Correia - havia outra turma mista no Liceu D. Guiomar de Lencastre lecionado pela Dra. Maria Estefânia Marques - que muito me ajudou a aprender a trabalhar melhor com os meus neurónios. Lembro aqui com muita saudade a figura do Dr. José Cândido Vinhas Novais, que como professor da turma de Matemática Moderna despertou em nós o interesse pela matemática não convencional.
 
Foi um privilégio muito grande para mim ter sido escolhido para a turma experimental de Matemática Moderna no 6º e 7º anos. Para além do currículo conventional de matemática para o 3º Ciclo, nós aprendemos um campo de matemática muito mais amplo, incluindo lógica matemática, teoria de conjuntos, teoria de grupos, aneis e isomorfismos, funções (simples, quadráticas, trigonométricas, logarítmicas, e exponenciais), números complexos, álgebra de Boole, espaços, topologia, teoria dos números, séries, análise combinatória, introdução à estatística e teoria das probabilidades, teoria dedutiva dos números naturais, cálculo vectorial, transformações e isometrias, matrizes, álgebra linear, e cálculo infinitesimal (limites, derivadas, integrais, e equações diferenciais). O programa da turma experimental era muito mais amplo e aprofundado obrigando-nos a pensar em maneiras menos convencionais.
 
 
Lógica matemática - Exemplo de uma Tabela de Verdade para uma operação lógica de três variáveis

 
Por sugestão do professor Vinhas Novais, professor de Matemática Moderna no Liceu Salvador Correia, eu li nessa altura o livro"Princípios de Lógica Matemática" do filósofo, uma obra conjunta de  Bertrand Russell e do seu professor, o matemático Alfred North Withehead, que me abriu a mente à relação entre a filosofia e a matemática (a lógica), a ver a matemática mais como uma linguagem com a sua própria sintaxe do que uma ciência, e a reconhecer a sua relevância no nosso modo de pensar e ver o mundo. A princípio, achei o livro um pouco críptico, pois usava uma simbologia nova e estranha, mas logo reconheci a sua importância. Lembro-me que desse livro adorei as referências à história da matemática.
 
 
O grande matemático francês Pierre de Fermat (1601-65), autor do desafio matemático que demorou 350 anos a resolver

 
Tocando no tema da história da matemática, não esqueci durante estes anos todos as breves mas encantadas biografias de alguns génios da matemática que então aprendi, como René Descartes (1596-1650), Blaise Pascal (1623-52), Pierre de Fermat (1601-65, e o seu famosíssimo teorema, só resolvido em 1994 - para n>2, não há nenhum termo que satisfaça a equação a^n + b^n = c^n ), Leonhard Euler (1707-83), e do génio precoce de Évariste Galois (1811-32). 
 
 
O génio matemático Évariste Galois (1811-32), de quem tanto ainda se esperava, precocemente morto num duelo aos vinte anos de idade.

 
Bertrand Russell foi um dos filósofos mais importanees (e mais polémicos) do século XX. Ele era inglês de nascimento (em 1872), mas, como todos os filósofos, universal em consciência. A sua obra centrou-se na relação entre a matemática e a filosofia, embora o seu activismo social em prole da paz e da liberdade humana fossem os factores que o fizeram mais conhecido (e admirado) no mundo inteiro. Ele foi preso por duas vezes em defesa das suas ideias.A sua obra é extensa e  fundamental. Os seus livros mais influentes incluem "A Minha Concepção do Mundo", "Porque não sou Cristão", "Princípios de Lógica Matemática", e "História da Filosofia Ocidental". Ele trabalhou em diversas universidades na Inglaterra, na Índia, na China, na União Soviètica, e nos Estados Unidos, tendo falecido em 1970.
 
 
O filósofo e matemático Bertrand Russell (1872-1970)

 
Alfred North Whitehead, que foi professor de Bertrand Russell na Universidade de Cambridge, foi um filósofo muito influente durante a primeira metade do século XX, pela sua interpretação da filosofia do processo, em que tudo no mundo deve ser visto como um uma rede de processos interdependentes (o que importa são as relações entre as coisas), e as nossas escolhas e acções têm consequências onde vivemos. 
 
Contudo, foi na filosofia da ciência, na teologia, na metafísica, e nas bases filosóficas da matemática que ele se distinguiu como um pensador extraordinário contra a corrente de pensar do seu tempo. Ele foi professor de matemática nas melhores universidades do mundo do seu tempo - no Trinity College em Dublin, no Imperial College in Londres, na Universidade de Cambridge, na Universidade de Londres, e na Universidade de Harvard
 
Com o seu aluno Bertrand Russell, ele foi co-autor dos três volumes da Princípia Matemática (1910-1913). Como educador notável, ele defendeu a ideia que a ênfase da educação não é aprender factos e relações, mas sim no fomento da imaginação. Alfred North Whitehead morreu em Cambridge, Massachusetts, EUA, em 1947.
 
 
O filósofo (e matemático) Alfred North Whitehead (1861-1947)

 
O programa de matemática moderna ajudou-me muito mais tarde na Faculdade de Economia da Universidade de Luanda e durante a vida fora, pois além de poder manipular facilmente símbolos e números, com ele aprendi a compreender melhor a matemática como uma ciência e uma forma de linguagem, e a trabalhar melhor com conceitos muito mais complexos de modelos no tratamento matemático da economia.


A minha Certidão de Habilitações Literárias confirmando eu ter completado o 3ª Ciclo dos Liceus (7º Ano) no Liceu Nacional de Salvador Correia, em 1970

 
Escrevi nesse ano o meu primeiro artigo (uma resenha biográfica) sobre o Barão Pierre de Cubertin e os jogos olímpicos modernos que foi publicado no nosso saudoso jornal "O Estudante", orgão dos alunos do Liceu Nacional Salvador Correia, que despertou em mim o gosto (mais tarde paixão) por escrever. Já que menciono aqui o jornal "O Estudante", tomo a liberdade de referir o artigo que escrevi em 2003 "Cidadão do Mundo", sobre a questão da minha "nacionalidade" universal, que sugiro a sua leitura.


Alunos na Biblioteca do antigo Liceu Nacional Salvador Correia, 1969

 
Ainda no Sexto Ano do liceu estive em casa doente cerca de dois meses com febre tifóide o que me deu a oportunidade de ler muitos livros dos meus pais, dos quais destaco "As Vinhas da Ira" de John Steinbeck. Esta é uma obra de um realismo social intenso que me marcou sobremaneira, baseada na experiência da Grande Depressão Económica na América nos anos Trinta, em como uma família (a família Joad) de trabalhadores agrícolas (os Oakies), vítimas de uma exploração atroz nos campos de algodão do Olklahoma. 
 
A família Joad tinha perdido todos os seus parcos haveres devido à crise económica de 1929-32 e à exploração desenfreada dos donos da terra, banqueiros, e elites económicas, pelo quee decidira emigrar para a terra prometida das plantações de frutas no Vale de Salinas na Califórnia. Contudo, nessa jornada ia sendo destruída aos bocados, e com heróica dificuldade sobreviveu a pobreza e exploração implacável do estado, dos bancos e dos grandes proprietários da terra na Califórnia de então, e até da polícia. O livro acaba com um quadro dramático de horror e ao mesmo tempo de esperança, quando a filha mais velha da família Joad, acaba de dar à luz um bebé nado-morto, e amamenta com o seu leite um homem que estava agonizando de fome. 


Poster do filme "As Vinhas da Ira" baseado no livro publicado em 1939 de John Steinbeck, escritor agraciado com o Prémio Nobel da Literatura em 1962

 
Li ainda todas as Selecções do Reader’s Digest desde que tinham começado a serem publicadas em língua portuguesa no Brasil (que os meus pais assinavam há alguns anos), li anos e anos de edições do Almanaque Bertrand que tínhamos em casa, e li e reli muitas vezes quase todos os artigos do volumoso e velho "Dicionário Universal Lello" que tínhamos herdado do nosso avô. 
 
Não esqueço ainda as muitas páginas de publicidade nas Selecções do Reader´s Digest (edição brasileira) dedicadas ao esforço de desenvolvimento económico e social do Nordeste do Brasil entre 1962 e 1964, liderados pela SUDENE (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste. A SUDENE era liderada pelo grande economista brasileiro Celso Furtado) que despertou em mim o interesse pela economia política dos países subdesenvolvidos, pela exploração colonial e enriquecimento da Europa e dos Estados Unidos, pelo subdesenvolvimento dos países pobres, pelo estudo em como analizar e superar o estado de pobreza de um país, pela intervenção estatal na economia, e pelo papel que o planeamento económico pode desenvolver em superar o subdesenvolvimento através da industrialização acelerada, o que me levou a escolher o estudo desses temas de economia mais tarde na universidade e durante o resto da minha vida. 
 
Com o navegador português Fernão de Magalhães, o cientista inglês Charles Darwin, o matemático e pensador português Bento Jesus Caraça, e o escritor angolano Castro Soromenho, o grande economista brasileiro Celso Furtado juntou-se ao panteão das figuras que mais havia de admirar na vida, não só pelo exemplo das suas vidas, mas também pelos ideais e valores que se bateram e avançaram. Eles são os meus heróis.
 
Dos artigos que li nas Selecções do Readers' Digest, não esqueço a biografia de Charles Proteus Steinmetz, um génio corcunda alemão, engenheiro electro-técnico de formação, que fez grandes descobertas e invenções no campo da electricidade (das quais a currente alternada) nos princípios so século XX (trabalhando com Thomas Edison e Nikola Tesla), e que despertou em mim o interesse pela história da inovação e invenção tecnológicas e do progresso da tecnologia. 
 
Com menor impacto na minha vida lia também muitos artigos que eram de facto livros condensados de obras importantes editadas na altura, como "Tora Tora" (a história do ataque japonês a Pearl Harbour, nas Ilhas Hawaii em 1941, a história da batalha de Midway, no Pacífico Norte em 1942, e até a obra de propaganda da ditadura militar brasileira "O País que se Libertou a Si Mesmo" que descreveu o golpe de estado e consequente ditadura militar brasileira em 1964, que infelizmente havia de durar até 1988.


Luanda, trecho da Avenida Marginal, 1965

 
Deste período de repouso declarou-se oficialmente o meu interesse por livros e pela leitura, embora já desde muito jovem gastasse em livros o pouco dinheiro que com dificuldade amealhava, e o meu fascínio pela história como registo da experiência de sociedades e mundos passados. Recordo aqui o papel crítico que o Tó Soto Maior desempenhou em aproximar-me ainda mais dos livros com a dávida de dezenas de livros do CITA (Centro de Informação e Turismo de Angola - onde ele trabalhava) e da Agência Geral do Ultramar sobre Angola e sobre a história de Portugal Ultramarino, etnografia e história de Angola, e incluindo a valiosa revista "O Turismo", que tenho a colecção quase completa. 
 
Cabe-me ainda mencionar aqui que frequentei poucas vezes a Biblioteca Municipal de Luanda, que estava instalada no edifício da Câmara Municipal de Luanda acima do largo da Mutamba e perto da Igreja do Carmo. A biblioteca municipal era um lugar muito formal, um tanto escondido e pouco cativante, sem muita luz, que "cheirava a erudito", e em que não se podia fazer barulho, mas que tinha uma quantidade impressionante de livros guardados em prateleiras de vidro que enchiam as paredes altas até quase ao teto.


Quem adivinha esta rua de Loanda Antiga?
Um dos edifícios (qual?), ainda que um pouco modificado, ainda existia em 1975.

 
No ano em que repeti o Sétimo ano só tinha duas disciplinas (Matemática e Inglês) eu trabalhei na Secretaria da Fazenda do 1º Bairro Fiscal de Luanda, na Mutamba, e eu e o Luís Delgado vivemos na casa da família Morais (Sr. Alfredo, Dona Lena, e Tommy Morais) que tinham ido passar licença graciosa a Portugal.  
 
Nota - A licença graciosa era uma regalia de emprego pela qual a maioria dos funcionários públicos em Angola podiam ir passar seis meses de férias pagas com a família a Portugal de cinco em cinco anos. 
 
A casa da família Morais era um apartamento muito bom e amplo situado no primeiro andar de um prédio pequeno de três andares, com vistas do quintal para a Baixa de Luanda, localizado na Rua Pedro Nunes, ao fundo da rampa do Liceu Salvador Correia, do lado esquerdo (para quem desce) à frente da Cooperativa dos Empregados das Companhias de Petróleo (Coopetrol)
 
Durante esse período eu ia almoçar e jantar ao Restaurante Tonga, uma esplanada para comensais muito arborizada que se situava atrás da sede do Instituto do Trabalho e perto da sede do Sindicato dos Motoristas, junto à esquina das ruas Conselheiro Júlio de Vilhena e Engenheiro Artur Torres (entre a Avenida do Hospital e o Largo Serpa Pinto).
 
Em 1970  eu acabei o Sétimo Ano do liceu e fiz o exame de aptidão às universidades portuguesas em Portugal Continental, já que não havia ainda uma faculdade de Economia na Universidade de Luanda. O exame de aptidão foi só sobre Geografia, pois dispensei a Matemática. Eu lembro-me que estudei muito para este exame, e que acabei por dispensar à prova oral (só fiz a prova escrita), e que em mais de 150 examinandos, só três dispensámos à prova oral. Talvez ainda mais do que eu, o meu Pai ficou muito feliz com o feito e celebrou-o com muita alegria quando telefonei para Cabinda a dizer os resultados do exame. 

 
A colónia de férias da Ilha de Luanda, da Mocidade Portuguesa

 
Durante os meus três primeiros anos na Universidade de Luanda, fiz parte da equipa de remo da Mocidade Portuguesa, da qual era timoneiro, e que me deu a oportunidade de visitar o Lobito e Moçâmedes várias vezes nos campeonatos provinciais de remo, nos quais fomos campeões de Angola em alguns. Eu sempre gostei muito da praia e do mar, mas a prática de um desporto náutico nas tardes de fim-de-semana sob a calema (brisa) da Baía de Luanda, que eu haveria de conhecer tão bem, foi para mim uma das actividades das quais guardo as melhores recordações. 


Uma boa tarde de sábado no Pavilhão Náutico
da Mocidade Portuguesa na Ilha de Luanda
 
 
Como mencionei anteriormente, a nossa família era remediada, e qualquer ajuda para aliviar o orçamento familiar era bem vinda. Assim, desde cedo trabalhei nas férias grandes, o que não era normal nesse tempo. Trabalhei durante dois períodos de férias grandes na Proquímica (a maior firma importadora de produtos farmacêuticos em Angola), um ano na firma Rocha Monteiro Lda.   (importação e comercialização de equipamento para fotografia, relógios, e óptica), e no meu último ano do liceu na trabalhei na Secretaria de Fazenda do 1° Bairro Fiscal (no rés-do-chão do prédio dos Serviços de Fazenda e Contabilidade, na Mutamba, hoje Ministério das Finanças). 
 
Por motivos de saúde, nos últimos três anos da universidade fui passar as férias grandes (de Junho a Setembro) a Cabinda com os meus pais e irmãos. Cabe-me ainda dizer aqui que muitos amigos da minha idade que viviam na Maianga deixaram de estudar para trabalhar e ajudar a família muito cedo na vida.

 
Largo da Mutamba, coração de Luanda, 1962. À esquerda, o prédio dos Serviços de Fazenda e Contabilidade, onde trabalhei no 1º Bairro Fiscal.


O cinema, como forma de arte e comunicação social, desenrolou um papel fundamental na formação da juventude luandense da década de 1960, pois ainda não havia televisão em Angola. Como atleta do Sporting Clube da Maianga, eu tinha entrada grátis nos filmes lá apresentados, pelo que vi muitos filmes durante esse tempo (em média dos a três por semana), ao que devo adicionar os filmes que via noutras casas de cinema em Luanda. Como forma de arte que combina simbioticamente a história, a imagem, e o som, o cinema na Luanda do meu tempo era a forma de arte e entertenimento preferida pela maioria dos jovens. Dos muitos filmes que vi, alguns eram tão bons que deixaram em mim um impacto memorável até aos dias de hoje.
 
 
Filmes que me Encantaram 
 
Eu penso que o cinema como uma forma de arte, é mais completo que o teatro, pois não se limita a um palco e permite o uso de técnicas para trazer ideias e situações que o teatro não pode. Como muitos, eu cresci com o cinema, e ainda hoje é a minha forma de arte preferida. Dos muitos filmes que vi, eu prefiro as produções magistrais de grandes realizadores, com grandes actores, acompanhads de excelente suporte musical.
 
O meu tema preferido include o choque de dois mundos protagonizado pelo amor entre dois parceiros jovens de culturas fundamentalmente diferentes, numa realidade pessoal, social, e histórica (ecos de Romeu e Julieta), em que o fim dramático de uma época dá lugar à alvorada de uma nova época (ou a uma tragédia) com nova vida, novos valores, mas as mesmas pessoas, para quem a vitória do trabalho sobre a glória, da persistência sobre a adversidade, do mental sobre o físico, são elementos recorrentes na estória. Estes são os filmes que mais gostei:
 

O Livro de San Michele
 
No cinema do Sporting Clube da Maianga vi um filme que me ficou na memória para o resto da minha vida. O filme foi “O Livro de San Michele” que foi uma adaptação ao cinema feita em 1963 do livro com o mesmo título muito popular de Axel Munthe publicado em 1929, quando já tinha 71 anos de idade. É interessante referir que "O Livro de San Michele" foi o primeiro livro da popular e monumental Colecção Dois Mundos da Edição Livros do Brasil.

Mais tarde, como não podia deixar de ser, li o livro, que me encantou ainda mais. O livro é uma autobiografia muito pessoal e íntima em que factos vividos de uma vida simples e relativamente pacata se misturam com sonhos e receios, situações hilariantes, e com filosofia de vida, mas que são todos descritos com grande simplicidade, franqueza, e humanidade infinita. Do filme, lembro-me em particular da beleza da ilha de Capri, da vila San Michele, e da cena muito vívida da epidemia de cólera que grassou a cidade de Nápoles em 1884, na qual Axel Munthe tomou parte como médico voluntário ainda jovem.

Axel Munthe foi um médico sueco que exerceu medicina em Paris e em Roma na ultima década do século XIX e nas duas primeiras décadas do século XX, que assistiu doentes de todas as condições sociais Na sua primeira visita à Ilha de Capri, ao largo da costa de Itália, quando tinha apenas dezassete anos e ainda estudante de medicina, Axel Munthe apaixonou-se de imediato com a beleza da ilha de Capri, em especial  a vila de Anacapri, e a vida pacata e rústica mas interessante que se vivia na ilha. 

Em especial, ele apaixonou-se pelas as ruínas de uma capela muito antiga já em avançado estado de decomposição, mas mostrando ainda as maravilhosas linhas arquitectónicas de épocas há muito vividas. A capela tinha em tempos idos sido dedicada ao arcanjo São Miguel (San Michele), que por sua vez tinha sido construída sobre as ruínas da vila do Imperador Tibério no tempo do império romano. De imediato ele abraçou o sonho de comprar a capela em ruínas, restaurá-la para que pudesse viver lá, e por fim lá residir para o resto da sua vida (mais cinquenta e seis anos). 


Capa do livro "O Livro de San Michele", de Axel Munthe, editado em portguês em Lisboa pela Editora Livros do Brasil, Primeiro livro da Colecção Dois Mundos

 
Em breve ele completou os seus estudos em medicina e abriu um consultório em Paris e mais tarde outro em Roma. Como médico de renome em Paris e em Roma, e em especial, como médico particular da Raínha da Suécia, em pouco tempo ele ganhou o suficiente para comprar a propriedade ao Maestro Vincenzo, que morava na vizinhança.

Como disse acima, o livro é uma autobiografia de Axel Munthe, mas é também muito mais do que isso. É uma alegoria à vida, a valores humanos, e ao sentido profundo de humanidade. Lembro-me do afecto que Axel Munthe tinha por animais, em especial pelo seu cão Jack e a sua burra Violetta. Para mim, o Livro de San Michele, ensinou-me a importância que o sonho tem na nossa vida, e quanto importantes são os valores humanos que nos guiam por esta viagem terrena, e como tal, ajudou-me muito como timoneiro nas escolhas que tive que fazer ao longo da vida.

 
West Side Story
 
Não esqueço ainda o impacto que o filme West Side Story teve na juventude de Luanda do meu tempo. O filme estreou-se em Luanda em 1962 com grande êxito, pois tocava num ponto fundamental da sociedade angolana - o contacto, ou melhor, a colisão de culturas, que nós interiorizámos como se fosse a nossa situação. 
 
A história é um tanto como uma tragédia de Shaskespeare adaptada a Nova York durante os anos de 1950s, pois foca num desafio de juventude (o gangue dos "Jets" (brancos) contra os "Sharks" (portoriquenhos) e a paixão proibida entre Tony (Richard Beymer) e Maria (Natalie Wood), e o magnífico papel de Rita Moreno (Anita, amiga muito chegada de Maria), a cinematografia, a música (o filme é de facto um musical), e a qualidade de actores fizeram deste filme um dos mais memoráveis para mim.


Cena do filme West Side Story, da canção "Tonight" sobre o amor proibido entre Tony e Maria

 
E Tudo o Vento Levou
 
Mais perto do caso pessoal da nossa família, lembro-me que vi e re-vi o filme "E Tudo o Vento Levou" - uma história pungente de romance escrito por Margaret Mitchell e passado na Guerra Civil Americana (entre 1861 e 1865), no fim do regime de escravatura nos Estados Confederados do Sul, que a minha Mãe se referia com frequência. A estória é sobre a derrocada do sistema de escravatura de plantação (a Fazenda Tara, na Geórgia, um dos Estados Confederados do Sul) e as transformações radicais que trouxe para quem as viveu, não muito diferente da queda do sistema colonial em Angola que veio a acontecer um século depois. 
 
 
O pôr-do-sol (fim) da fazenda de plantação Tara no filme "E Tudo o Vento Levou"
 
 
Este filme  impressionou-me sobremaneira, não só pela história, mas também pela mestria dos actores (Vivian Leigh como Scarlett O'Hara, Clark Gable como Rett Butler, Leslie Howard como Ashley Wilkes, e Olivia De Havilland como Melanie Hamilton), e Hattie McDaniel (como a criada escrava Mammy, desempenho pelo qual ela ganhou o óscar para melhor actora em papel de suporte, e a primeira actora americana de ascendência africana a ganhar um óscar) e qualidade da cinematografia (uma obra magistral do realizador David Selznick).
 
Na verdade, "E Tudo o Vento Levou" ajudou-me a compreender melhor a razão porquê e aceitar o facto de que a nossa família não havia de voltar jamais à Damba e à nossa Roça Novo Fratel, lugares que tanto amava. A Roça Novo Fratel tinha sido estabelecida pelo meu Avô em 1935 e situava-se nas fraldas da Serra do Cusso, a sudeste da Serra da Canda, já entre o Quibocolo uma pequena povoação perto de Maquela do Zombo, minha terra natal, e São Salvador (hoje Mbanza Kongo), no coração do Antigo Reino do Congo. 

 
Doutor Jivago 
 
 
Cartaz do filme "O Doutor Jivago"

 
Mais tarde, quando já andava na Universidade de Luanda, eu vi o filme "Doutor Jivago" estreado em 1965, e baseado no livro do grande escritor russo Boris Pasternak, premio Nobel da literatura em 1958, publicado em 1957, que simplesmente adorei. A estória de "O Doutor Jivago" é baseada no romance entre Dr. Yuri Zhivago (interpretado por Omar Sharif) e a enfermeira Lara Antipova (interpretada por Julie Christie) no seu refúgio na vila mítica de Yuriatin, perto dos Montes Urais, na Rússia, durante os tempos imediatamente após da Revolução de Outubro de 1917, e como as elites russas reagiram à revolução bolchevique. Neste filme, as interpretações de Geraldine Chaplin (como Tonya Gromiko), Rod Steiger (como Viktor Komarovsky), Alec Guiness (como General Yevgraf Zhivago), e Tom Courtenay (como Pasha Antipov / Strelnikov) foram também extraordinárias. O filme "Doutor Zivago foi estreado em 1965. O seu  realizador foi David Lean, o produtor foi Carlo Ponti (marido de Sophia Loren), e foi distribuído pela Metro Goldwin Mayer.
 
Estes dois filmes (E Tudo o Vento Levou e Doutor Zhivago) mostram de uma forma magistral o mesmo momento histórico em dois lugares e tempos diferentes (a derrota do regime escravocrata s estados do Sul dos Estados Unidos da América, e o caír da aristocracia feudal russa (que viria a ser derrubada pela Revolução Bolchevique de Outubro de 1917), e que para o  nosso caso seria a queda do regime colonial em Angola. 
 
Mal imaginaria eu que pouco tempo mais tarde, eu haveria de estar numa situação semelhante, de ver o mundo a caír à minha volta, e de ter que considerar deixar Angola, e viver o resto da minha vida numa pequena cidade como Yuriatin, escondida nas frígidas Montanhas Rochosas do Oeste Canadiano.
 
 
Revolta na Bounty
 
 
 Cartaz do filme "Revolta na Bounty"
 
 
Lembro aqui que adorei ver o filme "Revolta na Bounty", uma estória maravilhosa baseado em factos reais passada nas paradisíacas Ilhas do Sul do Pacífico (Tahiti) no Séc. XVIII, em que os marinheiros da corveta HMS Bounty comandados pelo tenente Fletcher Christian (Marlon Brando), encantados com a beleza das ilhas e das mulheres do Tahiti, se revoltam contra os excessos do capitão do navio William Blight (Trevor Howard), e decidem ficar com as suas novas esposas nativas do Tahiti e mais tarde nas Ilhas Pitcairn escondidas no sul do Pacífico, em vez de voltar à Inglaterra, sua terra natal. 
 
 
South Pacific
 
Se o filme "A Revolta na Bounty" foi a minha introdução ao sonho das Ilhas dos Mares do Sul (Sul do Pacífico), o filme musical "South Pacific" foi o que me conquistou nos meus sonhos românticos para sempre.
 
 
Cartaz do filme musical "South Pacific" - a subtil história de amor de Nellie e Emile

 
De todos os filmes musicais que vi, "South Pacific" foi aquele que mais gostei, e que ainda hoje, mais de cinquenta anos passados, me deixa a sonhar outra vez. Embora com um pouco de tristeza, eu nunca tive a oportunidade de visitar as verdadeiras Ilhas dos Mares do Sul, excepto as Ilhas do Hawaii, que visitámos quatro vezes, que são apenas uma versão comercializada para turistmo de massas que nos faz lembrar ainda que longinquamente o sonho das Ilhas dos Mares do Sul. Desde então sonhei sempre em visitar (e mesmo viver) nas paradisíacas ilhas dos Mares do Sul.
 
O filme estreado em 1958 é baseado no romance do escritor James Michener "Estórias do Sul do Pacífico" publicado em 1946, passado durante a Segunda Guerra Mundial, em que o romance entre a enfermeira americana Nellie (Mitzi Gaynor) e o piloto francês Émile (Rossano Brazzi) era o tema principal, coadjuvado por um arranjo excepcional de canções e arranjos musicais de Richard Rogers e Oscar Hammerstein, o famoso duo que também criou "Olklahoma!" The King andI" (O Rei e Eu), e "Sound of Music" (Música no Coração) adaptados também para o teatro. "South Pacific" foi filmado na paradisíaca baía de Hanalei, na maravilhosa ilha de Kauai, nas Ilhas do Hawaii.
 
"South Pacific" é uma história de amor improvável entre um piloto francês (Émile de Becque, pai de duas crianças polinésias, orfãs de mãe) e uma enfermeira americana (Nellie Forbush), destacados num remota ilha no sul do Pacífico (Bali Hai) durante a segunda guerra mundial, onde está destacado um batalhão de construção naval americano. Para além do preconceito em Nellie aceitar os filhos de Émile, que são mestiços, pois a mãe deles era natural da ilha, o filme toca ainda no romance inter-racial entre o alferes Bill Cable (interpretado por John Kerr) e Liat (interpretado por France Nuyen), uma rapariga local de ascendência norte-vietnamita (Tonquin).

 
 
Cartaz do filme "Hawaii" baseado no livro de James Michener
 
 
Hawaii
 
Ainda sob o tema das Ilhas dos Mares do Sul (sul do Pacífico) e ainda dos escritos de James Michener, eu gostei muito de ver nessa altura o filme "Hawaii", que é uma obra épica de James Michener sobre a colisão de culturas (Havaiana e cristã) na evangelização do povo Havaiano no princípio do século XIX, em que os missionários cristãos em vez de trazerem Deus e a Bíblia aos povos das Ilhas Hawaii, trouxeram apenas doença, destruição, e o acabar do seu mundo. 
 
O filme oferecia muitas cenas maravilhosas que mostrava a cultura Havaiana antes do contacto com os europeus, especialmente música, dança, vestuário, padrões morais, religião, costumes e tradições, relações de parentesco, aristocracia, e organização política e social (uma verdadeira aula viva de antropologia). 
 
Hawaii despertou em mim o interesse pela antropologia e pela dinâmica do contacto entre culturas diametralmente diferentes. Eu tenho ainda que confesar aqui que eu gosto muito das Ilhas Hawaii e do seu povo, pois nós já lá fomos quatro vezes, e se eu um dia fosse rico era onde eu haveria de passar o pôr-do-sol da minha vida.
 
 
A Colina da Saudade
 
 
"A Colina da Saudade" mostra quanto o amor entre um casal de culturas diferentes é condicionado por preconceitos culturais e limitado pela História.
 
 
Um outro filme que me encantou foi "A Colina da Saudade", título em português do filme "Love is a Many-Splendored Thing", apresentado inicialmente ao público nos Estados Unidos em 1955 e em Luanda cerca de uma década mais tarde. O tema musical deste filme é simplesmente excepcional.
 
O filme é baseado no romance autobiográfico de Han Suyin, uma médica viúva de descendência mista chinesa e belga, personagem no filme desempenhado por Jennifer Jones, que se apaixona por Mark Elliott, um correspondente de guerra americano, desempenhado por William Holden, que estava então estacionado em Hong Kong para a cobrir a Guerra da Coreia, logo depois do fim da vitória comunista na da Revolução Chinesa liderada por Mao-Tsé-Tung.
 
O filme é uma estória de amor proibido num contexto histórico de preconceito e racismo, tendo assim um vector pessoal e outro histórico. Apesar do intenso e profundo amor entre um e outro, a sua união é criticada e rejeitada não só pela família de Han Suyin, mas também pela sociedade chinesa de Hong Kong, e até os seus colegas no hospital, baseado somente em preconceito cultural, ao ponto que ela acaba por ser despedida do hospital em que trabalha como médica especializada em obstetrícia. Han Suyin tinha uma filha adoptiva, Chew-Hui-In (seu nome real Yung Mei), que a todo o custo ela tudo fazia para a proteger do preconceito.
 
Apesar de toda a pressão social e vicissitudes, o amor entreHan Suyin e Mark torna-se ainda mais intenso e profundo, à medida que eles juntos vão enfrentando desafios cada vez maiores. Eles encontravam-se muitas vezes juntos, longe de todos, só os dois, numa das colinas de Hong Kong (a colina da Saudade, que dá o título ao filme em português), onde dão azo à paixão ardente que os une. 
 
Entretanto, um dia Mark é destacado a seguir para a Coreia. Com esta separação cada um está muito mais só, o que é aliviado somente pelas constantes cartas de amor que quase diariamente um escreve ao outro. Pouco tempo mais tarde, Han Suyin recebe a notícia de que Mark foi morto em combate. 
 
Perante esta tragédia, Han Suyin tenta fazer sentido da sua vida. Nesse mesmo dia, ela recebe a última carta que Mark lhe tinha escrito e vai pela última vez à colina da Saudade, desta vez só no mundo, só ela e o seu amor por Mark, para ler a sua última carta. No topo da colina da Saudade, Han Suyin abre o envelope, e começa a ler a carta em que Mark lhe pede para ela ser genuinamente agradecida a tudo e todos, não obstante o que possa vir a acontecer a ele, por que eles tiveram o extraordinário sortilégio de experimentar o melhor há no mundo - o grande amor de um pelo outro, o que a maioria das pessoas nunca consegue.    
 
 
A Nave dos Loucos
 

Simone Signoret e Oskar Werner numa cena do filme "A Nave dos Loucos", 1965, baseado no aclamado livro de Katherine Anne Porter do mesmo título, publicado em 1962.

 
Eu vi outro filme em Luanda que me fez pensar um pouco sobre a natureza humana. O título é "A Nave dos Loucos",  baseado no livro best-seller da escritora americana Katherine Anne Porter (1890-1980) que passou vinte anos a escrevê-lo e finalmente o publicou em livro em 1962 e apareceu como filme a preto e branco em 1965. Eu penso que apesar do enredo magnífico e da qualidade dos actores (Vivian Leigh, Simone Signoret, Lee Marvin, José Ferrer, Oskar Werner, e Elizabeth Ashley) para além de ter sido dirigido pelo realizador Stanley Kramer), o filme recebeu pouco reconhecimento público, pois para mim foi um dos filmes que mais gostei. 
 
O enredo do filme foi baseado nas notas que a autora (Katherine Anne Porter) tirou de  uma viagem de cruzeiro que fez em 1931 do porto de Vera Cruz, no México, à  cidade de Bremerhaven, na Alemanha, em que muitas pessoas muito diferentes viveram um universo um tanto surreal durante os 27 dias da viagem transatlântica. O livro é um estudo em caleidoscópio de personalidade de pessoas muito diferentes e de situações específicas em que as mesmas se encontravam durante os anos de fermentação do nazismo na Alemanha, numa Europa já então em  decadência. 
 
O que eu aprendi do filme é que cada um de nós como pessoa tem os seus sonhos, capacidades, e limitações, e é esta diversidade de vectores que nos fazem essencialmente iguais. Todos nós temos qualidades e defeitos, pois não há grandes figuras na humanidade sem pelo menos um grande defeito, da mesma forma que há não há pessoas fracas sem pelo menos uma grande qualidade. 
 
E assim neste plano somos todos iguais, e como tal temos o direito e o dever de sermos tratados com igualdade. É verdade que condições específicas (condição social, riqueza/pobreza, herança cultural, matriz psicológica, matrix biológica, idade, género, época em que vivemos, etc.) nos podem ajudar a fazerem-nos diferentes e até únicos, mas todas estas qualidades em conjunto são o que nos ajudam a definir o que é pessoa (e humanidade). Assim, aprendi que "branco" e "preto" estão intrinsecamente relacionados e iguais entre si (um ajuda a definir o outro), pois em última análise ambos são apenas tonalidades de cinzento.

 
Numa nota pessoal, afinal, o que tem sido a minha vida senão a mesma tela? Nasci e cresci em Angola; apaixonei-me pela a Princesa do Huambo, de família tipicamente portuguesa e eu de raízes angolanas; deixei Angola tropical e colonial ainda jovem, uma Angola destruída pela guerra; tive de recomeçar a vida no lado oposto do mundo (antípoda) num país distante, frio e moderno como o Canadá; fomos agraciados por um filho que nos quer muito; trabalhei toda a minha vida profissional com Índios que lutavam por firmar a sua identidade única e contra a pobreza num país afluente; tenho uma biblioteca onde posso encontrar resposta para qualquer pergunta. Tenho um futuro livre, mas vivo preso ao passado...
 
Alguns paralelos?
 
 
Eu e a minha Princesa do Huambo, Estela, bem alto nas Montanhas Rochosas Canadianas em 2005



17. Cursos de Vida Apostólica (CVA)
 
Como a maioria das demais famílias em Angola desse tempo, nós éramos católicos não praticantes. Quer o meu pai ou a minha mãe, eles nunca nos obrigaram a ir à missa, confessar, ou mesmo comungar, se bem que todos nós tivémos uma celebração especialpara a nossa primeira comunhão. Embora se possa dizer que em geral nós tivessemos sido educado num ambiente cristão em casa, em que a fé era um pouco subordinada ao humanismo. Ainda na Damba, nós íamos à missa ao domingo porque todo o mundo o fazia. Já em Luanda, nós distanciámo-nos um pouco mais, não indo de regra à missa ao domingo, mas observando em geral os feriados religiosos. 
 
Contudo, na escola nós éramos sujeitos a uma pressão católica maior através das aulas de religião moral e cívica (mais religião do que moral cívica, acrescente-se) e da acção da Mocidade Portuguesa. A isto devo acrescentar que o meu irmão Rui frequentou o Colégio dos Maristas, e as minhas irmãs Ema, Dilar, e Paula frequentaram o Colégio das Irmãs de São José de Cluny. No Liceu Paulo Dias de Novais, eu tive como professor de Religião e Moral o Padre André Muaca, uma pessoa verdadeiramente extraordinária que havia de exercer uma influência positiva na minha formação como pessoa e como cristão.

 
Selo com a figura da Igreja de Jesus em Luanda
 
 
No Sétimo Ano do liceu Salvador Correia eu tive a sorte de ter sido escolhido para participar num retiro de cristandade para jovens (os Cursos de Vida Apostólica - CVA), onde de perto me havia de aperceber mais do papel que a religião e a ideologia tinham na formação e controle da sociedade em que vivíamos.
 
 
Uma procissão católica levada a cabo por militares portugueses, algures no norte de Angola, 1960s

 
Com a guerra de libertação nacional, muitos questionaram o papel da Igreja Católica no seu suporte à causa colonialista, em detrimento dos interesses nacionalistas angolanos. Para mitigar este sentimento, o Papa Paulo VI recebeu no Vaticano em audiência privada, em 1970, os líderes dos movimentos nacionalistas das colónias portuguesas, Agostinho Neto, Amílcar Cabral, e Marcelino dos Santos, o que muito irritou o governo de Marcelo Caetano em Lisboa, e resultou na chamada do embaixador português no Vaticano a Lisboa.
 
Cedo me entreguei a esse ideal nobre, pois, de facto, os CVA foi um bom movimento de juventude que fez uma obra notável em Luanda. Talvez pela minha dedicação ao ideal do humanismo cristão, dentro de pouco tempo fui escolhido para "responsável" (dirigente); dois anos mais tarde fui escolhido para substituir interinamente o meu bom amigo Luís Delgado, que por sua vez tinha sucedido ao carismático Toni Barbosa (falecido há anos no Brasil), no cargo de presidente do movimento. Como tal, tinha encontros frequentes com o corpo de dirigentes leigos e religiosos (Padre Francisco Janeiro e Padre Capelão Jorge), em especial com o (então) Bispo Auxiliar de Luanda D. Eduardo André Muaca, que me ajudou a "abrir mais os olhos" à situação de injustiça social que a população não-branca de Angola tinha que enfrentar no seu dia-a-dia.
 

Dom Eduardo André Muaca, Bispo Auxiliar de Luanda (1924- 2002)


Dom Eduardo André Muaca, de raça negra e de herança étnica Bakongo, nasceu em Tando Zinze, Cabinda, e foi educado na Missão Católica do Lucula, em Cabinda, perto da fronteira com a República Democrática do Congo. A Missão Católica do Lucula foi fundada pelos padres espiritanos Frankoual,  Paulus, e Eugénio Bisch, em 1891. 
 
O Padre André Muaca, primeiro como professor de Religião e Moral no Liceu Paulo Dias de Novais, e mais tarde como bispo auxiliar da Arquidiocese de Luanda, teve uma influência extraordinária na minha formação, e guardo dele as melhores memórias como amigo genuíno. Guardo em especial a memória da cerimónia inesquecível da sua consagração como bispo a 31 de Maio de 1970, na Igreja de São Paulo em Luanda, já que Dom Eduardo André Muaca foi o segundo bispo de raça negra em Angola, desde os tempos do Antigo Reino do Congo, isto é há mais de quatrocentos anos. 
 
 
Armas de Fé de Dom Eduardo André Muaca, Bispo Titular de Ísola e Auxiliar do Arcebispo de Luanda, ordenado na Igreja de São Paulo em Luanda, no dia 31 de Maio de 1970.

 
Nota - O primeiro bispo africano foi o príncipe Dom Henrique, príncipe do Congo, e filho do rei Dom Afonso I, que foi ordenado Bispo de titular de Útica pelo Papa Leão X em 1521, sob recomendação do Rei Dom Manuel I de Portugal. Em reconhecimento por tão alta honra, o seu pai, o rei do Congo Dom Afonso I, atribuiu-lhe a donataria da província de Pango (Mpangu). 


Interior da Igreja do Carmo em Luanda

 
Os CVA ofereceram-me a oportunidade de conviver com um grupo muito mais amplo e diverso de amigos, oriundos de todos os quandrantes sociais de Luanda, e de pensar na melhor maneira de aplicar a minha energia em projectos concretos de relevância social; assim, envolvi-me em projectos de assistência ao Abrigo dos Pequeninos (em cooperação com a Associação das Vicentinas de Luanda (São Vicente de Paulo) na antiga Avenida Lisboa - Aeroporto, agora Avenida da Revolução de Outubro), e do Beiral dos Velhinhos (na Terra Nova), em que pude constatar ao vivo as necessidades reais dos desprotegidos da sorte e esquecidos pela sociedade. 
 
A razão que me levou a trabalhar com crianças muito novas foi um evento muito trágico que ficou para sempre na minha memória, que tinha acontecido poucos anos antes em Luanda, quando 37 crianças que viviam num orfanato no bairro da Terra Nova morreram por intoxicação alimentar, quando por engano foram servidas comida feita com farinha contaminada com insecticida.
 

Prédio do Abrigo dos Pequeninos de São Vicente de Paulo em Luanda
 
 
Ainda no domínio social, recordo o bom convívio que a reunião semanal (ultreias) às Quartas-Feiras, a missa semanal às Terças-Feiras (incialmente na Igreja do Carmo, e mais tarde na Igreja da Sagrada Família), e a missa no Domingo à noitinha na Igreja de Jesus, que nos ofereciam. 


Igreja da Sagrada Família em Luanda, inaugurada em 1964

 
Talvez como mais-valia do trabalho social em que nos empenhámos, ainda nos CVA aprendi a diferença entre fé cristã e humanismo cristão de D. Helder da Câmara, Bispo do Recife, abraçando gradualmente o humanismo cristão já que à medida que mais aprendia e trabalhava no terreno, a minha fé em Deus (e talvez nos homens) se desvanecia gradualmente. Provavelmente influenciado pela realidade social angolana e pelo que lia e aprendia à minha volta, eu comecei a acreditar em que o que era ser bom era ser humano, e o mal provinha do que era ser perverso. 
 
Eu aprendi assim (também gradualmente) que ambos o paraíso e o inferno que a fé em Deus nos oferecia não era senão os tempos gratos e os tempos maus que a vida nos dava cá na Terra, e que tudo terminava quando morríamos, não tendo qualquer relevância o pós-vida, senão as obras e memórias boas e más que haveríamos de deixar para quem cá ficasse.  


Igreja da Sé (Nossa Senhora dos Remédios), na Rua Salvador Correia em Luanda

 
Já que eu considerava os CVA como um movimento de juventude muito bom em Luanda, eu convenci o meu irmão Rui, e amigos Victor Azevedo e Zeca Silva (da Maianga) para tomarem parte num curso e aderir à obra importante que os CVA desempenhava entre a juventude de Luanda.


Interior da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, Sé Catedral de Luanda, 2014.


Eu tenho muito boas memória de muitos amigos (irmãos) dos CVA, incluindo o Toni Barbosa (já falecido), Luis Delgado, Aníbal Russo, Tommy Morais (também já falecido), Victor MeloJoão Marinho (Zinho), Fernando Figueiredo, irmãos Rui e Chico Travassos, Eva Bizarro (Mitinha), Abilio e Fati Nunes, Chino, Adriano Baptista, manos Zé e Luisa Guilherme (também já falecidos), Fernanda Dias, Paula Serra Coelho (também já falecida), irmãos Lacerda (Teresa e Fernanda, e Luis, falecido ainda em Luanda), Dita, Célia Brito (Lilla), Carlos e Mizé Abreu, Hilário Oliveira, Seara de Morais, Cecilia Alves (Cila), Carlos Godinho, António Bastos, manas Tita e Fernanda Ramos, José Ataíde, Padre Janeiro, Padre Jorge, e muitos outros.
 

Participantes no Sétimo CVA masculino, Luanda, 1969 (Eu estou na fila de baixo, de cócoras, segundo à esquerda)

 
Um dos amigos mais chegados que tive nos CVA foi o António (Tó) Guerra, que residiu antes de 1961 na vila do Quitexe (no Uíge) e que também foi vítima dos ataques da UPA. O Tó Guerra gostava muito de aviões e de tudo quanto era voar. Ele tirou o brevet no Aero Clube de Luanda. Com ele tive a oportunidade de visitar Porto Amboím (antiga Benguela-a-Velha) e Novo Redondo (hoje Sumbe). Fomos noutra viagem até Cabinda com a intenção de comparmos aparelhagens de som (que eram duty-free em Cabinda) ao longo da costa norte de Angola, passando pela Barra do Dande, Caxito, Ambriz, Ambrizete (Nzeto), Santo António do Zaire (Soyo), Boma, e a baía de Cabinda. Lembro-me que na viagem de regresso carregámos peso demais na avioneta, o que nos fez a ter que deixar metade das imbambas (coisas) em Ambrizete e ter que voar lá de volta no dia seguinte para trazer o resto. 
 
Ainda em Luanda, o Tó Guerra casou com a Fernanda, que também era membra dos CVA. Depois de deixarem Angola, eles viveram muitos anos em Coimbra. Fui também amigo chegado da Tita (Fátima Ramos), que era irmã da Fernanda. Lamentavelmente, o Tó Guerra veio a falecer prematuramente em Coimbra há já alguns anos.


Ermida da Nazaré em Luanda, aguarela da pintora Zélia Reis Ferreira

 
Além de revitalizar um pouco a minha ténue fé, nos CVA eu fiz grandes amizades que se mantêm até hoje, aprendi  muito sobre a operação da igreja católica e seus escritos (em especial sobre o Novo Testamento e o Concílio Vaticano II), e aprendi também o dilema da Igreja Católica em Angola durante todo o período colonial desde a escravatura até à guerra de libertação nacional em tentar reconciliar a violência colonial com o ideal de uma vida digna para os povos africanos por quem tanto se pugnava.
 
Eu levei muito a sério a dúvida crescente que tinha sobre a minha fé em Deus (ou falta dela, para melhor dizer). Por isso, estudei atentamente as conclusões do Concílio Ecuménico Vaticano II, bem como as encíclicas papais ""Rerum Novarum", do Papa Leão XIII, "Quadragesimo Anno", do Papa Pio XII, "Mater et Magistra" e "Pacem in Terris", do Papa João XXIII, e "Eclesiam Suam", do Papa Paulo VI, bem como as mais recentes cartas e exortações pastorais emitidas pela Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST). Contudo, quanto mais indagava e lia, mais eu via a Igreja como uma instituição mais humana e menos divina...
 
Depois de várias conversas muito francas com Dom Eduardo André Muaca, eu fiquei ao corrente do que a Igreja em Angola estar a tentar fazer em Angola, ao mesmo tempo que tomei consciência da minha fraca fé. 
 
Decidi então, com grande dificuldade pelas grandes amizades que tinha e ainda com certa incerteza quanto à fé (ou falta dela), ser coeirente com o que acreditava e deixar os CVA, e abraçar o novo mundo que então na Universidade de Luanda se abria para mim. Contudo, apesar deste afastamento gradual da fé cristã, guardo dos CVA e dos amigos que lá encontrei as melhores recordações. 
 
Depois de mais de cinquenta anos passados é particularmente confortante saber que o pessoal dos CVA continua ainda muito unido e tem um ou dois encontros anuais em Portugal, graças à iniciativa dos nossos amigos Aníbal Russo, Cila Alves, Tita Ramos, Mitinha Bizarro,  e de outros que teimam em lembrar-mos que a verdadeira amizade entre os homens existe muito para além do tempo e da fé em Deus.



1 Comments:

Blogger Lena Victória Pereira said...

HELDER
Parabéns pelo teu blogue. Ainda não tinha lido este capítulo.
Para além da beleza das tuas descrições e do carinho pelas pessoas que conheceste e queres lembrar, tens um registo precioso da Luanda dos anos ´60 e ´70.
Reparei que retiveste o nome antigo e mais actual de cada rua (algumas já mudaram de nome duas vezes) o que é uma informação difícil de encontrar agora.
Felicidades para ti e para a tua família. Eu e a minha continuamos em Angola.
Não pares de escrever.
Um abraço.
Lena Victória Pereira

6:26 da manhã  

Enviar um comentário

<< Home